As luzes da vinte e três de maio brilham na minha frente e o céu nublado hoje faz uma noite tão linda, você não acha?
Faz mais de mês que não ouço nada de você mas continuo esperando pacientemente.
Espero, sim, pois não há como não esperar de um jeito ou de outro, não quando são vinte e dois sinônimos de esperar para quatro sentidos da palavra esperar. A língua portuguesa é escorregadia demais.
E será sempre assim, não? Longas esperas, esperar sem esperar verdadeiramente. E não esperar por você, querido, não seja arrogante. Não podemos ter pressa mais nos dias de hoje. A rotina se arrasta diante de mim como um ferido de guerra se rasteja na terra batida esperando alguém, esperando que o sangue não sangre demais, que os pulmões não respirem demais, que a morte não venha rápida demais. E não há nenhuma pressa nisso, há?
[i like to see you,
but then again
that doesn’t mean you mean that much to me]
O tempo se arrasta até a total obliteração das nossas consciências, até que nossos corpos não nos pertençam mais em nossa mórbida inexistência, até que inexplicavelmente tudo acabe como um clarão, como uma escuridão completa e sem estrelas.
E aí não haverá espera. Ai estaremos livres. Nenhuma palavra, nenhum som, nada.
Enquanto isso, caminharemos. O tempo se arrasta, mas nós não.
O céu monstruoso e negro as quatro da tarde é apenas um fenômeno meteorológico e por isso respiramos aliviados quase sem nenhuma culpa pelo conforto as custas de mais uma tragédia. Bocas vermelhas, sorrisos brancos, cabeças erguidas.
Nada mais dói aqui.
É tarde demais, tarde demais.
[so if i call you,
don’t make a fuss
don’t tell your friends about the two of us]
Não sinto mais nada porque hoje estou anestesiada com a calmaria das minhas incontáveis esperas. Você está aqui na minha mente como uma melodia estática e intrusa, uma dessas que não podemos saber de onde vem.
Mas nada disso é ensurdecedor.
Meus olhos são atingidos pelas luzes dos carros e dos faróis, minha boca beija com ternura lábios macios e grossos e meu corpo repousa em meu leito abaixo da andorinha de porcelana.
[i keep your picture
up on the wall
it hides a nasty stain that’s lying there
so don’t you ask me
to give it back
i know you know it doesn’t mean that much to me]
As andorinhas migram todo outono fugindo do frio por milhares de quilómetros e nunca esperam porque não há nada para elas nesses dias álgidos.
Contudo,
diferente delas,
eu espero com paciência a passagem do inverno saboreando cada segundo lânguido das noites longas e dos dias curtos, entregando-me a cada instante das inesgotáveis esperas só pelo prazer da frigidez dessa estação porque você sabe, querido, como eu amo o inverno.