one morning this sadness will fossilize and I will forget how to cry

a chuva é grossa e leva um pedaço da minha maquiagem junto com ela, mas não se preocupe, caro leitor: essa não é mais uma daquelas cenas nas quais a protagonista chora embaixo das gotas potentes e geladas de uma chuva de verão.
bocas que não se encostam e batons intactos, nunca houve um pacto mas o silêncio se esconde entre as risadas e todos (ou quase todos) sabem: a ironia pode ser imperdível, mas qualquer sofrimento é proibido, meu bem.

há uma criatura amarga e sem nome dentro dos nossos estômagos
um vazio de sentidos e palavras, uma serpente pronta para se enrolar em nossos esôfagos
há tempos ela dorme serena ao som do ruído branco que preenche nossas mentes entorpecidas
o chiado engole tudo e finalmente (finalmente!) não nos escutamos.

os ladrilhos portugueses na rua brilham nos meus olhos enquanto uma andorinha paira nos teus;
o veneno ainda existe e corre nas nossas veias mas tudo que poderia ser dito se foi, exaustivamente consumido pelo fogo como cortinas de poliéster num incêndio;
as cartas antigas estão enfiadas em gavetas lotadas, envelhecidas pelo tempo, suas letras desbotam e desaparecem com o passar dos anos;
contos, peças e poemas foram rasgados e triturados; eram inúteis como o roteiro de um filme que nunca teve segunda parte.

a nós resta aposentar a escrita, diminuir o cigarro e mantermos os lábios esticados em sorrisos fixos: agora temos tudo e nunca fomos tão felizes.

Domingo, 26 de Julho de 2020

meu gozo.
o hálito quente saindo da tua boca semicerrada lambendo as minhas costas.
meu corpo estremece pensando nele do outro lado da linha,
a estática tocando no fundo dos meus ouvidos,
como se houvessem abandonado o telefone fora do gancho para que ele não tocasse mais

o prédio comercial daqui da frente
(esse com a fachada cheia de palmeiras)
me lembra algum tipo de Rio de Janeiro
mas é só a 23 de maio vazia
e o cheiro do vapor do café passado.
a gata em cima do móvel
e eu nua na tua frente.
você desliza a mão na minha pele macia e se demora na minha cintura
a estática continua:
a quarentena engole as pessoas, meu amor

memento

          A história começa com a luz da lua entrando pela janela e, por isso, esse texto poderia ser mais um conto bobo qualquer. Talvez seja.
          De qualquer modo, a luz da lua entra pela janela e ilumina a cama de ninguém, refletindo tudo na parede branca do quarto de ninguém, onde nossos corpos repousam. Antes disso estávamos na varanda, em uma situação tão absurda que só poderia ser uma cena fictícia de um conto mal escrito como este.
          Você me pressiona contra a porta de vidro que separa a varanda do escritório. Eu vestia minha única lingerie bonita: uma vermelho-bordô, com rendinhas discretas e impressões suaves de pequenas flores. Hoje a calcinha já não é mais vermelha, nem bordô e sim roxa, porque acabei por lavá-la junto com uma calça jeans muito azul.
         Não há como descrever adequadamente os beijos, os movimentos de mãos, as nossas peles roçando ou meu corpo enlouquecido pedindo por mais, mas sei que cada centímetro dele ardia como se o apocalipse finalmente tivesse chegado, com as labaredas de fogo caindo do céu e lambendo nossas peles. 
          Você mais cedo estaria vestido com algum tipo de robe cinza, fino, desses que a gente se pergunta se é suficiente para não sentir frio a noite. Mas agora você estava como eu, praticamente nu, com uma cueca branca de algodão, dessas simples, em formato de sunga, como crianças usariam. Em algum momento algo nos fez sair da sacada. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca lembraria. 
          Como em todo bom clichê ficcional houveram beijos durante todo trajeto da varanda para sala e finalmente para o quarto. Achei que entraríamos no seu, mas acabamos entrando no da frente. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca me lembraria.
          Sou assaltada por pequenos momentos dissociativos, nos quais meu corpo já não era meu e minha mente viajava para sua mensagem dizendo o que tinha comido no almoço porque esse era o gosto que eu sentia no fim do seu beijo. Se meu beijo tinha gosto de qualquer coisa, mesmo que de almoço, definitivamente nunca saberemos.
          Sou conduzida nessa nossa dança fantástica, como se você me ensinasse o que eu deveria fazer. Deixo-me ser conduzida apesar de saber alguns passos básicos porque algo me diz que essa será como uma nova primeira vez. Movimentos rápidos, quentes, surreais. Movimentos cuidadosos, como se fingissem ser apaixonados. Você em cima de mim, você balançando para frente e para trás. Meu cérebro dissocia mais uma vez: quanto tempo teremos até isso tudo acabar?
         Em algum momento recente aquele meu sutiã deixou de me servir. Provavelmente meus seios decidiram que após os vinte dois era o momento correto para crescer e enfim me deixar com um corpo menos infantil. Tento não pensar em todas as marcas, estrias e imperfeições impregnadas na minha pele e sigo com nossa dança.
           A sua sombra se projeta na parede, onde agora estão penduradas minhas fotos polaroide e nessa altura já não penso em mais nada além dos nossos corpos enrolados. Nos repetiríamos inúmeras vezes. Não havia mais nenhum lugar para ir sem ser você.
          Às vezes meu quarto é iluminado pela luz da lua da mesma forma que foi naquele dia, mas já não há sombras sendo projetadas nas paredes. Nessas horas penso que eu poderia ter me proclamado virgem antes de você. Nessas horas me lembro de quantas vezes trocamos perguntas estúpidas, quanto tempo perdemos tentando entender o que sentíamos. Todo tempo que desperdicei pensando se você a amava. No tempo que você pode ter desperdiçado para desmentir minha afirmação de que sim, eu amava meu antigo namorado. Nessas horas penso porque tentamos esconder o que sempre soubemos: que deixá-la nunca foi uma opção, que quem eu amava era você, que nada disso poderia ter terminado de outra maneira.
          Algumas horas atrás estávamos nos beijando pela primeira vez, embaixo daquela árvore pretensiosamente idiota, naquela escadaria estupidamente cafona, em uma rua qualquer de pinheiros. O som do seu coração martelando no seu peito cento e vinte batimentos por minuto, cento e dez batimentos por minuto sendo a única coisa que parecia real naquela noite. Suas mãos pequenas. A jaqueta do seu avô. Sua professora de francês nos interceptando na frente da sorveteria. Posso estar enganada, mas te imagino desconfortável naquele encontro. Não lembro se fomos apresentadas, mas como seríamos, eu e ela?
          Mas agora já é tarde e estamos deitados na cama, onde você me devora tão sutilmente que nem me lembro mais quando fui engolida. Você acha que eu te devorei? Não me lembro dos seus olhos, mas sei que você me olhava fixamente. Lembro de insistir em repetições, não porque faltasse alguma coisa, mas porque era como se eu desesperadamente já soubesse que aquela seria a última vez.
          Agora já não estamos mais no passado, estamos aqui, mais de dois anos depois e imagine a minha surpresa quando pari esse conto no exato momento que um outro homem me fodia exatamente da maneira que eu gosto, enquanto observo perplexa seu rosto sério. Talvez ele saiba que eu estou condenada a estar com ele eternamente. Talvez ele saiba que não há escapatória, que meu corpo não pode te pertencer mesmo que quiséssemos porque ele sabe que agora é a ele que eu pertenço.
         Ele insiste nos movimentos até que eu termine e posso ver nos olhos dele, como se me perguntassem silenciosamente: it’s god, isn’t it? E então eu termino, em êxtase absoluto, com a buceta ardendo, com o corpo derretendo, gaspeando desesperadamente por ar, com lágrimas nos olhos, com meu coração prestes a explodir, com o buraco dentro de mim crescendo exponencialmente até o limite do insuportável até que eu diga que sim, que sim! E então ele sorri docemente e deita ao meu lado. Sim, é Ele, é Ele.
         Esse conto termina de coroar e sair das minhas entranhas assim como nosso gozo agora escorre pelas minhas pernas.
       Adormeceremos.
        Ou ao menos, ele adormecerá.
        Eu permanecerei aqui,
        acordada,
        perplexa,
        apaixonada.
       Meu corpo treme levemente, as ondas de prazer indo e vindo, percorrendo todas as minhas terminações nervosas, o vento entrando pela janela dele, sem lua ou sombras.
         E ainda assim, meu amor, ainda assim, não posso esquecer dos teus dedos dentro de mim. E ainda hoje, meu amor, ainda agora, não consigo esquecer que onde está a andorinha que você me deu um dia esteve projetada a sombra do seu corpo escorregadio e proibido.

