memento

          A história começa com a luz da lua entrando pela janela e, por isso, esse texto poderia ser mais um conto bobo qualquer. Talvez seja.
          De qualquer modo, a luz da lua entra pela janela e ilumina a cama de ninguém, refletindo tudo na parede branca do quarto de ninguém, onde nossos corpos repousam. Antes disso estávamos na varanda, em uma situação tão absurda que só poderia ser uma cena fictícia de um conto mal escrito como este.
          Você me pressiona contra a porta de vidro que separa a varanda do escritório. Eu vestia minha única lingerie bonita: uma vermelho-bordô, com rendinhas discretas e impressões suaves de pequenas flores. Hoje a calcinha já não é mais vermelha, nem bordô e sim roxa, porque acabei por lavá-la junto com uma calça jeans muito azul.
         Não há como descrever adequadamente os beijos, os movimentos de mãos, as nossas peles roçando ou meu corpo enlouquecido pedindo por mais, mas sei que cada centímetro dele ardia como se o apocalipse finalmente tivesse chegado, com as labaredas de fogo caindo do céu e lambendo nossas peles. 
          Você mais cedo estaria vestido com algum tipo de robe cinza, fino, desses que a gente se pergunta se é suficiente para não sentir frio a noite. Mas agora você estava como eu, praticamente nu, com uma cueca branca de algodão, dessas simples, em formato de sunga, como crianças usariam. Em algum momento algo nos fez sair da sacada. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca lembraria. 
          Como em todo bom clichê ficcional houveram beijos durante todo trajeto da varanda para sala e finalmente para o quarto. Achei que entraríamos no seu, mas acabamos entrando no da frente. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca me lembraria.
          Sou assaltada por pequenos momentos dissociativos, nos quais meu corpo já não era meu e minha mente viajava para sua mensagem dizendo o que tinha comido no almoço porque esse era o gosto que eu sentia no fim do seu beijo. Se meu beijo tinha gosto de qualquer coisa, mesmo que de almoço, definitivamente nunca saberemos.
          Sou conduzida nessa nossa dança fantástica, como se você me ensinasse o que eu deveria fazer. Deixo-me ser conduzida apesar de saber alguns passos básicos porque algo me diz que essa será como uma nova primeira vez. Movimentos rápidos, quentes, surreais. Movimentos cuidadosos, como se fingissem ser apaixonados. Você em cima de mim, você balançando para frente e para trás. Meu cérebro dissocia mais uma vez: quanto tempo teremos até isso tudo acabar?
         Em algum momento recente aquele meu sutiã deixou de me servir. Provavelmente meus seios decidiram que após os vinte dois era o momento correto para crescer e enfim me deixar com um corpo menos infantil. Tento não pensar em todas as marcas, estrias e imperfeições impregnadas na minha pele e sigo com nossa dança.
           A sua sombra se projeta na parede, onde agora estão penduradas minhas fotos polaroide e nessa altura já não penso em mais nada além dos nossos corpos enrolados. Nos repetiríamos inúmeras vezes. Não havia mais nenhum lugar para ir sem ser você.
          Às vezes meu quarto é iluminado pela luz da lua da mesma forma que foi naquele dia, mas já não há sombras sendo projetadas nas paredes. Nessas horas penso que eu poderia ter me proclamado virgem antes de você. Nessas horas me lembro de quantas vezes trocamos perguntas estúpidas, quanto tempo perdemos tentando entender o que sentíamos. Todo tempo que desperdicei pensando se você a amava. No tempo que você pode ter desperdiçado para desmentir minha afirmação de que sim, eu amava meu antigo namorado. Nessas horas penso porque tentamos esconder o que sempre soubemos: que deixá-la nunca foi uma opção, que quem eu amava era você, que nada disso poderia ter terminado de outra maneira.
          Algumas horas atrás estávamos nos beijando pela primeira vez, embaixo daquela árvore pretensiosamente idiota, naquela escadaria estupidamente cafona, em uma rua qualquer de pinheiros. O som do seu coração martelando no seu peito cento e vinte batimentos por minuto, cento e dez batimentos por minuto sendo a única coisa que parecia real naquela noite. Suas mãos pequenas. A jaqueta do seu avô. Sua professora de francês nos interceptando na frente da sorveteria. Posso estar enganada, mas te imagino desconfortável naquele encontro. Não lembro se fomos apresentadas, mas como seríamos, eu e ela?
          Mas agora já é tarde e estamos deitados na cama, onde você me devora tão sutilmente que nem me lembro mais quando fui engolida. Você acha que eu te devorei? Não me lembro dos seus olhos, mas sei que você me olhava fixamente. Lembro de insistir em repetições, não porque faltasse alguma coisa, mas porque era como se eu desesperadamente já soubesse que aquela seria a última vez.
          Agora já não estamos mais no passado, estamos aqui, mais de dois anos depois e imagine a minha surpresa quando pari esse conto no exato momento que um outro homem me fodia exatamente da maneira que eu gosto, enquanto observo perplexa seu rosto sério. Talvez ele saiba que eu estou condenada a estar com ele eternamente. Talvez ele saiba que não há escapatória, que meu corpo não pode te pertencer mesmo que quiséssemos porque ele sabe que agora é a ele que eu pertenço.
         Ele insiste nos movimentos até que eu termine e posso ver nos olhos dele, como se me perguntassem silenciosamente: it’s god, isn’t it? E então eu termino, em êxtase absoluto, com a buceta ardendo, com o corpo derretendo, gaspeando desesperadamente por ar, com lágrimas nos olhos, com meu coração prestes a explodir, com o buraco dentro de mim crescendo exponencialmente até o limite do insuportável até que eu diga que sim, que sim! E então ele sorri docemente e deita ao meu lado. Sim, é Ele, é Ele.
         Esse conto termina de coroar e sair das minhas entranhas assim como nosso gozo agora escorre pelas minhas pernas.
       Adormeceremos.
        Ou ao menos, ele adormecerá.
        Eu permanecerei aqui,
        acordada,
        perplexa,
        apaixonada.
       Meu corpo treme levemente, as ondas de prazer indo e vindo, percorrendo todas as minhas terminações nervosas, o vento entrando pela janela dele, sem lua ou sombras.
         E ainda assim, meu amor, ainda assim, não posso esquecer dos teus dedos dentro de mim. E ainda hoje, meu amor, ainda agora, não consigo esquecer que onde está a andorinha que você me deu um dia esteve projetada a sombra do seu corpo escorregadio e proibido.

