one morning this sadness will fossilize and I will forget how to cry

a chuva é grossa e leva um pedaço da minha maquiagem junto com ela, mas não se preocupe, caro leitor: essa não é mais uma daquelas cenas nas quais a protagonista chora embaixo das gotas potentes e geladas de uma chuva de verão.
bocas que não se encostam e batons intactos, nunca houve um pacto mas o silêncio se esconde entre as risadas e todos (ou quase todos) sabem: a ironia pode ser imperdível, mas qualquer sofrimento é proibido, meu bem.

há uma criatura amarga e sem nome dentro dos nossos estômagos
um vazio de sentidos e palavras, uma serpente pronta para se enrolar em nossos esôfagos
há tempos ela dorme serena ao som do ruído branco que preenche nossas mentes entorpecidas
o chiado engole tudo e finalmente (finalmente!) não nos escutamos.

os ladrilhos portugueses na rua brilham nos meus olhos enquanto uma andorinha paira nos teus;
o veneno ainda existe e corre nas nossas veias mas tudo que poderia ser dito se foi, exaustivamente consumido pelo fogo como cortinas de poliéster num incêndio;
as cartas antigas estão enfiadas em gavetas lotadas, envelhecidas pelo tempo, suas letras desbotam e desaparecem com o passar dos anos;
contos, peças e poemas foram rasgados e triturados; eram inúteis como o roteiro de um filme que nunca teve segunda parte.

a nós resta aposentar a escrita, diminuir o cigarro e mantermos os lábios esticados em sorrisos fixos: agora temos tudo e nunca fomos tão felizes.

Domingo, 26 de Julho de 2020

meu gozo.
o hálito quente saindo da tua boca semicerrada lambendo as minhas costas.
meu corpo estremece pensando nele do outro lado da linha,
a estática tocando no fundo dos meus ouvidos,
como se houvessem abandonado o telefone fora do gancho para que ele não tocasse mais

o prédio comercial daqui da frente
(esse com a fachada cheia de palmeiras)
me lembra algum tipo de Rio de Janeiro
mas é só a 23 de maio vazia
e o cheiro do vapor do café passado.
a gata em cima do móvel
e eu nua na tua frente.
você desliza a mão na minha pele macia e se demora na minha cintura
a estática continua:
a quarentena engole as pessoas, meu amor

on brûlera toutes les deux en enfer mon ange

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dizem por aí que não posso mais te ver, querido.
justo agora que a necessidade de nos encontrarmos é inadiável
justo quando a chegada do himeneu é iminente.

precisamos rasgar as nossas cartas:
eu as tuas e tu as minhas.

queimar nossas fotos
quebrar nossos pertences.

já não posso mais ler tuas palavras.
as últimas estão em cima da mesa há semanas
o pó se acumulando ao redor
uma mancha de café dando mais drama à cena.

deixe no fundo do rio, eles disseram. 
ou então as jogue daquele viaduto que passa em cima do vale do Anhangabaú.
o lugar das poetisas filhas da puta, das amantes e das vadias sujas.
o lugar dos poetas canalhas, dos cafajestes, dos homens infiéis.

nossos corpos mortos espatifados na calçada, tecido cerebral espirrando nos pedestres desgraçados.
intestinos arrebentados e expostos para dar de comida aos cães.

uma oportunidade perfeita, eles disseram.
única: um programa de demissão voluntária.

que petulância a minha imaginar que poderíamos conversar, beber, existir.
que ousadia a minha beijar a boca dele enquanto ainda escrevo para ti.
que ousadia a tua beijar a boca dela enquanto ainda escreve para mim.
como são tóxicas as nossas palavras. nossas cartas, nossos poemas.
terríveis, fatais.

a letra escarlate brilha nas nossas peles nuas, marcadas a ferro, para que assim seja definido o que realmente somos.
para eternizar nossos pecados.

ainda tenho muito carinho por ti, querido
sabes bem que fora ele nunca tive muito mais que isso. 

e agora,
inevitavelmente,
nem nossa saudade me pertence mais.

