one morning this sadness will fossilize and I will forget how to cry

a chuva é grossa e leva um pedaço da minha maquiagem junto com ela, mas não se preocupe, caro leitor: essa não é mais uma daquelas cenas nas quais a protagonista chora embaixo das gotas potentes e geladas de uma chuva de verão.
bocas que não se encostam e batons intactos, nunca houve um pacto mas o silêncio se esconde entre as risadas e todos (ou quase todos) sabem: a ironia pode ser imperdível, mas qualquer sofrimento é proibido, meu bem.

há uma criatura amarga e sem nome dentro dos nossos estômagos
um vazio de sentidos e palavras, uma serpente pronta para se enrolar em nossos esôfagos
há tempos ela dorme serena ao som do ruído branco que preenche nossas mentes entorpecidas
o chiado engole tudo e finalmente (finalmente!) não nos escutamos.

os ladrilhos portugueses na rua brilham nos meus olhos enquanto uma andorinha paira nos teus;
o veneno ainda existe e corre nas nossas veias mas tudo que poderia ser dito se foi, exaustivamente consumido pelo fogo como cortinas de poliéster num incêndio;
as cartas antigas estão enfiadas em gavetas lotadas, envelhecidas pelo tempo, suas letras desbotam e desaparecem com o passar dos anos;
contos, peças e poemas foram rasgados e triturados; eram inúteis como o roteiro de um filme que nunca teve segunda parte.

a nós resta aposentar a escrita, diminuir o cigarro e mantermos os lábios esticados em sorrisos fixos: agora temos tudo e nunca fomos tão felizes.

o que eu não te diria se eu não fosse uma filha da puta

o quarto está silencioso e desse jeito posso ouvir apenas a respiração dele ao meu lado.

lenta.

compassada.

suave.

ocasionais roncos escapam pelas narinas fazendo com que as asas do nariz tremam delicadamente.

encosto mais uma vez meu rosto em seu peito, respirando profundamente o cheiro que exala da pele dele, engolfando-o como se isso pudesse me salvar de todos os meus demônios.

são esses os momentos nos quais sinto um alívio imenso por não ter desistido dele depois daquele nosso encontro terrivelmente mal sucedido.

algo me diz que não desisti por conta do cheiro dele. esse cheiro amadeirado como de grandes carvalhos molhados pelo orvalho. cheiro de homem, ou como cheiro de homem deveria ser, sem perfumes ou loções, sem hidratantes ou shampoos de lavanda ou camomila.

naquela ocasião, sai da casa dele às dez da manhã como uma fugitiva tentando apagar o fiasco da noite anterior. fumei uns seis cigarros ao longo do caminho de volta até a zona norte, deixando de entrar em um ou dois ônibus só para conseguir acender o próximo. depois tomei um banho demorado, esfregando toda extensão da minha pele, me cobrindo daquela espuma espessa e esbranquiçada do sabonete, repetindo o processo mais de uma vez.

o cheiro dele persistia independente de quantas técnicas diferentes eu empregasse para me livrar dele, como uma lembrança de tudo que deu errado naquela noite. erros que eu atribuía a algo incorreto na minha performance, algum deslize, alguma mancha, marca ou estria do meu corpo que o teria deixado sem vontade de estar comigo.

por isso os cigarros.

por isso o banho.

mas grudou em mim como cola, como se tivesse se integrado na minha epiderme, fodido com os meus neurônios, mantendo-se em mim mesmo após diversos banhos, independente de quanta fumaça tóxica eu inalasse na esperança de encher meu corpo com a fragrância do alcatrão e do mentolado.

acordei no dia seguinte com o cheiro dele na minha cama.

foi por isso que eu decidi encontrá-lo mais uma vez e mais outra e mais outra. inúmeros encontros sem esperar noites longas cheias de lascívia, sem me permitir voltar a casa dele, evitando a todo custo repetir novamente o que eu considerava como meus erros. mal sabia da minha própria tolice em não imaginar o quanto eu era importante para ele.

ouço através da janela do quarto o caminhão de lixo passando na avenida. aperto meu corpo com mais força contra o dele. os pelos no peito largo cobrem toda a extensão do seu tronco e me afundo neles como me afundaria em um travesseiro. sinto os braços fortes dele se fecharem mais em volta de mim, como num espasmo, num gesto inconsciente depois de tantas noites dormindo comigo.

a pele dele é mais escura que a tua.

os olhos são cor de terra batida como os teus, mas não me afogo neles como me afogo em você.

tranquilos.

calmos.
inocentes.

olhos de alguém que nunca poderia me machucar.

olhos que passam mensagens claras, óbvias.
olhos seguros.
quentes.
aconchegantes.
a boca grossa, macia, tímida.
lábios certeiros.
decididos.
terrenos.
imaculados.
foi por isso que me apaixonei.
e nessa noite eu me envolvo no corpo dele, respirando lentamente para acalmar meu coração que bate rápido demais após ter despertado de um sonho meu e teu.

ando sonhando com você.
coisas mínimas, pequenos contatos.
sonhos bobos, como os da última vez antes dessa noite. você me mandava uma foto de um peixe e eu respondia que ele era muito bonito. houveram outros sonhos, os quais não me lembro mais, sobre outras coisas, sobre pequenos e fugazes encontros.

na maioria das vezes são sonhos bons. me delicio com esses curtos momentos oníricos que fogem rapidamente da memória depois do despertar. são situações seguras, controláveis. só isso já é suficientes. aqui não podemos nos ferir, aqui não há jogos, não há mais ninguém além de nós mesmos.

só eu e você, aqui, vivendo vidas paralelas.
vivendo instantes inofensivos e inertes.

mas essa noite é diferente. nessa noite tudo começou com um thriller imenso, no qual eu era outra pessoa, com outro corpo, outro rosto. deve ser por causa do livro que eu estou lendo.

como num estalar de dedos o thriller se dissipou e transformou-se em um sonho com você e com o meu eu real substituindo a protagonista anômala do sonho anterior. não sei dizer como foi porque logo acordo com o coração martelando dentro do meu peito, desorientada, sem conseguir lembrar de nenhum detalhe a não ser de ter estado com você.

não há dessa vez aquela sensação agradável que costuma haver, há apenas um desconforto, um sobressalto, como alguém que acaba de prever algum desastre terrível. sinto vontade de chorar mas não permito que as lágrimas escapem porque não quero acordá-lo e por isso mesmo o agarro com mais força.

fecho os olhos com uma intensidade maior do que deveria, na esperança de adormecer rapidamente dissipando qualquer memória desse despertar brusco.

no escuro, no interior das minhas pálpebras uma imagem do teu rosto começa a se formar. as sardas são a primeira coisa que me permite identificar que é você o dono desta imagem. eu sempre penso nas sardas porque, porra, como eu gosto delas.

nos dias frios depois de tomar um drink ou outro e me deitar para dormir sozinha eu sempre sinto a tua falta, mas sei que se estivesse com ele eu não sentiria.

é como se você tivesse se tornado o sonho em si, como uma representação desse mundo fantástico inconsciente. se transfomado em alguma lembrança de algo que eu tive só porque as coisas deram muito errado. algo que eu poderia ter se tudo despencasse novamente, como se eu pudesse te encontrar de novo com o único propósito de te ver e morrer mais uma vez, como morreria alguém que olha no fundo dos olhos de uma serpente mitológica.

e depois de morrer, renasceria outra vez.
como um reset, uma epifania, como transfigurar-me em outra mulher.

hoje, entretanto, acordei querendo nunca mais falar com você. esquecer-me totalmente da tua existência, apagar todas as nossas memórias. hoje eu não quero que você volte a ouvir sobre mim. hoje eu não quero imaginar quem te abraça como eu abraço quem está nos meus braços agora.

essa noite eu só queria que nada disso pudesse ter existido, queria poder ter pulado essa parte da minha história e voltado ao roteiro quando eu encontrei ele pela primeira vez. voltar para aquele nosso encontro absurdo, voltar para os seis cigarros fumados na esperança de remover as células dele das minhas células.

hoje eu exijo e aceito as tuas desculpas. hoje eu desejo toda culpa que há dentro de ti como recompensa macabra por toda loucura que há dentro de mim. hoje eu escrevo mais um disparate, mais algo que nunca deveria ter sido escrito. hoje escrevo novamente partindo da ideia de que você nunca mais estará por aqui e nunca mais lerá as palavras que eu coloco nesse pedaço de papel. hoje nada disso é pra você. hoje tudo será sobre as máculas deixadas ao longo do meu corpo, será sobre arrancar sua pele da minha memória com unhas compridas e sujas de sangue. hoje é sobre a violência dos meus sentimentos, das minhas palavras, dos meus pensamentos. hoje será sobre destruir qualquer coisa que permaneceu.

abro os olhos e encaro a lua através da janela de vidro, observando com o canto dos olhos o batente balançando de leve pela fúria do vento gelado lá fora. espero o sono vir para que amanhã eu possa acordar como da última vez. para que ao despertar novamente eu possa sentir tua falta, desejar tuas palavras e teu contato apenas na medida para ser possível todos nós mantermos nossos pés firmes na terra, nossos pulmões cheios de ar, nossos olhos cheios de cor.

amanhã não desejarei nenhuma tragédia. amanhã não haverá o cheiro das nossas carnes nem do nosso sangue doce. amanhã nenhum animal morrerá depois de comer nossos corpos poluídos e cansados.

encolhendo-me mais ainda dentro dos braços do homem que eu amo, fecho os olhos pela última vez tentando reconvocar a candura da saudade que tenho de ti e saboreio cada segundo da espera pela nossa absolvição mútua.

it’s just a silly phase i’m going through

As luzes da vinte e três de maio brilham na minha frente e o céu nublado hoje faz uma noite tão linda, você não acha?
Faz mais de mês que não ouço nada de você mas continuo esperando pacientemente.
Espero, sim, pois não há como não esperar de um jeito ou de outro, não quando são vinte e dois sinônimos de esperar para quatro sentidos da palavra esperar. A língua portuguesa é escorregadia demais.
E será sempre assim, não? Longas esperas, esperar sem esperar verdadeiramente. E não esperar por você, querido, não seja arrogante. Não podemos ter pressa mais nos dias de hoje. A rotina se arrasta diante de mim como um ferido de guerra se rasteja na terra batida esperando alguém, esperando que o sangue não sangre demais, que os pulmões não respirem demais, que a morte não venha rápida demais. E não há nenhuma pressa nisso, há?

[i like to see you, 

but then again
that doesn’t mean you mean that much to me]

O tempo se arrasta até a total obliteração das nossas consciências, até que nossos corpos não nos pertençam mais em nossa mórbida inexistência, até que inexplicavelmente tudo acabe como um clarão, como uma escuridão completa e sem estrelas. 
E aí não haverá espera. Ai estaremos livres. Nenhuma palavra, nenhum som, nada.
Enquanto isso, caminharemos. O tempo se arrasta, mas nós não. 
O céu monstruoso e negro as quatro da tarde é apenas um fenômeno meteorológico e por isso respiramos aliviados quase sem nenhuma culpa pelo conforto as custas de mais uma tragédia. Bocas vermelhas, sorrisos brancos, cabeças erguidas. 
Nada mais dói aqui. 
É tarde demais, tarde demais. 

[so if i call you, 

don’t make a fuss
don’t tell your friends about the two of us]

Não sinto mais nada porque hoje estou anestesiada com a calmaria das minhas incontáveis esperas. Você está aqui na minha mente como uma melodia estática e intrusa, uma dessas que não podemos saber de onde vem.
Mas nada disso é ensurdecedor. 
Meus olhos são atingidos pelas luzes dos carros e dos faróis, minha boca beija com ternura lábios macios e grossos e meu corpo repousa em meu leito abaixo da andorinha de porcelana. 