Reintegração de posse

São Paulo, 1 de julho de 2019

      Carlos andava pelos corredores do mercado em busca da prateleira de azeite. Não havia muito porque comprar azeite no fim da tarde de uma terça feira, mas estava inquieto em sua casa vazia e então saiu para fumar um cigarro. Um cigarro virou dois e quando percebeu já estava andando pela rua em direção ao mercado.

      Avista a prateleira. Uma mulher loira está parada bem na frente dela, observando os vidros de azeite. Ele espera para que ela saia da frente da prateleira, mas ela se demora demais. Carlos caminha devagar em direção a loira e para a uma distância adequadamente próxima: “Não leve o mais barato, se é isso que você tá pensando” A moça se vira com o susto. Seu nome é Berenice e já sabemos alguma história dela, mas você talvez não se lembre.

      O homem é Carlos, seu ex alguma coisa. Digo alguma coisa pois teriam tido um caso quatro anos atrás, enquanto ela estava infeliz e noiva de um outro homem. Carlos teria um relacionamento de longa data, há mais de seis anos ao menos, com uma outra mulher, praticamente pelo mesmo tempo que Berenice estava com o ex-noivo. O caso não havia como acabar bem, vocês podem imaginar e, por isso mesmo, acabou mal. Berenice desfez seu noivado e fez-se personagem de uma história de partidas e desencontros. Carlos continuou com sua namorada e ele e Berenice pouco se encontraram depois desse acontecimento.

      Carlos constata com um misto de horror, culpa e curiosidade que se trata de Berenice. Seu coração acelera um pouco dentro do peito e suas mãos ficam ligeiramente molhadas.“Você mudou seu cabelo” Berenice ri: você ficou mais careca. Ele ri também, desconfortável. Diz também que perdeu o jeito de menina. Berenice fecha o rosto numa expressão séria e diz que, de fato, já não é mais uma menina há tempos. Ficam parados, na frente da prateleira de azeites, se olhando por alguns minutos dolorosamente silenciosos. Carlos volta a falar, perguntando o que ela faz no supermercado. Ela diz que estava voltando do trabalho na Lapa, parou lá para comprar um vinho e que se percebeu de repente na frente da prateleira de azeite, admirando-os.

      Carlos lhe pergunta se a namorada de seu amigo Eduardo, com quem Berenice mora, ainda compra o azeite mais barato. Ela responde que por pouco ele perdeu esse timing, pois ela havia acabado de se mudar para um novo apartamento, ou pelo menos, se mudaria oficialmente na manhã seguinte. Então não, sem azeites baratos por hora. Diz também que provavelmente o problema era pessoal com ele, porque desde que ela havia se mudado para lá Aurélia nunca mais comprou azeites baratos. Ele ri, ela ri.

      Ela não pergunta a ele o motivo de sua vinda ao supermercado, apenas o observa com o coração batendo rapidamente dentro do peito. Antes que Carlos possa perceber, estará convidando-a para tomar alguma coisa, talvez uma cerveja, ali perto. Berenice sabe que o correto seria recusar, mas não consegue deixar de se indagar o que se daria deste convite ou até mesmo porque o destino havia os colocado neste encontro vulgar.

      Aceita. Eles vão ao caixa, ele de mãos vazias e ela com um espumante caro nas mãos. Ela paga e guarda a bebida em sua bolsa preta. Em poucos minutos estarão sentados em algum bar na região, incapazes de não conversar demais como era de costume. Ele acende um cigarro e pergunta a ela se ela gostaria de um. Ela observa o cigarro em sua mão, demoradamente. Balança a cabeça como quem diz não. A conversa prossegue, a cerveja continua chegando, ele continua acendendo mais cigarros e mesmo assim o maço parece não ter fim. Dentro de algumas horas estarão levemente bêbados, ou bêbados o suficiente para acessar o passado mútuo, sempre e apenas, acessado nesses momentos de embriaguez.

      Ela pergunta se ele ainda está com Beatriz. Ele diz que sim, que mora com ela, na mesma casinha com o pequeno quintal ali perto. Ele pergunta se ela ainda é solteira. Ela dá os ombros. Alguns minutos no silêncio, olhos nos olhos, mãos próximas demais uma da outra. Ele delicadamente toca na mão dela e ela sente o calor conhecido das mãos dele.

“Eu te entendo agora, Carlos”.

“E por que agora?”

      Ela ergue os ombros como quem diz que não importa, ou que não sabe. Ele pousa seus olhos no chão, em uma carcaça de barata na entrada do bar, respira fundo e balança a cabeça

“Me desculpe”

“Não há mais culpa entre nós, Carlos”

      Ele se aproxima mais de Berenice, passa a mão delicadamente no seu rosto, em seu queixo. Ela sorri tristemente enquanto ele ri com uma risada rouca, cínica, triste mas não completamente triste. Beija a testa dela, como costumava fazer. Ela repousa a cabeça em seu peito e sente o cheiro de arruda e cigarros, inalando-o lentamente, pausadamente. “Tenho medo de você se afogar em mim” ele diz. Ainda sem tirar a cabeça de seu peito ela diz que não há nada para temer, porque amanhã tudo isso será mentira. Ele ergue sua cabeça, segurando pela lateral do rosto e olha para sua boca como se pudesse engolir todo seu desespero**. Acariciando levemente seu queixo a beija docemente, com a língua começando pela lateral da boca, como deve ser.

