São Paulo, 20 de junho de 2019
Carlos,
A vida é um negócio esquizofrênico as vezes, não é? Essa noite eu resolvi escrever um conto bobo que me surgiu na cabeça e por isso precisei roubar alguma de suas palavras, como de costume. Normalmente o mote da minha escrita é você e peço desculpas por isso, mas ao mesmo faço isso por três motivos. Primeiro porque você inevitavelmente foi quem me fez voltar a escrever, segundo porque me sinto um tanto quanto vingada quando te roubo algo tão simplório como as palavras da sua literatura e terceiro porque eu realmente gosto do que você escreve. Eu sei que você não gosta, e as vezes eu acho que isso faz parte da sua persona, ou pelo menos da sua persona pra mim. Mas é bom. Eu gosto. Sinto falta dos seus textos barrocos.
A questão é que eu sabia que seu antigo blog não existia mais porque, por gostar do que você escreve, apesar de tudo, eu tentava acompanhar alguma coisa e eventualmente ele sumiu, como você. Mas hoje eu estava especialmente determinada a escrever meu conto e eu procurei o nome de um dos seus textos (mantenho guardado comigo pra saber que tudo que aconteceu não foi simplesmente um delírio) e encontrei seu blog com um novo endereço. Se me permite, te pergunto (mesmo esperando nenhuma resposta) por que dessa mudança?
E imagina meu espanto quando encontrei sua resposta a minha carta, querido. Atordoada, tive que re-ler a minha carta, porque já não lembrava mais do que havia escrito. Meus hipnóticos psiquiátricos são eficientes em apagar as memórias enquanto dura sua meia vida. Ri com a tosquice do que disse e fui ler sua resposta.
Resolvi responder porque talvez eu queira dizer algumas coisas já que esse canal de comunicação me pareceu aberto de alguma forma. Eu nem imaginava que você ainda me lia, que eu ainda existia dentro da sua cabeça. Não se preocupe, não vou gastar essa oportunidade com sentimentos infantis, com questões que nunca serão respondidas. Talvez quem está te escrevendo essa carta já não seja mais a pessoa que você conheceu.
Como um todo, talvez essa carta seja um grande pedido de desculpas. Isso não mudou. Eu ainda sou a pessoa que perdoa demais, que pede desculpas demais. E é estranho te pedir desculpas porque as vezes me parece que você me machucou mais do que eu te machuquei. Mas peço mesmo assim, porque, racionalmente, eu sei que isso não é bem verdade. Ninguém magoou a outra pessoa a mais ou a menos. Nós atravessamos violentamente um ao outro, arrastando tudo no caminho, causando mácula. Mas isso é apenas a vida, ou pelo menos como eu penso que a vida deveria ser. As pessoas nos atravessam, como você diz (e eu concordo), da mesma maneira que o tempo faz. Não deveria haver culpa, ou pelo menos, não completamente.
Depois de muitas sessões de análise eu e minha terapeuta chegamos em uma conclusão de que há um embate entre a minha interpretação pessoal do que ocorreu entre nós e o que o mundo externo pensa que aconteceu entre nós. Eu acreditei, por muito tempo, baseado na minha experiência, na minha intuição e na minha interpretação dos suas palavras, seus atos mas especialmente seus gestos e postura corporal, que éramos cúmplices.
Resolvemos, talvez inconsequentemente, assaltar um banco. Pecaríamos juntos, e pecamos. Você dirigiria o carro para a fuga, assim como dirigiu o carro na ida. Mas quando eu saí do banco, com as sacolas cheias de dinheiro, você já não estava mais lá me esperando no carro. Portanto, você foi meu cúmplice e eu a sua. Talvez você não tenha sido o melhor cúmplice porque no fim você desapareceu. É coisa que mais me dói, mas é a vida.
