one morning this sadness will fossilize and I will forget how to cry

a chuva é grossa e leva um pedaço da minha maquiagem junto com ela, mas não se preocupe, caro leitor: essa não é mais uma daquelas cenas nas quais a protagonista chora embaixo das gotas potentes e geladas de uma chuva de verão.
bocas que não se encostam e batons intactos, nunca houve um pacto mas o silêncio se esconde entre as risadas e todos (ou quase todos) sabem: a ironia pode ser imperdível, mas qualquer sofrimento é proibido, meu bem.

há uma criatura amarga e sem nome dentro dos nossos estômagos
um vazio de sentidos e palavras, uma serpente pronta para se enrolar em nossos esôfagos
há tempos ela dorme serena ao som do ruído branco que preenche nossas mentes entorpecidas
o chiado engole tudo e finalmente (finalmente!) não nos escutamos.

os ladrilhos portugueses na rua brilham nos meus olhos enquanto uma andorinha paira nos teus;
o veneno ainda existe e corre nas nossas veias mas tudo que poderia ser dito se foi, exaustivamente consumido pelo fogo como cortinas de poliéster num incêndio;
as cartas antigas estão enfiadas em gavetas lotadas, envelhecidas pelo tempo, suas letras desbotam e desaparecem com o passar dos anos;
contos, peças e poemas foram rasgados e triturados; eram inúteis como o roteiro de um filme que nunca teve segunda parte.

a nós resta aposentar a escrita, diminuir o cigarro e mantermos os lábios esticados em sorrisos fixos: agora temos tudo e nunca fomos tão felizes.

exercício literário de infâmia número um

quero um poema nosso
uma carta
um pedaço das almas num papel

talvez não haja mais nada a ser escrito
nada íntimo;
nada nosso.
minha sinceridade rasgando tudo entrelaçada na saudade de quando havia tempo e algo a dizer;
meu coração cheio afogando teus livros e quando ela atendeu teu telefonema a beira mar a areia desta praia deserta, antes já tão fina, agora pertenceria ao meu próprio litoral

mas a água é tão azul e o tinteiro está tão cheio
e mesmo não havendo penas o suficiente para escrever
tudo que é teu ainda tem espaço aqui

e neste ponto preciso dizer
tudo bem, querido
somos apenas personagens fumando um cigarro velho
aprendi a temer o medo que há em ti e meu silêncio diante dele é parte de acomodar o que há
não posso derreter hesitações
não quero dissolver teu amor
não posso apagar minha vida
mas não queremos nada disso,
não é mesmo?

queremos serenidade na escolha das palavras
queremos o aquietar de sentimentos
a eternidade de algo indolor
contudo, pareço me deparar irremediavelmente com essa amarração divina e áspera,
com o farfalhar da tua voz,
a reminiscência do cheiro do teu beijo e do frio circunscrito em nossas mãos.

estamos eternamente amarrados em tálamos paralelos
e ainda assim, habitando os cantos do assoalho empenado das nossas entranhas, insetos sussuram suvamente:

conte-nos dos teus suspiros teimosos
escreva-nos sobre todos os sonhos que corroem teus planos
convença-me da tua presença aqui enquanto queimo minha pele fingindo não conhecer ninguém além de ti


enfim, displicente como num exercício literário infame, não te direi nada, meu amor
apenas peço que deixe o sal tocar tuas sardas:

não há nada mais tentador do que a brisa do mar.


hide and seek

São Paulo, 22 de outubro de 2019, 21h29

C,

Antes de mais nada, obrigada pelos desejos de aniversário. Espero que com o tempo possamos parar de nos esconder entre escombros e sombras e sejamos capazes de nos desvencilhar desses nossos enigmas e pistas falsas. 

As cartas nos permitem muitas coisas e na maior parte do tempo me sinto grata por você ter respondido aquela minha primeira correspondência.

Contudo, sinto falta de te olhar nos olhos, de ser visceralmente sincera, de ter seus gestos e olhares para apoiar minhas conclusões. Confesso que é muito mais confortável para mim me esconder nessas páginas e nesses versos porque detesto a vulnerabilidade vinda do contato face a face. É muito confortável me convencer de que preciso me manter apática, imparcial (e especialmente confusa) nas minhas cartas, como se elas e os escapes de sentimentalismo nos demais poemas ou contos de alguma forma me protegesse de mim mesma. Te protegesse de mim mesma.

Como você deve saber, a confiança que se pode criar a partir de gestos e olhares é muito mais concreta. Frente a frente tudo é mais compreensível, humano, real.

De qualquer modo, por ora, o que temos são as cartas.

Por ora, é isso que eu posso te oferecer.

É isso que posso me oferecer.

Então que nelas fiquemos.

Gostei de saber da sua intenção primária em me escrever na ocasião do meu aniversário. Apesar do seu tom incerto e reticente característico, tudo isso me fez lembrar que, mesmo depois de tudo, eu sinto sua falta. Me fez lembrar o quanto te considerei alguém especial para mim, o quanto algo inominável aqui dentro ainda acha que vale a pena te manter por aqui. Mesmo enquanto nos alternamos nesse jogo de quem se posiciona menos, de quem se protege mais.

Preciso assumir que não faço ideia do espaço vazio que ficou aqui dentro, porque todos os dias parece que tropeço em mais um cômodo desabitado desconhecido. Preciso assumir que eu quero (e talvez precise) confiar em você. Eu sei que talvez a vida não tenha sido tão gentil com a gente, mas penso que você também gostaria de confiar em si próprio e, por consequência, gostaria que eu confiasse em você. Se for assim, sei que isso toma tempo, mas não tenho pressa. 

Não quero me alongar muito, já que minha intenção com esse bilhete era apenas te agradecer enquanto aguardo sua próxima carta “não paralela” porque confesso que não entendi bem “de quem era a vez” depois dessas nossas datas comemorativas.

Enfim,

Te espero.

Com carinho,

– B.