[i keep your picture 

up on the wall
it hides a nasty stain that’s lying there
so don’t you ask me 

to give it back
i know you know it doesn’t mean that much to me]

As andorinhas migram todo outono fugindo do frio por milhares de quilómetros e nunca esperam porque não há nada para elas nesses dias álgidos. 
Contudo,
diferente delas, 
eu espero com paciência a passagem do inverno saboreando cada segundo lânguido das noites longas e dos dias curtos, entregando-me a cada instante das inesgotáveis esperas só pelo prazer da frigidez dessa estação porque você sabe, querido, como eu amo o inverno.

Exercício de arremate do teu exercício de arremate

São Paulo, 22 de julho de 2019

o chão duro esmurra meus pés descalços enquanto corro pela rua molhada e áspera. o ar entra e sai dos meus pulmões como saem de um asmático no leito de morte, rasgando meus alvéolos e emitindo um chiado característico e derradeiro. o ruído sai pela pele do tórax, ecoando as batidas mecânicas das ondas sonoras nas trabéculas das minhas costelas. sinto seu hálito doce próximo do meu ouvido. suas palavras incompreensíveis, suas metáforas arborizadas, seu discurso escorregadio esgueiram-se para dentro do meu crânio, infiltrando minha mastoide. você finalmente me alcança, me toma nos seus braços e me assiste com a ternura de um carnívoro primitivo. mas bem sei que não posso olhar nos seus olhos e ouvir sua voz porque seu sussurro me colocará num transe incendiário e suicida. meus olhos se abrem arruinados e sedentos pelo amendoado da sua pele, das suas sardas e dos poços no interior das suas pupilas. sou arrebatada pelo cheiro de lavanda da vaidade e nos olhamos por muitos minutos, em completo e expectante silêncio, o ar fino como uma lâmina. meu ventrículo contrai a cento e trinta e oito batimentos por minuto, se debatendo num desespero moribundo.

(…)

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down

(…)

agora estamos entrelaçados como dois animais enfurecidos, lutando um contra o outro, meu rosto desviando do seu, tentando não sufocar com o cheiro das ervas que você carrega no bolso. o thriller se intensifica nesse momento final e eu percebo estar incorporando minha própria previsão caricata. nossos olhares se cruzam novamente nessa minha imobilidade tônica e se focam um no outro em cumplicidade. percorro seu rosto em busca das respostas de todas as minhas perguntas, revolvendo todas as minhas interpretações, numa revisão infinita de todos os passos e todos os gestos. busco esfomeada, desesperadamente, algo que me ancore dentro da sua psiquê, atrás da muralha de fumaça, mesmo sabendo que essa terra árida e infecunda é causadora da minha própria fome. minha visão se preenche com fosfenos e meu rosto se alivia como que após um longo e doloroso espasmo quando sua boca chega a minha mais rápido do que eu posso prever. sinto todas as terminações nervosas cheias de dopamina, como o rush da primeira gota de heroína dentro da veia, como a fumaça do primeiro cigarro fumado em semanas inunda os pulmões cansados, como o primeiro orgasmo que tive com a sua língua na minha buceta. absorvo toda a vaidade contida nesse beijo delirante, maníaco e desvairado enquanto sinto a lâmina da sua faca dilacerando as minhas vísceras, abrindo-me de baixo a cima, o sangue grosso escorrendo pelas minhas pernas formando uma única mancha no asfalto, bem abaixo do meu ventre. sua mão gira a faca cento e oitenta graus para direita e a solta dentro de mim, segurando-me somente com seu outro braço. sinto minha mente esvaecer enquanto olho hipnotizada seus olhos cor de âmbar escurecidos pela noite sem lua sugando minha alma e quando sinto a última gota de humanidade escorrer pela minha boca retorcida como em um orgasmo masoquista descubro-me concretamente sozinha e, horrorizada, deparo-me com as minhas próprias mãos segurando a faca que eviscera meu corpo.

Atestado de óbito – carta número três

São Paulo, 9 de julho de 2019

Querido Carlos,

      Hoje eu participei da ressuscitação de mais uma pessoa. A cada compressão eu implorava a qualquer entidade mágica de existência questionável pelo sucesso da ressuscitação.

(Tem pulso?

Sem pulso.

Continue as compressões)

      O paciente voltou. Subiu pra cirurgia. Mas não era pra ser, não sei, e assim, por não ser pra ser, ele morreu.

      Não sei se é a minha fragilidade emocional, se é a carga de estar nessa posição de alguma espécie de curandeiro ou reparador. Talvez a quebra do teu silêncio, talvez a saudade. Não sei o que é, mas desde a sua última carta sempre penso em você quando a morte nos visita na sala de cirurgia, na sala de emergência.

      Sinto-me vazia. A morte vem de um jeito tão natural e tão caprichoso que mal consigo respirar após nossos encontros. E quando choro a morte desses desconhecidos, sinto sua falta. Sempre sinto sua falta.

      A vida é tão estúpida. Você existiu pra mim, eu existi pra você, existimos. Te amei, te amo. Sinto sua falta terrivelmente. E a vida é assim tola porque um dia seremos nós na mesa gelada da sala de cirurgia. No chão da cozinha após um mal súbito. Seremos nós apodrecendo na terra de onde saímos.

Mortos.

Sua última memória de mim

Minha última memória de ti

      Nosso desenlace apesar de não concebido, é final. E esse nosso atravessamento quando estivermos pálidos e abertos na mesa do IML não passará de mais uma história fora dos autos.

      De preto, escondido em um canto, os cheiros das flores do cemitério, lágrimas silenciosas escorrendo pelas bochechas. Ou talvez nenhuma lágrima. Será essa a nossa última lembrança?

      Me é quase inaceitável ter vivido uma vida em que existimos e não existimos mais. Uma vida na qual nos tocamos e não nos tocamos mais. Essa vida sadista que acaba com uma hemorragia interna numa sala cheia de médicos. Essa vida ordinária em que a última vez que fazemos algo nunca é a última vez pra nós porque não sabemos que será, enfim, a última vez.

      Queria poder te contar, Carlos, de todas as vidas que vi acabar, ou de todas as pessoas mortas que vejo viverem apenas pelo nosso capricho de não deixá-las morrer.

      Queria poder te abraçar e chorar meus mortos nos teus ombros mas queria não sentir sua falta. Bem sei, bem sabemos, não somos nada e não podemos ser.

      Cansei demais, Carlos. Cansei de existir com a sua não existência, com a minha existência. Cansei dos médicos, da morte e dessa vida desafortunada.

      Estou exausta, querido. Farta de tantas partidas e mortes. E temo, meu amor, nunca mais te ver, nunca mais te encontrar. Me aterroriza morrer sem me lembrar da última vez que nos vimos, sem me lembrar do teu toque caloroso, teu abraço abundante. Temo estar apodrecendo aos poucos, um pouquinho a mais a cada compressão na pele pálida manchada pelo livedo. O vazio se abrindo dentro de mim como um abismo.

      Já estive mais triste, mas nunca estive tão cansada do que são essas nossas vidas.

      Desculpe Carlos, mas hoje eu quero chorar os meus mortos nos teus ombros. Hoje eu não quero mais existir. Hoje eu cansei de viver. Esvazie-me.

Sinto sua falta.

Fatalmente,
sinto sua falta.

Com pesar,

Berenice.

Carta número dois

São Paulo, 20 de junho de 2019

Carlos,

      A vida é um negócio esquizofrênico as vezes, não é? Essa noite eu resolvi escrever um conto bobo que me surgiu na cabeça e por isso precisei roubar alguma de suas palavras, como de costume. Normalmente o mote da minha escrita é você e peço desculpas por isso, mas ao mesmo faço isso por três motivos. Primeiro porque você inevitavelmente foi quem me fez voltar a escrever, segundo porque me sinto um tanto quanto vingada quando te roubo algo tão simplório como as palavras da sua literatura e terceiro porque eu realmente gosto do que você escreve. Eu sei que você não gosta, e as vezes eu acho que isso faz parte da sua persona, ou pelo menos da sua persona pra mim. Mas é bom. Eu gosto. Sinto falta dos seus textos barrocos.

      A questão é que eu sabia que seu antigo blog não existia mais porque, por gostar do que você escreve, apesar de tudo, eu tentava acompanhar alguma coisa e eventualmente ele sumiu, como você. Mas hoje eu estava especialmente determinada a escrever meu conto e eu procurei o nome de um dos seus textos (mantenho guardado comigo pra saber que tudo que aconteceu não foi simplesmente um delírio) e encontrei seu blog com um novo endereço. Se me permite, te pergunto (mesmo esperando nenhuma resposta) por que dessa mudança?

      E imagina meu espanto quando encontrei sua resposta a minha carta, querido. Atordoada, tive que re-ler a minha carta, porque já não lembrava mais do que havia escrito. Meus hipnóticos psiquiátricos são eficientes em apagar as memórias enquanto dura sua meia vida. Ri com a tosquice do que disse e fui ler sua resposta.

      Resolvi responder porque talvez eu queira dizer algumas coisas já que esse canal de comunicação me pareceu aberto de alguma forma. Eu nem imaginava que você ainda me lia, que eu ainda existia dentro da sua cabeça. Não se preocupe, não vou gastar essa oportunidade com sentimentos infantis, com questões que nunca serão respondidas. Talvez quem está te escrevendo essa carta já não seja mais a pessoa que você conheceu.

      Como um todo, talvez essa carta seja um grande pedido de desculpas. Isso não mudou. Eu ainda sou a pessoa que perdoa demais, que pede desculpas demais. E é estranho te pedir desculpas porque as vezes me parece que você me machucou mais do que eu te machuquei. Mas peço mesmo assim, porque, racionalmente, eu sei que isso não é bem verdade. Ninguém magoou a outra pessoa a mais ou a menos. Nós atravessamos violentamente um ao outro, arrastando tudo no caminho, causando mácula. Mas isso é apenas a vida, ou pelo menos como eu penso que a vida deveria ser. As pessoas nos atravessam, como você diz (e eu concordo), da mesma maneira que o tempo faz. Não deveria haver culpa, ou pelo menos, não completamente.

      Depois de muitas sessões de análise eu e minha terapeuta chegamos em uma conclusão de que há um embate entre a minha interpretação pessoal do que ocorreu entre nós e o que o mundo externo pensa que aconteceu entre nós. Eu acreditei, por muito tempo, baseado na minha experiência, na minha intuição e na minha interpretação dos suas palavras, seus atos mas especialmente seus gestos e postura corporal, que éramos cúmplices.

      Resolvemos, talvez inconsequentemente, assaltar um banco. Pecaríamos juntos, e pecamos. Você dirigiria o carro para a fuga, assim como dirigiu o carro na ida. Mas quando eu saí do banco, com as sacolas cheias de dinheiro, você já não estava mais lá me esperando no carro. Portanto, você foi meu cúmplice e eu a sua. Talvez você não tenha sido o melhor cúmplice porque no fim você desapareceu. É coisa que mais me dói, mas é a vida.

      Mas o mundo externo insiste em me colocar numa posição de vítima, como se você apenas tivesse me usado, como se eu tivesse sido só mais uma das mulheres que você coloca de maneira leviana na sua vida. Diversos fatos fofocados comigo me fizeram começar a duvidar na nossa imagem de cúmplices. E agora, agora que eu finalmente te entendo, entendo também que essa imagem de vítima não é certa. Principalmente porque ela faz eu duvidar de mim mesma, das minhas percepções e da minha leitura do universo e isso é o primeiro passo em direção a loucura. E sua resposta, suas palavras, mesmo que atrasadas, me aquecem por dentro e me fazem acreditar no que eu acreditava antes. Me faz acreditar que houve algo e que eu fui importante pra você, que você me sentiu de alguma forma, não que isso importe agora de fato, na vida prática, ou mude qualquer coisa agora, mas importa pra que eu não enlouqueça. Existiu, não existe mais e tudo bem.

