hide and seek

São Paulo, 22 de outubro de 2019, 21h29

C,

Antes de mais nada, obrigada pelos desejos de aniversário. Espero que com o tempo possamos parar de nos esconder entre escombros e sombras e sejamos capazes de nos desvencilhar desses nossos enigmas e pistas falsas. 

As cartas nos permitem muitas coisas e na maior parte do tempo me sinto grata por você ter respondido aquela minha primeira correspondência.

Contudo, sinto falta de te olhar nos olhos, de ser visceralmente sincera, de ter seus gestos e olhares para apoiar minhas conclusões. Confesso que é muito mais confortável para mim me esconder nessas páginas e nesses versos porque detesto a vulnerabilidade vinda do contato face a face. É muito confortável me convencer de que preciso me manter apática, imparcial (e especialmente confusa) nas minhas cartas, como se elas e os escapes de sentimentalismo nos demais poemas ou contos de alguma forma me protegesse de mim mesma. Te protegesse de mim mesma.

Como você deve saber, a confiança que se pode criar a partir de gestos e olhares é muito mais concreta. Frente a frente tudo é mais compreensível, humano, real.

De qualquer modo, por ora, o que temos são as cartas.

Por ora, é isso que eu posso te oferecer.

É isso que posso me oferecer.

Então que nelas fiquemos.

Gostei de saber da sua intenção primária em me escrever na ocasião do meu aniversário. Apesar do seu tom incerto e reticente característico, tudo isso me fez lembrar que, mesmo depois de tudo, eu sinto sua falta. Me fez lembrar o quanto te considerei alguém especial para mim, o quanto algo inominável aqui dentro ainda acha que vale a pena te manter por aqui. Mesmo enquanto nos alternamos nesse jogo de quem se posiciona menos, de quem se protege mais.

Preciso assumir que não faço ideia do espaço vazio que ficou aqui dentro, porque todos os dias parece que tropeço em mais um cômodo desabitado desconhecido. Preciso assumir que eu quero (e talvez precise) confiar em você. Eu sei que talvez a vida não tenha sido tão gentil com a gente, mas penso que você também gostaria de confiar em si próprio e, por consequência, gostaria que eu confiasse em você. Se for assim, sei que isso toma tempo, mas não tenho pressa. 

Não quero me alongar muito, já que minha intenção com esse bilhete era apenas te agradecer enquanto aguardo sua próxima carta “não paralela” porque confesso que não entendi bem “de quem era a vez” depois dessas nossas datas comemorativas.

Enfim,

Te espero.

Com carinho,

– B.

 

um poema é um poema e uma carta é uma carta

eles gostam de dizer: não se apaixone por poetas
eu sempre me perguntei se era porque inevitavelmente todos seriam canalhas

ninguém diz: não se aproxime das poetisas
mas talvez devessem
porque eu sempre me perguntei se inevitavelmente todas seriam depressivas e filhas da puta

não entendo minhas músicas
nunca ouvi leonard cohen
não sei o que querem dizer tuas estrofes
e muito menos sei o que quero com as minhas

talvez seja prudente estar longe dos poetas e poetisas pois não sabem o que dizem, não sabem o que escrevem. mas já não podemos escapar de nós mesmos, podemos?

é uma pena que você não consiga sentir muita coisa.
é uma lástima até,
porque eu sinto muito tudo.

muito
e tudo.

mas ultimamente me parece que sentir tudo é como não sentir nada.

e afinal, quantas informações devem ser trocadas do teu desviar de olhares?
(não, eu não te desculpo)

quantas informações devem ser tiradas de uma mulher amarga sozinha na porta?
(não, eu não me desculpo)

quantas informações devem ser tiradas de poemas escusos escritos na calada da noite?
(não, ele provavelmente não me desculparia)

amarelo é a única coisa que surge na minha mente para responder tudo isso, mas talvez seja arrogância demais reduzir tudo a uma cor enjoada como essa

eu também esperava que você se tornasse insignificante até desaparecer.
mas você continua por aqui, por ai, nos meus pesadelos, me fazendo acordar às cinco da manhã na minha folga para escrever um poema “on demand”

já não podemos dizer que essas páginas urgentes e cheias só se provam ser o contrário de insignificantes?

também não quero que sejas nenhuma das opções reservadas para ti nos teus próprios versos e espero que você entenda que nunca será pra mim o que você ou outro alguém definiu que seja.
acredite, eu já tentei.

essas páginas não têm nada de insignificante
pelo menos não para mim.
mas querido, independente do que elas sejam para você
nada nunca, nunca, será fácil fora delas.

te agradeço por não ter saído para um cigarro quando me viu na porta. uma mulher aos prantos entrando no carro de um desconhecido não é jeito de dizer adeus
de qualquer modo, feliz ou infelizmente, eu ainda estou longe de qualquer adeus.

e você,
você ainda está ai?

