Domingo, 26 de Julho de 2020

meu gozo.
o hálito quente saindo da tua boca semicerrada lambendo as minhas costas.
meu corpo estremece pensando nele do outro lado da linha,
a estática tocando no fundo dos meus ouvidos,
como se houvessem abandonado o telefone fora do gancho para que ele não tocasse mais

o prédio comercial daqui da frente
(esse com a fachada cheia de palmeiras)
me lembra algum tipo de Rio de Janeiro
mas é só a 23 de maio vazia
e o cheiro do vapor do café passado.
a gata em cima do móvel
e eu nua na tua frente.
você desliza a mão na minha pele macia e se demora na minha cintura
a estática continua:
a quarentena engole as pessoas, meu amor

uma musa é uma musa e um amigo é um amigo

talvez setembro tenha sido a última vez que te beijei.
não posso dizer que não sabia que ia ser a última vez porque todos os nossos beijos eram os últimos beijos.
lembro apenas da sua mão segurando meu rosto. a língua começando o beijo pelo lado. o gosto de macarrão. o quase-beijo roubado dentro do carro, na frente do metrô santa cecília, depois que assistimos the love witch e antes de você encontrar sua senhora.
não me lembro mais do gozo
não me lembro mais do teu sorriso
pois quem diria que na próxima vez que nos encontrássemos teríamos nossos lábios mascarados?
todos os seus beijos misturados em um só
e a única lembrança, meu bem
é o quanto me doeu.

on brûlera toutes les deux en enfer mon ange

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dizem por aí que não posso mais te ver, querido.
justo agora que a necessidade de nos encontrarmos é inadiável
justo quando a chegada do himeneu é iminente.

precisamos rasgar as nossas cartas:
eu as tuas e tu as minhas.

queimar nossas fotos
quebrar nossos pertences.

já não posso mais ler tuas palavras.
as últimas estão em cima da mesa há semanas
o pó se acumulando ao redor
uma mancha de café dando mais drama à cena.

deixe no fundo do rio, eles disseram. 
ou então as jogue daquele viaduto que passa em cima do vale do Anhangabaú.
o lugar das poetisas filhas da puta, das amantes e das vadias sujas.
o lugar dos poetas canalhas, dos cafajestes, dos homens infiéis.

nossos corpos mortos espatifados na calçada, tecido cerebral espirrando nos pedestres desgraçados.
intestinos arrebentados e expostos para dar de comida aos cães.

uma oportunidade perfeita, eles disseram.
única: um programa de demissão voluntária.

que petulância a minha imaginar que poderíamos conversar, beber, existir.
que ousadia a minha beijar a boca dele enquanto ainda escrevo para ti.
que ousadia a tua beijar a boca dela enquanto ainda escreve para mim.
como são tóxicas as nossas palavras. nossas cartas, nossos poemas.
terríveis, fatais.

a letra escarlate brilha nas nossas peles nuas, marcadas a ferro, para que assim seja definido o que realmente somos.
para eternizar nossos pecados.

ainda tenho muito carinho por ti, querido
sabes bem que fora ele nunca tive muito mais que isso. 

e agora,
inevitavelmente,
nem nossa saudade me pertence mais.

hide and seek

São Paulo, 22 de outubro de 2019, 21h29

C,

Antes de mais nada, obrigada pelos desejos de aniversário. Espero que com o tempo possamos parar de nos esconder entre escombros e sombras e sejamos capazes de nos desvencilhar desses nossos enigmas e pistas falsas. 

As cartas nos permitem muitas coisas e na maior parte do tempo me sinto grata por você ter respondido aquela minha primeira correspondência.

Contudo, sinto falta de te olhar nos olhos, de ser visceralmente sincera, de ter seus gestos e olhares para apoiar minhas conclusões. Confesso que é muito mais confortável para mim me esconder nessas páginas e nesses versos porque detesto a vulnerabilidade vinda do contato face a face. É muito confortável me convencer de que preciso me manter apática, imparcial (e especialmente confusa) nas minhas cartas, como se elas e os escapes de sentimentalismo nos demais poemas ou contos de alguma forma me protegesse de mim mesma. Te protegesse de mim mesma.

Como você deve saber, a confiança que se pode criar a partir de gestos e olhares é muito mais concreta. Frente a frente tudo é mais compreensível, humano, real.

De qualquer modo, por ora, o que temos são as cartas.

Por ora, é isso que eu posso te oferecer.

É isso que posso me oferecer.

Então que nelas fiquemos.

Gostei de saber da sua intenção primária em me escrever na ocasião do meu aniversário. Apesar do seu tom incerto e reticente característico, tudo isso me fez lembrar que, mesmo depois de tudo, eu sinto sua falta. Me fez lembrar o quanto te considerei alguém especial para mim, o quanto algo inominável aqui dentro ainda acha que vale a pena te manter por aqui. Mesmo enquanto nos alternamos nesse jogo de quem se posiciona menos, de quem se protege mais.

Preciso assumir que não faço ideia do espaço vazio que ficou aqui dentro, porque todos os dias parece que tropeço em mais um cômodo desabitado desconhecido. Preciso assumir que eu quero (e talvez precise) confiar em você. Eu sei que talvez a vida não tenha sido tão gentil com a gente, mas penso que você também gostaria de confiar em si próprio e, por consequência, gostaria que eu confiasse em você. Se for assim, sei que isso toma tempo, mas não tenho pressa. 

Não quero me alongar muito, já que minha intenção com esse bilhete era apenas te agradecer enquanto aguardo sua próxima carta “não paralela” porque confesso que não entendi bem “de quem era a vez” depois dessas nossas datas comemorativas.

Enfim,

Te espero.

Com carinho,

– B.