um poema é um poema e uma carta é uma carta

eles gostam de dizer: não se apaixone por poetas
eu sempre me perguntei se era porque inevitavelmente todos seriam canalhas

ninguém diz: não se aproxime das poetisas
mas talvez devessem
porque eu sempre me perguntei se inevitavelmente todas seriam depressivas e filhas da puta

não entendo minhas músicas
nunca ouvi leonard cohen
não sei o que querem dizer tuas estrofes
e muito menos sei o que quero com as minhas

talvez seja prudente estar longe dos poetas e poetisas pois não sabem o que dizem, não sabem o que escrevem. mas já não podemos escapar de nós mesmos, podemos?

é uma pena que você não consiga sentir muita coisa.
é uma lástima até,
porque eu sinto muito tudo.

muito
e tudo.

mas ultimamente me parece que sentir tudo é como não sentir nada.

e afinal, quantas informações devem ser trocadas do teu desviar de olhares?
(não, eu não te desculpo)

quantas informações devem ser tiradas de uma mulher amarga sozinha na porta?
(não, eu não me desculpo)

quantas informações devem ser tiradas de poemas escusos escritos na calada da noite?
(não, ele provavelmente não me desculparia)

amarelo é a única coisa que surge na minha mente para responder tudo isso, mas talvez seja arrogância demais reduzir tudo a uma cor enjoada como essa

eu também esperava que você se tornasse insignificante até desaparecer.
mas você continua por aqui, por ai, nos meus pesadelos, me fazendo acordar às cinco da manhã na minha folga para escrever um poema “on demand”

já não podemos dizer que essas páginas urgentes e cheias só se provam ser o contrário de insignificantes?

também não quero que sejas nenhuma das opções reservadas para ti nos teus próprios versos e espero que você entenda que nunca será pra mim o que você ou outro alguém definiu que seja.
acredite, eu já tentei.

essas páginas não têm nada de insignificante
pelo menos não para mim.
mas querido, independente do que elas sejam para você
nada nunca, nunca, será fácil fora delas.

te agradeço por não ter saído para um cigarro quando me viu na porta. uma mulher aos prantos entrando no carro de um desconhecido não é jeito de dizer adeus
de qualquer modo, feliz ou infelizmente, eu ainda estou longe de qualquer adeus.

e você,
você ainda está ai?

[ah, e antes que eu me esqueça:
meu amor, eu hoje sou tão velha quanto você].

São Paulo, 21 de julho de 2019

sabemos porque voltamos aqui.
ou ao menos, eu sei.
o sol nasce no horizonte enquanto um homem dorme profundamente na cama atrás de mim e quase não o percebo

(o sol)

dada a cegueira causada pela tela brilhante em minha frente.

§

o sino bate seis vezes
tudo está terrivelmente desordenado
nada é categórico
seguro
convicto

§

pronto.
essa é a primeira vez que amanhece enquanto escrevo sobre você.

Um arremate

São Paulo, 21 de junho de 2019

eu gosto do teu silêncio
rasgando meu corpo
eu gosto da tua ausência
esvaziando-me

me enrolo nos teus silêncios
afasta os maus espíritos

imaculada para que a despedida seja final

cabal
um arremate.

não tocar-te
não reconhecer tua pessoa
engolir tua partida
aceitar a faca me cortando a distância

eu te disse que não era assim que nos salvaríamos
mas é.
foi.

a saudade ainda me dilacera porque é difícil demais não desejar tuas mãos quentes e principalmente tuas palavras doces, nossos segredos

hipoteticamente
virtual
fictício.
desejo teórico,

desses que não devem ser
não podem ser
não queremos que seja

não quero que seja

partimos e, pela última vez,
adeus.

it tears me apart

São Paulo, 20 de junho de 2019

volta
na calada da noite
mãos quentes e macias
eu quero que você volte
volte com o desejo de quem fica

volta
cria nosso desejo
incita minha violência
arrebata minha alma

volta
mas dessa vez pra ficar
volta e me convence a voltar

seja comigo o que eu fui por você
pra voltar a ser
ser a volta que deveríamos ter tido
volta pra me distrair do fracasso de você não voltar

volta pra me fazer querer ficar
[sem você]

girl in red

São Paulo, 23 de maio de 2019

eu gosto de você
porque sua barba te cai de um jeito juvenil
o jeito que você fala comigo
despretensioso