      Em meia hora o bar terá fechado. Eles caminharão lentamente e embriagados até a casa vazia de Carlos. Ele irá colocar um copo de whisky para ele e um para ela. A gata preta recém adotada fica durante todo o tempo no colo de Berenice, ronronando satisfeita. O whisky se vai mais rápido do que eles poderiam prever. A gata desce do colo de Berenice porque logo ela e Carlos estarão nus, beijando-se em agonia, angústia, aflição e lascívia. Ela em cima dele, cavalgando lentamente. Mãos quentes, coxas violentas, juntos no limite do insuportável, num incêndio moribundo. Noite adentro, se consomem como numa performance masoquista, ouvindo os pássaros cantarem impiedosamente marcando o fim desse desenlace amargo e definitivo.

      Pela manhã Berenice acordará mais cedo que Carlos. Deixará um bilhete de despedida em cima do travesseiro. A gata irá segui-la pela casa, enquanto ela recolhe suas roupas, se veste, bebe um copo de água e esquece sua calcinha escondida no vão do sofá. Abre a porta e a gata continua ronronando em seus pés.

      Ela pára e observa a casa. Observa os retratos de Carlos e Beatriz, observa o lar deles maculado pelo pecado de dois amantes irremediavelmente quebrados, imprudentes e equivocados. Ela pensa em todas as partidas, pensa em todos os rastros deixados por ele nas entranhas do seu corpo. Pensa na andorinha de porcelana solitária pendurada na parede de seu quarto, em seu novo apartamento.

      Com delicadeza, pega a gata, a põe em seu colo como uma criança faria e sai da casa, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Em algumas horas, Carlos acordará e lerá o bilhete de despedida. “Nos vemos no inferno, querido”. Notará o sumiço da gata dentro de uma hora, mais ou menos, e ao perceber, soltará um riso amargo, mas satisfeito e acende um cigarro.

      Queima lentamente o bilhete e assiste o fogo consumir essa história que finalmente chega ao seu destino absoluto.

*Disque 192

**Traguei saturno

Exercício de Telepatia

São Paulo, 15 de abril de 2018

      Na semana seguinte, ela não apareceu. Já passado o meio dia, como de costume, acordou na própria cama de solteiro, cercada de seus próprios pertences e com o gato gordo ronronando tranquilamente na cadeira da escrivaninha.

      Demorou alguns minutos para levantar, permanecendo deitada admirando o teto manchado. No fim, não era tão diferente dos outros sábados, porque ela sempre acordava sozinha, mesmo que na cama dele. Não sabia dizer se a diferença era a ausência da camiseta masculina cobrindo seus seios, da certeza de encontrá-lo na cozinha, das palavras ácidas trocadas entre eles ou do café passado especialmente para ela.

      Decide sair do quarto. Corta seus legumes, da maneira que gosta, lentamente, enquanto sua música preferida toca – não a dele – e a cerveja gelada repousa ao lado do fogão. E as semanas passam, três sábados, quatro sábados, todos iguais, com o gato e o silêncio, sem armadilhas e cigarros, os jornais da semana se acumulando no aparador da sala, sem ninguém para lê-los.

      É no quinto sábado, durante a preparação do almoço, que percebe o fim do café. Na esperança de encontrar um saco novo esquecido no fundo do armário, descobre um restinho de chá preto.

      As lágrimas vem, enquanto corta as cebolas, se confundindo inicialmente com a irritação do tempero e sendo substituídos por soluços longos e doloridos. Desliga o fogo, tampa as panelas e senta-se no balcão da cozinha. Espera pacientemente que as lágrimas sequem e que o chá esfrie.

      Pega o telefone. Com os dedos quentes, disca o número dele.

Exercício de continuação do teu exercício de continuação

São Paulo, 05 de setembro de 2017

      O sol do meio dia entrava pelas frestas da janela. Joana rolava na cama vazia já há algumas horas: acordou as dez de um sonho bom, voltou a dormir, pesadelos até as onze e pouco, sono sem sonhos até meio dia e, enfim, decidiu-se por levantar. Pegou uma camiseta dele jogada nas costas de uma cadeira e a vestiu, mas desistiu de cobrir a parte debaixo do corpo porque a visão da cama vazia e desarrumada lhe causava uma aflição, quase desespero, que nesse dia resolveu evitar.

      Sentia algo acumulado dentro de si, sem saber bem o que, subindo pelo seu esôfago, como em um refluxo ácido mal educado. Era como se cada segundo a mais observando aquele quarto de casal solitário fossem responsáveis por ferver uma angústia em seu sangue, causando uma série de sentimentos embaralhados. Em sua cabeça só conseguia nomear a raiva, a tristeza, a amargura e o amor. Com certeza havia amor no meio de tudo isso tornando essa miscelânea psíquica especialmente venenosa.

      Você vê, o problema era os sábados. Todo sábado ela acordava na casa dele, mas nunca junto dele. Ele, um animal matutino e ela, um animal noturno. A questão era que Joana sempre acordava próximo da hora do almoço, enquanto ele despertava quase como se fosse o próprio amanhecer e depois disso se revirava na cama até ser minimamente aceitável levanta-se sem ela e deixá-la só.

      Ficar só no quarto dele havia se tornado uma experiência sufocante. Anos atrás, ela se deleitava com a ideia de estar no habitat natural dele, as coisas organizadas de um jeito único. Cada retrato, desenho, peso de papel ou até amontoado de roupas sujas eram coisas novas pra descobrir sobre ele. Com o passar do tempo, contudo, ela não pode deixar de estranhar como o quarto era dele e só dele. Não havia nada que a lembrasse de si própria, do que ela significava para ele. Não havia nem sinal dos presentes que deu a ele em seu aniversário, mesmo quando eram itens decorativos.