 

memento

          A história começa com a luz da lua entrando pela janela e, por isso, esse texto poderia ser mais um conto bobo qualquer. Talvez seja.
          De qualquer modo, a luz da lua entra pela janela e ilumina a cama de ninguém, refletindo tudo na parede branca do quarto de ninguém, onde nossos corpos repousam. Antes disso estávamos na varanda, em uma situação tão absurda que só poderia ser uma cena fictícia de um conto mal escrito como este.
          Você me pressiona contra a porta de vidro que separa a varanda do escritório. Eu vestia minha única lingerie bonita: uma vermelho-bordô, com rendinhas discretas e impressões suaves de pequenas flores. Hoje a calcinha já não é mais vermelha, nem bordô e sim roxa, porque acabei por lavá-la junto com uma calça jeans muito azul.
         Não há como descrever adequadamente os beijos, os movimentos de mãos, as nossas peles roçando ou meu corpo enlouquecido pedindo por mais, mas sei que cada centímetro dele ardia como se o apocalipse finalmente tivesse chegado, com as labaredas de fogo caindo do céu e lambendo nossas peles. 
          Você mais cedo estaria vestido com algum tipo de robe cinza, fino, desses que a gente se pergunta se é suficiente para não sentir frio a noite. Mas agora você estava como eu, praticamente nu, com uma cueca branca de algodão, dessas simples, em formato de sunga, como crianças usariam. Em algum momento algo nos fez sair da sacada. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca lembraria. 
          Como em todo bom clichê ficcional houveram beijos durante todo trajeto da varanda para sala e finalmente para o quarto. Achei que entraríamos no seu, mas acabamos entrando no da frente. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca me lembraria.
          Sou assaltada por pequenos momentos dissociativos, nos quais meu corpo já não era meu e minha mente viajava para sua mensagem dizendo o que tinha comido no almoço porque esse era o gosto que eu sentia no fim do seu beijo. Se meu beijo tinha gosto de qualquer coisa, mesmo que de almoço, definitivamente nunca saberemos.
          Sou conduzida nessa nossa dança fantástica, como se você me ensinasse o que eu deveria fazer. Deixo-me ser conduzida apesar de saber alguns passos básicos porque algo me diz que essa será como uma nova primeira vez. Movimentos rápidos, quentes, surreais. Movimentos cuidadosos, como se fingissem ser apaixonados. Você em cima de mim, você balançando para frente e para trás. Meu cérebro dissocia mais uma vez: quanto tempo teremos até isso tudo acabar?
         Em algum momento recente aquele meu sutiã deixou de me servir. Provavelmente meus seios decidiram que após os vinte dois era o momento correto para crescer e enfim me deixar com um corpo menos infantil. Tento não pensar em todas as marcas, estrias e imperfeições impregnadas na minha pele e sigo com nossa dança.
           A sua sombra se projeta na parede, onde agora estão penduradas minhas fotos polaroide e nessa altura já não penso em mais nada além dos nossos corpos enrolados. Nos repetiríamos inúmeras vezes. Não havia mais nenhum lugar para ir sem ser você.
          Às vezes meu quarto é iluminado pela luz da lua da mesma forma que foi naquele dia, mas já não há sombras sendo projetadas nas paredes. Nessas horas penso que eu poderia ter me proclamado virgem antes de você. Nessas horas me lembro de quantas vezes trocamos perguntas estúpidas, quanto tempo perdemos tentando entender o que sentíamos. Todo tempo que desperdicei pensando se você a amava. No tempo que você pode ter desperdiçado para desmentir minha afirmação de que sim, eu amava meu antigo namorado. Nessas horas penso porque tentamos esconder o que sempre soubemos: que deixá-la nunca foi uma opção, que quem eu amava era você, que nada disso poderia ter terminado de outra maneira.
          Algumas horas atrás estávamos nos beijando pela primeira vez, embaixo daquela árvore pretensiosamente idiota, naquela escadaria estupidamente cafona, em uma rua qualquer de pinheiros. O som do seu coração martelando no seu peito cento e vinte batimentos por minuto, cento e dez batimentos por minuto sendo a única coisa que parecia real naquela noite. Suas mãos pequenas. A jaqueta do seu avô. Sua professora de francês nos interceptando na frente da sorveteria. Posso estar enganada, mas te imagino desconfortável naquele encontro. Não lembro se fomos apresentadas, mas como seríamos, eu e ela?
          Mas agora já é tarde e estamos deitados na cama, onde você me devora tão sutilmente que nem me lembro mais quando fui engolida. Você acha que eu te devorei? Não me lembro dos seus olhos, mas sei que você me olhava fixamente. Lembro de insistir em repetições, não porque faltasse alguma coisa, mas porque era como se eu desesperadamente já soubesse que aquela seria a última vez.
          Agora já não estamos mais no passado, estamos aqui, mais de dois anos depois e imagine a minha surpresa quando pari esse conto no exato momento que um outro homem me fodia exatamente da maneira que eu gosto, enquanto observo perplexa seu rosto sério. Talvez ele saiba que eu estou condenada a estar com ele eternamente. Talvez ele saiba que não há escapatória, que meu corpo não pode te pertencer mesmo que quiséssemos porque ele sabe que agora é a ele que eu pertenço.
         Ele insiste nos movimentos até que eu termine e posso ver nos olhos dele, como se me perguntassem silenciosamente: it’s god, isn’t it? E então eu termino, em êxtase absoluto, com a buceta ardendo, com o corpo derretendo, gaspeando desesperadamente por ar, com lágrimas nos olhos, com meu coração prestes a explodir, com o buraco dentro de mim crescendo exponencialmente até o limite do insuportável até que eu diga que sim, que sim! E então ele sorri docemente e deita ao meu lado. Sim, é Ele, é Ele.
         Esse conto termina de coroar e sair das minhas entranhas assim como nosso gozo agora escorre pelas minhas pernas.
       Adormeceremos.
        Ou ao menos, ele adormecerá.
        Eu permanecerei aqui,
        acordada,
        perplexa,
        apaixonada.
       Meu corpo treme levemente, as ondas de prazer indo e vindo, percorrendo todas as minhas terminações nervosas, o vento entrando pela janela dele, sem lua ou sombras.
         E ainda assim, meu amor, ainda assim, não posso esquecer dos teus dedos dentro de mim. E ainda hoje, meu amor, ainda agora, não consigo esquecer que onde está a andorinha que você me deu um dia esteve projetada a sombra do seu corpo escorregadio e proibido.

um poema é um poema e uma carta é uma carta

eles gostam de dizer: não se apaixone por poetas
eu sempre me perguntei se era porque inevitavelmente todos seriam canalhas

ninguém diz: não se aproxime das poetisas
mas talvez devessem
porque eu sempre me perguntei se inevitavelmente todas seriam depressivas e filhas da puta

não entendo minhas músicas
nunca ouvi leonard cohen
não sei o que querem dizer tuas estrofes
e muito menos sei o que quero com as minhas

talvez seja prudente estar longe dos poetas e poetisas pois não sabem o que dizem, não sabem o que escrevem. mas já não podemos escapar de nós mesmos, podemos?