(esse poema é horrível)

mas não consigo parar de imaginar seu corpo no meu

you could be my girl

eu sei o que você pensa
o que você deseja
e, meu deus, vou me arrepender dessas palavras amanhã
mas saiba isso existe
eu não sou louca, sabe?
só sou inconveniente
por pensar na minha pele encostando na sua

mas veja bem,
tudo isso está agora
e quem você pensa que é pra me distrair?
nessa nossa dança absurda
essa nossa dança proibida

esse é meu pior poema
essa é minha derrocada

te quero
e não te pertenço

suposta apresentação repetida do demônio ao espírito

São Paulo, 14 de março de 2019

perdida num rastro teu que já não há
abismo cibernético de suas pistas falsas
nessa tarde de quinta feira molhada
enjoada
anafilática

apego exagerado a um sentimento ou uma ideia desarrazoada

motivação irresistível para realizar um ato irracional
compulsão
de procurar teu nome
procurar teu obituário nos jornais da semana

transe obsessivo compulsivo
impertinencia
despropósito todo esse tempo perdido com algo que já não há

você não há

e há muito tempo me impeço de
ver-te
ver-me
ver-nos

e a obsessão chega pontualmente em alguns dias da semana talvez algumas vezes por mês e quem sabe somente alguns dias no semestre

começo novamente a me perguntar sobre todos as não-respostas as não-perguntas os não-olhares as não-verdades as não-mentiras

mas talvez seja por isso

preciso saber
minha neurose desagradável de entender
estabelecer por quais meios nos tornamos o que tornamos e des-tornamos
de uma vez por todas
saber o quanto você é aquilo que me deixou saber que era

mais uma estupidez em versos

mas não perca teu tempo com mais esse disparate
não porque me importe você
mas porque me importa o que penso de mim

e a personalidade anancástica me grita
que isso é um erro.
é uma falha.
imperfeição.

ainda escrever
sobre
e

você.

Eu te escrevo e você não me lê — um flashback

São Paulo, 8 de setembro de 2018

      não é época de frio, mas deve-se começar como no último outono: você pensa em mim como penso em você?

      me disseram que esse som é do bem-te-vi, esse pássaro desgraçado atraído pelo mofo do seu armário que corrói as entranhas de todo mundo nessa casa. com você meu gozo dói e as mentiras derretem o papel conforme você recita seus versos como um sussurro no fundo da minha cabeça. os meus gemidos, o silêncio da sua culpa sufocado pela violência das minhas coxas, meus gritos de angústia madrugada adentro, os gemidos da tua mulher deitada na vossa cama, seus braços entrelaçados nos dela enquanto meu peito se enche de pedaços podres seus perfurando minhas entranhas nas noites que sufocam a esperança de você ter sido engolido pelo tempo. a impossibilidade do toque causador da sua morte trazem a notícia: você não pensa em mim como penso em você porque a garganta cheia de ódio como uma navalha pronta pra abrir seu peito e devorar seu coração é só dentro do meu ventre.

      a garota dentro de mim queria suas mãos suavemente repousando nos meus seios e a fêmea faminta ainda quer sua carne e

dilacerar,

despedaçar,

incendiar.

assim como está, não morreremos juntos, já que juntos nunca estivemos.

morrerá sozinho como uma raposa faminta quando já não sobrarem mais galinhas

frágeis

estúpidas

todas estarão mortas ou avisadas

e para sua redenção o punhal deverá ser da tua senhora.

Pimentão Vermelho

São Paulo, 4 de junho de 2018

o sol entra duro pela janela e a madeira do chão range sob as patas do meu gato

ele procura no assoalho um rastro,

teu rastro

talvez

eu digo a ele que nada restou

nada

(!)