funny funny funny little girl — carta número quatro

São Paulo, 22 de julho de 2019

[trigger warning: longo para cacete]
Querido Carlos,

Re-escrevi essa resposta (partindo do pressuposto de que há algum tipo de “conversa” surgindo a partir das correspondências) um milhão de vezes. Minha demora em responder, fugindo do padrão de resposta rápida anterior, se deve ao fato de que essas últimas semanas vem sendo muito cheias, pesadas, corridas e simplesmente não houve tempo, não houve condição para que eu te respondesse antes. Digo isso porque, mesmo assim, talvez eu ainda não esteja satisfeita com as palavras que coloco aqui.

Acho que posso, sob pretensão de não me alongar muito, fazer algumas observações antes de ir ao conteúdo principal da carta, se é que ela terá algum.

Primeiro que talvez seja importante estabelecer que não são necessárias desculpas pela demora em qualquer resposta. Essa talvez seja a ideia das cartas. Claro que não estamos usando o método convencional, com papéis, selos, carteiros, enfim, mas cartas demoram a chegar, demoram a ser lidas, demoram a ser respondidas. Não imaginei que sua demora tenha sido por vaidade ou covardia, mesmo porque nem ao menos pressupus com certeza que houvesse resposta e desta forma, também, talvez seja importante dizer que no momento não me interesso em absoluto por qualquer tipo de jogo mesmo porque eu mesma sou uma exímia piscadora. No mais, espero que estejamos livres de vaidades entre nós.

Sobre o morto, o nome dele era Rogério. Sobre suas palavras, eu sinto falta de todas, mesmo as que você considera desgastadas. Sobre a morte, nunca fui muito de espiritualidade. Às vezes sinto falta sincera de ter uma cabeça um pouco mais aberta nesse sentido, mas confesso que, se pensarmos em fé no sentido de confiança absoluta em algo ou alguém, venho tendo, com uma certa frequência, uma sensação de confiança absoluta em algum tipo de coincidência ou jogo cósmico quando se trata de alguns assuntos específicos, dentre eles, as mortes que presencio no meu dia a dia.

A pessoa analítica dentro de mim fica procurando algum tipo de explicação batida que justifique essas sensações: mecanismos de coping inadequados, “sintomas” de algumas neuroses, enfim, algo disfuncional que invalide a sensação física e é por isso mesmo que decidi usar a palavra fé no sentido de confiança absoluta mesmo.

E sobre esse assunto já não me resta muito o que dizer, já que as tarefas diárias corroeram a percepção dessa morte há alguns dias. Há algumas outras considerações, no entanto, que fui fazendo ao longo desse período que ruminei minha carta, as quais não foram totalmente descartadas nessa minha tentativa número sei lá qual de te escrever alguma coisa coerente, então que seja.

É horrível demais a parte em que se coloca o lençol em cima do corpo. É, sem dúvida, a parte que eu mais detesto. A ideia talvez, de um parente assistir a colocação do lençol, depois das devidas despedidas ao cadáver, é de aceitar a partida. Ver a palidez e o livedo no corpo e entender que aquela pessoa não existe mais. Não aqui, não conosco.