é uma pena que você não consiga sentir muita coisa.
é uma lástima até,
porque eu sinto muito tudo.

muito
e tudo.

mas ultimamente me parece que sentir tudo é como não sentir nada.

e afinal, quantas informações devem ser trocadas do teu desviar de olhares?
(não, eu não te desculpo)

quantas informações devem ser tiradas de uma mulher amarga sozinha na porta?
(não, eu não me desculpo)

quantas informações devem ser tiradas de poemas escusos escritos na calada da noite?
(não, ele provavelmente não me desculparia)

amarelo é a única coisa que surge na minha mente para responder tudo isso, mas talvez seja arrogância demais reduzir tudo a uma cor enjoada como essa

eu também esperava que você se tornasse insignificante até desaparecer.
mas você continua por aqui, por ai, nos meus pesadelos, me fazendo acordar às cinco da manhã na minha folga para escrever um poema “on demand”

já não podemos dizer que essas páginas urgentes e cheias só se provam ser o contrário de insignificantes?

também não quero que sejas nenhuma das opções reservadas para ti nos teus próprios versos e espero que você entenda que nunca será pra mim o que você ou outro alguém definiu que seja.
acredite, eu já tentei.

essas páginas não têm nada de insignificante
pelo menos não para mim.
mas querido, independente do que elas sejam para você
nada nunca, nunca, será fácil fora delas.

te agradeço por não ter saído para um cigarro quando me viu na porta. uma mulher aos prantos entrando no carro de um desconhecido não é jeito de dizer adeus
de qualquer modo, feliz ou infelizmente, eu ainda estou longe de qualquer adeus.

e você,
você ainda está ai?

[ah, e antes que eu me esqueça:
meu amor, eu hoje sou tão velha quanto você].

une obsession

estou exausta, carlos
cansada das noites que sonho com você só para acordar mais tarde e verificar sua imaterialidade
sinto falta do ódio mais do que tudo
protegia-me das tuas aparições oníricas
impedia-me de levantar da cama para mijar no meio da madrugada e ouvir o canto desses pássaros malditos
inevitavelmente, por ora, ando pelas mesmas ruas, bebo nos mesmos bares e durmo na mesma cama e odeio a facilidade intrínseca de me encontrarem.

preciso partir novamente
dessa vez de maneira permanente
porque, honestamente, carlos

eu desisto.

o que eu não te diria se eu não fosse uma filha da puta

o quarto está silencioso e desse jeito posso ouvir apenas a respiração dele ao meu lado.

lenta.

compassada.

suave.

ocasionais roncos escapam pelas narinas fazendo com que as asas do nariz tremam delicadamente.

encosto mais uma vez meu rosto em seu peito, respirando profundamente o cheiro que exala da pele dele, engolfando-o como se isso pudesse me salvar de todos os meus demônios.

são esses os momentos nos quais sinto um alívio imenso por não ter desistido dele depois daquele nosso encontro terrivelmente mal sucedido.

algo me diz que não desisti por conta do cheiro dele. esse cheiro amadeirado como de grandes carvalhos molhados pelo orvalho. cheiro de homem, ou como cheiro de homem deveria ser, sem perfumes ou loções, sem hidratantes ou shampoos de lavanda ou camomila.

naquela ocasião, sai da casa dele às dez da manhã como uma fugitiva tentando apagar o fiasco da noite anterior. fumei uns seis cigarros ao longo do caminho de volta até a zona norte, deixando de entrar em um ou dois ônibus só para conseguir acender o próximo. depois tomei um banho demorado, esfregando toda extensão da minha pele, me cobrindo daquela espuma espessa e esbranquiçada do sabonete, repetindo o processo mais de uma vez.

o cheiro dele persistia independente de quantas técnicas diferentes eu empregasse para me livrar dele, como uma lembrança de tudo que deu errado naquela noite. erros que eu atribuía a algo incorreto na minha performance, algum deslize, alguma mancha, marca ou estria do meu corpo que o teria deixado sem vontade de estar comigo.

por isso os cigarros.

por isso o banho.

mas grudou em mim como cola, como se tivesse se integrado na minha epiderme, fodido com os meus neurônios, mantendo-se em mim mesmo após diversos banhos, independente de quanta fumaça tóxica eu inalasse na esperança de encher meu corpo com a fragrância do alcatrão e do mentolado.

acordei no dia seguinte com o cheiro dele na minha cama.

foi por isso que eu decidi encontrá-lo mais uma vez e mais outra e mais outra. inúmeros encontros sem esperar noites longas cheias de lascívia, sem me permitir voltar a casa dele, evitando a todo custo repetir novamente o que eu considerava como meus erros. mal sabia da minha própria tolice em não imaginar o quanto eu era importante para ele.

ouço através da janela do quarto o caminhão de lixo passando na avenida. aperto meu corpo com mais força contra o dele. os pelos no peito largo cobrem toda a extensão do seu tronco e me afundo neles como me afundaria em um travesseiro. sinto os braços fortes dele se fecharem mais em volta de mim, como num espasmo, num gesto inconsciente depois de tantas noites dormindo comigo.

a pele dele é mais escura que a tua.

os olhos são cor de terra batida como os teus, mas não me afogo neles como me afogo em você.

tranquilos.

calmos.
inocentes.

olhos de alguém que nunca poderia me machucar.

olhos que passam mensagens claras, óbvias.
olhos seguros.
quentes.
aconchegantes.
a boca grossa, macia, tímida.
lábios certeiros.
decididos.
terrenos.
imaculados.
foi por isso que me apaixonei.
e nessa noite eu me envolvo no corpo dele, respirando lentamente para acalmar meu coração que bate rápido demais após ter despertado de um sonho meu e teu.

ando sonhando com você.
coisas mínimas, pequenos contatos.
sonhos bobos, como os da última vez antes dessa noite. você me mandava uma foto de um peixe e eu respondia que ele era muito bonito. houveram outros sonhos, os quais não me lembro mais, sobre outras coisas, sobre pequenos e fugazes encontros.

na maioria das vezes são sonhos bons. me delicio com esses curtos momentos oníricos que fogem rapidamente da memória depois do despertar. são situações seguras, controláveis. só isso já é suficientes. aqui não podemos nos ferir, aqui não há jogos, não há mais ninguém além de nós mesmos.

só eu e você, aqui, vivendo vidas paralelas.
vivendo instantes inofensivos e inertes.

mas essa noite é diferente. nessa noite tudo começou com um thriller imenso, no qual eu era outra pessoa, com outro corpo, outro rosto. deve ser por causa do livro que eu estou lendo.

como num estalar de dedos o thriller se dissipou e transformou-se em um sonho com você e com o meu eu real substituindo a protagonista anômala do sonho anterior. não sei dizer como foi porque logo acordo com o coração martelando dentro do meu peito, desorientada, sem conseguir lembrar de nenhum detalhe a não ser de ter estado com você.

não há dessa vez aquela sensação agradável que costuma haver, há apenas um desconforto, um sobressalto, como alguém que acaba de prever algum desastre terrível. sinto vontade de chorar mas não permito que as lágrimas escapem porque não quero acordá-lo e por isso mesmo o agarro com mais força.

fecho os olhos com uma intensidade maior do que deveria, na esperança de adormecer rapidamente dissipando qualquer memória desse despertar brusco.

no escuro, no interior das minhas pálpebras uma imagem do teu rosto começa a se formar. as sardas são a primeira coisa que me permite identificar que é você o dono desta imagem. eu sempre penso nas sardas porque, porra, como eu gosto delas.

nos dias frios depois de tomar um drink ou outro e me deitar para dormir sozinha eu sempre sinto a tua falta, mas sei que se estivesse com ele eu não sentiria.

