Exercício de arremate do teu exercício de arremate

São Paulo, 22 de julho de 2019

o chão duro esmurra meus pés descalços enquanto corro pela rua molhada e áspera. o ar entra e sai dos meus pulmões como saem de um asmático no leito de morte, rasgando meus alvéolos e emitindo um chiado característico e derradeiro. o ruído sai pela pele do tórax, ecoando as batidas mecânicas das ondas sonoras nas trabéculas das minhas costelas. sinto seu hálito doce próximo do meu ouvido. suas palavras incompreensíveis, suas metáforas arborizadas, seu discurso escorregadio esgueiram-se para dentro do meu crânio, infiltrando minha mastoide. você finalmente me alcança, me toma nos seus braços e me assiste com a ternura de um carnívoro primitivo. mas bem sei que não posso olhar nos seus olhos e ouvir sua voz porque seu sussurro me colocará num transe incendiário e suicida. meus olhos se abrem arruinados e sedentos pelo amendoado da sua pele, das suas sardas e dos poços no interior das suas pupilas. sou arrebatada pelo cheiro de lavanda da vaidade e nos olhamos por muitos minutos, em completo e expectante silêncio, o ar fino como uma lâmina. meu ventrículo contrai a cento e trinta e oito batimentos por minuto, se debatendo num desespero moribundo.

(…)

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down

(…)

agora estamos entrelaçados como dois animais enfurecidos, lutando um contra o outro, meu rosto desviando do seu, tentando não sufocar com o cheiro das ervas que você carrega no bolso. o thriller se intensifica nesse momento final e eu percebo estar incorporando minha própria previsão caricata. nossos olhares se cruzam novamente nessa minha imobilidade tônica e se focam um no outro em cumplicidade. percorro seu rosto em busca das respostas de todas as minhas perguntas, revolvendo todas as minhas interpretações, numa revisão infinita de todos os passos e todos os gestos. busco esfomeada, desesperadamente, algo que me ancore dentro da sua psiquê, atrás da muralha de fumaça, mesmo sabendo que essa terra árida e infecunda é causadora da minha própria fome. minha visão se preenche com fosfenos e meu rosto se alivia como que após um longo e doloroso espasmo quando sua boca chega a minha mais rápido do que eu posso prever. sinto todas as terminações nervosas cheias de dopamina, como o rush da primeira gota de heroína dentro da veia, como a fumaça do primeiro cigarro fumado em semanas inunda os pulmões cansados, como o primeiro orgasmo que tive com a sua língua na minha buceta. absorvo toda a vaidade contida nesse beijo delirante, maníaco e desvairado enquanto sinto a lâmina da sua faca dilacerando as minhas vísceras, abrindo-me de baixo a cima, o sangue grosso escorrendo pelas minhas pernas formando uma única mancha no asfalto, bem abaixo do meu ventre. sua mão gira a faca cento e oitenta graus para direita e a solta dentro de mim, segurando-me somente com seu outro braço. sinto minha mente esvaecer enquanto olho hipnotizada seus olhos cor de âmbar escurecidos pela noite sem lua sugando minha alma e quando sinto a última gota de humanidade escorrer pela minha boca retorcida como em um orgasmo masoquista descubro-me concretamente sozinha e, horrorizada, deparo-me com as minhas próprias mãos segurando a faca que eviscera meu corpo.

Exercício de Telepatia

São Paulo, 15 de abril de 2018

      Na semana seguinte, ela não apareceu. Já passado o meio dia, como de costume, acordou na própria cama de solteiro, cercada de seus próprios pertences e com o gato gordo ronronando tranquilamente na cadeira da escrivaninha.

      Demorou alguns minutos para levantar, permanecendo deitada admirando o teto manchado. No fim, não era tão diferente dos outros sábados, porque ela sempre acordava sozinha, mesmo que na cama dele. Não sabia dizer se a diferença era a ausência da camiseta masculina cobrindo seus seios, da certeza de encontrá-lo na cozinha, das palavras ácidas trocadas entre eles ou do café passado especialmente para ela.

