Domingo, 26 de Julho de 2020

meu gozo.
o hálito quente saindo da tua boca semicerrada lambendo as minhas costas.
meu corpo estremece pensando nele do outro lado da linha,
a estática tocando no fundo dos meus ouvidos,
como se houvessem abandonado o telefone fora do gancho para que ele não tocasse mais

o prédio comercial daqui da frente
(esse com a fachada cheia de palmeiras)
me lembra algum tipo de Rio de Janeiro
mas é só a 23 de maio vazia
e o cheiro do vapor do café passado.
a gata em cima do móvel
e eu nua na tua frente.
você desliza a mão na minha pele macia e se demora na minha cintura
a estática continua:
a quarentena engole as pessoas, meu amor

funny funny funny little girl — carta número quatro

São Paulo, 22 de julho de 2019

[trigger warning: longo para cacete]
Querido Carlos,

Re-escrevi essa resposta (partindo do pressuposto de que há algum tipo de “conversa” surgindo a partir das correspondências) um milhão de vezes. Minha demora em responder, fugindo do padrão de resposta rápida anterior, se deve ao fato de que essas últimas semanas vem sendo muito cheias, pesadas, corridas e simplesmente não houve tempo, não houve condição para que eu te respondesse antes. Digo isso porque, mesmo assim, talvez eu ainda não esteja satisfeita com as palavras que coloco aqui.

Acho que posso, sob pretensão de não me alongar muito, fazer algumas observações antes de ir ao conteúdo principal da carta, se é que ela terá algum.

Primeiro que talvez seja importante estabelecer que não são necessárias desculpas pela demora em qualquer resposta. Essa talvez seja a ideia das cartas. Claro que não estamos usando o método convencional, com papéis, selos, carteiros, enfim, mas cartas demoram a chegar, demoram a ser lidas, demoram a ser respondidas. Não imaginei que sua demora tenha sido por vaidade ou covardia, mesmo porque nem ao menos pressupus com certeza que houvesse resposta e desta forma, também, talvez seja importante dizer que no momento não me interesso em absoluto por qualquer tipo de jogo mesmo porque eu mesma sou uma exímia piscadora. No mais, espero que estejamos livres de vaidades entre nós.

Sobre o morto, o nome dele era Rogério. Sobre suas palavras, eu sinto falta de todas, mesmo as que você considera desgastadas. Sobre a morte, nunca fui muito de espiritualidade. Às vezes sinto falta sincera de ter uma cabeça um pouco mais aberta nesse sentido, mas confesso que, se pensarmos em fé no sentido de confiança absoluta em algo ou alguém, venho tendo, com uma certa frequência, uma sensação de confiança absoluta em algum tipo de coincidência ou jogo cósmico quando se trata de alguns assuntos específicos, dentre eles, as mortes que presencio no meu dia a dia.

A pessoa analítica dentro de mim fica procurando algum tipo de explicação batida que justifique essas sensações: mecanismos de coping inadequados, “sintomas” de algumas neuroses, enfim, algo disfuncional que invalide a sensação física e é por isso mesmo que decidi usar a palavra fé no sentido de confiança absoluta mesmo.

E sobre esse assunto já não me resta muito o que dizer, já que as tarefas diárias corroeram a percepção dessa morte há alguns dias. Há algumas outras considerações, no entanto, que fui fazendo ao longo desse período que ruminei minha carta, as quais não foram totalmente descartadas nessa minha tentativa número sei lá qual de te escrever alguma coisa coerente, então que seja.

É horrível demais a parte em que se coloca o lençol em cima do corpo. É, sem dúvida, a parte que eu mais detesto. A ideia talvez, de um parente assistir a colocação do lençol, depois das devidas despedidas ao cadáver, é de aceitar a partida. Ver a palidez e o livedo no corpo e entender que aquela pessoa não existe mais. Não aqui, não conosco.

E sabe, dentro de mim há até um certo desconforto em me imaginar morta, com meu corpo maquiado de maneira póstuma, enfiado num caixão toscamente caro, em um velório desgraçado, sem comida, sem bebida, seguido daquele procedimento tragicamente cômico de quebrar concreto dentro das lápides para que, após o devido posicionamento do caixão, se passe novamente o concreto, fechando meu corpo oco e de certa forma, profanado pelas pessoas que ficaram.