é como se você tivesse se tornado o sonho em si, como uma representação desse mundo fantástico inconsciente. se transfomado em alguma lembrança de algo que eu tive só porque as coisas deram muito errado. algo que eu poderia ter se tudo despencasse novamente, como se eu pudesse te encontrar de novo com o único propósito de te ver e morrer mais uma vez, como morreria alguém que olha no fundo dos olhos de uma serpente mitológica.

e depois de morrer, renasceria outra vez.
como um reset, uma epifania, como transfigurar-me em outra mulher.

hoje, entretanto, acordei querendo nunca mais falar com você. esquecer-me totalmente da tua existência, apagar todas as nossas memórias. hoje eu não quero que você volte a ouvir sobre mim. hoje eu não quero imaginar quem te abraça como eu abraço quem está nos meus braços agora.

essa noite eu só queria que nada disso pudesse ter existido, queria poder ter pulado essa parte da minha história e voltado ao roteiro quando eu encontrei ele pela primeira vez. voltar para aquele nosso encontro absurdo, voltar para os seis cigarros fumados na esperança de remover as células dele das minhas células.

hoje eu exijo e aceito as tuas desculpas. hoje eu desejo toda culpa que há dentro de ti como recompensa macabra por toda loucura que há dentro de mim. hoje eu escrevo mais um disparate, mais algo que nunca deveria ter sido escrito. hoje escrevo novamente partindo da ideia de que você nunca mais estará por aqui e nunca mais lerá as palavras que eu coloco nesse pedaço de papel. hoje nada disso é pra você. hoje tudo será sobre as máculas deixadas ao longo do meu corpo, será sobre arrancar sua pele da minha memória com unhas compridas e sujas de sangue. hoje é sobre a violência dos meus sentimentos, das minhas palavras, dos meus pensamentos. hoje será sobre destruir qualquer coisa que permaneceu.

abro os olhos e encaro a lua através da janela de vidro, observando com o canto dos olhos o batente balançando de leve pela fúria do vento gelado lá fora. espero o sono vir para que amanhã eu possa acordar como da última vez. para que ao despertar novamente eu possa sentir tua falta, desejar tuas palavras e teu contato apenas na medida para ser possível todos nós mantermos nossos pés firmes na terra, nossos pulmões cheios de ar, nossos olhos cheios de cor.

amanhã não desejarei nenhuma tragédia. amanhã não haverá o cheiro das nossas carnes nem do nosso sangue doce. amanhã nenhum animal morrerá depois de comer nossos corpos poluídos e cansados.

encolhendo-me mais ainda dentro dos braços do homem que eu amo, fecho os olhos pela última vez tentando reconvocar a candura da saudade que tenho de ti e saboreio cada segundo da espera pela nossa absolvição mútua.

Exercício de arremate do teu exercício de arremate

São Paulo, 22 de julho de 2019

o chão duro esmurra meus pés descalços enquanto corro pela rua molhada e áspera. o ar entra e sai dos meus pulmões como saem de um asmático no leito de morte, rasgando meus alvéolos e emitindo um chiado característico e derradeiro. o ruído sai pela pele do tórax, ecoando as batidas mecânicas das ondas sonoras nas trabéculas das minhas costelas. sinto seu hálito doce próximo do meu ouvido. suas palavras incompreensíveis, suas metáforas arborizadas, seu discurso escorregadio esgueiram-se para dentro do meu crânio, infiltrando minha mastoide. você finalmente me alcança, me toma nos seus braços e me assiste com a ternura de um carnívoro primitivo. mas bem sei que não posso olhar nos seus olhos e ouvir sua voz porque seu sussurro me colocará num transe incendiário e suicida. meus olhos se abrem arruinados e sedentos pelo amendoado da sua pele, das suas sardas e dos poços no interior das suas pupilas. sou arrebatada pelo cheiro de lavanda da vaidade e nos olhamos por muitos minutos, em completo e expectante silêncio, o ar fino como uma lâmina. meu ventrículo contrai a cento e trinta e oito batimentos por minuto, se debatendo num desespero moribundo.

(…)

Bang bang, he shot me down
Bang bang, I hit the ground
Bang bang, that awful sound
Bang bang, my baby shot me down

(…)

agora estamos entrelaçados como dois animais enfurecidos, lutando um contra o outro, meu rosto desviando do seu, tentando não sufocar com o cheiro das ervas que você carrega no bolso. o thriller se intensifica nesse momento final e eu percebo estar incorporando minha própria previsão caricata. nossos olhares se cruzam novamente nessa minha imobilidade tônica e se focam um no outro em cumplicidade. percorro seu rosto em busca das respostas de todas as minhas perguntas, revolvendo todas as minhas interpretações, numa revisão infinita de todos os passos e todos os gestos. busco esfomeada, desesperadamente, algo que me ancore dentro da sua psiquê, atrás da muralha de fumaça, mesmo sabendo que essa terra árida e infecunda é causadora da minha própria fome. minha visão se preenche com fosfenos e meu rosto se alivia como que após um longo e doloroso espasmo quando sua boca chega a minha mais rápido do que eu posso prever. sinto todas as terminações nervosas cheias de dopamina, como o rush da primeira gota de heroína dentro da veia, como a fumaça do primeiro cigarro fumado em semanas inunda os pulmões cansados, como o primeiro orgasmo que tive com a sua língua na minha buceta. absorvo toda a vaidade contida nesse beijo delirante, maníaco e desvairado enquanto sinto a lâmina da sua faca dilacerando as minhas vísceras, abrindo-me de baixo a cima, o sangue grosso escorrendo pelas minhas pernas formando uma única mancha no asfalto, bem abaixo do meu ventre. sua mão gira a faca cento e oitenta graus para direita e a solta dentro de mim, segurando-me somente com seu outro braço. sinto minha mente esvaecer enquanto olho hipnotizada seus olhos cor de âmbar escurecidos pela noite sem lua sugando minha alma e quando sinto a última gota de humanidade escorrer pela minha boca retorcida como em um orgasmo masoquista descubro-me concretamente sozinha e, horrorizada, deparo-me com as minhas próprias mãos segurando a faca que eviscera meu corpo.