      As próprias roupas desapareciam sob as cobertas, como se a cama as engolisse, seus itens pessoais eram minuciosamente agrupados no canto da escrivaninha, perto da porta, como se ela estivesse apenas de passagem. Dentro daquele quarto era como se ela não existisse.

      Todos os sábados ela era engolida cada vez mais. Todos os sábados ela o amava mais, o queria mais e se desesperava mais porque todas as vezes que ele se levantava da cama e a deixava só, ela tinha certeza que havia um abismo entre os dois.

      Finalmente, sai do quarto nua da cintura para baixo. Não uma nudez provocativa, pelo contrário, uma nudez displicente. Encontrou-o na cozinha, preparando o almoço. Encostou-se no batente da porta observando a faca na mão dele descendo e subindo pela tábua de carne, fatiando perfeitamente os legumes. Primeiro pensou em dar bom dia, em abraçá-lo pelas costas, talvez pegar uma cerveja na geladeira e entregar a ele com um beijo, mas se inibia de qualquer uma dessas coisas porque não se sentia certa de nenhuma delas.

      Havia somente uma certeza sobre todos os sábados e era de que fatalmente eles brigariam, como de costume. Não sabia bem o que acontecia, sentia vontade de dizer algo doce, mas sempre era impedida por aquela sensação no esôfago, causada pela estupidez de se incomodar com o quarto dele e o que saia de sua boca era sempre inseguro, duvidante, cambaleante. E ai começava. Ele percebia, claro, o incômodo. Mas por algum motivo o interpretava errado, interpretava como um desafio, uma provocação, uma tentativa de destruí-lo de alguma forma. Mas não era isso, de maneira alguma. Era alguma forma de medo. Medo do quanto ela o amava e o queria enquanto não fazia ideia do quanto ele a amava ou a queria e aos sábados era sempre pior porque aquele quarto terrivelmente individual era exímio na tarefa de evocar tudo isso. Assim, ela o odiava por não entendê-la e o amava por não entendê-lo.

“Quer ajuda para cortar alguma coisa?”

“Não precisa.”

“Você tem medo que eu corte errado?”

      Ele gesticula vagamente, como quem diz que não sabe, ou que não se importa. Sugere então que ela escolha uma música mas ela sabe que não saberia escolher uma música que ele gostasse.

“Não conheço nenhuma das músicas que você ouve”.
      De novo o gesto vago e a sugestão de que ela apenas ligue o rádio, pois eles podem ouvir qualquer coisa que esteja tocando. Ela aceita a sugestão, um pouco contrariada porque talvez uma parte dela desejasse uma resposta do tipo ele “você sabe que gosto de The Smiths” ou “pode ser aquela do Caetano”.

      Suspira profundamente, tentando ignorar a sensação desagradável, Engole a frustração, pega duas cervejas na geladeira, gesticula um brinde frustro e bebe despretensiosamente.

      Senta na mesa, começa a folhear os jornais que ela mesma havia trazido para cima, observa a cozinha evitando olhar para ele.

      O armário do canto está cheio de pacotes de café, pacotes que ela mesma trouxe, porque ela ama café e ele detesta café. Detesta, mas todo sábado passa um café para ela, como parte do ritual de acordar antes dela, viver metade do dia sem ela, deixá-la sozinha no quarto.

      É uma prova de amor. Ele te ama, então passa o café para você todas as manhas de sábado, apesar de odiar café. Ele te ama, então acorda mais cedo que você todos os sábados e prepara um almoço para vocês dois. Ele te ama, então se esforça ao máximo para não fazer nenhum barulho quando se levanta, porque sabe que você gosta de dormir até tarde.

      Ela balança a cabeça de maneira quase imperceptível, tentando afastar esses pensamentos. Sabe que o ama, mas não sabe se ele a ama, mas isso é uma dúvida tão tola, tão estúpida. Como poderia não amar?

      Então ela pergunta: “Como foi?”.

      Sua voz paira no ar, sai da sua boca e paira no ar. Ela sabe que é assim que começa. A discussão, a briga, o conflito não-armado, a guerra fria. Ele nunca responde honestamente, ela sabe. Ele sempre inventa alguma coisa idiota, alguma coisa que ele pensa que vai ser romântico, que vai agradá-la. E fatalmente ele falha, pois não é isso que ela procura e a uma discussão interminável se segue, uma discussão cujo único desfecho é mágoa entre os dois.

“Como foi o que?”

“Como foi quando você se apaixonou por mim?”

      Alguns minutos se passam e ele prossegue com os preparativos do almoço. Ela podia quase sentir ele se odiando por ter continuado a pergunta, o desespero crescendo dentro dele porque dessa vez, dessa única vez, ele não conseguiu ser evasivo, porque agora ele teria que responder alguma coisa. Ele joga água gelada dentro da panela, a fumaça e o chiado subindo e responde sem se virar para trás:

“Eu nunca me apaixonei por você”

Lucky Strike Vermelho

São Paulo, 13 de julho de 2017

      Caminhávamos em silêncio. Você jogou o fim do seu cigarro ainda acesso no chão, a fumaça criando espirais no ar, subindo, subindo até o interior do meu cérebro, incitando meu ódio por você. Hoje quando nos cumprimentamos senti pela primeira vez o cheiro do cigarro nas suas roupas. Engraçado como minha tristeza se torna raiva e minha raiva se torna tristeza muito rapidamente. É fácil te odiar (ou devia ser). Sua cara de idiota, sua barba por fazer, seu Lucky Strike vermelho para completar o clichê que você é, que eu sou, que fomos.

      Passamos em frente a um desses caras malucos, desses que vagam eternamente pelas ruas quebrando silêncios desagradáveis entre não-amantes. “Muitos passam, mas poucos sobreviverão”, ouvi ele gritar. Quão pertinente.
      Dei uma risada engasgada, rouca e antes que eu pudesse evitar, senti as lágrimas descendo pelo meu rosto. Tentei limpá-las sem que você percebesse, num gesto automático desenvolvido especialmente para você, porque eu sei o quanto te incomoda me ver chorar.
      Você acendeu o seu segundo cigarro seguido, o cheiro enjoativo me atingindo como um soco, e na tristeza súbita, não me contive:

– Você me quebrou.