      Eu quero te pedir desculpas por todas as vezes que te descrevi como meu algoz. Que disse coisas infálaveis como que você é um canalha ou aleijado afetivamente. Não que isso seja mentira. Você é um canalha e é aleijado afetivamente, mas isso não é coisa que se fale, não é? Mesmo porque, eu também tenho meu lado canalha. Aleijada afetivamente ainda não sou e pretendo não ser, mas não é um defeito em si e mais uma consequência da vida e dos atravessamentos que vivemos. Então, com honestidade, me desculpe por ser maldosa e cruel com a persona que criei de você.

      Todas as pessoas na verdade não são elas mesmas, são as nossas interpretações e projeções sobre elas. Todos somos personas ou personagens para quem nos atravessa. Tudo que eu sei sobre você é uma personalidade com a qual tiro conclusões, baseadas apenas na minha experiência porque já há tempos que vejo tudo que tangue você como desconfiança, como você me pediu. Você é escorregadio e difícil e por vezes incompreensível, ou essa é a imagem que criei de você, mas espero que você tenha entendido a partir desse parágrafo que pouco importa quem somos de verdade para os outros.

      Você não deve pedir desculpas por nada anterior a nossa despedida esquizofrênica. E, tendo você pedido desculpas pelos seus silêncios, fico agradecida. Imensamente. Mas queria dizer que os entendo, querido. Entendo porque foi esse silêncio que me permitiu existir depois da nossa catástrofe.

      Sabe Carlos, eu amo você. Eu nunca disse isso com essas palavras e não acho que tenha sido preciso porque isso não mudará nem mudaria nada. Mas eu te amo, ou amo a criatura-você que eu criei na minha cabeça. Eu achava que isso nunca ia acabar, que isso nunca ia desaparecer. E de fato, nunca irá. Eu te amo e não consigo parar. Entretanto, os seus silêncios me fizeram passar por isso. Fico feliz em te dizer que eu choro. Agora que te entendo, choro. Choro com a performance correta de chorar. E eu amo, não só você, mas outras pessoas. E amo de maneiras diferentes e por conta dos seus silêncios eu fui capaz de me entregar para alguém tão intimamente como me entreguei pra você. É assustador porque eu tenho medo, muito medo, do que me reserva.

      Quanto mais eu subo mais dolorida será a queda mas os seus silêncios me permitem ser otimista. Me permitem entender, como eu li em um dos seus poemas, que perder-se agora é perder tudo que está adiante. Então, obrigada por eles. E obrigada pelas desculpas, porque o silêncio dói demais, mesmo sendo imprescindível.

      Te entendo, querido. Mesmo assim, você continua sendo a pior (e a melhor) coisa que me aconteceu. Mas eu choro, escrevo, amo e não existe uma troca macabra. Existe uma chaga macabra talvez, porque eu acho que nunca vou esquecer você e nunca vou deixar de te amar. Mas isso faz parte da vida. Eu penso, de maneira hedonista e perigosa, que vale a pena se destruir por algo que você quer muito se você sabe que você pode voltar. E eu posso. Eu voltei.

      Queria te agradecer pela parte que você me diz que as vezes ouve uma música que faz você se lembrar de mim e esmurra o volante. Me pergunto quais seriam elas, mas não sei se isso tem resposta. Peço desculpas porque nesse embate vítima x cúmplice muitas vezes meu lado irracional e doente me convenceu que não havia nenhum sentimento seu comigo. Que era unilateral. Mas não pode ser, não é? Não faz sentido. E peço desculpas por ter te desumanizado, te tornado um monstro. Me desculpe pelas minhas palavras ácidas, duras e cortantes nos meus textos. Eu verdadeiramente não sabia que você os leria um dia.

      Diferente de você, meus textos não são véus sobre o que eu realmente quero dizer. É aquele sentimento tempestuoso do momento que sai da minha boca ou dos meus dedos, sentimentos que as vezes desaparecem segundos depois. Gosto de tentar torná-los literatura porque assim eu vou estar transformando algo impalpável em algo que existe aqui, concretamente, no mundo real. E eu prometo, que se um dia tudo isso de alguma forma virar um livro, te darei os devidos créditos e os devidos pseudônimos, se assim você desejar. Me desculpe, mas essa carta vai acabar não sendo só uma carta, mas um artifício literário, um exercício, por assim dizer, porque eu me viciei em escrever coisas e começo a gostar da ideia de que eu posso escrever. Me desculpe pela arrogância desse pensamento, mas me permito de vez em quando uma arrogância saudável, pra me ajudar a lidar com tudo.

      Eu sinto sua falta. Não como amante, mas como cúmplice de algo só nosso. Sinto falta das nossas conversas, dos seus textos. Mas entendo, compreendo, que é necessário o tempo e o silêncio para que algumas coisas se resolvam, se dissipem.

      Não sei bem como terminar essa carta. Eu acho que assim que eu terminar de escrever vou me arrepender de todas as palavras. É estranho não estar no silêncio falando com um interlocutor inexistente. Tenho a impressão de que tudo que eu escrevi será tosco, bobo, uma grande merda.

      Não sei bem como usar essa oportunidade que você me deu. De ser ouvida, de te ouvir. É engraçado que a maior parte das coisas que eu quero dizer sejam desculpas, você não acha? Talvez eu termine dizendo que continuarei escrevendo sobre você ou sobre o personagem que criei de você, mas gostaria que você não levasse para o pessoal. Não é você, não sou eu, não é verdadeiramente ninguém. As vezes, são sentimentos reais, mas eles são efêmeros demais, apesar de cíclicos por vezes. Nem tudo que eu escrevo é autobiográfico, apesar de tudo ser autobiográfico.

      Enfim, também queria te pedir desculpas pelas mensagens que te mandei, caso você as tenha visto. Às vezes eu me aproximo demais da melancolia e da reminiscência quando eu tenho meu estado mental alterado, então me perdoe por todos esses despropósitos. Me desculpe por todas as vezes que te forcei a falar, que te forcei a preencher os meus vazios.

      Eu gostaria que você me respondesse, sabe? Não me magoaria se isso não acontecer porque respeito seus silêncios. Mas seria agradável. Faria com que eu me sentisse civilizada. Não sou ninguém para te pedir qualquer coisa então não farei disso um pedido. Mas sinto que esse canal de comunicação é seguro, está longe do pecado da imprudência, mas não sei. Não importa no fim o que vai acontecer a partir disso. Nada importa no fim, além do que virá realmente, seja sobre eu e você (o que dificilmente será, pois o tempo já nos corroeu o suficiente para não ser), seja sobre qualquer coisa.

      No fundo, tentando atropelar todo meu rancor, mágoa e afetos negativos, eu espero que você esteja feliz. Eu espero que você volte a escrever um dia. Eu espero que não haja maldição.

Não é o arrebatamento e não estamos no apocalipse.

Com carinho,

Berenice.

PS: antes que eu me esqueça: de quem eram as coxas?

Reintegração de posse

São Paulo, 1 de julho de 2019

      Carlos andava pelos corredores do mercado em busca da prateleira de azeite. Não havia muito porque comprar azeite no fim da tarde de uma terça feira, mas estava inquieto em sua casa vazia e então saiu para fumar um cigarro. Um cigarro virou dois e quando percebeu já estava andando pela rua em direção ao mercado.

      Avista a prateleira. Uma mulher loira está parada bem na frente dela, observando os vidros de azeite. Ele espera para que ela saia da frente da prateleira, mas ela se demora demais. Carlos caminha devagar em direção a loira e para a uma distância adequadamente próxima: “Não leve o mais barato, se é isso que você tá pensando” A moça se vira com o susto. Seu nome é Berenice e já sabemos alguma história dela, mas você talvez não se lembre.

      O homem é Carlos, seu ex alguma coisa. Digo alguma coisa pois teriam tido um caso quatro anos atrás, enquanto ela estava infeliz e noiva de um outro homem. Carlos teria um relacionamento de longa data, há mais de seis anos ao menos, com uma outra mulher, praticamente pelo mesmo tempo que Berenice estava com o ex-noivo. O caso não havia como acabar bem, vocês podem imaginar e, por isso mesmo, acabou mal. Berenice desfez seu noivado e fez-se personagem de uma história de partidas e desencontros. Carlos continuou com sua namorada e ele e Berenice pouco se encontraram depois desse acontecimento.

      Carlos constata com um misto de horror, culpa e curiosidade que se trata de Berenice. Seu coração acelera um pouco dentro do peito e suas mãos ficam ligeiramente molhadas.“Você mudou seu cabelo” Berenice ri: você ficou mais careca. Ele ri também, desconfortável. Diz também que perdeu o jeito de menina. Berenice fecha o rosto numa expressão séria e diz que, de fato, já não é mais uma menina há tempos. Ficam parados, na frente da prateleira de azeites, se olhando por alguns minutos dolorosamente silenciosos. Carlos volta a falar, perguntando o que ela faz no supermercado. Ela diz que estava voltando do trabalho na Lapa, parou lá para comprar um vinho e que se percebeu de repente na frente da prateleira de azeite, admirando-os.

      Carlos lhe pergunta se a namorada de seu amigo Eduardo, com quem Berenice mora, ainda compra o azeite mais barato. Ela responde que por pouco ele perdeu esse timing, pois ela havia acabado de se mudar para um novo apartamento, ou pelo menos, se mudaria oficialmente na manhã seguinte. Então não, sem azeites baratos por hora. Diz também que provavelmente o problema era pessoal com ele, porque desde que ela havia se mudado para lá Aurélia nunca mais comprou azeites baratos. Ele ri, ela ri.

      Ela não pergunta a ele o motivo de sua vinda ao supermercado, apenas o observa com o coração batendo rapidamente dentro do peito. Antes que Carlos possa perceber, estará convidando-a para tomar alguma coisa, talvez uma cerveja, ali perto. Berenice sabe que o correto seria recusar, mas não consegue deixar de se indagar o que se daria deste convite ou até mesmo porque o destino havia os colocado neste encontro vulgar.

      Aceita. Eles vão ao caixa, ele de mãos vazias e ela com um espumante caro nas mãos. Ela paga e guarda a bebida em sua bolsa preta. Em poucos minutos estarão sentados em algum bar na região, incapazes de não conversar demais como era de costume. Ele acende um cigarro e pergunta a ela se ela gostaria de um. Ela observa o cigarro em sua mão, demoradamente. Balança a cabeça como quem diz não. A conversa prossegue, a cerveja continua chegando, ele continua acendendo mais cigarros e mesmo assim o maço parece não ter fim. Dentro de algumas horas estarão levemente bêbados, ou bêbados o suficiente para acessar o passado mútuo, sempre e apenas, acessado nesses momentos de embriaguez.

      Ela pergunta se ele ainda está com Beatriz. Ele diz que sim, que mora com ela, na mesma casinha com o pequeno quintal ali perto. Ele pergunta se ela ainda é solteira. Ela dá os ombros. Alguns minutos no silêncio, olhos nos olhos, mãos próximas demais uma da outra. Ele delicadamente toca na mão dela e ela sente o calor conhecido das mãos dele.

“Eu te entendo agora, Carlos”.

“E por que agora?”