[ah, e antes que eu me esqueça:
meu amor, eu hoje sou tão velha quanto você].

funny funny funny little girl — carta número quatro

São Paulo, 22 de julho de 2019

[trigger warning: longo para cacete]
Querido Carlos,

Re-escrevi essa resposta (partindo do pressuposto de que há algum tipo de “conversa” surgindo a partir das correspondências) um milhão de vezes. Minha demora em responder, fugindo do padrão de resposta rápida anterior, se deve ao fato de que essas últimas semanas vem sendo muito cheias, pesadas, corridas e simplesmente não houve tempo, não houve condição para que eu te respondesse antes. Digo isso porque, mesmo assim, talvez eu ainda não esteja satisfeita com as palavras que coloco aqui.

Acho que posso, sob pretensão de não me alongar muito, fazer algumas observações antes de ir ao conteúdo principal da carta, se é que ela terá algum.

Primeiro que talvez seja importante estabelecer que não são necessárias desculpas pela demora em qualquer resposta. Essa talvez seja a ideia das cartas. Claro que não estamos usando o método convencional, com papéis, selos, carteiros, enfim, mas cartas demoram a chegar, demoram a ser lidas, demoram a ser respondidas. Não imaginei que sua demora tenha sido por vaidade ou covardia, mesmo porque nem ao menos pressupus com certeza que houvesse resposta e desta forma, também, talvez seja importante dizer que no momento não me interesso em absoluto por qualquer tipo de jogo mesmo porque eu mesma sou uma exímia piscadora. No mais, espero que estejamos livres de vaidades entre nós.

Sobre o morto, o nome dele era Rogério. Sobre suas palavras, eu sinto falta de todas, mesmo as que você considera desgastadas. Sobre a morte, nunca fui muito de espiritualidade. Às vezes sinto falta sincera de ter uma cabeça um pouco mais aberta nesse sentido, mas confesso que, se pensarmos em fé no sentido de confiança absoluta em algo ou alguém, venho tendo, com uma certa frequência, uma sensação de confiança absoluta em algum tipo de coincidência ou jogo cósmico quando se trata de alguns assuntos específicos, dentre eles, as mortes que presencio no meu dia a dia.

A pessoa analítica dentro de mim fica procurando algum tipo de explicação batida que justifique essas sensações: mecanismos de coping inadequados, “sintomas” de algumas neuroses, enfim, algo disfuncional que invalide a sensação física e é por isso mesmo que decidi usar a palavra fé no sentido de confiança absoluta mesmo.

E sobre esse assunto já não me resta muito o que dizer, já que as tarefas diárias corroeram a percepção dessa morte há alguns dias. Há algumas outras considerações, no entanto, que fui fazendo ao longo desse período que ruminei minha carta, as quais não foram totalmente descartadas nessa minha tentativa número sei lá qual de te escrever alguma coisa coerente, então que seja.

É horrível demais a parte em que se coloca o lençol em cima do corpo. É, sem dúvida, a parte que eu mais detesto. A ideia talvez, de um parente assistir a colocação do lençol, depois das devidas despedidas ao cadáver, é de aceitar a partida. Ver a palidez e o livedo no corpo e entender que aquela pessoa não existe mais. Não aqui, não conosco.

E sabe, dentro de mim há até um certo desconforto em me imaginar morta, com meu corpo maquiado de maneira póstuma, enfiado num caixão toscamente caro, em um velório desgraçado, sem comida, sem bebida, seguido daquele procedimento tragicamente cômico de quebrar concreto dentro das lápides para que, após o devido posicionamento do caixão, se passe novamente o concreto, fechando meu corpo oco e de certa forma, profanado pelas pessoas que ficaram.

Não é a ideia da morte em si, veja bem. Não me incomoda saber que ela virá e será como terá que ser. O que me aborrece é essa coisa toda de lençóis, cadáveres, concreto e partidas inesperadamente derradeiras.