Reintegração de posse

São Paulo, 1 de julho de 2019

      Carlos andava pelos corredores do mercado em busca da prateleira de azeite. Não havia muito porque comprar azeite no fim da tarde de uma terça feira, mas estava inquieto em sua casa vazia e então saiu para fumar um cigarro. Um cigarro virou dois e quando percebeu já estava andando pela rua em direção ao mercado.

      Avista a prateleira. Uma mulher loira está parada bem na frente dela, observando os vidros de azeite. Ele espera para que ela saia da frente da prateleira, mas ela se demora demais. Carlos caminha devagar em direção a loira e para a uma distância adequadamente próxima: “Não leve o mais barato, se é isso que você tá pensando” A moça se vira com o susto. Seu nome é Berenice e já sabemos alguma história dela, mas você talvez não se lembre.

      O homem é Carlos, seu ex alguma coisa. Digo alguma coisa pois teriam tido um caso quatro anos atrás, enquanto ela estava infeliz e noiva de um outro homem. Carlos teria um relacionamento de longa data, há mais de seis anos ao menos, com uma outra mulher, praticamente pelo mesmo tempo que Berenice estava com o ex-noivo. O caso não havia como acabar bem, vocês podem imaginar e, por isso mesmo, acabou mal. Berenice desfez seu noivado e fez-se personagem de uma história de partidas e desencontros. Carlos continuou com sua namorada e ele e Berenice pouco se encontraram depois desse acontecimento.

      Carlos constata com um misto de horror, culpa e curiosidade que se trata de Berenice. Seu coração acelera um pouco dentro do peito e suas mãos ficam ligeiramente molhadas.“Você mudou seu cabelo” Berenice ri: você ficou mais careca. Ele ri também, desconfortável. Diz também que perdeu o jeito de menina. Berenice fecha o rosto numa expressão séria e diz que, de fato, já não é mais uma menina há tempos. Ficam parados, na frente da prateleira de azeites, se olhando por alguns minutos dolorosamente silenciosos. Carlos volta a falar, perguntando o que ela faz no supermercado. Ela diz que estava voltando do trabalho na Lapa, parou lá para comprar um vinho e que se percebeu de repente na frente da prateleira de azeite, admirando-os.

      Carlos lhe pergunta se a namorada de seu amigo Eduardo, com quem Berenice mora, ainda compra o azeite mais barato. Ela responde que por pouco ele perdeu esse timing, pois ela havia acabado de se mudar para um novo apartamento, ou pelo menos, se mudaria oficialmente na manhã seguinte. Então não, sem azeites baratos por hora. Diz também que provavelmente o problema era pessoal com ele, porque desde que ela havia se mudado para lá Aurélia nunca mais comprou azeites baratos. Ele ri, ela ri.

      Ela não pergunta a ele o motivo de sua vinda ao supermercado, apenas o observa com o coração batendo rapidamente dentro do peito. Antes que Carlos possa perceber, estará convidando-a para tomar alguma coisa, talvez uma cerveja, ali perto. Berenice sabe que o correto seria recusar, mas não consegue deixar de se indagar o que se daria deste convite ou até mesmo porque o destino havia os colocado neste encontro vulgar.

      Aceita. Eles vão ao caixa, ele de mãos vazias e ela com um espumante caro nas mãos. Ela paga e guarda a bebida em sua bolsa preta. Em poucos minutos estarão sentados em algum bar na região, incapazes de não conversar demais como era de costume. Ele acende um cigarro e pergunta a ela se ela gostaria de um. Ela observa o cigarro em sua mão, demoradamente. Balança a cabeça como quem diz não. A conversa prossegue, a cerveja continua chegando, ele continua acendendo mais cigarros e mesmo assim o maço parece não ter fim. Dentro de algumas horas estarão levemente bêbados, ou bêbados o suficiente para acessar o passado mútuo, sempre e apenas, acessado nesses momentos de embriaguez.

      Ela pergunta se ele ainda está com Beatriz. Ele diz que sim, que mora com ela, na mesma casinha com o pequeno quintal ali perto. Ele pergunta se ela ainda é solteira. Ela dá os ombros. Alguns minutos no silêncio, olhos nos olhos, mãos próximas demais uma da outra. Ele delicadamente toca na mão dela e ela sente o calor conhecido das mãos dele.

“Eu te entendo agora, Carlos”.

“E por que agora?”

      Ela ergue os ombros como quem diz que não importa, ou que não sabe. Ele pousa seus olhos no chão, em uma carcaça de barata na entrada do bar, respira fundo e balança a cabeça

“Me desculpe”

“Não há mais culpa entre nós, Carlos”

      Ele se aproxima mais de Berenice, passa a mão delicadamente no seu rosto, em seu queixo. Ela sorri tristemente enquanto ele ri com uma risada rouca, cínica, triste mas não completamente triste. Beija a testa dela, como costumava fazer. Ela repousa a cabeça em seu peito e sente o cheiro de arruda e cigarros, inalando-o lentamente, pausadamente. “Tenho medo de você se afogar em mim” ele diz. Ainda sem tirar a cabeça de seu peito ela diz que não há nada para temer, porque amanhã tudo isso será mentira. Ele ergue sua cabeça, segurando pela lateral do rosto e olha para sua boca como se pudesse engolir todo seu desespero**. Acariciando levemente seu queixo a beija docemente, com a língua começando pela lateral da boca, como deve ser.

      Em meia hora o bar terá fechado. Eles caminharão lentamente e embriagados até a casa vazia de Carlos. Ele irá colocar um copo de whisky para ele e um para ela. A gata preta recém adotada fica durante todo o tempo no colo de Berenice, ronronando satisfeita. O whisky se vai mais rápido do que eles poderiam prever. A gata desce do colo de Berenice porque logo ela e Carlos estarão nus, beijando-se em agonia, angústia, aflição e lascívia. Ela em cima dele, cavalgando lentamente. Mãos quentes, coxas violentas, juntos no limite do insuportável, num incêndio moribundo. Noite adentro, se consomem como numa performance masoquista, ouvindo os pássaros cantarem impiedosamente marcando o fim desse desenlace amargo e definitivo.

      Pela manhã Berenice acordará mais cedo que Carlos. Deixará um bilhete de despedida em cima do travesseiro. A gata irá segui-la pela casa, enquanto ela recolhe suas roupas, se veste, bebe um copo de água e esquece sua calcinha escondida no vão do sofá. Abre a porta e a gata continua ronronando em seus pés.