      Ela ergue os ombros como quem diz que não importa, ou que não sabe. Ele pousa seus olhos no chão, em uma carcaça de barata na entrada do bar, respira fundo e balança a cabeça

“Me desculpe”

“Não há mais culpa entre nós, Carlos”

      Ele se aproxima mais de Berenice, passa a mão delicadamente no seu rosto, em seu queixo. Ela sorri tristemente enquanto ele ri com uma risada rouca, cínica, triste mas não completamente triste. Beija a testa dela, como costumava fazer. Ela repousa a cabeça em seu peito e sente o cheiro de arruda e cigarros, inalando-o lentamente, pausadamente. “Tenho medo de você se afogar em mim” ele diz. Ainda sem tirar a cabeça de seu peito ela diz que não há nada para temer, porque amanhã tudo isso será mentira. Ele ergue sua cabeça, segurando pela lateral do rosto e olha para sua boca como se pudesse engolir todo seu desespero**. Acariciando levemente seu queixo a beija docemente, com a língua começando pela lateral da boca, como deve ser.

      Em meia hora o bar terá fechado. Eles caminharão lentamente e embriagados até a casa vazia de Carlos. Ele irá colocar um copo de whisky para ele e um para ela. A gata preta recém adotada fica durante todo o tempo no colo de Berenice, ronronando satisfeita. O whisky se vai mais rápido do que eles poderiam prever. A gata desce do colo de Berenice porque logo ela e Carlos estarão nus, beijando-se em agonia, angústia, aflição e lascívia. Ela em cima dele, cavalgando lentamente. Mãos quentes, coxas violentas, juntos no limite do insuportável, num incêndio moribundo. Noite adentro, se consomem como numa performance masoquista, ouvindo os pássaros cantarem impiedosamente marcando o fim desse desenlace amargo e definitivo.

      Pela manhã Berenice acordará mais cedo que Carlos. Deixará um bilhete de despedida em cima do travesseiro. A gata irá segui-la pela casa, enquanto ela recolhe suas roupas, se veste, bebe um copo de água e esquece sua calcinha escondida no vão do sofá. Abre a porta e a gata continua ronronando em seus pés.

      Ela pára e observa a casa. Observa os retratos de Carlos e Beatriz, observa o lar deles maculado pelo pecado de dois amantes irremediavelmente quebrados, imprudentes e equivocados. Ela pensa em todas as partidas, pensa em todos os rastros deixados por ele nas entranhas do seu corpo. Pensa na andorinha de porcelana solitária pendurada na parede de seu quarto, em seu novo apartamento.

      Com delicadeza, pega a gata, a põe em seu colo como uma criança faria e sai da casa, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Em algumas horas, Carlos acordará e lerá o bilhete de despedida. “Nos vemos no inferno, querido”. Notará o sumiço da gata dentro de uma hora, mais ou menos, e ao perceber, soltará um riso amargo, mas satisfeito e acende um cigarro.

      Queima lentamente o bilhete e assiste o fogo consumir essa história que finalmente chega ao seu destino absoluto.

*Disque 192

**Traguei saturno

“não tem nada mais forte do que as coisas que não aconteceram”

São Paulo, 4 de junho de 2019

{Carlos}

porra, Carlos, é difícil demais.

há infinitos jeitos de não nos encontrarmos, infinitos jeitos de não nos encontrar, infinitos jeitos de não te encontrar, não me encontrar.

infinitos jeitos, mas nada disso importa porque é difícil demais viver depois da nossa catástrofe, dos seus versos duros, da sua prosa provocante, dos seus golpes delicados. é difícil demais.

não consigo parar de pensar que de vez em quando a embriaguez me leva perto do abismo que é me tornar uma pessoa como você. eu não suporto o medo de me deparar um dia com meus próprios versos duros e minha prosa provocante.

mas já está, está feito porque apesar de todas as minhas tentativas de arrancar de mim essa contaminação eu já sou mais como você do que eu poderia imaginar.

você dizia que a nossa dança nos definia mais do que podíamos admitir. esse era o prelúdio do fim, antes mesmo de começar. você me avisou, eu sei.

mas agora percebo que nessa sua constatação tudo já estava previsto. nossos corpos mortos na beira da estrada não era apenas um delírio embebido na sua culpa, era um plano. e morremos. ao menos, morri. levanto do meu túmulo todos os dias, caminho pela terra ora como cadáver, ora como uma boneca de porcelana que se quebrou e se colou vezes demais.

ando pela terra deixando meu rastro, que pensava ser outro tipo de rastro, mas receio que seja destruição, como você.

nossa antiga dança me define mais do que eu posso admitir.

cada dia que passa me aproximo cada vez mais das histórias de cobras e feitiços. danço perigosamente com algumas pessoas só porque eu posso, assim como você. às vezes beijo as caprichosamente, inconsequentemente. elas dizem que não há porque a preocupação, elas não vão se magoar. elas já estão quebradas e não podem se quebrar mais.

mas nós dois sabemos que isso é mentira, não é, Carlos?

[…]

{Amadeu}

“eu e você e uma cidade vazia. talvez seja feriado, talvez seja o arrebatamento”

chego na festa e desvio meus olhos para que eu não te infecte com os meus desejos inapropriados. você me vê, ri, rimos e me abraça desajeitado. em algumas horas estaremos bêbados, dizendo impropriedades um para o outro. você flerta, eu flerto, depois você me pergunta se flertamos mas digo que não. você se satisfaz com essa resposta porque é terrível demais me ler como a bruxa que eu poderia ser. mas não consigo parar, não consigo não pegar outro cigarro. mas sabemos como termina essa história, ou eu sei. e, verdadeiramente não quero morrer mais uma vez na beira da estrada, sozinha, escalpelada. um abismo com nossos ossos descompondo-se ao fundo. ou talvez só os meus, porque eu sou só inocente demais, burra demais, auto-destrutiva demais e talvez você seja imune ao meu feitiço. mesmo assim, você continua a sorrir e se embrenhar nos meus espinhos afiados, nas minhas palavras levianas. eu e você juntos no limite do imperdoável, eu e você juntos em um fumacê venenoso. e então a conversa continua, o maço se vai, e a saideira nunca chega.

{Carlos}

achei que haviam colocado fim no furacão que virei depois de você Carlos, e porra, que medo que eu tenho de continuar desequilibrada.

teus passos estão logo antes dos meus e os meus seguem os teus como se o demônio estivesse rindo de mim secretamente, arquitetando cada segundo da minha derrocada, enquanto eu ainda penso na sua canalhice pelo menos uma vez por semana.

minha voz está trancada dentro desse corpo que você bem conhece e eu as vezes preciso roubar seus versos duros para arrancar de mim a angústia. por isso eu não peço desculpas. você tomou de mim, muito mais do que eu poderia dar e a vingança é tanto uma ilusão quanto nós fomos. tudo que me resta são as lembranças esvaecendo a cada segundo, no meu cérebro que inevitavelmente se encaminha para o alheamento total.

te odeio tanto. ódio do seu rosto doce, dos seus olhos quentes, da sua conversa perigosa, da sua pele escorregadia. mas eu não sou escorregadia. pedaços de mim grudam em todas os lugares, meus cabelos ficam enrolados nas entranhas do assoalho, da cama, da mesa de bar.

tenho ódio do seu veneno agridoce, da lavanda e da arruda na sua pele. mas meu veneno não foi elaborado com tanto esmero quanto o seu. o que eu elimino é na verdade um remédio de sabor amargo que já não se presta a humanidade como deveria. benigno, tratável.

é perigoso que eu seja tentada a seguir teus passos.

não posso.

{Amadeu}

“se perder agora é perder tudo que está adiante”

vá embora. por favor, vá embora. eu não posso me tornar meu próprio algoz. eu não posso me destruir. eu preciso ser feliz, preciso saber que meu carrasco não me destruiu para sempre, não me moldou para ser uma imitação fajuta dele. saber que isso não é uma profecia.

você diz que somos amigos, mas temo por você e por mim porque não consigo dizer se não há laivos de mentira no timbre da sua voz. somente são circunstâncias da vida que nos unem e a eletricidade existe porque o demônio gosta da luxúria. mas não é isso exatamente que você quer, é?

meu corpo marcado pelas estrias e manchas, meu corpo desajustado socialmente, minhas coxas violentas, minha buceta quente e proibida, minha boca de esculápio desvairada. não é isso que você quer.

repita comigo: não seremos o arrebatamento. e este não é o apocalipse.

Samba da treze de maio

São Paulo, 15 de agosto de 2018

      O samba da treze toca ao fundo enquanto eu e ele estamos sentados na mesa do bar, em uma proximidade excessiva demais para qualquer telespectador mais amargurado.

      Aquele amigo dele do outro dia de repente aparece, eles trocam algumas palavras (talvez mais que algumas) enquanto eu dou cinco ou seis bocejos. É dificílimo encontrar esses amigos, esses que te conhecem. É sempre aquele mesmo diálogo: me perguntam se nos conhecemos, de onde, se somos amigos. Eu sorrio, esse meu sorriso jururu que você bem conhece. A bile sobe pela minha garganta, começo a elaborar a mesma mentira de sempre e logo vem o flashback do nosso último encontro, meus lábios quentes no seu pescoço, minhas lágrimas escorrendo timidamente e as palavras que nunca te disse: “Eu te amo, mas você parte meu coração”.

      O sorriso jururu continua enquanto respondo seu amigo com a violenta sinceridade da mentira de que sim, nós nos conhecemos, but i barely know you.

rascunho de semanas atrás

São Paulo, 18 de dezembro de 2017

silêncio silêncio silêncio
gestos
poemas
meus gritos e cartas palavras tantas palavras faz tanto tempo tanto
o relógio
algo sem começo sem meio com fim o calor do verão seca minhas lagrimas o sentimento burro as vezes ainda grita esperneia
não faz isso comigo
me esquece
me deixa
acaba
como deveria ter sido deveria não ter sido
meus ventos de outono tinham te pedido não faz isso comigo eu suplico te suplico
eu grito pra você
paixão paixão paixão
não faz isso comigo
eu sou muito barulho
não fazia parte do seu plano essa mulher
“desencontros acontecem o tempo todo”
meu deus, como eu gosto de você /interrogação/
nem nos meus sonhos te vejo
como eu desperto, Carlos?
o que eu faço com o gato, Carlos?
mata
mata
mata
que andar do inferno nós estamos?
qual o rastro que você deixa?
eu sei o meu.

Exercício de desapego

São Paulo, 4 de novembro de 2017

      E no seu quarto vermelho, te observando dormir, eu percebo o quanto estranha é essa sensação de dormir na casa de semi-desconhecidos.

      Seus olhos não fecham completamente enquanto você dorme e parada assim, sob a luz vermelha da sua lanterna alemã, é quase como se você estivesse morta. Mas eu sinto seu coração batendo na minha não apoiada no seu tórax, sinto seu peito subir e descer, ouço seu ronco e a ideia mórbida logo desaparece.

      Amanhã meu despertador vai tocar as sete horas e eu estarei saindo pela porta rápido demais. Riremos dos gatos que ficaram pulando na cama enquanto transávamos, você me dá adeus e promete não sumir entre beijos desajustados pelo fato de eu ter escovado os dentes e você não.

      Não nos conhecemos de verdade e é praticamente impossível escrever um conto sobre alguém cujo sobrenome eu esqueci. Acho curioso que seu nome seja o mesmo da minha amiga que mora a duas quadras da sua casa. Acho curioso você morar em uma encruzilhada na Santa Cecília.

      Finalmente me levanto da cama, te acordo sem querer e digo que vou fumar um cigarro. Você continua na cama, sonolenta. Eu não consigo dormir.

      Parada na frente da sua janela, percebo que aqui não há barulho de pássaros de madrugada. Você me diz ah, o centro tem poucas árvores para os pássaros. E apesar da árvore gigantesca na frente do seu prédio, aqui os pássaros não cantam.