Seguindo por esse raciocínio, que pode ser absolutamente incorreto, acredito ser por isso mesmo que me incomoda tanto essa sua ausência não-ausente, assim como a sua tentativa incompleta de dar fim aos seus textos. Você não está morto. Seguir com esse ritual frio como vínhamos fazendo faz cada vez menos sentido na minha cabeça.

Você está ai. Eu vivo na casa em que você viveu, sou amiga do seu melhor amigo. Ouço histórias sobre você. Não posso fingir que você não existe, porque fatalmente você existe. É exatamente como cobrir com terra e dizer que Portugal mudou-se.

Às vezes eu acho que o que é correto, o que me parece recomendado pela American Heart Association, o que me soa como a técnica principal empregada pelos melhores e maiores profissionais da área abre aspas como entender suas neuroses e merda de personalidade e fazer de uma vez por todas algo a respeito fecha aspas seria, na verdade, seguir com essa idiotice de fingir que nada aconteceu e que você existe sem existir. Assim, toda vez que o Caetano faz uma piada com o fato de você ter largado peças de figurino por aqui ou quando eu encontro mais um pacote de farinha de mandioca socada no fundo do meu armário eu deveria apenas agir como se aquilo não passasse de um delírio coletivo dos habitantes do 173.

Desde que você saiu do apartamento, tive que arrumar outra terapeuta por motivos financeiros. As histórias todas tiveram que ser repetidas e portanto foram contadas e recontadas e analisadas sob um milhão de perspectivas, entuchadas de argumentos psicanalíticos (por vezes de qualidade duvidosa, na minha opinião), mais por desejo da terapeuta do que meu, tendo como efeito final a sensação de que todo o assunto ficou quase completamente esgotado. Estava feito, ou pelo menos feito estava, de maneira prática, porque tudo continua dentro de mim e tende a transbordar nos momentos que estou sensível com acontecimentos quase exclusivamente sem relação direta com a sua existência. Contudo, mesmo que mal, estava feito.

Até você responder minha primeira carta.

A partir daí, não chegamos a porra de conclusão nenhuma sobre nada. Sentimentos, desejos, vontades, intenções, nada. Tudo está decididamente indeterminado. Confesso que ela é péssima em me convencer dos questionamentos que ela propõe assim como eu sou péssima em me convencer dos questionamentos que eu mesma me proponho, porque eu sou tão prolixa e verborrágica que me perco dentro das infinitas possibilidades e imensuráveis questionamentos dentro de mim mesma e termino tão escorregadia quanto você nas suas imagens semi-dantescas.

Sem falar que ela tem uma mania de me fazer questionamentos que acho forçosos, sem sentido, talvez psicanalíticos demais, talvez puros demais para que eu consiga quebrar minha própria barreira e deixá-la entrar. Em sua defesa, de fato, cheguei em uma conclusão sobre mim.

Eu frequentemente me pego testando limites. Até onde eu aguento, até que ponto eu posso me fantasiar como uma cobra faminta sem correr o risco de ser capturada, até que ponto eu posso brincar com todos os meus contextos inflamados dada a minha propensão a incêndios. Até onde eu banco essas coisas todas, essas histórias todas, essas encruzilhadas, essas partidas e retornos ou não-retornos.

E agora me pergunto também até onde você banca todas essas apostas que você está fazendo, todos esses riscos que você está correndo, sejam lá quais forem eles, supondo com arrogância que eles existam. E levando mais adiante esse fluxo de pensamento desconcertante fico me perguntando o que estamos fazendo aqui, me questionando por que você respondeu minha primeira carta, o que você estava fazendo andando por essa vizinhança, por que meu primeiro reflexo foi te responder, por que eu continuo respondendo mesmo sem estar em paz com nada dentro das minhas auto-reflexões. O que estamos fazendo, enfim?

Mas veja, eu não quero de maneira alguma que você me responda nenhuma dessas perguntas. Se você sentir necessidade, obviamente que não irei te impedir, mas não é com esse propósito que as disponho aqui. Não sei bem o que virou essa carta depois de tantas lidas, re-lidas, re-escritas, re-visões, mas saí de um rascunho inicial afogado em sentimentos confusos, voláteis, não confiáveis e paradoxais e assim como está agora, ao menos, discorro aqui sobre questionamentos existenciais, sobre auto-reflexão, até como uma lição de casa da terapia além de um exercício literário e de uma carta.