      Ela pára e observa a casa. Observa os retratos de Carlos e Beatriz, observa o lar deles maculado pelo pecado de dois amantes irremediavelmente quebrados, imprudentes e equivocados. Ela pensa em todas as partidas, pensa em todos os rastros deixados por ele nas entranhas do seu corpo. Pensa na andorinha de porcelana solitária pendurada na parede de seu quarto, em seu novo apartamento.

      Com delicadeza, pega a gata, a põe em seu colo como uma criança faria e sai da casa, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Em algumas horas, Carlos acordará e lerá o bilhete de despedida. “Nos vemos no inferno, querido”. Notará o sumiço da gata dentro de uma hora, mais ou menos, e ao perceber, soltará um riso amargo, mas satisfeito e acende um cigarro.

      Queima lentamente o bilhete e assiste o fogo consumir essa história que finalmente chega ao seu destino absoluto.

*Disque 192

**Traguei saturno

“não tem nada mais forte do que as coisas que não aconteceram”

São Paulo, 4 de junho de 2019

{Carlos}

porra, Carlos, é difícil demais.

há infinitos jeitos de não nos encontrarmos, infinitos jeitos de não nos encontrar, infinitos jeitos de não te encontrar, não me encontrar.

infinitos jeitos, mas nada disso importa porque é difícil demais viver depois da nossa catástrofe, dos seus versos duros, da sua prosa provocante, dos seus golpes delicados. é difícil demais.

não consigo parar de pensar que de vez em quando a embriaguez me leva perto do abismo que é me tornar uma pessoa como você. eu não suporto o medo de me deparar um dia com meus próprios versos duros e minha prosa provocante.

mas já está, está feito porque apesar de todas as minhas tentativas de arrancar de mim essa contaminação eu já sou mais como você do que eu poderia imaginar.

você dizia que a nossa dança nos definia mais do que podíamos admitir. esse era o prelúdio do fim, antes mesmo de começar. você me avisou, eu sei.

mas agora percebo que nessa sua constatação tudo já estava previsto. nossos corpos mortos na beira da estrada não era apenas um delírio embebido na sua culpa, era um plano. e morremos. ao menos, morri. levanto do meu túmulo todos os dias, caminho pela terra ora como cadáver, ora como uma boneca de porcelana que se quebrou e se colou vezes demais.

ando pela terra deixando meu rastro, que pensava ser outro tipo de rastro, mas receio que seja destruição, como você.

nossa antiga dança me define mais do que eu posso admitir.

cada dia que passa me aproximo cada vez mais das histórias de cobras e feitiços. danço perigosamente com algumas pessoas só porque eu posso, assim como você. às vezes beijo as caprichosamente, inconsequentemente. elas dizem que não há porque a preocupação, elas não vão se magoar. elas já estão quebradas e não podem se quebrar mais.

mas nós dois sabemos que isso é mentira, não é, Carlos?

[…]

{Amadeu}

“eu e você e uma cidade vazia. talvez seja feriado, talvez seja o arrebatamento”

chego na festa e desvio meus olhos para que eu não te infecte com os meus desejos inapropriados. você me vê, ri, rimos e me abraça desajeitado. em algumas horas estaremos bêbados, dizendo impropriedades um para o outro. você flerta, eu flerto, depois você me pergunta se flertamos mas digo que não. você se satisfaz com essa resposta porque é terrível demais me ler como a bruxa que eu poderia ser. mas não consigo parar, não consigo não pegar outro cigarro. mas sabemos como termina essa história, ou eu sei. e, verdadeiramente não quero morrer mais uma vez na beira da estrada, sozinha, escalpelada. um abismo com nossos ossos descompondo-se ao fundo. ou talvez só os meus, porque eu sou só inocente demais, burra demais, auto-destrutiva demais e talvez você seja imune ao meu feitiço. mesmo assim, você continua a sorrir e se embrenhar nos meus espinhos afiados, nas minhas palavras levianas. eu e você juntos no limite do imperdoável, eu e você juntos em um fumacê venenoso. e então a conversa continua, o maço se vai, e a saideira nunca chega.

{Carlos}

achei que haviam colocado fim no furacão que virei depois de você Carlos, e porra, que medo que eu tenho de continuar desequilibrada.

teus passos estão logo antes dos meus e os meus seguem os teus como se o demônio estivesse rindo de mim secretamente, arquitetando cada segundo da minha derrocada, enquanto eu ainda penso na sua canalhice pelo menos uma vez por semana.

minha voz está trancada dentro desse corpo que você bem conhece e eu as vezes preciso roubar seus versos duros para arrancar de mim a angústia. por isso eu não peço desculpas. você tomou de mim, muito mais do que eu poderia dar e a vingança é tanto uma ilusão quanto nós fomos. tudo que me resta são as lembranças esvaecendo a cada segundo, no meu cérebro que inevitavelmente se encaminha para o alheamento total.

te odeio tanto. ódio do seu rosto doce, dos seus olhos quentes, da sua conversa perigosa, da sua pele escorregadia. mas eu não sou escorregadia. pedaços de mim grudam em todas os lugares, meus cabelos ficam enrolados nas entranhas do assoalho, da cama, da mesa de bar.

tenho ódio do seu veneno agridoce, da lavanda e da arruda na sua pele. mas meu veneno não foi elaborado com tanto esmero quanto o seu. o que eu elimino é na verdade um remédio de sabor amargo que já não se presta a humanidade como deveria. benigno, tratável.

é perigoso que eu seja tentada a seguir teus passos.

não posso.

{Amadeu}

“se perder agora é perder tudo que está adiante”

vá embora. por favor, vá embora. eu não posso me tornar meu próprio algoz. eu não posso me destruir. eu preciso ser feliz, preciso saber que meu carrasco não me destruiu para sempre, não me moldou para ser uma imitação fajuta dele. saber que isso não é uma profecia.

você diz que somos amigos, mas temo por você e por mim porque não consigo dizer se não há laivos de mentira no timbre da sua voz. somente são circunstâncias da vida que nos unem e a eletricidade existe porque o demônio gosta da luxúria. mas não é isso exatamente que você quer, é?

meu corpo marcado pelas estrias e manchas, meu corpo desajustado socialmente, minhas coxas violentas, minha buceta quente e proibida, minha boca de esculápio desvairada. não é isso que você quer.

repita comigo: não seremos o arrebatamento. e este não é o apocalipse.

girl in red

São Paulo, 23 de maio de 2019

eu gosto de você
porque sua barba te cai de um jeito juvenil
o jeito que você fala comigo
despretensioso

(esse poema é horrível)

mas não consigo parar de imaginar seu corpo no meu

you could be my girl

eu sei o que você pensa
o que você deseja
e, meu deus, vou me arrepender dessas palavras amanhã
mas saiba isso existe
eu não sou louca, sabe?
só sou inconveniente
por pensar na minha pele encostando na sua

mas veja bem,
tudo isso está agora
e quem você pensa que é pra me distrair?
nessa nossa dança absurda
essa nossa dança proibida

esse é meu pior poema
essa é minha derrocada

te quero
e não te pertenço

Exercício de Telepatia

São Paulo, 15 de abril de 2018

      Na semana seguinte, ela não apareceu. Já passado o meio dia, como de costume, acordou na própria cama de solteiro, cercada de seus próprios pertences e com o gato gordo ronronando tranquilamente na cadeira da escrivaninha.