Guarda Compartilhada

São Paulo, 24 de outubro de 2017

Querido Carlos,

      Te envio essa carta por conta de um probleminha doméstico com o qual venho tendo que lidar ultimamente e acredito ser do seu interesse.

      Você se lembra daquele dia? Estávamos juntos no seu bar favorito e encontramos um filhote de gato abandonado. Bêbados, descuidados, resolvemos adotá-lo juntos: ele fica uma semana na casa de cada um, você disse, uma guarda compartilhada. Eu fiquei a primeira semana com o gato e, bem…

      Acontece o seguinte: já fazem semanas que não nos vemos e o gato aqui. Aliás, quando de fato nos encontramos, nunca falamos sobre ele. Confesso ter vontade de discutir essa questão quando te vejo, as vezes até entro em um certo desespero de madrugada, ou quando fico bêbada demais e é preciso muita força de vontade pra não te ligar e dizer mas e o gato, Carlos? E o gato? Que diabo faço com o gato? No fim das contas não inicio a conversa sobre ele porque todas as vezes nas quais tentei introduzir o assunto acabei sufocada pelo seu silêncio. E tudo bem, tudo bem, sei do seu apreço pelo silêncio e o respeito, então nada de conversas sobre o gato.

      Por isso a carta. Cartas são boas porque você pode lê-las, abandoná-las no criado mudo, pensar em uma resposta e até não respondê-las, porque sabe como é, nem se mandam mais cartas nos dias de hoje, quem sabe não foi extraviada?

      De qualquer modo, passo pouco tempo em casa, não é sempre que lembro do gato, mas seria absurdo dizer ah, não, nunca penso no gato, que gato?Afinal de contas, eu cuido dele. Enquanto sozinha, as vezes embriagada, as vezes quando durmo na cama de outra pessoa, de fato penso no gato. Aliás, como não pensar no gato se ele está sempre ali, parado, me olhando, andando pela casa? Chego do trabalho, cansada, deito na cama sem nem escovar os dentes e puf, o gato pula em cima de mim ronronando, me tirando o sono completamente.

      E, bom, você sabe como são os gatos, especialmente este. Calado, esquivo, aqueles olhinhos amendoados e hipnotizantes só me esperando fazer algo, esperando eu me deslocar para acaricia-lo, só para depois fugir graciosamente do toque das minhas mãos. E eu aqui, esperando por ele também, esperando pelo toque suave das patinhas em cima das minhas costas quando ele decide subitamente dormir comigo numa noite fresca de primavera.

      Não consigo me decidir, de maneira alguma, (apesar de talvez já estar decidida em cuidar dele desde o primeiro momento no qual o avistei) se devo continuar a alimentá-lo ou se devo mandá-lo as favas de uma vez por todas.

      Quando compartilho esse meu dilema com algumas pessoas, ouço as dizer que se você realmente fosse afeiçoado ao gato, se você realmente visse uma vantagem em manter o gato vivo, saudável e feliz, você buscaria o gato de vez em quando. Talvez não semana sim, semana não, como no nosso combinado ébrio e imprudente, mas só de vez em quando. Mas você não vem, então provavelmente é porque não quer de forma alguma vir. É isso que dizem e eu custo em acreditar porque realmente me afeiçoei ao gato. E eu digo ah, mas vejam, ele cria passarinhos em casa e talvez não seja sensato mesmo levar o gato para lá. São lindos os seus pássaros, você cuida muito bem deles e imagine a tragédia se o gato acabasse transformando algum em jantar. Você nunca se perdoaria, não é?

      Então prefiro acreditar que sua hesitação intermitente com o gato não seja pelo fato de não querer mais o gato de forma alguma, não seja pelo desespero em se livrar o mais rápido possível dele, seja apenas porque… Bom, claro, eu entendo, talvez já seja mais do que tarde para livrar-se dele, enfim.

      Mas sabe como é, que desperdício! Livrar-se dele agora é como… desistir, talvez? E você sabe dessa minha dificuldade egóica de desistir, eu sempre acredito na alcançabilidade das coisas, por mais ingratas as tentativas, por mais sem esperanças, é difícil demais, penoso demais, apenas abandonar uma tarefa, um objetivo, um… um gato!

      Não é sempre que se encontra um gato como esses, você sabe. Um gato não simplesmente encontrado, mas que encontramos. Ainda mais eu! Sempre estranhei gatos, nunca me achei capaz de gostar desse tipo de bicho.

      Entretanto, talvez seja tempo, talvez seja tarde, talvez seja imprescindível que eu abandone o gato mesmo não querendo em absoluto.

      Já me alonguei demais, peço desculpas pela carta, pelo incômodo e, enfim, pelo gato. Termino quase com uma súplica: por favor, não me obrigue a me livrar dele. Entendo a racionalidade em fazer isso, mas acredito na possibilidade de abrir mão da racionalidade eventualmente porque nunca se sabe, não é? Gatos são comportados, não dão tanto trabalho. Comida, água e pequenos agrados são o suficiente para deixá-los vivos e felizes por longos anos, sem de fato incomodar ninguém. Posso cuidar dele enquanto isso, enquanto você não achar prudente exercitar a guarda compartilhada e, se não for demais, passe de vez em quando aqui em casa para acariciá-lo, ele não vai te ferir e, sabe, ele sente sua falta.

Com amor,

Berenice.

PS: Planejei abandoná-lo naquela encruzilhada perto da casa da sua tia, no feriado de finados, na esperança de que alguém o encontre e cuide bem dele. Caso você ache desnecessário essa minha atitude desesperada, por favor entre em contato.

Duas e meia

São Paulo, 14 de setembro de 2017

      Os pássaros na sua janela começam a cantar as duas e meia e em breve nos despediremos novamente.

      Infinitas despedidas e re-despedidas.

      Já fazem horas que estamos assim, você dormindo ao meu lado e eu acordada ao seu. Eu e os pássaros. Reconheço o passar das horas pelo alternar da luz, pela queda da temperatura, pela chegada deles sempre depois das duas.

Sabemos, contudo: nada bom acontece depois das duas.

      Estão insones, desesperados. Percebem as horas escorrendo e se empoleiram nas árvores na esperança de parar o tempo, congelar aquela cena, tornar a madrugada infindável, fugir da saudade.

      Eu sei que quando você for embora o tempo vai parar. As horas vão se arrastar, tropeçar umas nas outras e quando me der conta já teremos nos despedido há meses. Mas não me importo. Vou observar você caminhando pela rua, cada vez mais distante e me lembrar de todas as vezes nas quais assisti a esse nosso filme.

      Não. Me perdoe. Meu filme.

      Você vai me perguntar algo importante e eu vou te dizer que não sei e eventualmente não nos perguntaremos mais nada.

      Nunca quero te ver partir. Poderia dizer que preciso que você fique, mas isso não é verdade. Por algum tempo eu sentia como se perdesse algo toda vez que você descia a rua em direção ao ponto de ônibus, mas isso não é verdade. Não há nada a ser perdido por aqui e quando finalmente você vai, já não faz sentido não querer sua ausência.

      Cinematográfico.

      Te ouço dizer coisas que parecem roteirizadas, programadas, ensaiadas. Nossos movimentos parecem sincronizados como se você fosse meu parceiro de dança há anos, mas mal nos conhecemos e eu nunca sei o que eu estou fazendo. Você age como se soubesse, e eu acredito. Mas tudo são mentiras: as que você conta para mim ou pra você mesmo, as que eu conto para você ou para mim mesma. Sei que há algumas verdades intrusas no meio da nossa encenação, mas não me incomodo.

      E o espetáculo continua, ele é irresistível, os críticos estão em êxtase, mas é uma farsa e já não sei se quero assistir a próxima apresentação. Mas quero, eu sempre quero, quero tudo ou qualquer coisa, qualquer coisa ou nada. Indiferença e desejo paroxísticos. A resposta acaba sendo sim, vai sempre ser sim até não ser mais, me enroscando em algo que não pode ser, algo que não quero de verdade, me enrolando nesses abraços infinitamente longos ou absurdamente curtos.

      Então nos despedimos novamente e dessa vez estamos sorrindo. A maré está baixa, já não importa mais se é breve ou brava. Não sei para onde você vai e você não faz ideia do meu itinerário, mas tudo bem.

Me perdoe, mas não sei como termina essa história.

Você se importa?

Epitáfio

São Paulo, 28 de agosto de 2017

      Essa noite sonhei contigo. Chovia muito e o vento batia nas janelas fazendo aquele barulho fantasmagórico que costumava me assustar quando eu era criança. Não sei bem onde estávamos, nem como fomos parar naquele lugar. Não era meu quarto, nem o seu, nem de ninguém conhecido. Sabe, talvez tenha sido mais pesadelo que sonho.

      Não sei porque estávamos juntos. Transtornada, confusa, eu te questionava por que você tá fazendo isso? mas você não respondia, você nunca reponde. Levava a mão em direção ao meu rosto, pegava meu queixo e me beijava. Me beijava de novo e de novo e de novo até o momento no qual você decidia partir. Eu te perguntava, que horas você volta? Às vinte, você dizia.
Acordo com vontade de te ver. Uma vontade moribunda, caquética, neoplásica, porque isso tudo não passa de uma doença infecciosa, dessas desagradáveis que nos deixam inertes, consumidos, incapazes. Ah, eu sinto muito a sua falta. Te guardo em uma caixa de chumbo, sabe? Enterrei o mais profundo possível, tentando desesperadamente fugir da sua radiotividade, mas de noite quando fecho os olhos ainda consigo ver o brilho do césio-137 no chão, debaixo das tábuas de madeira, debaixo dos infinitos palmos de terra. E sinto a sua falta. Ainda consigo sentir o gosto do seu veneno na minha boca, o cheiro da morte no ar, a morte que vem mas não vem de verdade, nunca vem. Eu continuo viva, andando por ai, em um labirinto de amantes aleatórios que uso displicente na tentativa de saciar meu desejos fúteis.

      Posso dormir mais algumas horas. Amanhã é domingo, ninguém acordou ainda nessa casa, justo hoje que não consigo dormir mais, aterrorizada pela ideia de fechar meus olhos e encontrar seu rosto adorável cheio de sardas.

      Adormeço novamente e dessa vez é um daqueles sonhos em que preciso fazer algo e não consigo. Já te contei sobre um desses, lembra? Eu precisava andar rápido e não conseguia e não tínhamos tempo, não podiam com o meu passo lento, arrastado. Precisavam que eu fosse mais rápido. Você me disse que esse sonho tinha a ver com eu ter medo de não ter tempo, de eu querer que as coisas fossem rápidas. E ainda há tempo,você disse.

      Mas agora o tempo acabou, você percebe? Acabou. Não há mais nenhum segundo, nenhum minuto. O fim já veio e já foi, o último suspiro já veio e já foi. Estamos todos mortos no chão, cercados de cobras, feridas e sangue. Ninguém sobreviveu nessa catástrofe. Mas sinto a sua falta. A chuva ainda cai, a mesma tempestade do primeiro sonho e eu me rastejo pra longe de você, quero me manter o mais distante possível. Só que esse é um dos sonhos nos quais eu não consigo, como já disse. Então quanto mais eu me aperto contra o chão e finco mais minhas unhas no assoalho, na tentativa desesperada de criar impulso para me lançar longe disso tudo, menos força eu tenho. E sinto a sua falta.

      Deito na cama de alguém, em cima do peito de um missionário, de um psicótico, ouço ele falar por horas sobre algo que não me interessa e penso que finalmente acabou, finalmente foi embora. Finalmente.

      Mas não é verdade. Não acabou. Esse é o castigo. Essa é a morte que vem e em verdade não vem, que nunca vem. Esse é o preço. Continuar aqui sozinha, persistir contra minha própria vontade nesse caos particular. Me sentir absolutamente viva enquanto completamente morta.