Por fim, confesso que me senti obrigada expor tudo isso aqui porque eu não faço uma puta ideia de que merda toda é isso aqui, Carlos. Nada além da obvia definição objetiva de que é uma carta é uma carta é uma carta. Afinal, cartas, poemas, lixo cibernético, álcool, zolpidem, listas de coletivo feminista… Que porra é tudo isso no fim das contas?

Espero que você não tenha se desesperado até agora e fugido o mais rápido possível da frente do computador e da pessoa confusa, indecisa e sem rumo que me tornei ou da sua interpretação posterior da imagem de mim mesma que criei dentro desse texto. Eu sei que minha verborragia e meus pensamentos a cento e noventa quilômetros por hora são por vezes esmagadores ou opressores, mas esta talvez seja o cerne da minha falta de caráter, como o cerne da sua pode ser sua incapacidade de dizer o que precisa ser dito.

Mas a intenção não é assustar, não é pressionar, não é obter nenhum tipo de resposta, ou ao menos, não mais. Não depois de diversas-não respostas suas, da medicina, da vida. Talvez você possa ver com graça essa característica, como gostam de fazer meus amigos apreciadores da minha personalidade fodida.

A coisa fica mais complicada a partir desse ponto, então talvez essa seja uma boa hora para você fazer uma pausa. Tomar um café, ir trabalhar, fumar um cigarro, acariciar o gato, entrar debaixo das cobertas da sua cama que provavelmente está aquecida pelo corpo adormecido da pessoa que divide esse espaço com você todos os dias. Se precisar, volte mais tarde.

Digo que fica mais complicado porque é a partir daqui que tento destrinchar de maneira lógica o que eu acho que sinto com tudo isso, sendo esse, por hora, o trabalho mais difícil que venho desempenhando em todas as áreas da minha vida.

Sei que sinto sua falta, imensamente. Mas não gostaria que você estivesse aqui.

Sei que me perguntei esses dias todos depois da sua primeira carta, se você também sente falta de mim.

Sei que há uma raiva cínica misturada com um tanto de humor, de pertinência no mínimo questionável, aprisionada no fundo das minhas vísceras, por você ter saltado do nosso carro, sem aviso, na próxima esquina. Mas bem sei também que essa raiva não deveria haver de ser.

Sei que esse último sentimento não é suficiente para que eu prossiga com a minha (nossa?) performance de esconde-esconde, apesar de me considerar amplamente qualificada para essa função, especialmente considerando minha capacidade infalível de não me comunicar com você, muito menos de maneiras inapropriadas em madrugadas aleatórias.

E essa última coisa aqui, eu não sei como quem sabe que o sol vai se por novamente no fim do dia. É mais como uma sensação que conversa com o que eu disse mais pra cima, mas com uma intensidade menor. Sensação essa incoercível, quase primitiva ou visceral, como preferir, de eu não terminei por aqui. E você, Carlos, terminou?

Essa sensação é acompanhada de uma vontade frágil, tímida, de começar de novo com você. Outra chance, do zero. Mas sem os mesmos erros dessa vez, pelo amor de deus. Sem a inocência tola (ou malícia irresponsável) de supor que não há sentimento onde claramente há sentimento. Sem decisões precipitadas, mal ou não plenamente planejadas. Mais importante ainda, sem as mentiras, sem as traições, sem a luxúria desmiolada, sem toques desnecessários, sem afagos perigosos. Sem jogos. Sem serpentes, feitiços ou cortinas de fumaça. Enfim, parece-me que há tempo demais restando em nossas vidas para que essas nossas ausências não ausentes permaneçam cutucando nossos pensamentos, supondo novamente com arrogância, que os seus pensamentos são cutucados de uma forma ou outra.

É, como eu disse, frágil, tímida, volátil e não é algo para agora. É algo a ser feito no tempo que deve ser feito, isso se for feito, talvez em meses, talvez em anos, talvez nunca. Não é uma expectativa, não é uma condição sine qua non. Muito pelo contrário, pode ser até que torne-se não querido no fim do que tiver que ter fim.