      Demorou alguns minutos para levantar, permanecendo deitada admirando o teto manchado. No fim, não era tão diferente dos outros sábados, porque ela sempre acordava sozinha, mesmo que na cama dele. Não sabia dizer se a diferença era a ausência da camiseta masculina cobrindo seus seios, da certeza de encontrá-lo na cozinha, das palavras ácidas trocadas entre eles ou do café passado especialmente para ela.

      Decide sair do quarto. Corta seus legumes, da maneira que gosta, lentamente, enquanto sua música preferida toca – não a dele – e a cerveja gelada repousa ao lado do fogão. E as semanas passam, três sábados, quatro sábados, todos iguais, com o gato e o silêncio, sem armadilhas e cigarros, os jornais da semana se acumulando no aparador da sala, sem ninguém para lê-los.

      É no quinto sábado, durante a preparação do almoço, que percebe o fim do café. Na esperança de encontrar um saco novo esquecido no fundo do armário, descobre um restinho de chá preto.

      As lágrimas vem, enquanto corta as cebolas, se confundindo inicialmente com a irritação do tempero e sendo substituídos por soluços longos e doloridos. Desliga o fogo, tampa as panelas e senta-se no balcão da cozinha. Espera pacientemente que as lágrimas sequem e que o chá esfrie.

      Pega o telefone. Com os dedos quentes, disca o número dele.

Guarda Compartilhada

São Paulo, 24 de outubro de 2017

Querido Carlos,

      Te envio essa carta por conta de um probleminha doméstico com o qual venho tendo que lidar ultimamente e acredito ser do seu interesse.

      Você se lembra daquele dia? Estávamos juntos no seu bar favorito e encontramos um filhote de gato abandonado. Bêbados, descuidados, resolvemos adotá-lo juntos: ele fica uma semana na casa de cada um, você disse, uma guarda compartilhada. Eu fiquei a primeira semana com o gato e, bem…

      Acontece o seguinte: já fazem semanas que não nos vemos e o gato aqui. Aliás, quando de fato nos encontramos, nunca falamos sobre ele. Confesso ter vontade de discutir essa questão quando te vejo, as vezes até entro em um certo desespero de madrugada, ou quando fico bêbada demais e é preciso muita força de vontade pra não te ligar e dizer mas e o gato, Carlos? E o gato? Que diabo faço com o gato? No fim das contas não inicio a conversa sobre ele porque todas as vezes nas quais tentei introduzir o assunto acabei sufocada pelo seu silêncio. E tudo bem, tudo bem, sei do seu apreço pelo silêncio e o respeito, então nada de conversas sobre o gato.

      Por isso a carta. Cartas são boas porque você pode lê-las, abandoná-las no criado mudo, pensar em uma resposta e até não respondê-las, porque sabe como é, nem se mandam mais cartas nos dias de hoje, quem sabe não foi extraviada?

      De qualquer modo, passo pouco tempo em casa, não é sempre que lembro do gato, mas seria absurdo dizer ah, não, nunca penso no gato, que gato?Afinal de contas, eu cuido dele. Enquanto sozinha, as vezes embriagada, as vezes quando durmo na cama de outra pessoa, de fato penso no gato. Aliás, como não pensar no gato se ele está sempre ali, parado, me olhando, andando pela casa? Chego do trabalho, cansada, deito na cama sem nem escovar os dentes e puf, o gato pula em cima de mim ronronando, me tirando o sono completamente.

      E, bom, você sabe como são os gatos, especialmente este. Calado, esquivo, aqueles olhinhos amendoados e hipnotizantes só me esperando fazer algo, esperando eu me deslocar para acaricia-lo, só para depois fugir graciosamente do toque das minhas mãos. E eu aqui, esperando por ele também, esperando pelo toque suave das patinhas em cima das minhas costas quando ele decide subitamente dormir comigo numa noite fresca de primavera.

      Não consigo me decidir, de maneira alguma, (apesar de talvez já estar decidida em cuidar dele desde o primeiro momento no qual o avistei) se devo continuar a alimentá-lo ou se devo mandá-lo as favas de uma vez por todas.

      Quando compartilho esse meu dilema com algumas pessoas, ouço as dizer que se você realmente fosse afeiçoado ao gato, se você realmente visse uma vantagem em manter o gato vivo, saudável e feliz, você buscaria o gato de vez em quando. Talvez não semana sim, semana não, como no nosso combinado ébrio e imprudente, mas só de vez em quando. Mas você não vem, então provavelmente é porque não quer de forma alguma vir. É isso que dizem e eu custo em acreditar porque realmente me afeiçoei ao gato. E eu digo ah, mas vejam, ele cria passarinhos em casa e talvez não seja sensato mesmo levar o gato para lá. São lindos os seus pássaros, você cuida muito bem deles e imagine a tragédia se o gato acabasse transformando algum em jantar. Você nunca se perdoaria, não é?

      Então prefiro acreditar que sua hesitação intermitente com o gato não seja pelo fato de não querer mais o gato de forma alguma, não seja pelo desespero em se livrar o mais rápido possível dele, seja apenas porque… Bom, claro, eu entendo, talvez já seja mais do que tarde para livrar-se dele, enfim.

      Mas sabe como é, que desperdício! Livrar-se dele agora é como… desistir, talvez? E você sabe dessa minha dificuldade egóica de desistir, eu sempre acredito na alcançabilidade das coisas, por mais ingratas as tentativas, por mais sem esperanças, é difícil demais, penoso demais, apenas abandonar uma tarefa, um objetivo, um… um gato!

      Não é sempre que se encontra um gato como esses, você sabe. Um gato não simplesmente encontrado, mas que encontramos. Ainda mais eu! Sempre estranhei gatos, nunca me achei capaz de gostar desse tipo de bicho.

      Entretanto, talvez seja tempo, talvez seja tarde, talvez seja imprescindível que eu abandone o gato mesmo não querendo em absoluto.