(deixe disso, gato)

(!)

nem ao menos seu cheiro nessa casa eu sinto mais

(graças a deus)

nem ao menos escrever consigo mais

(a menos que…)

só se soltam dos meus dedos despedidas, partidas, espinhos e serpentes mortas

e agora a casa está novamente de pé, novos retratos nas paredes, alguns pimentões vermelhos na geladeira e de vez em quando abraços durante uma partida de futebol

minha língua trava e enrola e para isso não tenho poemas nem contos ou cartas

me livrei do seu cigarro velho já tem uma semana e o hábito não parece me fazer falta mas ainda assim me custa acreditar que a inspiração persista

você

que desgraça

não poderia pedir por uma personagem pior

mas ai está

o sol duro entrando pela janela

o maço cheio

o gato arranhando o sofá

e palavras carregadas do que restou dos nós:

deus queira que sua queda seja como você merece

divagações sobre a eleição de governadores em 2018

São Paulo, 20 de março de 2018

ela é uma gracinha

gosta de poesia

sensível

você diz que não tinham assunto e eu me pergunto como não, como não?

você nem suas dúvidas me pertencem mais, graças a deus, mas não consigo deixar de imaginar como esse seu romance não deu certo

desculpe a intromissão, mas acho que talvez tenham terminado por causa do suplicy

amanhã tudo isso pode ser mentira

São Paulo, 18 de dezembro de 2017

eu não consigo escrever um poema sobre você porque minha pele não rasga quando você me toca (ainda)

eu não queimo quando você me abraça e seu cheiro não me atazana a cabeça, não quebra não doí não fere

também não transcendentaliza e não incendeia mas nada disso importa quando a madeira já apodreceu desde a última catástrofe

devagar devagar devagar lento delicado eu não posso ter pernas violentas contigo porque seu relógio biológico é invertido mas não tem problema porque você parece que veio pra botar limite no furacão que eu virei

mesmo assim eu te atinjo a duzentos quilômetros por hora enquanto a luz da mamba brilha nos nossos olhos dilatados e te digo coisas impensáveis imprudentes esperando o silêncio dilacerante mas sua boca abre e eu vejo as palavras saindo sobrevoando me atingindo no meio do peito como os afagos que você me faz quando dormimos juntos

já te avisei mil vezes que eu sou dessas mergulhadoras profissionais
me entrego completamente pra todo mundo que me toca
então
hoje sou totalmente sua e amanhã serei totalmente dela
enquanto ainda tô tentando resgatar pedaços meus perdidos pelos caminhos desconexos de perdizes

se você aguentar a violência do meu barulho eu sou tua hoje sim e na próxima sexta

meu cheiro vai ficar no teu colchão
meu cheiro vai voltar toda vez que você ver alguém fumando um lucky mentolado porque meus cabelos grudam em todos os cantos

eu gosto de deixar um rastro profundo daqueles que riscam o assoalho novo e não saem nunca mais

eu sou louca, sabia?

dai você diz que é tarde demais pra fugir da minha insanidade, do meu clichê literário e eu sorrio porque não suporto fugitivos

a intensidade cresce exponencialmente enquanto você continuar tocando minha música favorita não diga que eu não avisei eu sou incansável

desliga num estalar de dedos

rascunho de semanas atrás

São Paulo, 18 de dezembro de 2017

silêncio silêncio silêncio
gestos
poemas
meus gritos e cartas palavras tantas palavras faz tanto tempo tanto
o relógio
algo sem começo sem meio com fim o calor do verão seca minhas lagrimas o sentimento burro as vezes ainda grita esperneia
não faz isso comigo
me esquece
me deixa
acaba
como deveria ter sido deveria não ter sido
meus ventos de outono tinham te pedido não faz isso comigo eu suplico te suplico
eu grito pra você
paixão paixão paixão
não faz isso comigo
eu sou muito barulho
não fazia parte do seu plano essa mulher
“desencontros acontecem o tempo todo”
meu deus, como eu gosto de você /interrogação/
nem nos meus sonhos te vejo
como eu desperto, Carlos?
o que eu faço com o gato, Carlos?
mata
mata
mata
que andar do inferno nós estamos?
qual o rastro que você deixa?
eu sei o meu.