      Decide sair do quarto. Corta seus legumes, da maneira que gosta, lentamente, enquanto sua música preferida toca – não a dele – e a cerveja gelada repousa ao lado do fogão. E as semanas passam, três sábados, quatro sábados, todos iguais, com o gato e o silêncio, sem armadilhas e cigarros, os jornais da semana se acumulando no aparador da sala, sem ninguém para lê-los.

      É no quinto sábado, durante a preparação do almoço, que percebe o fim do café. Na esperança de encontrar um saco novo esquecido no fundo do armário, descobre um restinho de chá preto.

      As lágrimas vem, enquanto corta as cebolas, se confundindo inicialmente com a irritação do tempero e sendo substituídos por soluços longos e doloridos. Desliga o fogo, tampa as panelas e senta-se no balcão da cozinha. Espera pacientemente que as lágrimas sequem e que o chá esfrie.

      Pega o telefone. Com os dedos quentes, disca o número dele.

Exercício de continuação do teu exercício de continuação

São Paulo, 05 de setembro de 2017

      O sol do meio dia entrava pelas frestas da janela. Joana rolava na cama vazia já há algumas horas: acordou as dez de um sonho bom, voltou a dormir, pesadelos até as onze e pouco, sono sem sonhos até meio dia e, enfim, decidiu-se por levantar. Pegou uma camiseta dele jogada nas costas de uma cadeira e a vestiu, mas desistiu de cobrir a parte debaixo do corpo porque a visão da cama vazia e desarrumada lhe causava uma aflição, quase desespero, que nesse dia resolveu evitar.

      Sentia algo acumulado dentro de si, sem saber bem o que, subindo pelo seu esôfago, como em um refluxo ácido mal educado. Era como se cada segundo a mais observando aquele quarto de casal solitário fossem responsáveis por ferver uma angústia em seu sangue, causando uma série de sentimentos embaralhados. Em sua cabeça só conseguia nomear a raiva, a tristeza, a amargura e o amor. Com certeza havia amor no meio de tudo isso tornando essa miscelânea psíquica especialmente venenosa.

      Você vê, o problema era os sábados. Todo sábado ela acordava na casa dele, mas nunca junto dele. Ele, um animal matutino e ela, um animal noturno. A questão era que Joana sempre acordava próximo da hora do almoço, enquanto ele despertava quase como se fosse o próprio amanhecer e depois disso se revirava na cama até ser minimamente aceitável levanta-se sem ela e deixá-la só.

      Ficar só no quarto dele havia se tornado uma experiência sufocante. Anos atrás, ela se deleitava com a ideia de estar no habitat natural dele, as coisas organizadas de um jeito único. Cada retrato, desenho, peso de papel ou até amontoado de roupas sujas eram coisas novas pra descobrir sobre ele. Com o passar do tempo, contudo, ela não pode deixar de estranhar como o quarto era dele e só dele. Não havia nada que a lembrasse de si própria, do que ela significava para ele. Não havia nem sinal dos presentes que deu a ele em seu aniversário, mesmo quando eram itens decorativos.

      As próprias roupas desapareciam sob as cobertas, como se a cama as engolisse, seus itens pessoais eram minuciosamente agrupados no canto da escrivaninha, perto da porta, como se ela estivesse apenas de passagem. Dentro daquele quarto era como se ela não existisse.

      Todos os sábados ela era engolida cada vez mais. Todos os sábados ela o amava mais, o queria mais e se desesperava mais porque todas as vezes que ele se levantava da cama e a deixava só, ela tinha certeza que havia um abismo entre os dois.

      Finalmente, sai do quarto nua da cintura para baixo. Não uma nudez provocativa, pelo contrário, uma nudez displicente. Encontrou-o na cozinha, preparando o almoço. Encostou-se no batente da porta observando a faca na mão dele descendo e subindo pela tábua de carne, fatiando perfeitamente os legumes. Primeiro pensou em dar bom dia, em abraçá-lo pelas costas, talvez pegar uma cerveja na geladeira e entregar a ele com um beijo, mas se inibia de qualquer uma dessas coisas porque não se sentia certa de nenhuma delas.