      Esperei sua resposta, mas ela não veio.

– Ou eu me quebrei, ou os dois…

      Senti sua mão no meu ombro, me interrompendo, num gesto delicado e desconectado das palavras que viriam a seguir.

– Isso não é coisa que se diga.

– Eu sei que não.

      Pensei nas mentiras que contamos para nós mesmos, repetidas vezes, como um mantra, todos os dias, até se tornarem reais. Pensei nos meus rascunhos de memórias repletos das groselhas que você me contou, das palavras doces que ouvi de você. Pensei em como bloqueio essas lembranças, porque sei que elas já não têm nenhum propósito a não ser incomodar. Preciso esquecê-las, enterrá-las, para que eu possa seguir em frente com os planos que tinha antes disso tudo.

– Eu sei que não, — repeti, incapaz de parar o mar de lágrimas e palavras desprendendo de mim — peço desculpas.

– Imagina como é difícil ouvir que você é a causa do sofrimento de alguém.

– É, imagina… Talvez seja o caso de ocultar o sujeito da ação, então?

– Não, não é isso. Só não diga nada, não fale a respeito dos seus sentimentos. Não há nada que eu possa fazer, então cale-se. Chega disso, acaba com isso, pelo amor de Deus, porque eu não suporto mais essas despedidas e re-despedidas.

– Tudo bem, eu vou. Somos adultos aqui, sabemos que esse jogo de culpa não leva a lugar nenhum. Sabemos que não vamos a lugar nenhum. Mas peço desculpas, porque olhando na minha cara você sabe, eles sabem, todo mundo sabe. Infelizmente algumas pessoas são… transparentes.

      Você não me respondeu. Não me olhou nos olhos. Olhava para baixo, para o chão, ou para algum lugar perdido dentro de você mesmo, inalcançável por mim. Limpei minhas lágrimas, inutilmente, porque várias outras insistiam em vir. Então, continuei:

– O silêncio é a melhor forma de lidar com isso, eu sei, eu sei. Sorrir em silêncio, um sorriso convincente. Dentes brancos que gritam “estou bem, estamos bem, está tudo bem”. É o único jeito de coexistirmos civilizadamente. Fingir que nada aconteceu, fingir que foi tudo um sonho. Eu consigo, sei que consigo… Só que hoje eu não consegui. Foi demais. Alguma coisa foi demais.E então, você estourou. Finalmente, pensei comigo mesma.

– Para com essa palhaçada. Para com esse choro ridículo. O que inferno você quer que eu faça? Eu não posso fazer nada. Não sei o que você quer de mim. Que porra que você quer de mim?

      Olhei nos seus olhos, na altura dos meus, nossos poucos centímetros de diferença de altura parecendo um abismo de distância. De novo eu nessa posição, de estar sofrendo por você, de não conseguir seguir em frente. Eu achei que tivesse superado, que tinha ido embora, mas volta toda vez, como ondas de um mar cruel e insaciável. Quando a maré recua, sou sugada para dentro, penso por um segundo que conseguirei nadar, sobreviver, mas logo a onda retorna, violenta, me cuspindo para fora, me fazendo engolir a água salgada, me afogando no monte de decisões imbecis que tomei depois de você, me afogando na lembrança dos pedaços do meu corpo indo embora do meu porto seguro e indo em direção ao mar. Quando vi, já tinha ido inteira e não havia para onde voltar. Não que eu quisesse voltar, pudesse voltar, mas mesmo assim. O sal arde nas minhas narinas, me lembrando o quanto essa saudade do porto seguro é estúpida. Talvez tenha sido isso. Esses dias essa saudade bateu e meu cérebro confunde os sentimentos, me jogando de volta para você.

– Eu tô testando sua paciência, eu sei. Não é proposital. Toda noite eu tento assassinar essa parte insuportável de mim, que não deixa estar, essa parte que continua. Tento sufocar com o travesseiro, envenenar com cianureto, jogar do terceiro andar do prédio… Mas ela volta, ela sempre volta, quando eu menos espero, quando eu acho que já morreu. Vai passar, vai passar, eles dizem. E vai mesmo, eu sei que vai. Em algum momento eu vou poder olhar para você e não sentir mais nada.

– E enquanto isso, o que? Você quer que eu me sinta um lixo? Que eu chore como você, sinta como você? Eu não posso fazer isso. Se eu te disser que me sinto como você eu vou estar mentindo e você sabe muito bem disso.

      Seu rosto era inexpressivo durante todo vômito de palavras que se seguia. O olhar vazio, que eu não sei decifrar. Talvez não saiba decifrar porque não há nada ali. Todas as vezes que houve, eu entendi. Então é sábio supor que quando não te entendo é porque não há nada para entender. Não há nenhum sentimento. Olhos negros e buracos vazios.

– Às vezes eu quero sim que você sofra. Queria ser capaz de te fazer sofrer. Queria ser capaz de fazer você sentir saudades… Sentir alguma coisa, qualquer coisa. Mas é ilusão, eu não sou capaz, ninguém é. Essa é uma egomania que eu não sei de onde vem. Ou queria ser capaz de voltar no tempo, de reviver o que já foi. Mas, de novo, isso não é possível. Então quero não sentir mais, não me importar mais. Quero que você volte a ser o estranho que você era, mas sem o peso das memórias de quando você não foi. Eu engulo um inibidor seletivo de hipocampo todos os dias pela manhã. E você, o que você engole de manhã?
      Nossa caminhada chega ao fim. Estamos na frente do ponto de ônibus e você ainda tem que seguir andando mais alguns minutos. Você põe sua mão cálida no meu rosto e eu coloco a minha mão fria no seu. Cômico como nossas mãos são a perfeita antítese do seu coração gelado e do meu peito quente.

