your fake plastic love

faz muito tempo que não escrevo.
não há muito mais sobre o que escrever.
então talvez isso não seja um poema.
talvez eu esteja enferrujada.

enquanto fumo observo a fumaça subir em espiral pelo ar e desaparecer aos poucos.
não consegui dormir depois do último sonho então fui até a sala e me sentei no peitoril da janela.
as lágrimas escorrem pelo meu rosto enquanto os soluços tomam o espaço do ar nos meus pulmões

eu entendo agora.
os sonhos.
consigo entendê-los agora.

o gato pula no meu colo e em breve ele estará úmido pelas lágrimas que insistem em escorrer por algo que nunca aconteceu.

ou melhor, aconteceu.
o sonho distorce, condensa, desloca
e nos meus pesadelos os protagonistas nunca são vocês.
nunca são vocês que vão embora, como de fato foram.
é sempre ele.
ele que está aqui, ele que ficou.

pego meu celular com as mãos tremulas e disco o número dele.
ele está trabalhando e eu consigo ouvir o som vivo do set ao seu redor.
atende e imediatamente sabe que tem algo errado.
penso que pelo som da minha respiração, ou talvez pelo telefonema em si.
mas não.
ele sabe porque ele sempre sabe.

{eu te amo.
você tem certeza? tem certeza que me ama?
é claro que eu tenho certeza}

ele tem certeza.
ele tem certeza.
ele tem certeza.

o céu já não é mais roxo e o sol está na altura dos meus olhos.
o gato agora ronrona.
minha respiração desacelera e porra, eu entendo agora.

os pesadelos.
os sonhos.
não é ele.
são vocês.