o que eu não te diria se eu não fosse uma filha da puta

o quarto está silencioso e desse jeito posso ouvir apenas a respiração dele ao meu lado.

lenta.

compassada.

suave.

ocasionais roncos escapam pelas narinas fazendo com que as asas do nariz tremam delicadamente.

encosto mais uma vez meu rosto em seu peito, respirando profundamente o cheiro que exala da pele dele, engolfando-o como se isso pudesse me salvar de todos os meus demônios.

são esses os momentos nos quais sinto um alívio imenso por não ter desistido dele depois daquele nosso encontro terrivelmente mal sucedido.

algo me diz que não desisti por conta do cheiro dele. esse cheiro amadeirado como de grandes carvalhos molhados pelo orvalho. cheiro de homem, ou como cheiro de homem deveria ser, sem perfumes ou loções, sem hidratantes ou shampoos de lavanda ou camomila.

naquela ocasião, sai da casa dele às dez da manhã como uma fugitiva tentando apagar o fiasco da noite anterior. fumei uns seis cigarros ao longo do caminho de volta até a zona norte, deixando de entrar em um ou dois ônibus só para conseguir acender o próximo. depois tomei um banho demorado, esfregando toda extensão da minha pele, me cobrindo daquela espuma espessa e esbranquiçada do sabonete, repetindo o processo mais de uma vez.

o cheiro dele persistia independente de quantas técnicas diferentes eu empregasse para me livrar dele, como uma lembrança de tudo que deu errado naquela noite. erros que eu atribuía a algo incorreto na minha performance, algum deslize, alguma mancha, marca ou estria do meu corpo que o teria deixado sem vontade de estar comigo.

por isso os cigarros.

por isso o banho.

mas grudou em mim como cola, como se tivesse se integrado na minha epiderme, fodido com os meus neurônios, mantendo-se em mim mesmo após diversos banhos, independente de quanta fumaça tóxica eu inalasse na esperança de encher meu corpo com a fragrância do alcatrão e do mentolado.

acordei no dia seguinte com o cheiro dele na minha cama.

foi por isso que eu decidi encontrá-lo mais uma vez e mais outra e mais outra. inúmeros encontros sem esperar noites longas cheias de lascívia, sem me permitir voltar a casa dele, evitando a todo custo repetir novamente o que eu considerava como meus erros. mal sabia da minha própria tolice em não imaginar o quanto eu era importante para ele.

ouço através da janela do quarto o caminhão de lixo passando na avenida. aperto meu corpo com mais força contra o dele. os pelos no peito largo cobrem toda a extensão do seu tronco e me afundo neles como me afundaria em um travesseiro. sinto os braços fortes dele se fecharem mais em volta de mim, como num espasmo, num gesto inconsciente depois de tantas noites dormindo comigo.

a pele dele é mais escura que a tua.

os olhos são cor de terra batida como os teus, mas não me afogo neles como me afogo em você.

tranquilos.

calmos.
inocentes.

olhos de alguém que nunca poderia me machucar.

olhos que passam mensagens claras, óbvias.
olhos seguros.
quentes.
aconchegantes.
a boca grossa, macia, tímida.
lábios certeiros.
decididos.
terrenos.
imaculados.
foi por isso que me apaixonei.
e nessa noite eu me envolvo no corpo dele, respirando lentamente para acalmar meu coração que bate rápido demais após ter despertado de um sonho meu e teu.

ando sonhando com você.
coisas mínimas, pequenos contatos.
sonhos bobos, como os da última vez antes dessa noite. você me mandava uma foto de um peixe e eu respondia que ele era muito bonito. houveram outros sonhos, os quais não me lembro mais, sobre outras coisas, sobre pequenos e fugazes encontros.

na maioria das vezes são sonhos bons. me delicio com esses curtos momentos oníricos que fogem rapidamente da memória depois do despertar. são situações seguras, controláveis. só isso já é suficientes. aqui não podemos nos ferir, aqui não há jogos, não há mais ninguém além de nós mesmos.

só eu e você, aqui, vivendo vidas paralelas.
vivendo instantes inofensivos e inertes.