Mas o mundo externo insiste em me colocar numa posição de vítima, como se você apenas tivesse me usado, como se eu tivesse sido só mais uma das mulheres que você coloca de maneira leviana na sua vida. Diversos fatos fofocados comigo me fizeram começar a duvidar na nossa imagem de cúmplices. E agora, agora que eu finalmente te entendo, entendo também que essa imagem de vítima não é certa. Principalmente porque ela faz eu duvidar de mim mesma, das minhas percepções e da minha leitura do universo e isso é o primeiro passo em direção a loucura. E sua resposta, suas palavras, mesmo que atrasadas, me aquecem por dentro e me fazem acreditar no que eu acreditava antes. Me faz acreditar que houve algo e que eu fui importante pra você, que você me sentiu de alguma forma, não que isso importe agora de fato, na vida prática, ou mude qualquer coisa agora, mas importa pra que eu não enlouqueça. Existiu, não existe mais e tudo bem.
Eu quero te pedir desculpas por todas as vezes que te descrevi como meu algoz. Que disse coisas infálaveis como que você é um canalha ou aleijado afetivamente. Não que isso seja mentira. Você é um canalha e é aleijado afetivamente, mas isso não é coisa que se fale, não é? Mesmo porque, eu também tenho meu lado canalha. Aleijada afetivamente ainda não sou e pretendo não ser, mas não é um defeito em si e mais uma consequência da vida e dos atravessamentos que vivemos. Então, com honestidade, me desculpe por ser maldosa e cruel com a persona que criei de você.
Todas as pessoas na verdade não são elas mesmas, são as nossas interpretações e projeções sobre elas. Todos somos personas ou personagens para quem nos atravessa. Tudo que eu sei sobre você é uma personalidade com a qual tiro conclusões, baseadas apenas na minha experiência porque já há tempos que vejo tudo que tangue você como desconfiança, como você me pediu. Você é escorregadio e difícil e por vezes incompreensível, ou essa é a imagem que criei de você, mas espero que você tenha entendido a partir desse parágrafo que pouco importa quem somos de verdade para os outros.
Você não deve pedir desculpas por nada anterior a nossa despedida esquizofrênica. E, tendo você pedido desculpas pelos seus silêncios, fico agradecida. Imensamente. Mas queria dizer que os entendo, querido. Entendo porque foi esse silêncio que me permitiu existir depois da nossa catástrofe.
Sabe Carlos, eu amo você. Eu nunca disse isso com essas palavras e não acho que tenha sido preciso porque isso não mudará nem mudaria nada. Mas eu te amo, ou amo a criatura-você que eu criei na minha cabeça. Eu achava que isso nunca ia acabar, que isso nunca ia desaparecer. E de fato, nunca irá. Eu te amo e não consigo parar. Entretanto, os seus silêncios me fizeram passar por isso. Fico feliz em te dizer que eu choro. Agora que te entendo, choro. Choro com a performance correta de chorar. E eu amo, não só você, mas outras pessoas. E amo de maneiras diferentes e por conta dos seus silêncios eu fui capaz de me entregar para alguém tão intimamente como me entreguei pra você. É assustador porque eu tenho medo, muito medo, do que me reserva.
Quanto mais eu subo mais dolorida será a queda mas os seus silêncios me permitem ser otimista. Me permitem entender, como eu li em um dos seus poemas, que perder-se agora é perder tudo que está adiante. Então, obrigada por eles. E obrigada pelas desculpas, porque o silêncio dói demais, mesmo sendo imprescindível.
Te entendo, querido. Mesmo assim, você continua sendo a pior (e a melhor) coisa que me aconteceu. Mas eu choro, escrevo, amo e não existe uma troca macabra. Existe uma chaga macabra talvez, porque eu acho que nunca vou esquecer você e nunca vou deixar de te amar. Mas isso faz parte da vida. Eu penso, de maneira hedonista e perigosa, que vale a pena se destruir por algo que você quer muito se você sabe que você pode voltar. E eu posso. Eu voltei.