E sabe, dentro de mim há até um certo desconforto em me imaginar morta, com meu corpo maquiado de maneira póstuma, enfiado num caixão toscamente caro, em um velório desgraçado, sem comida, sem bebida, seguido daquele procedimento tragicamente cômico de quebrar concreto dentro das lápides para que, após o devido posicionamento do caixão, se passe novamente o concreto, fechando meu corpo oco e de certa forma, profanado pelas pessoas que ficaram.

Não é a ideia da morte em si, veja bem. Não me incomoda saber que ela virá e será como terá que ser. O que me aborrece é essa coisa toda de lençóis, cadáveres, concreto e partidas inesperadamente derradeiras.

Seguindo por esse raciocínio, que pode ser absolutamente incorreto, acredito ser por isso mesmo que me incomoda tanto essa sua ausência não-ausente, assim como a sua tentativa incompleta de dar fim aos seus textos. Você não está morto. Seguir com esse ritual frio como vínhamos fazendo faz cada vez menos sentido na minha cabeça.

Você está ai. Eu vivo na casa em que você viveu, sou amiga do seu melhor amigo. Ouço histórias sobre você. Não posso fingir que você não existe, porque fatalmente você existe. É exatamente como cobrir com terra e dizer que Portugal mudou-se.

Às vezes eu acho que o que é correto, o que me parece recomendado pela American Heart Association, o que me soa como a técnica principal empregada pelos melhores e maiores profissionais da área abre aspas como entender suas neuroses e merda de personalidade e fazer de uma vez por todas algo a respeito fecha aspas seria, na verdade, seguir com essa idiotice de fingir que nada aconteceu e que você existe sem existir. Assim, toda vez que o Caetano faz uma piada com o fato de você ter largado peças de figurino por aqui ou quando eu encontro mais um pacote de farinha de mandioca socada no fundo do meu armário eu deveria apenas agir como se aquilo não passasse de um delírio coletivo dos habitantes do 173.

Desde que você saiu do apartamento, tive que arrumar outra terapeuta por motivos financeiros. As histórias todas tiveram que ser repetidas e portanto foram contadas e recontadas e analisadas sob um milhão de perspectivas, entuchadas de argumentos psicanalíticos (por vezes de qualidade duvidosa, na minha opinião), mais por desejo da terapeuta do que meu, tendo como efeito final a sensação de que todo o assunto ficou quase completamente esgotado. Estava feito, ou pelo menos feito estava, de maneira prática, porque tudo continua dentro de mim e tende a transbordar nos momentos que estou sensível com acontecimentos quase exclusivamente sem relação direta com a sua existência. Contudo, mesmo que mal, estava feito.

Até você responder minha primeira carta.

A partir daí, não chegamos a porra de conclusão nenhuma sobre nada. Sentimentos, desejos, vontades, intenções, nada. Tudo está decididamente indeterminado. Confesso que ela é péssima em me convencer dos questionamentos que ela propõe assim como eu sou péssima em me convencer dos questionamentos que eu mesma me proponho, porque eu sou tão prolixa e verborrágica que me perco dentro das infinitas possibilidades e imensuráveis questionamentos dentro de mim mesma e termino tão escorregadia quanto você nas suas imagens semi-dantescas.

Sem falar que ela tem uma mania de me fazer questionamentos que acho forçosos, sem sentido, talvez psicanalíticos demais, talvez puros demais para que eu consiga quebrar minha própria barreira e deixá-la entrar. Em sua defesa, de fato, cheguei em uma conclusão sobre mim.

Eu frequentemente me pego testando limites. Até onde eu aguento, até que ponto eu posso me fantasiar como uma cobra faminta sem correr o risco de ser capturada, até que ponto eu posso brincar com todos os meus contextos inflamados dada a minha propensão a incêndios. Até onde eu banco essas coisas todas, essas histórias todas, essas encruzilhadas, essas partidas e retornos ou não-retornos.

E agora me pergunto também até onde você banca todas essas apostas que você está fazendo, todos esses riscos que você está correndo, sejam lá quais forem eles, supondo com arrogância que eles existam. E levando mais adiante esse fluxo de pensamento desconcertante fico me perguntando o que estamos fazendo aqui, me questionando por que você respondeu minha primeira carta, o que você estava fazendo andando por essa vizinhança, por que meu primeiro reflexo foi te responder, por que eu continuo respondendo mesmo sem estar em paz com nada dentro das minhas auto-reflexões. O que estamos fazendo, enfim?

Mas veja, eu não quero de maneira alguma que você me responda nenhuma dessas perguntas. Se você sentir necessidade, obviamente que não irei te impedir, mas não é com esse propósito que as disponho aqui. Não sei bem o que virou essa carta depois de tantas lidas, re-lidas, re-escritas, re-visões, mas saí de um rascunho inicial afogado em sentimentos confusos, voláteis, não confiáveis e paradoxais e assim como está agora, ao menos, discorro aqui sobre questionamentos existenciais, sobre auto-reflexão, até como uma lição de casa da terapia além de um exercício literário e de uma carta.

Por fim, confesso que me senti obrigada expor tudo isso aqui porque eu não faço uma puta ideia de que merda toda é isso aqui, Carlos. Nada além da obvia definição objetiva de que é uma carta é uma carta é uma carta. Afinal, cartas, poemas, lixo cibernético, álcool, zolpidem, listas de coletivo feminista… Que porra é tudo isso no fim das contas?

Espero que você não tenha se desesperado até agora e fugido o mais rápido possível da frente do computador e da pessoa confusa, indecisa e sem rumo que me tornei ou da sua interpretação posterior da imagem de mim mesma que criei dentro desse texto. Eu sei que minha verborragia e meus pensamentos a cento e noventa quilômetros por hora são por vezes esmagadores ou opressores, mas esta talvez seja o cerne da minha falta de caráter, como o cerne da sua pode ser sua incapacidade de dizer o que precisa ser dito.