Por hora, talvez o que eu banque e deseje com menos fragilidade é que sejamos correspondentes. Dessa forma assim, simples, como está. Eu te mando cartas e você me manda cartas e vice versa. Cartas atravessadas pelo tempo que demoraríamos ou demoraremos para lê-las, pensar sobre elas, respondê-las. Quase como que um acordo de damas ou cavalheiros, mas não um contrato, uma sugestão, que pelo seu até logo, não me parece tão absurda. Mas isso só posso supor e bem, veremos.

Estamos próximos do fim dessa carta obscenamente longa e, aproveitando o ensejo e a oportunidade de fazer uma gracinha, te pergunto novamente: de quem eram as malditas coxas, Carlos?

Finalmente, deixo aqui registrado o que eu não banco. Não banco que você desapareça novamente sem aviso. Não banco a falta de dignidade em te ver partindo de qualquer relação comigo exclusivamente seguindo suas próprias regras e seus silêncios violentos. Se for para ser assim, prefiro que nem seja.

Eu preciso, Carlos, da oportunidade de chorar os meus mortos, quando houverem, à minha própria maneira. E de arremate, digo-lhe especialmente que não banco continuar fingindo sua morte dessa que vínhamos fazendo, pois como você bem sabe, mortos não escrevem cartas.

Até breve,

Berenice.

Carta número dois

São Paulo, 20 de junho de 2019

Carlos,

      A vida é um negócio esquizofrênico as vezes, não é? Essa noite eu resolvi escrever um conto bobo que me surgiu na cabeça e por isso precisei roubar alguma de suas palavras, como de costume. Normalmente o mote da minha escrita é você e peço desculpas por isso, mas ao mesmo faço isso por três motivos. Primeiro porque você inevitavelmente foi quem me fez voltar a escrever, segundo porque me sinto um tanto quanto vingada quando te roubo algo tão simplório como as palavras da sua literatura e terceiro porque eu realmente gosto do que você escreve. Eu sei que você não gosta, e as vezes eu acho que isso faz parte da sua persona, ou pelo menos da sua persona pra mim. Mas é bom. Eu gosto. Sinto falta dos seus textos barrocos.

      A questão é que eu sabia que seu antigo blog não existia mais porque, por gostar do que você escreve, apesar de tudo, eu tentava acompanhar alguma coisa e eventualmente ele sumiu, como você. Mas hoje eu estava especialmente determinada a escrever meu conto e eu procurei o nome de um dos seus textos (mantenho guardado comigo pra saber que tudo que aconteceu não foi simplesmente um delírio) e encontrei seu blog com um novo endereço. Se me permite, te pergunto (mesmo esperando nenhuma resposta) por que dessa mudança?

      E imagina meu espanto quando encontrei sua resposta a minha carta, querido. Atordoada, tive que re-ler a minha carta, porque já não lembrava mais do que havia escrito. Meus hipnóticos psiquiátricos são eficientes em apagar as memórias enquanto dura sua meia vida. Ri com a tosquice do que disse e fui ler sua resposta.

      Resolvi responder porque talvez eu queira dizer algumas coisas já que esse canal de comunicação me pareceu aberto de alguma forma. Eu nem imaginava que você ainda me lia, que eu ainda existia dentro da sua cabeça. Não se preocupe, não vou gastar essa oportunidade com sentimentos infantis, com questões que nunca serão respondidas. Talvez quem está te escrevendo essa carta já não seja mais a pessoa que você conheceu.

      Como um todo, talvez essa carta seja um grande pedido de desculpas. Isso não mudou. Eu ainda sou a pessoa que perdoa demais, que pede desculpas demais. E é estranho te pedir desculpas porque as vezes me parece que você me machucou mais do que eu te machuquei. Mas peço mesmo assim, porque, racionalmente, eu sei que isso não é bem verdade. Ninguém magoou a outra pessoa a mais ou a menos. Nós atravessamos violentamente um ao outro, arrastando tudo no caminho, causando mácula. Mas isso é apenas a vida, ou pelo menos como eu penso que a vida deveria ser. As pessoas nos atravessam, como você diz (e eu concordo), da mesma maneira que o tempo faz. Não deveria haver culpa, ou pelo menos, não completamente.