mas essa noite é diferente. nessa noite tudo começou com um thriller imenso, no qual eu era outra pessoa, com outro corpo, outro rosto. deve ser por causa do livro que eu estou lendo.

como num estalar de dedos o thriller se dissipou e transformou-se em um sonho com você e com o meu eu real substituindo a protagonista anômala do sonho anterior. não sei dizer como foi porque logo acordo com o coração martelando dentro do meu peito, desorientada, sem conseguir lembrar de nenhum detalhe a não ser de ter estado com você.

não há dessa vez aquela sensação agradável que costuma haver, há apenas um desconforto, um sobressalto, como alguém que acaba de prever algum desastre terrível. sinto vontade de chorar mas não permito que as lágrimas escapem porque não quero acordá-lo e por isso mesmo o agarro com mais força.

fecho os olhos com uma intensidade maior do que deveria, na esperança de adormecer rapidamente dissipando qualquer memória desse despertar brusco.

no escuro, no interior das minhas pálpebras uma imagem do teu rosto começa a se formar. as sardas são a primeira coisa que me permite identificar que é você o dono desta imagem. eu sempre penso nas sardas porque, porra, como eu gosto delas.

nos dias frios depois de tomar um drink ou outro e me deitar para dormir sozinha eu sempre sinto a tua falta, mas sei que se estivesse com ele eu não sentiria.

é como se você tivesse se tornado o sonho em si, como uma representação desse mundo fantástico inconsciente. se transfomado em alguma lembrança de algo que eu tive só porque as coisas deram muito errado. algo que eu poderia ter se tudo despencasse novamente, como se eu pudesse te encontrar de novo com o único propósito de te ver e morrer mais uma vez, como morreria alguém que olha no fundo dos olhos de uma serpente mitológica.

e depois de morrer, renasceria outra vez.
como um reset, uma epifania, como transfigurar-me em outra mulher.

hoje, entretanto, acordei querendo nunca mais falar com você. esquecer-me totalmente da tua existência, apagar todas as nossas memórias. hoje eu não quero que você volte a ouvir sobre mim. hoje eu não quero imaginar quem te abraça como eu abraço quem está nos meus braços agora.

essa noite eu só queria que nada disso pudesse ter existido, queria poder ter pulado essa parte da minha história e voltado ao roteiro quando eu encontrei ele pela primeira vez. voltar para aquele nosso encontro absurdo, voltar para os seis cigarros fumados na esperança de remover as células dele das minhas células.

hoje eu exijo e aceito as tuas desculpas. hoje eu desejo toda culpa que há dentro de ti como recompensa macabra por toda loucura que há dentro de mim. hoje eu escrevo mais um disparate, mais algo que nunca deveria ter sido escrito. hoje escrevo novamente partindo da ideia de que você nunca mais estará por aqui e nunca mais lerá as palavras que eu coloco nesse pedaço de papel. hoje nada disso é pra você. hoje tudo será sobre as máculas deixadas ao longo do meu corpo, será sobre arrancar sua pele da minha memória com unhas compridas e sujas de sangue. hoje é sobre a violência dos meus sentimentos, das minhas palavras, dos meus pensamentos. hoje será sobre destruir qualquer coisa que permaneceu.

abro os olhos e encaro a lua através da janela de vidro, observando com o canto dos olhos o batente balançando de leve pela fúria do vento gelado lá fora. espero o sono vir para que amanhã eu possa acordar como da última vez. para que ao despertar novamente eu possa sentir tua falta, desejar tuas palavras e teu contato apenas na medida para ser possível todos nós mantermos nossos pés firmes na terra, nossos pulmões cheios de ar, nossos olhos cheios de cor.

amanhã não desejarei nenhuma tragédia. amanhã não haverá o cheiro das nossas carnes nem do nosso sangue doce. amanhã nenhum animal morrerá depois de comer nossos corpos poluídos e cansados.

encolhendo-me mais ainda dentro dos braços do homem que eu amo, fecho os olhos pela última vez tentando reconvocar a candura da saudade que tenho de ti e saboreio cada segundo da espera pela nossa absolvição mútua.