Mas a intenção não é assustar, não é pressionar, não é obter nenhum tipo de resposta, ou ao menos, não mais. Não depois de diversas-não respostas suas, da medicina, da vida. Talvez você possa ver com graça essa característica, como gostam de fazer meus amigos apreciadores da minha personalidade fodida.

A coisa fica mais complicada a partir desse ponto, então talvez essa seja uma boa hora para você fazer uma pausa. Tomar um café, ir trabalhar, fumar um cigarro, acariciar o gato, entrar debaixo das cobertas da sua cama que provavelmente está aquecida pelo corpo adormecido da pessoa que divide esse espaço com você todos os dias. Se precisar, volte mais tarde.

Digo que fica mais complicado porque é a partir daqui que tento destrinchar de maneira lógica o que eu acho que sinto com tudo isso, sendo esse, por hora, o trabalho mais difícil que venho desempenhando em todas as áreas da minha vida.

Sei que sinto sua falta, imensamente. Mas não gostaria que você estivesse aqui.

Sei que me perguntei esses dias todos depois da sua primeira carta, se você também sente falta de mim.

Sei que há uma raiva cínica misturada com um tanto de humor, de pertinência no mínimo questionável, aprisionada no fundo das minhas vísceras, por você ter saltado do nosso carro, sem aviso, na próxima esquina. Mas bem sei também que essa raiva não deveria haver de ser.

Sei que esse último sentimento não é suficiente para que eu prossiga com a minha (nossa?) performance de esconde-esconde, apesar de me considerar amplamente qualificada para essa função, especialmente considerando minha capacidade infalível de não me comunicar com você, muito menos de maneiras inapropriadas em madrugadas aleatórias.

E essa última coisa aqui, eu não sei como quem sabe que o sol vai se por novamente no fim do dia. É mais como uma sensação que conversa com o que eu disse mais pra cima, mas com uma intensidade menor. Sensação essa incoercível, quase primitiva ou visceral, como preferir, de eu não terminei por aqui. E você, Carlos, terminou?

Essa sensação é acompanhada de uma vontade frágil, tímida, de começar de novo com você. Outra chance, do zero. Mas sem os mesmos erros dessa vez, pelo amor de deus. Sem a inocência tola (ou malícia irresponsável) de supor que não há sentimento onde claramente há sentimento. Sem decisões precipitadas, mal ou não plenamente planejadas. Mais importante ainda, sem as mentiras, sem as traições, sem a luxúria desmiolada, sem toques desnecessários, sem afagos perigosos. Sem jogos. Sem serpentes, feitiços ou cortinas de fumaça. Enfim, parece-me que há tempo demais restando em nossas vidas para que essas nossas ausências não ausentes permaneçam cutucando nossos pensamentos, supondo novamente com arrogância, que os seus pensamentos são cutucados de uma forma ou outra.

É, como eu disse, frágil, tímida, volátil e não é algo para agora. É algo a ser feito no tempo que deve ser feito, isso se for feito, talvez em meses, talvez em anos, talvez nunca. Não é uma expectativa, não é uma condição sine qua non. Muito pelo contrário, pode ser até que torne-se não querido no fim do que tiver que ter fim.

Por hora, talvez o que eu banque e deseje com menos fragilidade é que sejamos correspondentes. Dessa forma assim, simples, como está. Eu te mando cartas e você me manda cartas e vice versa. Cartas atravessadas pelo tempo que demoraríamos ou demoraremos para lê-las, pensar sobre elas, respondê-las. Quase como que um acordo de damas ou cavalheiros, mas não um contrato, uma sugestão, que pelo seu até logo, não me parece tão absurda. Mas isso só posso supor e bem, veremos.

Estamos próximos do fim dessa carta obscenamente longa e, aproveitando o ensejo e a oportunidade de fazer uma gracinha, te pergunto novamente: de quem eram as malditas coxas, Carlos?

Finalmente, deixo aqui registrado o que eu não banco. Não banco que você desapareça novamente sem aviso. Não banco a falta de dignidade em te ver partindo de qualquer relação comigo exclusivamente seguindo suas próprias regras e seus silêncios violentos. Se for para ser assim, prefiro que nem seja.

Eu preciso, Carlos, da oportunidade de chorar os meus mortos, quando houverem, à minha própria maneira. E de arremate, digo-lhe especialmente que não banco continuar fingindo sua morte dessa que vínhamos fazendo, pois como você bem sabe, mortos não escrevem cartas.

Até breve,

Berenice.

Carta número dois

São Paulo, 20 de junho de 2019

Carlos,

      A vida é um negócio esquizofrênico as vezes, não é? Essa noite eu resolvi escrever um conto bobo que me surgiu na cabeça e por isso precisei roubar alguma de suas palavras, como de costume. Normalmente o mote da minha escrita é você e peço desculpas por isso, mas ao mesmo faço isso por três motivos. Primeiro porque você inevitavelmente foi quem me fez voltar a escrever, segundo porque me sinto um tanto quanto vingada quando te roubo algo tão simplório como as palavras da sua literatura e terceiro porque eu realmente gosto do que você escreve. Eu sei que você não gosta, e as vezes eu acho que isso faz parte da sua persona, ou pelo menos da sua persona pra mim. Mas é bom. Eu gosto. Sinto falta dos seus textos barrocos.

      A questão é que eu sabia que seu antigo blog não existia mais porque, por gostar do que você escreve, apesar de tudo, eu tentava acompanhar alguma coisa e eventualmente ele sumiu, como você. Mas hoje eu estava especialmente determinada a escrever meu conto e eu procurei o nome de um dos seus textos (mantenho guardado comigo pra saber que tudo que aconteceu não foi simplesmente um delírio) e encontrei seu blog com um novo endereço. Se me permite, te pergunto (mesmo esperando nenhuma resposta) por que dessa mudança?