último ato

São Paulo, 12 de novembro de 2017

enquanto a cortina de fumaça desce anunciando o fim do espetáculo
percebo perplexa ser o animal que volta toda primavera
então o silêncio me derruba
e como numa tragédia barroca
me debato no chão perdendo minhas penas escuras
porque voltar agora foi quebrar-se novamente
e quando o verão chegar será tarde demais

me asfixio no seu cheiro de sol
esperando o apocalipse
me rasga me fere me mata
o seu cheiro de sol
me quebra me destrói estilhaça
a sua ausência

os espectadores todos já se foram
ao passo que me mantenho aqui
presa na minha própria jaula de palavras
ditas, não ditas, metralhadas
nos meus anseios sufocantes
nas grades do teu silêncio
enroscada nos espinhos dos teus duros versos

implacável
você fecha a porta atrás de si
pois não há
não existe
nenhum cenário no qual você me entrega qualquer um dos meus desejos
e agora percebo

talvez eu não possa
não consiga
ficar aqui enquanto a procissão se aproxima
o himeneu dando o último golpe
por isso é necessário terminar de dilacerar o pássaro índigo
fixo na parede ou estilhaçado na sua direção
tanto faz

porque é inútil e pesado demais pra você
a minha paixão
e é pesado demais pra mim
a sua inclemência

agora está tarde
não há mais tempo e talvez nunca tenha havido
o relógio bate a hora da morte
mas não se aflija
no meu funeral
você é convidado de honra.

sim, já é tarde

São Paulo, 1 de novembro de 2017

você quer que eu acorde agora, querido?
é isso?
você acha que será assim o meu despertar
com a sua faca cortando minha pele à distância?

porque corta justamente por isso
mas você sabe, não sabe?

você não entende
e nunca vai entender
não é assim que nos salvamos
e não é assim
que eu me salvo
ou você se salva

os gritos ecoam noite a dentro
meus gritos
(você não grita, grita?)
e a ferida nunca fechará
porque a saudade
me dilacera
cada parte de mim derrete esfarela estilhaça
cada dia mais
cada vez mais

e quanto mais distante de você
mais perto fica
o meu funeral

Período contemplativo

São Paulo, 28 de setembro de 2017

as vezes quando chega a madrugada dessas quentes e desconfortáveis penso em desaparecer

[só
estar
longe]

não, ninguém, nada
começar do começo do começo do começo do começo
esquecer
(você)

esquecer
de nós
de mim
de nunca ser sua
de nunca ser meu
e não existir
e não tocar
e não viver
e não beijar
e não trepar
e não chorar
nem rir
do não nem nada
de tudo
ou qualquer coisa

vagar pelas cidades em outros países tocando a vida das pessoas me deixando ser tocada só pra logo depois desaparecer tão súbita quanto vim
sendo nunca de ninguém
(sempre sendo sua)
e a saudade seria muito mais suportável do que essa
essa saudade insuportável
essa saudade das coisas tão próximas tão distantes inalcançáveis
essas coisas que desejo sem desejar ou sem precisar ou sem querer ou

(será que você)
me lê?
e você me lê
ou talvez não leia mais
porque de fato ninguém lê ninguém
além de quem procura o que ler em alguém que já não escreve mais
então você não me lê
assim como não te leio

[mesmo
querendo
tanto]

e tudo bem, tudo bem
não quero que leia minhas lágrimas espremidas tão difíceis de escorrer porque até elas já cansaram de correr
pra você
de você
de mim

não quero que me leia e pense em mim magoada quebrada morta
melhor sem você
você melhor sem mim
não quero que me leia e pense que eu já
(não desisti de tudo ou qualquer coisa)
não quero que me leia e pense que
(ainda sou sua)

então fica
fica aqui comigo
só mais uma vez
só mais algumas horas
só por mais uns dias
porque logo
isso tudo não vai ser verdade amanhã
amanhã vai ficar tudo bem
e será como se nada tivesse sido sentido
ou existido
e não serei mais

[porque nunca
foi
e nunca
existiu]

acabou.