      Depois de muitas sessões de análise eu e minha terapeuta chegamos em uma conclusão de que há um embate entre a minha interpretação pessoal do que ocorreu entre nós e o que o mundo externo pensa que aconteceu entre nós. Eu acreditei, por muito tempo, baseado na minha experiência, na minha intuição e na minha interpretação dos suas palavras, seus atos mas especialmente seus gestos e postura corporal, que éramos cúmplices.

      Resolvemos, talvez inconsequentemente, assaltar um banco. Pecaríamos juntos, e pecamos. Você dirigiria o carro para a fuga, assim como dirigiu o carro na ida. Mas quando eu saí do banco, com as sacolas cheias de dinheiro, você já não estava mais lá me esperando no carro. Portanto, você foi meu cúmplice e eu a sua. Talvez você não tenha sido o melhor cúmplice porque no fim você desapareceu. É coisa que mais me dói, mas é a vida.

      Mas o mundo externo insiste em me colocar numa posição de vítima, como se você apenas tivesse me usado, como se eu tivesse sido só mais uma das mulheres que você coloca de maneira leviana na sua vida. Diversos fatos fofocados comigo me fizeram começar a duvidar na nossa imagem de cúmplices. E agora, agora que eu finalmente te entendo, entendo também que essa imagem de vítima não é certa. Principalmente porque ela faz eu duvidar de mim mesma, das minhas percepções e da minha leitura do universo e isso é o primeiro passo em direção a loucura. E sua resposta, suas palavras, mesmo que atrasadas, me aquecem por dentro e me fazem acreditar no que eu acreditava antes. Me faz acreditar que houve algo e que eu fui importante pra você, que você me sentiu de alguma forma, não que isso importe agora de fato, na vida prática, ou mude qualquer coisa agora, mas importa pra que eu não enlouqueça. Existiu, não existe mais e tudo bem.

      Eu quero te pedir desculpas por todas as vezes que te descrevi como meu algoz. Que disse coisas infálaveis como que você é um canalha ou aleijado afetivamente. Não que isso seja mentira. Você é um canalha e é aleijado afetivamente, mas isso não é coisa que se fale, não é? Mesmo porque, eu também tenho meu lado canalha. Aleijada afetivamente ainda não sou e pretendo não ser, mas não é um defeito em si e mais uma consequência da vida e dos atravessamentos que vivemos. Então, com honestidade, me desculpe por ser maldosa e cruel com a persona que criei de você.

      Todas as pessoas na verdade não são elas mesmas, são as nossas interpretações e projeções sobre elas. Todos somos personas ou personagens para quem nos atravessa. Tudo que eu sei sobre você é uma personalidade com a qual tiro conclusões, baseadas apenas na minha experiência porque já há tempos que vejo tudo que tangue você como desconfiança, como você me pediu. Você é escorregadio e difícil e por vezes incompreensível, ou essa é a imagem que criei de você, mas espero que você tenha entendido a partir desse parágrafo que pouco importa quem somos de verdade para os outros.

      Você não deve pedir desculpas por nada anterior a nossa despedida esquizofrênica. E, tendo você pedido desculpas pelos seus silêncios, fico agradecida. Imensamente. Mas queria dizer que os entendo, querido. Entendo porque foi esse silêncio que me permitiu existir depois da nossa catástrofe.

      Sabe Carlos, eu amo você. Eu nunca disse isso com essas palavras e não acho que tenha sido preciso porque isso não mudará nem mudaria nada. Mas eu te amo, ou amo a criatura-você que eu criei na minha cabeça. Eu achava que isso nunca ia acabar, que isso nunca ia desaparecer. E de fato, nunca irá. Eu te amo e não consigo parar. Entretanto, os seus silêncios me fizeram passar por isso. Fico feliz em te dizer que eu choro. Agora que te entendo, choro. Choro com a performance correta de chorar. E eu amo, não só você, mas outras pessoas. E amo de maneiras diferentes e por conta dos seus silêncios eu fui capaz de me entregar para alguém tão intimamente como me entreguei pra você. É assustador porque eu tenho medo, muito medo, do que me reserva.

      Quanto mais eu subo mais dolorida será a queda mas os seus silêncios me permitem ser otimista. Me permitem entender, como eu li em um dos seus poemas, que perder-se agora é perder tudo que está adiante. Então, obrigada por eles. E obrigada pelas desculpas, porque o silêncio dói demais, mesmo sendo imprescindível.