      E imagina meu espanto quando encontrei sua resposta a minha carta, querido. Atordoada, tive que re-ler a minha carta, porque já não lembrava mais do que havia escrito. Meus hipnóticos psiquiátricos são eficientes em apagar as memórias enquanto dura sua meia vida. Ri com a tosquice do que disse e fui ler sua resposta.

      Resolvi responder porque talvez eu queira dizer algumas coisas já que esse canal de comunicação me pareceu aberto de alguma forma. Eu nem imaginava que você ainda me lia, que eu ainda existia dentro da sua cabeça. Não se preocupe, não vou gastar essa oportunidade com sentimentos infantis, com questões que nunca serão respondidas. Talvez quem está te escrevendo essa carta já não seja mais a pessoa que você conheceu.

      Como um todo, talvez essa carta seja um grande pedido de desculpas. Isso não mudou. Eu ainda sou a pessoa que perdoa demais, que pede desculpas demais. E é estranho te pedir desculpas porque as vezes me parece que você me machucou mais do que eu te machuquei. Mas peço mesmo assim, porque, racionalmente, eu sei que isso não é bem verdade. Ninguém magoou a outra pessoa a mais ou a menos. Nós atravessamos violentamente um ao outro, arrastando tudo no caminho, causando mácula. Mas isso é apenas a vida, ou pelo menos como eu penso que a vida deveria ser. As pessoas nos atravessam, como você diz (e eu concordo), da mesma maneira que o tempo faz. Não deveria haver culpa, ou pelo menos, não completamente.

      Depois de muitas sessões de análise eu e minha terapeuta chegamos em uma conclusão de que há um embate entre a minha interpretação pessoal do que ocorreu entre nós e o que o mundo externo pensa que aconteceu entre nós. Eu acreditei, por muito tempo, baseado na minha experiência, na minha intuição e na minha interpretação dos suas palavras, seus atos mas especialmente seus gestos e postura corporal, que éramos cúmplices.

      Resolvemos, talvez inconsequentemente, assaltar um banco. Pecaríamos juntos, e pecamos. Você dirigiria o carro para a fuga, assim como dirigiu o carro na ida. Mas quando eu saí do banco, com as sacolas cheias de dinheiro, você já não estava mais lá me esperando no carro. Portanto, você foi meu cúmplice e eu a sua. Talvez você não tenha sido o melhor cúmplice porque no fim você desapareceu. É coisa que mais me dói, mas é a vida.

      Mas o mundo externo insiste em me colocar numa posição de vítima, como se você apenas tivesse me usado, como se eu tivesse sido só mais uma das mulheres que você coloca de maneira leviana na sua vida. Diversos fatos fofocados comigo me fizeram começar a duvidar na nossa imagem de cúmplices. E agora, agora que eu finalmente te entendo, entendo também que essa imagem de vítima não é certa. Principalmente porque ela faz eu duvidar de mim mesma, das minhas percepções e da minha leitura do universo e isso é o primeiro passo em direção a loucura. E sua resposta, suas palavras, mesmo que atrasadas, me aquecem por dentro e me fazem acreditar no que eu acreditava antes. Me faz acreditar que houve algo e que eu fui importante pra você, que você me sentiu de alguma forma, não que isso importe agora de fato, na vida prática, ou mude qualquer coisa agora, mas importa pra que eu não enlouqueça. Existiu, não existe mais e tudo bem.

      Eu quero te pedir desculpas por todas as vezes que te descrevi como meu algoz. Que disse coisas infálaveis como que você é um canalha ou aleijado afetivamente. Não que isso seja mentira. Você é um canalha e é aleijado afetivamente, mas isso não é coisa que se fale, não é? Mesmo porque, eu também tenho meu lado canalha. Aleijada afetivamente ainda não sou e pretendo não ser, mas não é um defeito em si e mais uma consequência da vida e dos atravessamentos que vivemos. Então, com honestidade, me desculpe por ser maldosa e cruel com a persona que criei de você.

      Todas as pessoas na verdade não são elas mesmas, são as nossas interpretações e projeções sobre elas. Todos somos personas ou personagens para quem nos atravessa. Tudo que eu sei sobre você é uma personalidade com a qual tiro conclusões, baseadas apenas na minha experiência porque já há tempos que vejo tudo que tangue você como desconfiança, como você me pediu. Você é escorregadio e difícil e por vezes incompreensível, ou essa é a imagem que criei de você, mas espero que você tenha entendido a partir desse parágrafo que pouco importa quem somos de verdade para os outros.

      Você não deve pedir desculpas por nada anterior a nossa despedida esquizofrênica. E, tendo você pedido desculpas pelos seus silêncios, fico agradecida. Imensamente. Mas queria dizer que os entendo, querido. Entendo porque foi esse silêncio que me permitiu existir depois da nossa catástrofe.

      Sabe Carlos, eu amo você. Eu nunca disse isso com essas palavras e não acho que tenha sido preciso porque isso não mudará nem mudaria nada. Mas eu te amo, ou amo a criatura-você que eu criei na minha cabeça. Eu achava que isso nunca ia acabar, que isso nunca ia desaparecer. E de fato, nunca irá. Eu te amo e não consigo parar. Entretanto, os seus silêncios me fizeram passar por isso. Fico feliz em te dizer que eu choro. Agora que te entendo, choro. Choro com a performance correta de chorar. E eu amo, não só você, mas outras pessoas. E amo de maneiras diferentes e por conta dos seus silêncios eu fui capaz de me entregar para alguém tão intimamente como me entreguei pra você. É assustador porque eu tenho medo, muito medo, do que me reserva.