Queria te agradecer pela parte que você me diz que as vezes ouve uma música que faz você se lembrar de mim e esmurra o volante. Me pergunto quais seriam elas, mas não sei se isso tem resposta. Peço desculpas porque nesse embate vítima x cúmplice muitas vezes meu lado irracional e doente me convenceu que não havia nenhum sentimento seu comigo. Que era unilateral. Mas não pode ser, não é? Não faz sentido. E peço desculpas por ter te desumanizado, te tornado um monstro. Me desculpe pelas minhas palavras ácidas, duras e cortantes nos meus textos. Eu verdadeiramente não sabia que você os leria um dia.
Diferente de você, meus textos não são véus sobre o que eu realmente quero dizer. É aquele sentimento tempestuoso do momento que sai da minha boca ou dos meus dedos, sentimentos que as vezes desaparecem segundos depois. Gosto de tentar torná-los literatura porque assim eu vou estar transformando algo impalpável em algo que existe aqui, concretamente, no mundo real. E eu prometo, que se um dia tudo isso de alguma forma virar um livro, te darei os devidos créditos e os devidos pseudônimos, se assim você desejar. Me desculpe, mas essa carta vai acabar não sendo só uma carta, mas um artifício literário, um exercício, por assim dizer, porque eu me viciei em escrever coisas e começo a gostar da ideia de que eu posso escrever. Me desculpe pela arrogância desse pensamento, mas me permito de vez em quando uma arrogância saudável, pra me ajudar a lidar com tudo.
Eu sinto sua falta. Não como amante, mas como cúmplice de algo só nosso. Sinto falta das nossas conversas, dos seus textos. Mas entendo, compreendo, que é necessário o tempo e o silêncio para que algumas coisas se resolvam, se dissipem.
Não sei bem como terminar essa carta. Eu acho que assim que eu terminar de escrever vou me arrepender de todas as palavras. É estranho não estar no silêncio falando com um interlocutor inexistente. Tenho a impressão de que tudo que eu escrevi será tosco, bobo, uma grande merda.
Não sei bem como usar essa oportunidade que você me deu. De ser ouvida, de te ouvir. É engraçado que a maior parte das coisas que eu quero dizer sejam desculpas, você não acha? Talvez eu termine dizendo que continuarei escrevendo sobre você ou sobre o personagem que criei de você, mas gostaria que você não levasse para o pessoal. Não é você, não sou eu, não é verdadeiramente ninguém. As vezes, são sentimentos reais, mas eles são efêmeros demais, apesar de cíclicos por vezes. Nem tudo que eu escrevo é autobiográfico, apesar de tudo ser autobiográfico.
Enfim, também queria te pedir desculpas pelas mensagens que te mandei, caso você as tenha visto. Às vezes eu me aproximo demais da melancolia e da reminiscência quando eu tenho meu estado mental alterado, então me perdoe por todos esses despropósitos. Me desculpe por todas as vezes que te forcei a falar, que te forcei a preencher os meus vazios.
Eu gostaria que você me respondesse, sabe? Não me magoaria se isso não acontecer porque respeito seus silêncios. Mas seria agradável. Faria com que eu me sentisse civilizada. Não sou ninguém para te pedir qualquer coisa então não farei disso um pedido. Mas sinto que esse canal de comunicação é seguro, está longe do pecado da imprudência, mas não sei. Não importa no fim o que vai acontecer a partir disso. Nada importa no fim, além do que virá realmente, seja sobre eu e você (o que dificilmente será, pois o tempo já nos corroeu o suficiente para não ser), seja sobre qualquer coisa.
No fundo, tentando atropelar todo meu rancor, mágoa e afetos negativos, eu espero que você esteja feliz. Eu espero que você volte a escrever um dia. Eu espero que não haja maldição.
Não é o arrebatamento e não estamos no apocalipse.
Com carinho,
Berenice.
PS: antes que eu me esqueça: de quem eram as coxas?