– Me desculpe — você sussurra, num tom de voz doce. Agora vejo dentro do buraco negro que você chama de olhos algo como pena, dó, talvez culpa, mas nenhum desses sentimentos me satisfaz.

      Eu balanço minha cabeça.

– Estou indo embora agora. Você já foi, só me resta eu, então estou indo. 
      Nos despedimos sem nos abraçar. ­

Apartamento 71

São Paulo, 8 de junho de 2017

      Ficamos o caminho inteiro dentro do carro em completo silêncio. Esses silêncios incômodos, carregados de palavras não ditas, pensamentos que se acumulam mas que não se formam completamente e então não dizemos nada.

“Você gostou do jantar?”

      Ele responde que sim, que é sempre bom encontrar Roberto e Joana. Eu sorrio. É verdade, é sempre agradável jantar com eles. Sempre animados, aquele casal que faz mil planos, já tem viagem marcada pra daqui há meses… Talvez se casem ano que vem.

      Ele sorri de volta, um pouco melancólico. O elevador finalmente chega no nosso andar.

      Logo que entro já caminho até a geladeira para pegar o resto do vinho que deixamos aberto na quinta feira. Virou um hábito esquisito. Toda vez que a gente sai e volta nesse silêncio constrangedor eu bebo uma taça de vinho. Sento na poltrona, ligo qualquer coisa na televisão e bebo. Ele sempre vai pro quarto dormir. Nunca foi um animal noturno.

      Mas hoje não. Hoje ele para no meio da sala, olha pra mim e pergunta se eu não quero abrir uma garrafa nova, para bebermos juntos.

      Digo que tudo bem e pergunto qual ele prefere. Qualquer um, escolhe você. Ah não, você sabe que eu odeio escolher vinho. Ele revira os olhos e decide: aquele que minha mãe me deu de presente.

      Abrimos o vinho, bebemos sentados na poltrona, as mãos dele no meu colo. Arrisco olhar para ele. Ele me olha de volta, fazendo aquela cara triste, como se procurasse pedaços perdidos dentro de mim. Então eu dou a deixa.

“O que você tá pensando?”

“Nada”

“Você tá com aquela cara de que quer dizer alguma coisa mas não sabe como”

“Por que você sempre acha que eu não tô te dizendo alguma coisa?”

“Por causa dessa cara que você faz.”

      Ele suspira, cansado. Peço mais uma vez que ele diga o que está pensando. Ele tira a mão do meu colo e passa no meu cabelo.

“As vezes eu sinto que você não está aqui. Que uma parte de você foi embora. Não sei exatamente quando, mas foi.”

      Eu não respondo. As vezes é como se algo tivesse morrido dentro de mim algum tempo atrás, algo que ele tenta desesperadamente trazer de volta. Algo que, quando foi, levou um pedaço dele também.

      Ele suspira de novo.

“Me desculpa. Ver Roberto e Joana sempre me deixa assim. Eles tem esse jeito de destino que me incomoda”

      Eu dou uma risada e percebo que o relógio marca 2h. Me levanto da poltrona e peço que ele me siga até o quarto. Digo que nada de bom sai de conversas depois das duas da manhã. Ele sorri com a referência, porque só ele entenderia, e me acompanha.

      Na porta do quarto nos abraçamos. Ele sussurra um eu te amo no meu ouvido. sussurro de volta. Roubo um beijo dele e peço que mesmo quando eu for, que ele não me deixe ir. Mesmo quando eu for, fica. Sim, eu fico. Eu sempre fico. É, eu sei. Você fica porque você quer ficar e eu também. Você sempre fica e eu também.

Disque 192

São Paulo, 22 de junho de 2017

      O céu cinza derruba um chuvisco chato, desses que vão embora tão subitamente quanto chegam, voltando sob a constante ameaça de partir novamente. Deixa as roupas úmidas e o chão escorregadio mas não é de fato uma chuva. São dessas coisas estúpidas da vida: não fode e nem sai de cima, chove mas não molha. Só que molha, né. A verdade é que molha.

      Uma moça jururu acena para um táxi e entra rapidamente no veículo. Não sei se ela está verdadeiramente triste, mas a expressão melancólica em seu rosto me faz supor que sim. Seu longo noivado se desfez no último feriado e ela entra no carro se sentindo vagamente perdida na súbita solteirice, esperando que o GPS indique a melhor rota. Ou talvez só tenha perdido a hora para uma reunião importante. De todo modo, dentro de um táxi do outro lado da rua entrou uma moça jururu.

      Enquanto isso, a algumas muitas ruas de distância, Beatriz mastiga lentamente um pão francês com manteiga, apoiada na pia da cozinha do seu apartamento vazio. Seu gato está deitado preguiçosamente no sofá e ela engole o desjejum na esperança de se sentir um pouco menos vazia enquanto seu estômago se enche aos poucos depois de horas de sono mal dormidas. Beatriz não está solteira, como a moça-jururu. Está em um longo relacionamento, igualzinho ao recém-falecido noivado da moça-jururu, apesar deles não serem nem um pouco iguais.

      Há muitas palavras que se repetem dentro de um e de outro, assim como se repetem dentro de outros tantos, porém só há duas realmente importantes para o entendimento dessa história. A primeira é “longo” e a segunda não é de fato uma palavra, mas sim uma constatação: o noivado da moça-jururu terminou pelo mesmo motivo que o relacionamento de Beatriz continua. Você pode pensar ah, mas isso constitui um paradoxo e eu te respondo que não, não constitui, pois os seres humanos envolvidos nessa história são dramaticamente diferentes, ao mesmo tempo que, claro, são iguais. São diferentes porque alguns deles chovem e não molham, enquanto outros chovem e molham, mas são iguais porque no final todo mundo sai molhado.