      Quanto mais eu subo mais dolorida será a queda mas os seus silêncios me permitem ser otimista. Me permitem entender, como eu li em um dos seus poemas, que perder-se agora é perder tudo que está adiante. Então, obrigada por eles. E obrigada pelas desculpas, porque o silêncio dói demais, mesmo sendo imprescindível.

      Te entendo, querido. Mesmo assim, você continua sendo a pior (e a melhor) coisa que me aconteceu. Mas eu choro, escrevo, amo e não existe uma troca macabra. Existe uma chaga macabra talvez, porque eu acho que nunca vou esquecer você e nunca vou deixar de te amar. Mas isso faz parte da vida. Eu penso, de maneira hedonista e perigosa, que vale a pena se destruir por algo que você quer muito se você sabe que você pode voltar. E eu posso. Eu voltei.

      Queria te agradecer pela parte que você me diz que as vezes ouve uma música que faz você se lembrar de mim e esmurra o volante. Me pergunto quais seriam elas, mas não sei se isso tem resposta. Peço desculpas porque nesse embate vítima x cúmplice muitas vezes meu lado irracional e doente me convenceu que não havia nenhum sentimento seu comigo. Que era unilateral. Mas não pode ser, não é? Não faz sentido. E peço desculpas por ter te desumanizado, te tornado um monstro. Me desculpe pelas minhas palavras ácidas, duras e cortantes nos meus textos. Eu verdadeiramente não sabia que você os leria um dia.

      Diferente de você, meus textos não são véus sobre o que eu realmente quero dizer. É aquele sentimento tempestuoso do momento que sai da minha boca ou dos meus dedos, sentimentos que as vezes desaparecem segundos depois. Gosto de tentar torná-los literatura porque assim eu vou estar transformando algo impalpável em algo que existe aqui, concretamente, no mundo real. E eu prometo, que se um dia tudo isso de alguma forma virar um livro, te darei os devidos créditos e os devidos pseudônimos, se assim você desejar. Me desculpe, mas essa carta vai acabar não sendo só uma carta, mas um artifício literário, um exercício, por assim dizer, porque eu me viciei em escrever coisas e começo a gostar da ideia de que eu posso escrever. Me desculpe pela arrogância desse pensamento, mas me permito de vez em quando uma arrogância saudável, pra me ajudar a lidar com tudo.

      Eu sinto sua falta. Não como amante, mas como cúmplice de algo só nosso. Sinto falta das nossas conversas, dos seus textos. Mas entendo, compreendo, que é necessário o tempo e o silêncio para que algumas coisas se resolvam, se dissipem.

      Não sei bem como terminar essa carta. Eu acho que assim que eu terminar de escrever vou me arrepender de todas as palavras. É estranho não estar no silêncio falando com um interlocutor inexistente. Tenho a impressão de que tudo que eu escrevi será tosco, bobo, uma grande merda.

      Não sei bem como usar essa oportunidade que você me deu. De ser ouvida, de te ouvir. É engraçado que a maior parte das coisas que eu quero dizer sejam desculpas, você não acha? Talvez eu termine dizendo que continuarei escrevendo sobre você ou sobre o personagem que criei de você, mas gostaria que você não levasse para o pessoal. Não é você, não sou eu, não é verdadeiramente ninguém. As vezes, são sentimentos reais, mas eles são efêmeros demais, apesar de cíclicos por vezes. Nem tudo que eu escrevo é autobiográfico, apesar de tudo ser autobiográfico.

      Enfim, também queria te pedir desculpas pelas mensagens que te mandei, caso você as tenha visto. Às vezes eu me aproximo demais da melancolia e da reminiscência quando eu tenho meu estado mental alterado, então me perdoe por todos esses despropósitos. Me desculpe por todas as vezes que te forcei a falar, que te forcei a preencher os meus vazios.

      Eu gostaria que você me respondesse, sabe? Não me magoaria se isso não acontecer porque respeito seus silêncios. Mas seria agradável. Faria com que eu me sentisse civilizada. Não sou ninguém para te pedir qualquer coisa então não farei disso um pedido. Mas sinto que esse canal de comunicação é seguro, está longe do pecado da imprudência, mas não sei. Não importa no fim o que vai acontecer a partir disso. Nada importa no fim, além do que virá realmente, seja sobre eu e você (o que dificilmente será, pois o tempo já nos corroeu o suficiente para não ser), seja sobre qualquer coisa.

      No fundo, tentando atropelar todo meu rancor, mágoa e afetos negativos, eu espero que você esteja feliz. Eu espero que você volte a escrever um dia. Eu espero que não haja maldição.

Não é o arrebatamento e não estamos no apocalipse.

Com carinho,

Berenice.

PS: antes que eu me esqueça: de quem eram as coxas?

“não tem nada mais forte do que as coisas que não aconteceram”

São Paulo, 4 de junho de 2019

{Carlos}

porra, Carlos, é difícil demais.

há infinitos jeitos de não nos encontrarmos, infinitos jeitos de não nos encontrar, infinitos jeitos de não te encontrar, não me encontrar.

infinitos jeitos, mas nada disso importa porque é difícil demais viver depois da nossa catástrofe, dos seus versos duros, da sua prosa provocante, dos seus golpes delicados. é difícil demais.

não consigo parar de pensar que de vez em quando a embriaguez me leva perto do abismo que é me tornar uma pessoa como você. eu não suporto o medo de me deparar um dia com meus próprios versos duros e minha prosa provocante.

mas já está, está feito porque apesar de todas as minhas tentativas de arrancar de mim essa contaminação eu já sou mais como você do que eu poderia imaginar.

você dizia que a nossa dança nos definia mais do que podíamos admitir. esse era o prelúdio do fim, antes mesmo de começar. você me avisou, eu sei.

mas agora percebo que nessa sua constatação tudo já estava previsto. nossos corpos mortos na beira da estrada não era apenas um delírio embebido na sua culpa, era um plano. e morremos. ao menos, morri. levanto do meu túmulo todos os dias, caminho pela terra ora como cadáver, ora como uma boneca de porcelana que se quebrou e se colou vezes demais.

ando pela terra deixando meu rastro, que pensava ser outro tipo de rastro, mas receio que seja destruição, como você.

nossa antiga dança me define mais do que eu posso admitir.

cada dia que passa me aproximo cada vez mais das histórias de cobras e feitiços. danço perigosamente com algumas pessoas só porque eu posso, assim como você. às vezes beijo as caprichosamente, inconsequentemente. elas dizem que não há porque a preocupação, elas não vão se magoar. elas já estão quebradas e não podem se quebrar mais.

mas nós dois sabemos que isso é mentira, não é, Carlos?