Poeminha para ser lido bem devagar

São Paulo, 17 de setembro de 2019

quantas vezes a gente erra até não errar mais?

quanto tempo eu ainda tenho

quando vai parar de voltar

quando o jogo acaba

quando o sangue seca

a seca seca o sangue

quanto

tempo

(chance)

se eu te pedir

te implorar

o que sobra?

sobra sombra só

enquanto

quando

até

durante

.

.

.

duro

limite

Intercâmbio

São Paulo, 31 de julho de 2017

boa noite senhores passageiros bem vindo a bordo do vôo umsetequatro com destino a próxima fase do luto estamos a duzentosevintecincomil pés e nessa deliciosa noite de inverno ouvimos

portas fechadas
minha risada ecoando pelas paredes da sala, do quarto
o medo se dissolvendo no silêncio doce do canto direito do corredor

uma aeromoça bem apessoada se dirige ao passageiro do assento vinteesete coloca o dedo na cara dele grita um sussurro silencioso

achei que seria penoso me deitar sob as rochas nas quais você fodeu
minha cabeça
meu corpo
minha alma
minha vida

mas para qualquer um que perguntasse
era como se você não existisse
e dentro de mim
era como se você não existisse

entretanto existiu
não existe mais
desfecho feito
aceito
ruminado
vomitado
re-engolido
finalmente aceito
de novo

a comissária de bordo já terminou de confrontar o tal passageiro vinteesete você me pergunta te respondo não sei do que você está falando que comissária que passageiro eu que te pergunto

que me resta?
me resta a continuidade do meu plano
assim como te resta a continuidade do teu

maré breve na tua vida
maré brava na minha vida
uma metáfora carinhosamente roubada de outro texto que não se encaixa o suficiente

gosto da ideia da metáfora esdrúxula do avião do mar do vômito porque assim fica bem catatônico existencial verborrágico clichê

é meu jeitinho
esse drama por vezes real e insuportavelmente doloroso
por vezes cínico e ficcional com o único objetivo de
criar qualquer coisa
poema
dor
conto
vingança
romance
thriller
assunto
alivio
ferida
chaga
chega

boa noite.

Ernesto

São Paulo, 20 de julho de 2017

acordar é sempre um pouco difícil
lençóis retorcidos
uma sensação de
vazio, vazio
o que você faz com todas as lembranças?

um homem estranho ao meu lado
não tão estranho
não é que eu não o conheça
é só que
ele não é quem deveria ser
ou quem gostaríamos que fosse

eu, estranha
não tão estranha
não que ele não me conheça
é só que
eu não sou quem deveria ser
ou quem gostaríamos que fosse

mas tudo bem, tudo bem, dizemos
entendemos, concordamos
gostamos

nos entrelaçamos em uma dança esquisita; confortável
necessária
te peço que tome cuidado para não tropeçar
não, não se preocupe comigo
eu já estou no chão

me permite a liberdade poética de comparação?
a sinopse nunca poderia ser a mesma
sem cobras, sem feitiços
só nossos gemidos

algo do setting é parecido
enfim, personagens diferentes
essa peça é toda bem ensaiada
muito bem cronometrada
tudo sob controle

dançamos a noite inteira
dançaremos inúmeras vezes
apertamos nossas mãos em um acordo de cavalheiros
não se preocupe
daqui não sai nenhuma ferida

Festa Junina

São Paulo, 25 de junho de 2017

fecho os olhos.
lento.
zumbido.
zumbido bilateral.
você é ausência.

dar o nome só deixa mais cruel.
quanto tempo meu corretor ortográfico vai sugerir você?
eu posso não existir.
podemos não existir.
não existimos.

cada estrofe é uma pessoa.
essa não vale.

a música toca meu corpo como um fado.
mas não sei o que é um fado.
me beija.
sim, sim, ela é a próxima.
a próxima da lista
e dessa vez o gênero não está errado
quanta arrogância a sua

supor que o gênero não está certo