      Em todo caso, Beatriz logo sai de casa, pois já passam das oito horas e ela não pode se atrasar para o trabalho. É uma pessoa responsável e dá cem por cento de si em todas as atividades remuneradas que exerce. Talvez só faça isso nos aspectos da vida que tangem a esfera pública. No que diz respeito a esfera privada, não posso dizer com certeza, porém em nome da literatura, suponho que Beatriz não é como o chuvisco: quando ela chove, ela molha.

      Ao entrar no elevador, encontra sua vizinha do andar de baixo, cujo nome não se recorda e não se importa de não recordar, pois nunca trocaram uma só palavra. Entretanto, se lembra do nome de seu marido, Bernardo. Infelizmente, Bernardo estará morto dentro de alguns dias e Beatriz só ficará sabendo disso dali há três meses.

      Diferente da esposa, Bernardo troca muitas palavras com Beatriz. Sempre no elevador e sempre as mesmas palavras. Como vai, querida? Uma pergunta que ela nunca responde com honestidade, afinal de contas é apenas uma conversa de elevador. Ao mesmo tempo que não é, pois esse hábito de não demonstrar a sinceridade dos sentimentos é uma característica de Beatriz. Em um dia ensolarado e terrivelmente quente, Bernardo a encontrou com os olhos vermelhos no hall do prédio e quis chamá-la para tomar um café, no qual a aconselharia a não guardar rancores por mais de três anos, pois a partir dessa data eles começavam a apodrecer dentro dos nossos intestinos e causavam diverticulite.

      Essa conversa, entretanto, nunca aconteceu. E agora não há de acontecer mais, pois dentro de alguns dias Bernardo estará morto. Morre de fato três dias depois, mas já começara a morrer logo depois da partida da mulher, pois tinha um aneurisma que explodiu enquanto dormia e só foi encontrado lá pelas oito da noite, quando a mulher chegou em casa depois do serviço. Quando ela voltou, era tarde demais.

      Há coisas assim na vida, que só descobrimos quando é tarde demais. Aneurismas cerebrais são assim, mas podem não ser, graças ao tomógrafo, aos cirurgiões e o número da emergência. Tragicamente, dessa vez foi tarde demais e nada pode ser feito a respeito disso.

      E esse relato que começou com o chuvisco às sete da manhã, se encaminha para uma história de partidas e morte. Bernardo partiu. O noivado da moça-jururu faleceu. E o relacionamento de Beatriz já começou morrendo e continua morrendo até hoje, até que algo seja feito a respeito, antes que seja tarde demais. Para Bernardo não houve possibilidade de nada ser feito, até que fosse tarde demais, pois algum filho da puta responsável pelo roteiro do universo quis que ele estivesse sozinho em seu apartamento. Em relação ao noivado da moça-jururu pode-se dizer que morreu de velhice e, nesses casos, felizmente ou infelizmente, nunca ninguém se pergunta quando ficou tarde demais.

      Entretanto, essa história não é sobre eles. É sobre Beatriz, que seguirá normalmente com a sua vida, assim como já faz há alguns anos, acreditando (mas não acreditando de fato) que seu relacionamento irá sobreviver (diferente de Bernardo e do noivado da moça-jururu), pois ela acredita ter discado o número da emergência, acredita que o resgate está a caminho e chegará de fato antes que seja tarde demais.

      Quando Beatriz estaciona o carro na garagem do escritório onde trabalha, ela torce para que o chuvisco acabe e que o resgate chegue. E para fins literários, te digo que o chuvisco acaba. Não sei dizer se chega a virar chuva ou não e também não faço suposições, porque elas já não me interessam.

      E o resgate? Ah, o resgate chega. Só que essa é uma história de mortes e partidas, você queira ou não, então o resgate chega sim, porque ele sempre chega, mas parte com um morto. Resta saber quem sobrevive. Eu, cinicamente, torço por Beatriz.

Marchinha na Santa Cecília

São Paulo, 3 de junho de 2017.

     Sentada no sofá, com meu gato no colo, ouço as taças dentro do armário da cozinha tremendo de leve. O chão e as paredes começam a vibrar sutilmente. Olho para o gato e ele me olha de volta. Sustentamos o olhar por poucos segundos. Ele está pronto para partir e quer que eu me junte a ele. Ele se levanta, se esfrega no meu peito, ronrona baixinho e me olha novamente. Balanço minha a minha cabeça. “Não. Eu não vou com você. Vou ficar aqui. Eu quero ver chegando.” Ele salta do meu colo.

     É um terremoto.

     Ou um incêndio. Ou talvez os dois.

     Um inevitável desastre qualquer, desses que a gente sabe que vai acontecer, mas que não sabe muito quando, muito como. No fundo acredita que é só uma sensação ruim, que não é real, que vai passar.

     E então, ele vem. Passa por mim derrubando todos os livros da estante que estavam organizados em ordem alfabética. Arrastando pra fora do meu quarto minhas meias separadas por cor. Rasgando os retratos bem pendurados, abrindo as tampas de caixas muito bem lacradas e esquecidas.

     Minhas roupas pegam fogo. E eu sentada. Vendo queimar. Imóvel. Paralisada.

     O fogo vai subindo, se aproximando. Meus pelos do corpo se arrepiam, meu coração começa a bater mais rápido. Abro a boca arfando por ar, mas não me movo.

     Espero o que quer que seja isso me atingir em cheio. Me derreter, me quebrar, me consumir. Meu peito se encheu de gritos insaciáveis de loucura, meu corpo se contorcendo, doente de um desejo irreconhecível. Envenenada com o desejo suicida de ver o que vai acontecer depois. Sinto mãos passando pelo meu corpo, pelo meu rosto, param no meu pescoço e apertam o suficiente pra eu sentir, mas não o necessário pra me matar. Sinto um sopro suave na minha pele, o ar quente vai se enrolando em volta de mim e me abraça, aconchegante. Me seduz. Ele quer que eu entre nele, mergulhe no abismo que se abriu no assoalho de madeira na minha frente. Ele não. Não é o vento, sou eu. Eu quero pular, me jogar. Algo dentro de mim grita, grita desesperadamente, suplica que eu me atire, faminto da sensação do vento gelado riscando seu rosto numa queda livre que parece interminável até você finalmente sentir seu corpo espatifar no chão.