[…]

{Amadeu}

“eu e você e uma cidade vazia. talvez seja feriado, talvez seja o arrebatamento”

chego na festa e desvio meus olhos para que eu não te infecte com os meus desejos inapropriados. você me vê, ri, rimos e me abraça desajeitado. em algumas horas estaremos bêbados, dizendo impropriedades um para o outro. você flerta, eu flerto, depois você me pergunta se flertamos mas digo que não. você se satisfaz com essa resposta porque é terrível demais me ler como a bruxa que eu poderia ser. mas não consigo parar, não consigo não pegar outro cigarro. mas sabemos como termina essa história, ou eu sei. e, verdadeiramente não quero morrer mais uma vez na beira da estrada, sozinha, escalpelada. um abismo com nossos ossos descompondo-se ao fundo. ou talvez só os meus, porque eu sou só inocente demais, burra demais, auto-destrutiva demais e talvez você seja imune ao meu feitiço. mesmo assim, você continua a sorrir e se embrenhar nos meus espinhos afiados, nas minhas palavras levianas. eu e você juntos no limite do imperdoável, eu e você juntos em um fumacê venenoso. e então a conversa continua, o maço se vai, e a saideira nunca chega.

{Carlos}

achei que haviam colocado fim no furacão que virei depois de você Carlos, e porra, que medo que eu tenho de continuar desequilibrada.

teus passos estão logo antes dos meus e os meus seguem os teus como se o demônio estivesse rindo de mim secretamente, arquitetando cada segundo da minha derrocada, enquanto eu ainda penso na sua canalhice pelo menos uma vez por semana.

minha voz está trancada dentro desse corpo que você bem conhece e eu as vezes preciso roubar seus versos duros para arrancar de mim a angústia. por isso eu não peço desculpas. você tomou de mim, muito mais do que eu poderia dar e a vingança é tanto uma ilusão quanto nós fomos. tudo que me resta são as lembranças esvaecendo a cada segundo, no meu cérebro que inevitavelmente se encaminha para o alheamento total.

te odeio tanto. ódio do seu rosto doce, dos seus olhos quentes, da sua conversa perigosa, da sua pele escorregadia. mas eu não sou escorregadia. pedaços de mim grudam em todas os lugares, meus cabelos ficam enrolados nas entranhas do assoalho, da cama, da mesa de bar.

tenho ódio do seu veneno agridoce, da lavanda e da arruda na sua pele. mas meu veneno não foi elaborado com tanto esmero quanto o seu. o que eu elimino é na verdade um remédio de sabor amargo que já não se presta a humanidade como deveria. benigno, tratável.

é perigoso que eu seja tentada a seguir teus passos.

não posso.

{Amadeu}

“se perder agora é perder tudo que está adiante”

vá embora. por favor, vá embora. eu não posso me tornar meu próprio algoz. eu não posso me destruir. eu preciso ser feliz, preciso saber que meu carrasco não me destruiu para sempre, não me moldou para ser uma imitação fajuta dele. saber que isso não é uma profecia.

você diz que somos amigos, mas temo por você e por mim porque não consigo dizer se não há laivos de mentira no timbre da sua voz. somente são circunstâncias da vida que nos unem e a eletricidade existe porque o demônio gosta da luxúria. mas não é isso exatamente que você quer, é?

meu corpo marcado pelas estrias e manchas, meu corpo desajustado socialmente, minhas coxas violentas, minha buceta quente e proibida, minha boca de esculápio desvairada. não é isso que você quer.

repita comigo: não seremos o arrebatamento. e este não é o apocalipse.

girl in red

São Paulo, 23 de maio de 2019

eu gosto de você
porque sua barba te cai de um jeito juvenil
o jeito que você fala comigo
despretensioso

(esse poema é horrível)

mas não consigo parar de imaginar seu corpo no meu

you could be my girl

eu sei o que você pensa
o que você deseja
e, meu deus, vou me arrepender dessas palavras amanhã
mas saiba isso existe
eu não sou louca, sabe?
só sou inconveniente
por pensar na minha pele encostando na sua

mas veja bem,
tudo isso está agora
e quem você pensa que é pra me distrair?
nessa nossa dança absurda
essa nossa dança proibida

esse é meu pior poema
essa é minha derrocada

te quero
e não te pertenço

there is this feeling — carta número um

São Paulo, 18 de abril de 2019

{preâmbulo: essa carta é terrivelmente ruim}

Prezado Carlos,

      Antes de começarmos de fato esta carta (eu de escrevê-la e você de lê-la) eu queria, com honestidade, pedir desculpas por mais um desses meus disparates literários. Não que isso vá fazer alguma diferença, porque você provavelmente já não os lê há muito, muito tempo. Mas de qualquer forma, fica ai o pedido de desculpas.

      Além disso, te peço desculpas pelo fato de que, mais uma vez, cá estou eu, com meu nível de consciência alterado pelos meus remédios hipnóticos escrevendo uma carta. Talvez as desculpas sejam não só para você, que está sendo ativamente vítima dessa carta em específico, mas para todos os meus leitores (se é que tenho leitores) que já leram meus textos inspirados pela depressão do sistema nervoso central.