      Já me alonguei demais, peço desculpas pela carta, pelo incômodo e, enfim, pelo gato. Termino quase com uma súplica: por favor, não me obrigue a me livrar dele. Entendo a racionalidade em fazer isso, mas acredito na possibilidade de abrir mão da racionalidade eventualmente porque nunca se sabe, não é? Gatos são comportados, não dão tanto trabalho. Comida, água e pequenos agrados são o suficiente para deixá-los vivos e felizes por longos anos, sem de fato incomodar ninguém. Posso cuidar dele enquanto isso, enquanto você não achar prudente exercitar a guarda compartilhada e, se não for demais, passe de vez em quando aqui em casa para acariciá-lo, ele não vai te ferir e, sabe, ele sente sua falta.

Com amor,

Berenice.

PS: Planejei abandoná-lo naquela encruzilhada perto da casa da sua tia, no feriado de finados, na esperança de que alguém o encontre e cuide bem dele. Caso você ache desnecessário essa minha atitude desesperada, por favor entre em contato.

Disque 192

São Paulo, 22 de junho de 2017

      O céu cinza derruba um chuvisco chato, desses que vão embora tão subitamente quanto chegam, voltando sob a constante ameaça de partir novamente. Deixa as roupas úmidas e o chão escorregadio mas não é de fato uma chuva. São dessas coisas estúpidas da vida: não fode e nem sai de cima, chove mas não molha. Só que molha, né. A verdade é que molha.

      Uma moça jururu acena para um táxi e entra rapidamente no veículo. Não sei se ela está verdadeiramente triste, mas a expressão melancólica em seu rosto me faz supor que sim. Seu longo noivado se desfez no último feriado e ela entra no carro se sentindo vagamente perdida na súbita solteirice, esperando que o GPS indique a melhor rota. Ou talvez só tenha perdido a hora para uma reunião importante. De todo modo, dentro de um táxi do outro lado da rua entrou uma moça jururu.

      Enquanto isso, a algumas muitas ruas de distância, Beatriz mastiga lentamente um pão francês com manteiga, apoiada na pia da cozinha do seu apartamento vazio. Seu gato está deitado preguiçosamente no sofá e ela engole o desjejum na esperança de se sentir um pouco menos vazia enquanto seu estômago se enche aos poucos depois de horas de sono mal dormidas. Beatriz não está solteira, como a moça-jururu. Está em um longo relacionamento, igualzinho ao recém-falecido noivado da moça-jururu, apesar deles não serem nem um pouco iguais.

      Há muitas palavras que se repetem dentro de um e de outro, assim como se repetem dentro de outros tantos, porém só há duas realmente importantes para o entendimento dessa história. A primeira é “longo” e a segunda não é de fato uma palavra, mas sim uma constatação: o noivado da moça-jururu terminou pelo mesmo motivo que o relacionamento de Beatriz continua. Você pode pensar ah, mas isso constitui um paradoxo e eu te respondo que não, não constitui, pois os seres humanos envolvidos nessa história são dramaticamente diferentes, ao mesmo tempo que, claro, são iguais. São diferentes porque alguns deles chovem e não molham, enquanto outros chovem e molham, mas são iguais porque no final todo mundo sai molhado.

      Em todo caso, Beatriz logo sai de casa, pois já passam das oito horas e ela não pode se atrasar para o trabalho. É uma pessoa responsável e dá cem por cento de si em todas as atividades remuneradas que exerce. Talvez só faça isso nos aspectos da vida que tangem a esfera pública. No que diz respeito a esfera privada, não posso dizer com certeza, porém em nome da literatura, suponho que Beatriz não é como o chuvisco: quando ela chove, ela molha.

      Ao entrar no elevador, encontra sua vizinha do andar de baixo, cujo nome não se recorda e não se importa de não recordar, pois nunca trocaram uma só palavra. Entretanto, se lembra do nome de seu marido, Bernardo. Infelizmente, Bernardo estará morto dentro de alguns dias e Beatriz só ficará sabendo disso dali há três meses.

      Diferente da esposa, Bernardo troca muitas palavras com Beatriz. Sempre no elevador e sempre as mesmas palavras. Como vai, querida? Uma pergunta que ela nunca responde com honestidade, afinal de contas é apenas uma conversa de elevador. Ao mesmo tempo que não é, pois esse hábito de não demonstrar a sinceridade dos sentimentos é uma característica de Beatriz. Em um dia ensolarado e terrivelmente quente, Bernardo a encontrou com os olhos vermelhos no hall do prédio e quis chamá-la para tomar um café, no qual a aconselharia a não guardar rancores por mais de três anos, pois a partir dessa data eles começavam a apodrecer dentro dos nossos intestinos e causavam diverticulite.

      Essa conversa, entretanto, nunca aconteceu. E agora não há de acontecer mais, pois dentro de alguns dias Bernardo estará morto. Morre de fato três dias depois, mas já começara a morrer logo depois da partida da mulher, pois tinha um aneurisma que explodiu enquanto dormia e só foi encontrado lá pelas oito da noite, quando a mulher chegou em casa depois do serviço. Quando ela voltou, era tarde demais.

      Há coisas assim na vida, que só descobrimos quando é tarde demais. Aneurismas cerebrais são assim, mas podem não ser, graças ao tomógrafo, aos cirurgiões e o número da emergência. Tragicamente, dessa vez foi tarde demais e nada pode ser feito a respeito disso.

      E esse relato que começou com o chuvisco às sete da manhã, se encaminha para uma história de partidas e morte. Bernardo partiu. O noivado da moça-jururu faleceu. E o relacionamento de Beatriz já começou morrendo e continua morrendo até hoje, até que algo seja feito a respeito, antes que seja tarde demais. Para Bernardo não houve possibilidade de nada ser feito, até que fosse tarde demais, pois algum filho da puta responsável pelo roteiro do universo quis que ele estivesse sozinho em seu apartamento. Em relação ao noivado da moça-jururu pode-se dizer que morreu de velhice e, nesses casos, felizmente ou infelizmente, nunca ninguém se pergunta quando ficou tarde demais.

      Entretanto, essa história não é sobre eles. É sobre Beatriz, que seguirá normalmente com a sua vida, assim como já faz há alguns anos, acreditando (mas não acreditando de fato) que seu relacionamento irá sobreviver (diferente de Bernardo e do noivado da moça-jururu), pois ela acredita ter discado o número da emergência, acredita que o resgate está a caminho e chegará de fato antes que seja tarde demais.

      Quando Beatriz estaciona o carro na garagem do escritório onde trabalha, ela torce para que o chuvisco acabe e que o resgate chegue. E para fins literários, te digo que o chuvisco acaba. Não sei dizer se chega a virar chuva ou não e também não faço suposições, porque elas já não me interessam.

      E o resgate? Ah, o resgate chega. Só que essa é uma história de mortes e partidas, você queira ou não, então o resgate chega sim, porque ele sempre chega, mas parte com um morto. Resta saber quem sobrevive. Eu, cinicamente, torço por Beatriz.