Abro os olhos mais uma vez e suspiro.
Ah, eu sinto muito.
Eu sinto muito.

Helena

São Paulo, 25 de agosto de 2017

      Faziam três meses que não a via.

      A última vez tinha sido naquela galeria do centro que ela detesta. Observamos aqueles quadros sonsos por horas, concluímos que esse tipo de arte não era capaz de nos tocar, dividimos um cigarro e partimos cada um para um lado da cidade. Não soube precisar quando a veria novamente e nem sei dizer se queria vê-la de verdade. Mas como nada é simples nessa história, te digo que ela mora com meu melhor amigo, na rua do gasômetro, e toda vez que eu o visitava tinha de me preparar para a possibilidade de encontrar com ela.
A ideia de cruzar meus olhos com os dela, de observar as curvas dos músculos do pescoço subindo até seu queixo, de ouvir aquela voz arrastada e rouca…

      Me doía o coração, sabe? Ah, como doía.

      As semanas foram passando e nossos possíveis encontros se tornaram desencontros. Não a vi mais, em nenhuma de minhas visitas ao meu amigo, em nenhum mercado, farmácia, ponto de ônibus ou qualquer coisa parecida. Era como se ela nunca tivesse existido, como se nunca tivessemos nos conhecido. Eu não fazia perguntas sobre ela, não procurava sinais dela em lugar nenhum. Dentro de mim eu sabia que o melhor era de fato me convencer da inexistência absoluta e irrefutável daquela mulher. Então eu não perguntava, não pensava, não lembrava.

      Ela também não me procurou. Imagino que tenha sido um alívio não precisar conversar mais comigo, responder minhas mensagens de bom dia e boa noite , a única comunicação mantida entre nós depois do dia da galeria. Isso se considerarmos esse envio unilateral como uma conversa. Na verdade, está mais para um monólogo educado de cumprimentos.
Um dia desses acordei transtornado de um sonho e resolvi confrontá-la. Disse a ela que não suportava isso, as ausências, os joguinhos, fingir que não me importava, fingir que não gostaria da presença dela em minha casa todos os finais de semana, fingir que não queria construir uma vidinha com ela, enfim. E disse que se antes não sabia o que queria agora eu sabia o que precisava e a questão era: ela me fazia mal. Me corroía por dentro, me envenenava lentamente, me sufocava, sugava, consumia… Então de nada me servia querer estar com ela se ela não me queria e, ainda ou pior, de nada me servia esse desejo se ele me matava aos poucos.

      Ela nunca me respondeu.

      É difícil, né? As despedidas. Nos despedimos tantas vezes, eu e ela. Em cartas, telefonemas, mensagens, encontros. Nos despedimos inúmeras vezes. Ou, melhor dizendo, eu me despedi inúmeras vezes. Deitado em minha cama, ou na cama de alguém, seja sozinho, seja acompanhado, fechava meus olhos e conseguia imaginar perfeitamente seus cabelos negros muito bem cortados empoleirados em sua cabeça.

      Me despedi quando percebi que nunca seríamos nada. Me despedi quando meu amor se tornou ódio. Me despedi quando o ódio virou saudade. Me despedi quando cansei de sentir saudades sozinho. Me despedi quando percebi que precisava deixá-la partir de dentro de mim, porque da minha vida ela já havia partido faz tempo.

      É duro quando você é o último que resta. É duro partir. É duro desistir. É tudo muito difícil, penoso, pesado. Sem sentido, confuso. É irritante até, se perceber se despedindo novamente.

      Percebo, entretanto, mais uma vez.
      Seus olhos nunca estarão nos meus.
      Sua pele nunca mais encostará na minha.
      Sua mão gelada nunca mais vai se esquentar em mim.

Gostaria de dizer até logo, mas não seria apropriado.
Então, adeus.

Esquema de pirâmide

São Paulo, 14 de agosto de 2017

      Cheguei em casa morrendo de vontade de acender um cigarro, pensando no gudang guardado na minha caixa de madeira. Mas é claro que não ia poder fumar, nunca posso, não em casa pelo menos.

      Então me sentei na frente do computador e resolvi escrever um conto, uma releitura de algo que li há tempos. Achei que iria me fazer bem, como um treinamento: escrever do ponto de vista de alguém que não conheço, um ser mitológico criado pelas minhas loucuras, inseguranças, expectativas. Colocar essa criatura no papel, dar alguma forma a ela, fingir ter acesso aos seus sentimentos e pensamentos. Isso já me deu algum tipo de paz cínica no passado e achei que esse seria o melhor jeito de terminar a semana.

      Aliás, que semana.

      Não sei se rio, se choro… Na verdade já ri, já chorei, já fumei alguns cigarros, já tentei transformar em conto, poema, mas nada foi pra frente. A verdade é que comecei a semana pensando em um alguém reminiscente e termino a semana do mesmo jeito.

      O curioso é: depois de ter escrito a tal releitura não me senti melhor não. Me senti incompleta, anestesiada, artificial. O meu conto ficou sem fim, assim como o original, porque não sei como terminá-lo. Então aceitei passivamente o não-final horroroso, salvei nos meus rascunhos (sinto que preciso de algum tipo de autorização para dar algum fim a ele e infelizmente — ou felizmente — o autor original encontra-se, de uma forma ou de outra, indisponível para mim) e fui pegar o gudang dentro da caixa.

      O cheiro de cravo me atingiu instantaneamente e a vontade de fumar se transformou em uma náusea muito intensa. Logo desisto do plano de fumar antes da aula na segunda feira, aliás, desisti de fumar qualquer coisa, porque o cheiro de repente é tão horrível que não entendo esse hábito, não entendo essa loucura, não vejo sentido em absolutamente nada disso. Nada faz sentido, puta que pariu, como é possível nada mais fazer sentido nenhum? Mas é isso, né. Esse conto, essa releitura, você, ele, nós, ela, o cigarro, a semana, o esquema de pirâmide evangélico, o vênus em escorpião… Tudo isso me deixa muito nauseada.

      Me enjoa o medo de parar de escrever quando tudo isso acabar, quando a indiferença finalmente se mudar para o quarto de cima. Paradoxalmente me enjoa a demora pra chegada da indiferença. Me enjoa pensar que o momento mais em paz da semana foi com uma pessoa absurda, e, acima de tudo, alguém que eu já descartei. Me enjoa ver o relógio do celular piscando uma hora da manhã e saber que a segunda feira vai ser insuportável porque eu prometi pra mim mesma que dormiria cedo e cá estou, insone. Me enjoa o meu excesso de orações subordinadas. Tudo isso me enjoa.

      A náusea é a única coisa que me resta. É a sensação que acompanha toda essa história, todo o contexto, todos os efeitos colaterais, toda dose de resgate.
Me desculpe, porque outra vez escrevo um texto sem fim, outra história sem história, sem personagem, sem nada. Outra baboseira ficcional, ou não ficcional, auto biográfica ou não auto biográfica, o que importa?

      No fundo só depende de quem lê.

      No fundo a intenção por trás da narrativa não interessa.

      Pego meu celular e mando uma mensagem: amanhã te conto se fumei o gudang ou não.

Lucky Strike Vermelho

São Paulo, 13 de julho de 2017

      Caminhávamos em silêncio. Você jogou o fim do seu cigarro ainda acesso no chão, a fumaça criando espirais no ar, subindo, subindo até o interior do meu cérebro, incitando meu ódio por você. Hoje quando nos cumprimentamos senti pela primeira vez o cheiro do cigarro nas suas roupas. Engraçado como minha tristeza se torna raiva e minha raiva se torna tristeza muito rapidamente. É fácil te odiar (ou devia ser). Sua cara de idiota, sua barba por fazer, seu Lucky Strike vermelho para completar o clichê que você é, que eu sou, que fomos.

      Passamos em frente a um desses caras malucos, desses que vagam eternamente pelas ruas quebrando silêncios desagradáveis entre não-amantes. “Muitos passam, mas poucos sobreviverão”, ouvi ele gritar. Quão pertinente.
      Dei uma risada engasgada, rouca e antes que eu pudesse evitar, senti as lágrimas descendo pelo meu rosto. Tentei limpá-las sem que você percebesse, num gesto automático desenvolvido especialmente para você, porque eu sei o quanto te incomoda me ver chorar.
      Você acendeu o seu segundo cigarro seguido, o cheiro enjoativo me atingindo como um soco, e na tristeza súbita, não me contive:

– Você me quebrou.

      Esperei sua resposta, mas ela não veio.

– Ou eu me quebrei, ou os dois…

      Senti sua mão no meu ombro, me interrompendo, num gesto delicado e desconectado das palavras que viriam a seguir.

– Isso não é coisa que se diga.

– Eu sei que não.

      Pensei nas mentiras que contamos para nós mesmos, repetidas vezes, como um mantra, todos os dias, até se tornarem reais. Pensei nos meus rascunhos de memórias repletos das groselhas que você me contou, das palavras doces que ouvi de você. Pensei em como bloqueio essas lembranças, porque sei que elas já não têm nenhum propósito a não ser incomodar. Preciso esquecê-las, enterrá-las, para que eu possa seguir em frente com os planos que tinha antes disso tudo.

– Eu sei que não, — repeti, incapaz de parar o mar de lágrimas e palavras desprendendo de mim — peço desculpas.

– Imagina como é difícil ouvir que você é a causa do sofrimento de alguém.

– É, imagina… Talvez seja o caso de ocultar o sujeito da ação, então?

– Não, não é isso. Só não diga nada, não fale a respeito dos seus sentimentos. Não há nada que eu possa fazer, então cale-se. Chega disso, acaba com isso, pelo amor de Deus, porque eu não suporto mais essas despedidas e re-despedidas.

– Tudo bem, eu vou. Somos adultos aqui, sabemos que esse jogo de culpa não leva a lugar nenhum. Sabemos que não vamos a lugar nenhum. Mas peço desculpas, porque olhando na minha cara você sabe, eles sabem, todo mundo sabe. Infelizmente algumas pessoas são… transparentes.

      Você não me respondeu. Não me olhou nos olhos. Olhava para baixo, para o chão, ou para algum lugar perdido dentro de você mesmo, inalcançável por mim. Limpei minhas lágrimas, inutilmente, porque várias outras insistiam em vir. Então, continuei:

– O silêncio é a melhor forma de lidar com isso, eu sei, eu sei. Sorrir em silêncio, um sorriso convincente. Dentes brancos que gritam “estou bem, estamos bem, está tudo bem”. É o único jeito de coexistirmos civilizadamente. Fingir que nada aconteceu, fingir que foi tudo um sonho. Eu consigo, sei que consigo… Só que hoje eu não consegui. Foi demais. Alguma coisa foi demais.E então, você estourou. Finalmente, pensei comigo mesma.

– Para com essa palhaçada. Para com esse choro ridículo. O que inferno você quer que eu faça? Eu não posso fazer nada. Não sei o que você quer de mim. Que porra que você quer de mim?

      Olhei nos seus olhos, na altura dos meus, nossos poucos centímetros de diferença de altura parecendo um abismo de distância. De novo eu nessa posição, de estar sofrendo por você, de não conseguir seguir em frente. Eu achei que tivesse superado, que tinha ido embora, mas volta toda vez, como ondas de um mar cruel e insaciável. Quando a maré recua, sou sugada para dentro, penso por um segundo que conseguirei nadar, sobreviver, mas logo a onda retorna, violenta, me cuspindo para fora, me fazendo engolir a água salgada, me afogando no monte de decisões imbecis que tomei depois de você, me afogando na lembrança dos pedaços do meu corpo indo embora do meu porto seguro e indo em direção ao mar. Quando vi, já tinha ido inteira e não havia para onde voltar. Não que eu quisesse voltar, pudesse voltar, mas mesmo assim. O sal arde nas minhas narinas, me lembrando o quanto essa saudade do porto seguro é estúpida. Talvez tenha sido isso. Esses dias essa saudade bateu e meu cérebro confunde os sentimentos, me jogando de volta para você.