      De qualquer forma, desculpas a parte, te escrevo porque estou com um probleminha e acredito que talvez você possa me ajudar porque de certa forma esse problema começou com você. Daí, acabei pensando, o que custa tentar descobrir se há algo que você possa me dizer a respeito do problema? Ou talvez, o que custa escrever sobre o problema e talvez encontrar uma solução na transformação do problema em palavras?

      Por favor não se sinta pressionado a me consolar ou não leia essa carta com esses seus olhos castanhos melancólicos como que dizem “oh, coitada, mais uma vez lá está ela, querendo coisas de mim”. Não, não, dessa vez é diferente. Isso é puramente um experimento psicanalítico, ou psicológico ou um exercício literário, ou qualquer coisa que não envolva sua cara melancólica.

      A questão é: você chora?

      Eu sei que você sofre.

      Mas eu realmente não sei se você chora. Digo, lágrimas reais, escorrendo pelo seu rosto sardento. Já te vi com essa cara de melancolia que sugava toda a felicidade da minha alma, e é praticamente só essa cara que eu lembro de ver você fazendo ao olhar pra mim, especialmente depois do sexo.

(A culpa é um troço poderoso, não é mesmo?)
      Mas não, não isso. Eu to falando do “real deal”, chorar mesmo. Aquele choro que parece um vulcão de lágrimas te limpando por dentro. Você chora?

      Por que sabe, eu chorava. Nossa, como eu chorava. Inclusive, eu chorei tanto por você que dava pra pegar aquela música da Clarice Falcão “O que eu bebi” e trocar “bebi” por “chorei” em todas as estrofes e só ai daria pra dizer o quanto eu chorei por você.

      Enfim… Eventualmente eu parei de chorar por você porque parecia que meus olhos já tinham se resignado com o fato de que eu e você nunca haveríamos de ser e, nossa, graças a deus, né?

      Sem ofensas, mas você é um puta de um canalha aleijado afetivamente e eu sou uma mulher completamente doida que, como diriam os portugueses, nem ao menos saiu completamente dos cueiros. Que bem essa união estúpida e luxuriosa traria? De qualquer modo, o que importa é que essas lágrimas secaram. E agora estamos todos bem, muito bem, bem distantes e bem.

      Mas que surpresa eu não tive quando eu percebi que não foram só aquelas lágrimas que secaram?

      Eu ainda choro de desespero. Eu ainda choro de raiva. Eu ainda choro quando alguém incita minhas questões psicológicas básicas. Sim, essas lágrimas ainda existem.

      Mas não choro mais de tristeza. Aquela boa e velha melancolia, devoradora de órgãos, que abre vazios imensos dentro da gente… Sabe? Essa dor. Essa dor eu não consigo mais sentir. As lágrimas que saem dessa dor, aliviando essa dor, costurando todos os órgãos abatidos, clareando as idéias, elevando meus afetos pra planos de consciência… Essas lágrimas… Não.

      Eu sinto um nada. Um nada que eu carinhosamente nomeei como nada presta. O nome é bem auto-explicativo, sabe? Uma sensação de que apenas nada, nada presta. Nada é nada. Nenhum sentimento é algum sentimento.

      E é horrível. Avassalador. São alguns períodos de extrema maluquice nos quais eu não consigo sentir nada e ao mesmo tempo eu me sinto absolutamente horrível. E o pior de tudo é que eu sei que se eu chorasse. Se eu chorasse… Estaria feito. Estaria terminado. Eu poderia terminar o ciclo de afetos e mastigar minha tristeza, ruminá-la e engoli-la e finalmente dar um fim a ela, ou dar a ela um lugar nos neurônios do meu hipocampo… Mas não, não consigo chorar e não consigo dar fim a essa merda de tristeza e ela fica lá, encapsulada, em algum lugar dentro do meu estômago e eu não consigo tocá-la o suficiente para entendê-la e elevar pra planos mais altos da minha consciência. Lá ela fica. Me corroendo aos poucos, sem que eu ao menos saiba o que é essa tristeza. O que é que faz com que eu me sinta tão vazia? O que é que faz com que eu me sinta tão morta?

      As vezes, só as vezes, eu sinto como se você tivesse me matado. Que eu esteja me transformando um pouco nessa minha leitura sua de que você é um aleijado afetivo. Tipo uma maldição, sabe? Nos enroscamos e algum pedaço de você grudou na minha alma e… Ah, sei lá.

      Você é o ponto de partida do problema, vê? Nada do resto importa. Não me importa absolutamente nem um pouco quaisquer dúvidas que tenham ficado. Qualquer rancor, nada. É claro que esse resto está ai, está aqui dentro de mim, mas coloquemos de lado, tá bem? Esquece isso tudo, essa história toda e… Foca no meu problema.

      Essa carta já tem muito mais palavras do que eu gostaria de trocar com você pelo resto da minha vida então, vou ao que interessa:

      Você chora? E se você chora, por favor, você pode me ensinar a chorar de novo? Se você não chora… Bem, daí talvez eu preciso que você me ensine uma outra forma de lidar com tudo isso que não envolva chorar.

      Parece demais. É demais, na verdade. Toda essa carta, esse contato, essas palavras todas sendo que entre nós não deveria haver mais nada além de silêncio e ignorância mútua da existência alheia. É demais, eu sei. Mas, sabe, depois de tudo houve entre nós, tudo aquilo que há alguns parágrafos eu pedi para que você deixasse de lado? Veja.

      Cá entre nós… Você me deve uma, você não acha?

      Tell me how to cry again,

Atenciosamente,

Berenice.

divagações sobre a eleição de governadores em 2018

São Paulo, 20 de março de 2018

ela é uma gracinha

gosta de poesia

sensível

você diz que não tinham assunto e eu me pergunto como não, como não?

você nem suas dúvidas me pertencem mais, graças a deus, mas não consigo deixar de imaginar como esse seu romance não deu certo

desculpe a intromissão, mas acho que talvez tenham terminado por causa do suplicy