      Te entendo, querido. Mesmo assim, você continua sendo a pior (e a melhor) coisa que me aconteceu. Mas eu choro, escrevo, amo e não existe uma troca macabra. Existe uma chaga macabra talvez, porque eu acho que nunca vou esquecer você e nunca vou deixar de te amar. Mas isso faz parte da vida. Eu penso, de maneira hedonista e perigosa, que vale a pena se destruir por algo que você quer muito se você sabe que você pode voltar. E eu posso. Eu voltei.

      Queria te agradecer pela parte que você me diz que as vezes ouve uma música que faz você se lembrar de mim e esmurra o volante. Me pergunto quais seriam elas, mas não sei se isso tem resposta. Peço desculpas porque nesse embate vítima x cúmplice muitas vezes meu lado irracional e doente me convenceu que não havia nenhum sentimento seu comigo. Que era unilateral. Mas não pode ser, não é? Não faz sentido. E peço desculpas por ter te desumanizado, te tornado um monstro. Me desculpe pelas minhas palavras ácidas, duras e cortantes nos meus textos. Eu verdadeiramente não sabia que você os leria um dia.

      Diferente de você, meus textos não são véus sobre o que eu realmente quero dizer. É aquele sentimento tempestuoso do momento que sai da minha boca ou dos meus dedos, sentimentos que as vezes desaparecem segundos depois. Gosto de tentar torná-los literatura porque assim eu vou estar transformando algo impalpável em algo que existe aqui, concretamente, no mundo real. E eu prometo, que se um dia tudo isso de alguma forma virar um livro, te darei os devidos créditos e os devidos pseudônimos, se assim você desejar. Me desculpe, mas essa carta vai acabar não sendo só uma carta, mas um artifício literário, um exercício, por assim dizer, porque eu me viciei em escrever coisas e começo a gostar da ideia de que eu posso escrever. Me desculpe pela arrogância desse pensamento, mas me permito de vez em quando uma arrogância saudável, pra me ajudar a lidar com tudo.

      Eu sinto sua falta. Não como amante, mas como cúmplice de algo só nosso. Sinto falta das nossas conversas, dos seus textos. Mas entendo, compreendo, que é necessário o tempo e o silêncio para que algumas coisas se resolvam, se dissipem.

      Não sei bem como terminar essa carta. Eu acho que assim que eu terminar de escrever vou me arrepender de todas as palavras. É estranho não estar no silêncio falando com um interlocutor inexistente. Tenho a impressão de que tudo que eu escrevi será tosco, bobo, uma grande merda.

      Não sei bem como usar essa oportunidade que você me deu. De ser ouvida, de te ouvir. É engraçado que a maior parte das coisas que eu quero dizer sejam desculpas, você não acha? Talvez eu termine dizendo que continuarei escrevendo sobre você ou sobre o personagem que criei de você, mas gostaria que você não levasse para o pessoal. Não é você, não sou eu, não é verdadeiramente ninguém. As vezes, são sentimentos reais, mas eles são efêmeros demais, apesar de cíclicos por vezes. Nem tudo que eu escrevo é autobiográfico, apesar de tudo ser autobiográfico.

      Enfim, também queria te pedir desculpas pelas mensagens que te mandei, caso você as tenha visto. Às vezes eu me aproximo demais da melancolia e da reminiscência quando eu tenho meu estado mental alterado, então me perdoe por todos esses despropósitos. Me desculpe por todas as vezes que te forcei a falar, que te forcei a preencher os meus vazios.

      Eu gostaria que você me respondesse, sabe? Não me magoaria se isso não acontecer porque respeito seus silêncios. Mas seria agradável. Faria com que eu me sentisse civilizada. Não sou ninguém para te pedir qualquer coisa então não farei disso um pedido. Mas sinto que esse canal de comunicação é seguro, está longe do pecado da imprudência, mas não sei. Não importa no fim o que vai acontecer a partir disso. Nada importa no fim, além do que virá realmente, seja sobre eu e você (o que dificilmente será, pois o tempo já nos corroeu o suficiente para não ser), seja sobre qualquer coisa.

      No fundo, tentando atropelar todo meu rancor, mágoa e afetos negativos, eu espero que você esteja feliz. Eu espero que você volte a escrever um dia. Eu espero que não haja maldição.

Não é o arrebatamento e não estamos no apocalipse.

Com carinho,

Berenice.

PS: antes que eu me esqueça: de quem eram as coxas?