– Eu tô testando sua paciência, eu sei. Não é proposital. Toda noite eu tento assassinar essa parte insuportável de mim, que não deixa estar, essa parte que continua. Tento sufocar com o travesseiro, envenenar com cianureto, jogar do terceiro andar do prédio… Mas ela volta, ela sempre volta, quando eu menos espero, quando eu acho que já morreu. Vai passar, vai passar, eles dizem. E vai mesmo, eu sei que vai. Em algum momento eu vou poder olhar para você e não sentir mais nada.

– E enquanto isso, o que? Você quer que eu me sinta um lixo? Que eu chore como você, sinta como você? Eu não posso fazer isso. Se eu te disser que me sinto como você eu vou estar mentindo e você sabe muito bem disso.

      Seu rosto era inexpressivo durante todo vômito de palavras que se seguia. O olhar vazio, que eu não sei decifrar. Talvez não saiba decifrar porque não há nada ali. Todas as vezes que houve, eu entendi. Então é sábio supor que quando não te entendo é porque não há nada para entender. Não há nenhum sentimento. Olhos negros e buracos vazios.

– Às vezes eu quero sim que você sofra. Queria ser capaz de te fazer sofrer. Queria ser capaz de fazer você sentir saudades… Sentir alguma coisa, qualquer coisa. Mas é ilusão, eu não sou capaz, ninguém é. Essa é uma egomania que eu não sei de onde vem. Ou queria ser capaz de voltar no tempo, de reviver o que já foi. Mas, de novo, isso não é possível. Então quero não sentir mais, não me importar mais. Quero que você volte a ser o estranho que você era, mas sem o peso das memórias de quando você não foi. Eu engulo um inibidor seletivo de hipocampo todos os dias pela manhã. E você, o que você engole de manhã?
      Nossa caminhada chega ao fim. Estamos na frente do ponto de ônibus e você ainda tem que seguir andando mais alguns minutos. Você põe sua mão cálida no meu rosto e eu coloco a minha mão fria no seu. Cômico como nossas mãos são a perfeita antítese do seu coração gelado e do meu peito quente.

– Me desculpe — você sussurra, num tom de voz doce. Agora vejo dentro do buraco negro que você chama de olhos algo como pena, dó, talvez culpa, mas nenhum desses sentimentos me satisfaz.

      Eu balanço minha cabeça.

– Estou indo embora agora. Você já foi, só me resta eu, então estou indo. 
      Nos despedimos sem nos abraçar. ­

Forró

Niterói, 6 de julho de 2017

      Terminei meu cigarro pensando em você. Pensando em como eu fumo e você não. Pensando na fumaça impregnada no meu corpo. Estranho como gruda em mim e não em você. Tomo três banhos seguidos, um de banheira e duas duchas. Meu cabelo ainda fede aquela fumaça indistinta que eu odeio tanto. Odeio, mas fumo. Não sei porque eu comecei isso tudo. O cigarro. Escrever sem personagens. O personagem é sempre você, mas nunca é você, porque eu não faço ideia de quem você seja. Repetições de palavras, de pronomes, de temas, voltando a esse escrever estúpido sem sentido, sem narrativa, como um desabafo aleatório criado a partir da minha náusea física e mental. O cigarro é pra terminar de destruir, quebrar o que foi por tantos anos, porque quando eu botei o meu primeiro cigarro na boca naquela bar esquisito em santa cecília eu juro que eu não sei quem eu sou. Ah, meu deus, que náusea, que náusea. Eu sei que não vou vomitar, que vai passar, sumir. Descer. A minha náusea sempre desce pro fundo do meu corpo. Quando ela vem, eu sempre temo vomitar tudo que eu já consumi na vida. Eu lembro de um história maluca de conto de fadas, um feitiço que fazia alguém malvado ao falar soltar sapos, serpentes e insetos enquanto alguém bonzinho quando falava soltava… borboletas? Poxa, borboletas são insetos também. Eu acho que as minhas histórias orbitam a sua volta porque você é a única pessoa que me viu parando de ser quem eu era e me tornando quem eu sou. Fui cem por cento sincera com você. Me despi pra você como nunca mais havia me despido pra ninguém. Ou talvez, não nunca mais, só nunca mesmo. Constantemente volto pra você, tentando entender quem eu sou agora. Mas a gente já se despediu, não vamos nos falar mais. Combinado tipicamente da eu do passado. Essa coisa de combinar, sabe? Eu e minhas regras. O estranho é que você que criou essa regra. Naquela tarde quente, quando você me ligou as dez e disse acho que devíamos não nos falar por uns dois meses… depois voltamos a nos falar de novo. Eu nem concordei nem discordei, nem sei mais o que eu disse também, mas já não queria falar com você, não queria já fazia semanas e falar depois de decidir que não queria mais foi desrealizante. Mas essa regra não fui eu que criei. Talvez eu não crie mais regras. Eu não sei mais quem eu sou e sinto que nunca soube quem você é. Nunca vou saber, porque não vamos nos falar mais. No fim você é só uma projeção minha e no fim é por isso que o tema sempre orbita a sua volta: Eu tô fingindo que isso é sobre você, sobre nós, mas no fundo é tudo sobre mim. Esse texto é uma cilada. Tudo isso foi, do começo ao fim. Primeiro você pensou que era sobre você, assim como eu pensei que era sobre mim, mas depois tudo fica nebuloso, tudo confuso, você não se encontra… Lê, re-lê e, indiscutivelmente não se encontra. É estranho ler uma carta achando que ela foi endereçada a você, quando na verdade nunca foi. Estranho perceber que enquanto conversávamos não conversávamos de fato. Será que estivemos na mesma conversa em algum momento? É uma cilada, tô te dizendo. Esse meu jeito displicente de escrever, como se conversasse com alguém. Não é sobre mim, não é sobre você, não é sobre nada. É ficção. Eu não fumo, você não fuma. Ou nós dois fumamos, mas o que importa? Eu não existo. Nem você. Acendo outro cigarro e me pergunto: “porra, quando vocês vão parar de achar que tudo que eu escrevo é auto-biográfico?”

Apartamento 71

São Paulo, 8 de junho de 2017

      Ficamos o caminho inteiro dentro do carro em completo silêncio. Esses silêncios incômodos, carregados de palavras não ditas, pensamentos que se acumulam mas que não se formam completamente e então não dizemos nada.

“Você gostou do jantar?”

      Ele responde que sim, que é sempre bom encontrar Roberto e Joana. Eu sorrio. É verdade, é sempre agradável jantar com eles. Sempre animados, aquele casal que faz mil planos, já tem viagem marcada pra daqui há meses… Talvez se casem ano que vem.

      Ele sorri de volta, um pouco melancólico. O elevador finalmente chega no nosso andar.

      Logo que entro já caminho até a geladeira para pegar o resto do vinho que deixamos aberto na quinta feira. Virou um hábito esquisito. Toda vez que a gente sai e volta nesse silêncio constrangedor eu bebo uma taça de vinho. Sento na poltrona, ligo qualquer coisa na televisão e bebo. Ele sempre vai pro quarto dormir. Nunca foi um animal noturno.

      Mas hoje não. Hoje ele para no meio da sala, olha pra mim e pergunta se eu não quero abrir uma garrafa nova, para bebermos juntos.

      Digo que tudo bem e pergunto qual ele prefere. Qualquer um, escolhe você. Ah não, você sabe que eu odeio escolher vinho. Ele revira os olhos e decide: aquele que minha mãe me deu de presente.

      Abrimos o vinho, bebemos sentados na poltrona, as mãos dele no meu colo. Arrisco olhar para ele. Ele me olha de volta, fazendo aquela cara triste, como se procurasse pedaços perdidos dentro de mim. Então eu dou a deixa.

“O que você tá pensando?”

“Nada”

“Você tá com aquela cara de que quer dizer alguma coisa mas não sabe como”

“Por que você sempre acha que eu não tô te dizendo alguma coisa?”

“Por causa dessa cara que você faz.”

      Ele suspira, cansado. Peço mais uma vez que ele diga o que está pensando. Ele tira a mão do meu colo e passa no meu cabelo.

“As vezes eu sinto que você não está aqui. Que uma parte de você foi embora. Não sei exatamente quando, mas foi.”

      Eu não respondo. As vezes é como se algo tivesse morrido dentro de mim algum tempo atrás, algo que ele tenta desesperadamente trazer de volta. Algo que, quando foi, levou um pedaço dele também.

      Ele suspira de novo.

“Me desculpa. Ver Roberto e Joana sempre me deixa assim. Eles tem esse jeito de destino que me incomoda”

      Eu dou uma risada e percebo que o relógio marca 2h. Me levanto da poltrona e peço que ele me siga até o quarto. Digo que nada de bom sai de conversas depois das duas da manhã. Ele sorri com a referência, porque só ele entenderia, e me acompanha.

      Na porta do quarto nos abraçamos. Ele sussurra um eu te amo no meu ouvido. sussurro de volta. Roubo um beijo dele e peço que mesmo quando eu for, que ele não me deixe ir. Mesmo quando eu for, fica. Sim, eu fico. Eu sempre fico. É, eu sei. Você fica porque você quer ficar e eu também. Você sempre fica e eu também.

Disque 192

São Paulo, 22 de junho de 2017

      O céu cinza derruba um chuvisco chato, desses que vão embora tão subitamente quanto chegam, voltando sob a constante ameaça de partir novamente. Deixa as roupas úmidas e o chão escorregadio mas não é de fato uma chuva. São dessas coisas estúpidas da vida: não fode e nem sai de cima, chove mas não molha. Só que molha, né. A verdade é que molha.

      Uma moça jururu acena para um táxi e entra rapidamente no veículo. Não sei se ela está verdadeiramente triste, mas a expressão melancólica em seu rosto me faz supor que sim. Seu longo noivado se desfez no último feriado e ela entra no carro se sentindo vagamente perdida na súbita solteirice, esperando que o GPS indique a melhor rota. Ou talvez só tenha perdido a hora para uma reunião importante. De todo modo, dentro de um táxi do outro lado da rua entrou uma moça jururu.

      Enquanto isso, a algumas muitas ruas de distância, Beatriz mastiga lentamente um pão francês com manteiga, apoiada na pia da cozinha do seu apartamento vazio. Seu gato está deitado preguiçosamente no sofá e ela engole o desjejum na esperança de se sentir um pouco menos vazia enquanto seu estômago se enche aos poucos depois de horas de sono mal dormidas. Beatriz não está solteira, como a moça-jururu. Está em um longo relacionamento, igualzinho ao recém-falecido noivado da moça-jururu, apesar deles não serem nem um pouco iguais.

      Há muitas palavras que se repetem dentro de um e de outro, assim como se repetem dentro de outros tantos, porém só há duas realmente importantes para o entendimento dessa história. A primeira é “longo” e a segunda não é de fato uma palavra, mas sim uma constatação: o noivado da moça-jururu terminou pelo mesmo motivo que o relacionamento de Beatriz continua. Você pode pensar ah, mas isso constitui um paradoxo e eu te respondo que não, não constitui, pois os seres humanos envolvidos nessa história são dramaticamente diferentes, ao mesmo tempo que, claro, são iguais. São diferentes porque alguns deles chovem e não molham, enquanto outros chovem e molham, mas são iguais porque no final todo mundo sai molhado.