      Havia somente uma certeza sobre todos os sábados e era de que fatalmente eles brigariam, como de costume. Não sabia bem o que acontecia, sentia vontade de dizer algo doce, mas sempre era impedida por aquela sensação no esôfago, causada pela estupidez de se incomodar com o quarto dele e o que saia de sua boca era sempre inseguro, duvidante, cambaleante. E ai começava. Ele percebia, claro, o incômodo. Mas por algum motivo o interpretava errado, interpretava como um desafio, uma provocação, uma tentativa de destruí-lo de alguma forma. Mas não era isso, de maneira alguma. Era alguma forma de medo. Medo do quanto ela o amava e o queria enquanto não fazia ideia do quanto ele a amava ou a queria e aos sábados era sempre pior porque aquele quarto terrivelmente individual era exímio na tarefa de evocar tudo isso. Assim, ela o odiava por não entendê-la e o amava por não entendê-lo.

“Quer ajuda para cortar alguma coisa?”

“Não precisa.”

“Você tem medo que eu corte errado?”

      Ele gesticula vagamente, como quem diz que não sabe, ou que não se importa. Sugere então que ela escolha uma música mas ela sabe que não saberia escolher uma música que ele gostasse.

“Não conheço nenhuma das músicas que você ouve”.
      De novo o gesto vago e a sugestão de que ela apenas ligue o rádio, pois eles podem ouvir qualquer coisa que esteja tocando. Ela aceita a sugestão, um pouco contrariada porque talvez uma parte dela desejasse uma resposta do tipo ele “você sabe que gosto de The Smiths” ou “pode ser aquela do Caetano”.

      Suspira profundamente, tentando ignorar a sensação desagradável, Engole a frustração, pega duas cervejas na geladeira, gesticula um brinde frustro e bebe despretensiosamente.

      Senta na mesa, começa a folhear os jornais que ela mesma havia trazido para cima, observa a cozinha evitando olhar para ele.

      O armário do canto está cheio de pacotes de café, pacotes que ela mesma trouxe, porque ela ama café e ele detesta café. Detesta, mas todo sábado passa um café para ela, como parte do ritual de acordar antes dela, viver metade do dia sem ela, deixá-la sozinha no quarto.

      É uma prova de amor. Ele te ama, então passa o café para você todas as manhas de sábado, apesar de odiar café. Ele te ama, então acorda mais cedo que você todos os sábados e prepara um almoço para vocês dois. Ele te ama, então se esforça ao máximo para não fazer nenhum barulho quando se levanta, porque sabe que você gosta de dormir até tarde.

      Ela balança a cabeça de maneira quase imperceptível, tentando afastar esses pensamentos. Sabe que o ama, mas não sabe se ele a ama, mas isso é uma dúvida tão tola, tão estúpida. Como poderia não amar?

      Então ela pergunta: “Como foi?”.

      Sua voz paira no ar, sai da sua boca e paira no ar. Ela sabe que é assim que começa. A discussão, a briga, o conflito não-armado, a guerra fria. Ele nunca responde honestamente, ela sabe. Ele sempre inventa alguma coisa idiota, alguma coisa que ele pensa que vai ser romântico, que vai agradá-la. E fatalmente ele falha, pois não é isso que ela procura e a uma discussão interminável se segue, uma discussão cujo único desfecho é mágoa entre os dois.

“Como foi o que?”

“Como foi quando você se apaixonou por mim?”

      Alguns minutos se passam e ele prossegue com os preparativos do almoço. Ela podia quase sentir ele se odiando por ter continuado a pergunta, o desespero crescendo dentro dele porque dessa vez, dessa única vez, ele não conseguiu ser evasivo, porque agora ele teria que responder alguma coisa. Ele joga água gelada dentro da panela, a fumaça e o chiado subindo e responde sem se virar para trás:

“Eu nunca me apaixonei por você”