     Então eu pulo.

     Eu pulo e dentro de mim algo explode, uma sensação inexplicável, euforia doentia, implacável. Sinto minha pele rasgar suavemente conforme me entrego. Sinto meu corpo tremer inteiro, possuído de desejo. Minha mente descolada do corpo. Dentro de mim o grito foi substituído por um gemido baixinho, de culpa, de medo, de prazer. Dentro de mim já não sei mais o que eu sou, virei um bicho.

     Observo o chão se aproximando cada vez mais rápido. Nas paredes eu vejo alguns galhos, poderia me segurar antes do impacto final, mas já não penso mais, não faço nada além de sentir o prazer de estar totalmente fora de controle.

     Quando encontro o chão, o impacto me congela. Sinto meu corpo físico se juntar novamente só para esfarelar logo em seguida. Vou virando pó aos poucos, ao mesmo tempo que percebo que meus pulmões foram totalmente destruídos na queda, então já não respiro mais. O ar entra pelo meu nariz e sai por um buraco no meio do meu estômago, arrastando todos os meus órgãos para fora, me deixando cada vez mais vazia, vazia, vazia…

     Quando sinto que só a carcaça sobrou e não posso mais suportar, meu corpo aos poucos vai se fundindo no chão. Agora eu sou algo não humano. Energia.

     Abro os olhos. Algum alarme de carro toca distante na rua. É isso que me acordou. Lembro do sonho que tive. Sinto uma dor absurda no peito, uma angústia me sobe pela garganta, tenho vontade de me arrancar de dentro de mim mesma. As lágrimas vem, engasgadas, sufocadas. Não são completas, nunca são. A dor vem em ondas.

     São 6h34 da manhã. Fecho os olhos novamente e torço para parar de sonhar.

"Não desabafos, mas outras coisas"

São Paulo, 17 de abril de 2017

Sentada na beirada da sua cama, ouço suas músicas favoritas tocando baixinho, como cúmplices da nossa tragédia futura. A luz está apagada, a janela aberta e a luz do sol se pondo enche timidamente seu quarto, criando uma iluminação quase melancólica.
Você está parado na porta, a mão apoiada no batente, suas sobrancelhas quase arqueadas, numa expressão que eu não sei bem o que significa. Seus olhos cruzam com os meus, e então compreendo. É como se perguntasse: é isso mesmo que você quer?
Sabemos como viemos parar aqui. Quer dizer, talvez você não saiba, porque me convidou para me mostrar qualquer bosta no seu quarto, não é? Mas eu sei. Sei e, por um momento, analisando o jeito que você me olha, não acredito na sua inocência em me trazer aqui.
Finalmente entra e fecha a porta atrás de si.
Eu quero acreditar que você me chamou aqui sabendo o que eu realmente quero. Tocar você, sentir seu cheiro misturado no meu cheiro, sentir seu corpo encostar no meu, ignorando um suspiro de culpa que eu deixo escapar enquanto seus lábios ficam cada vez mais perto dos meus, enquanto as coisas vão acontecendo rápido demais para que sejam interrompidas.
Por um instante, temo que isso seja verdade, porque se for, está feito. Eu não tenho forças suficientes para parar essa loucura aguda que me atingiu desde que te conheci. Não tenho.
Mas é claro que uma parte de mim está extasiada com essa possibilidade e ela teme que isso seja mais uma das minhas fantasias absurdas, mais um dos meu quase-delírios porque obviamente você só me chamou lá pra me mostrar um retrato, um desenho, um sei lá o que. Inocente.
Você sabe, não sabe? Sabe que eu não quero ser só sua amiga. Você sabe que eu quero entrar nessa espiral de insanidade com você, ignorar todas as minhas responsabilidades com ele, ignorar todas as promessas que eu fiz pra ele. Nós conversamos sobre isso antes, sobre como eu estou confusa. Você sabe.
De repente, não consigo mais analisar todas as consequências que antes se acumulavam na minha cabeça. Pra você é só um jogo, não é? Amanhã você acorda livre. Ninguém é testemunha, não há ninguém pra prestar contas, nem mesmo pra você mesmo, porque afinal, o que eu sou pra você? Não há consequências pra você.
Você se vira de costas, pega um livro na estante. Ah, era isso que você queria me mostrar, um livro. Uma recomendação de leitura inofensiva. Você anda ao meu encontro, segurando frouxamente o livro, até que o deposita suavemente ao meu lado, na cama, ao mesmo tempo que se senta na minha frente.
Percebo que faz alguns minutos que você não fala nada, nem eu. Esquadrinho seu rosto, até finalmente descansar meu olhar no canto do seu lábio inferior, onde você tem uma pinta quase imperceptível. Impulsivamente, encosto minha cabeça no seu ombro. Você hesita.
Nesse nanossegundo, todo arrependimento que vinha se acumulando por ter ido ao seu encontro parece que vai me consumir instantaneamente. Fazia tanto tempo que nós não nos víamos. Não tinha nenhum motivo pros nossos caminhos se cruzarem novamente, não desse jeitoalém do meu desejo desesperado de viver algo com você antes que fosse tarde demais.
Mas você finalmente me abraça, um pouco desajeitado pela nossa disposição estranha na beirada da cama.
Ficamos assim por alguns segundos, que parecem ser exaustivamente longos, até que você se afasta.
Não consigo mais olhar nos seus olhos.
Você passa a mão no meu cabelo, delicadamente elevando meu rosto para que nossos olhares se cruzem novamente.
– É isso mesmo que você quer?
Faço um movimento afirmativo com a cabeça. Você me beija. Já não estamos mais sentados. Fecho os olhos e sinto você pressionar seu corpo contra o meu.