      Em todo caso, Beatriz logo sai de casa, pois já passam das oito horas e ela não pode se atrasar para o trabalho. É uma pessoa responsável e dá cem por cento de si em todas as atividades remuneradas que exerce. Talvez só faça isso nos aspectos da vida que tangem a esfera pública. No que diz respeito a esfera privada, não posso dizer com certeza, porém em nome da literatura, suponho que Beatriz não é como o chuvisco: quando ela chove, ela molha.

      Ao entrar no elevador, encontra sua vizinha do andar de baixo, cujo nome não se recorda e não se importa de não recordar, pois nunca trocaram uma só palavra. Entretanto, se lembra do nome de seu marido, Bernardo. Infelizmente, Bernardo estará morto dentro de alguns dias e Beatriz só ficará sabendo disso dali há três meses.

      Diferente da esposa, Bernardo troca muitas palavras com Beatriz. Sempre no elevador e sempre as mesmas palavras. Como vai, querida? Uma pergunta que ela nunca responde com honestidade, afinal de contas é apenas uma conversa de elevador. Ao mesmo tempo que não é, pois esse hábito de não demonstrar a sinceridade dos sentimentos é uma característica de Beatriz. Em um dia ensolarado e terrivelmente quente, Bernardo a encontrou com os olhos vermelhos no hall do prédio e quis chamá-la para tomar um café, no qual a aconselharia a não guardar rancores por mais de três anos, pois a partir dessa data eles começavam a apodrecer dentro dos nossos intestinos e causavam diverticulite.

      Essa conversa, entretanto, nunca aconteceu. E agora não há de acontecer mais, pois dentro de alguns dias Bernardo estará morto. Morre de fato três dias depois, mas já começara a morrer logo depois da partida da mulher, pois tinha um aneurisma que explodiu enquanto dormia e só foi encontrado lá pelas oito da noite, quando a mulher chegou em casa depois do serviço. Quando ela voltou, era tarde demais.

      Há coisas assim na vida, que só descobrimos quando é tarde demais. Aneurismas cerebrais são assim, mas podem não ser, graças ao tomógrafo, aos cirurgiões e o número da emergência. Tragicamente, dessa vez foi tarde demais e nada pode ser feito a respeito disso.

      E esse relato que começou com o chuvisco às sete da manhã, se encaminha para uma história de partidas e morte. Bernardo partiu. O noivado da moça-jururu faleceu. E o relacionamento de Beatriz já começou morrendo e continua morrendo até hoje, até que algo seja feito a respeito, antes que seja tarde demais. Para Bernardo não houve possibilidade de nada ser feito, até que fosse tarde demais, pois algum filho da puta responsável pelo roteiro do universo quis que ele estivesse sozinho em seu apartamento. Em relação ao noivado da moça-jururu pode-se dizer que morreu de velhice e, nesses casos, felizmente ou infelizmente, nunca ninguém se pergunta quando ficou tarde demais.

      Entretanto, essa história não é sobre eles. É sobre Beatriz, que seguirá normalmente com a sua vida, assim como já faz há alguns anos, acreditando (mas não acreditando de fato) que seu relacionamento irá sobreviver (diferente de Bernardo e do noivado da moça-jururu), pois ela acredita ter discado o número da emergência, acredita que o resgate está a caminho e chegará de fato antes que seja tarde demais.

      Quando Beatriz estaciona o carro na garagem do escritório onde trabalha, ela torce para que o chuvisco acabe e que o resgate chegue. E para fins literários, te digo que o chuvisco acaba. Não sei dizer se chega a virar chuva ou não e também não faço suposições, porque elas já não me interessam.

      E o resgate? Ah, o resgate chega. Só que essa é uma história de mortes e partidas, você queira ou não, então o resgate chega sim, porque ele sempre chega, mas parte com um morto. Resta saber quem sobrevive. Eu, cinicamente, torço por Beatriz.

Marchinha na Santa Cecília

São Paulo, 3 de junho de 2017.

     Sentada no sofá, com meu gato no colo, ouço as taças dentro do armário da cozinha tremendo de leve. O chão e as paredes começam a vibrar sutilmente. Olho para o gato e ele me olha de volta. Sustentamos o olhar por poucos segundos. Ele está pronto para partir e quer que eu me junte a ele. Ele se levanta, se esfrega no meu peito, ronrona baixinho e me olha novamente. Balanço minha a minha cabeça. “Não. Eu não vou com você. Vou ficar aqui. Eu quero ver chegando.” Ele salta do meu colo.

     É um terremoto.

     Ou um incêndio. Ou talvez os dois.

     Um inevitável desastre qualquer, desses que a gente sabe que vai acontecer, mas que não sabe muito quando, muito como. No fundo acredita que é só uma sensação ruim, que não é real, que vai passar.

     E então, ele vem. Passa por mim derrubando todos os livros da estante que estavam organizados em ordem alfabética. Arrastando pra fora do meu quarto minhas meias separadas por cor. Rasgando os retratos bem pendurados, abrindo as tampas de caixas muito bem lacradas e esquecidas.

     Minhas roupas pegam fogo. E eu sentada. Vendo queimar. Imóvel. Paralisada.

     O fogo vai subindo, se aproximando. Meus pelos do corpo se arrepiam, meu coração começa a bater mais rápido. Abro a boca arfando por ar, mas não me movo.

     Espero o que quer que seja isso me atingir em cheio. Me derreter, me quebrar, me consumir. Meu peito se encheu de gritos insaciáveis de loucura, meu corpo se contorcendo, doente de um desejo irreconhecível. Envenenada com o desejo suicida de ver o que vai acontecer depois. Sinto mãos passando pelo meu corpo, pelo meu rosto, param no meu pescoço e apertam o suficiente pra eu sentir, mas não o necessário pra me matar. Sinto um sopro suave na minha pele, o ar quente vai se enrolando em volta de mim e me abraça, aconchegante. Me seduz. Ele quer que eu entre nele, mergulhe no abismo que se abriu no assoalho de madeira na minha frente. Ele não. Não é o vento, sou eu. Eu quero pular, me jogar. Algo dentro de mim grita, grita desesperadamente, suplica que eu me atire, faminto da sensação do vento gelado riscando seu rosto numa queda livre que parece interminável até você finalmente sentir seu corpo espatifar no chão.

     Então eu pulo.

     Eu pulo e dentro de mim algo explode, uma sensação inexplicável, euforia doentia, implacável. Sinto minha pele rasgar suavemente conforme me entrego. Sinto meu corpo tremer inteiro, possuído de desejo. Minha mente descolada do corpo. Dentro de mim o grito foi substituído por um gemido baixinho, de culpa, de medo, de prazer. Dentro de mim já não sei mais o que eu sou, virei um bicho.

     Observo o chão se aproximando cada vez mais rápido. Nas paredes eu vejo alguns galhos, poderia me segurar antes do impacto final, mas já não penso mais, não faço nada além de sentir o prazer de estar totalmente fora de controle.

     Quando encontro o chão, o impacto me congela. Sinto meu corpo físico se juntar novamente só para esfarelar logo em seguida. Vou virando pó aos poucos, ao mesmo tempo que percebo que meus pulmões foram totalmente destruídos na queda, então já não respiro mais. O ar entra pelo meu nariz e sai por um buraco no meio do meu estômago, arrastando todos os meus órgãos para fora, me deixando cada vez mais vazia, vazia, vazia…

     Quando sinto que só a carcaça sobrou e não posso mais suportar, meu corpo aos poucos vai se fundindo no chão. Agora eu sou algo não humano. Energia.

     Abro os olhos. Algum alarme de carro toca distante na rua. É isso que me acordou. Lembro do sonho que tive. Sinto uma dor absurda no peito, uma angústia me sobe pela garganta, tenho vontade de me arrancar de dentro de mim mesma. As lágrimas vem, engasgadas, sufocadas. Não são completas, nunca são. A dor vem em ondas.

     São 6h34 da manhã. Fecho os olhos novamente e torço para parar de sonhar.

"Não desabafos, mas outras coisas"

São Paulo, 17 de abril de 2017

Sentada na beirada da sua cama, ouço suas músicas favoritas tocando baixinho, como cúmplices da nossa tragédia futura. A luz está apagada, a janela aberta e a luz do sol se pondo enche timidamente seu quarto, criando uma iluminação quase melancólica.
Você está parado na porta, a mão apoiada no batente, suas sobrancelhas quase arqueadas, numa expressão que eu não sei bem o que significa. Seus olhos cruzam com os meus, e então compreendo. É como se perguntasse: é isso mesmo que você quer?
Sabemos como viemos parar aqui. Quer dizer, talvez você não saiba, porque me convidou para me mostrar qualquer bosta no seu quarto, não é? Mas eu sei. Sei e, por um momento, analisando o jeito que você me olha, não acredito na sua inocência em me trazer aqui.
Finalmente entra e fecha a porta atrás de si.
Eu quero acreditar que você me chamou aqui sabendo o que eu realmente quero. Tocar você, sentir seu cheiro misturado no meu cheiro, sentir seu corpo encostar no meu, ignorando um suspiro de culpa que eu deixo escapar enquanto seus lábios ficam cada vez mais perto dos meus, enquanto as coisas vão acontecendo rápido demais para que sejam interrompidas.
Por um instante, temo que isso seja verdade, porque se for, está feito. Eu não tenho forças suficientes para parar essa loucura aguda que me atingiu desde que te conheci. Não tenho.
Mas é claro que uma parte de mim está extasiada com essa possibilidade e ela teme que isso seja mais uma das minhas fantasias absurdas, mais um dos meu quase-delírios porque obviamente você só me chamou lá pra me mostrar um retrato, um desenho, um sei lá o que. Inocente.
Você sabe, não sabe? Sabe que eu não quero ser só sua amiga. Você sabe que eu quero entrar nessa espiral de insanidade com você, ignorar todas as minhas responsabilidades com ele, ignorar todas as promessas que eu fiz pra ele. Nós conversamos sobre isso antes, sobre como eu estou confusa. Você sabe.
De repente, não consigo mais analisar todas as consequências que antes se acumulavam na minha cabeça. Pra você é só um jogo, não é? Amanhã você acorda livre. Ninguém é testemunha, não há ninguém pra prestar contas, nem mesmo pra você mesmo, porque afinal, o que eu sou pra você? Não há consequências pra você.
Você se vira de costas, pega um livro na estante. Ah, era isso que você queria me mostrar, um livro. Uma recomendação de leitura inofensiva. Você anda ao meu encontro, segurando frouxamente o livro, até que o deposita suavemente ao meu lado, na cama, ao mesmo tempo que se senta na minha frente.
Percebo que faz alguns minutos que você não fala nada, nem eu. Esquadrinho seu rosto, até finalmente descansar meu olhar no canto do seu lábio inferior, onde você tem uma pinta quase imperceptível. Impulsivamente, encosto minha cabeça no seu ombro. Você hesita.
Nesse nanossegundo, todo arrependimento que vinha se acumulando por ter ido ao seu encontro parece que vai me consumir instantaneamente. Fazia tanto tempo que nós não nos víamos. Não tinha nenhum motivo pros nossos caminhos se cruzarem novamente, não desse jeitoalém do meu desejo desesperado de viver algo com você antes que fosse tarde demais.
Mas você finalmente me abraça, um pouco desajeitado pela nossa disposição estranha na beirada da cama.
Ficamos assim por alguns segundos, que parecem ser exaustivamente longos, até que você se afasta.
Não consigo mais olhar nos seus olhos.
Você passa a mão no meu cabelo, delicadamente elevando meu rosto para que nossos olhares se cruzem novamente.
– É isso mesmo que você quer?
Faço um movimento afirmativo com a cabeça. Você me beija. Já não estamos mais sentados. Fecho os olhos e sinto você pressionar seu corpo contra o meu.