Não é a ideia da morte em si, veja bem. Não me incomoda saber que ela virá e será como terá que ser. O que me aborrece é essa coisa toda de lençóis, cadáveres, concreto e partidas inesperadamente derradeiras.

Seguindo por esse raciocínio, que pode ser absolutamente incorreto, acredito ser por isso mesmo que me incomoda tanto essa sua ausência não-ausente, assim como a sua tentativa incompleta de dar fim aos seus textos. Você não está morto. Seguir com esse ritual frio como vínhamos fazendo faz cada vez menos sentido na minha cabeça.

Você está ai. Eu vivo na casa em que você viveu, sou amiga do seu melhor amigo. Ouço histórias sobre você. Não posso fingir que você não existe, porque fatalmente você existe. É exatamente como cobrir com terra e dizer que Portugal mudou-se.

Às vezes eu acho que o que é correto, o que me parece recomendado pela American Heart Association, o que me soa como a técnica principal empregada pelos melhores e maiores profissionais da área abre aspas como entender suas neuroses e merda de personalidade e fazer de uma vez por todas algo a respeito fecha aspas seria, na verdade, seguir com essa idiotice de fingir que nada aconteceu e que você existe sem existir. Assim, toda vez que o Caetano faz uma piada com o fato de você ter largado peças de figurino por aqui ou quando eu encontro mais um pacote de farinha de mandioca socada no fundo do meu armário eu deveria apenas agir como se aquilo não passasse de um delírio coletivo dos habitantes do 173.

Desde que você saiu do apartamento, tive que arrumar outra terapeuta por motivos financeiros. As histórias todas tiveram que ser repetidas e portanto foram contadas e recontadas e analisadas sob um milhão de perspectivas, entuchadas de argumentos psicanalíticos (por vezes de qualidade duvidosa, na minha opinião), mais por desejo da terapeuta do que meu, tendo como efeito final a sensação de que todo o assunto ficou quase completamente esgotado. Estava feito, ou pelo menos feito estava, de maneira prática, porque tudo continua dentro de mim e tende a transbordar nos momentos que estou sensível com acontecimentos quase exclusivamente sem relação direta com a sua existência. Contudo, mesmo que mal, estava feito.

Até você responder minha primeira carta.

A partir daí, não chegamos a porra de conclusão nenhuma sobre nada. Sentimentos, desejos, vontades, intenções, nada. Tudo está decididamente indeterminado. Confesso que ela é péssima em me convencer dos questionamentos que ela propõe assim como eu sou péssima em me convencer dos questionamentos que eu mesma me proponho, porque eu sou tão prolixa e verborrágica que me perco dentro das infinitas possibilidades e imensuráveis questionamentos dentro de mim mesma e termino tão escorregadia quanto você nas suas imagens semi-dantescas.

Sem falar que ela tem uma mania de me fazer questionamentos que acho forçosos, sem sentido, talvez psicanalíticos demais, talvez puros demais para que eu consiga quebrar minha própria barreira e deixá-la entrar. Em sua defesa, de fato, cheguei em uma conclusão sobre mim.

Eu frequentemente me pego testando limites. Até onde eu aguento, até que ponto eu posso me fantasiar como uma cobra faminta sem correr o risco de ser capturada, até que ponto eu posso brincar com todos os meus contextos inflamados dada a minha propensão a incêndios. Até onde eu banco essas coisas todas, essas histórias todas, essas encruzilhadas, essas partidas e retornos ou não-retornos.

E agora me pergunto também até onde você banca todas essas apostas que você está fazendo, todos esses riscos que você está correndo, sejam lá quais forem eles, supondo com arrogância que eles existam. E levando mais adiante esse fluxo de pensamento desconcertante fico me perguntando o que estamos fazendo aqui, me questionando por que você respondeu minha primeira carta, o que você estava fazendo andando por essa vizinhança, por que meu primeiro reflexo foi te responder, por que eu continuo respondendo mesmo sem estar em paz com nada dentro das minhas auto-reflexões. O que estamos fazendo, enfim?

Mas veja, eu não quero de maneira alguma que você me responda nenhuma dessas perguntas. Se você sentir necessidade, obviamente que não irei te impedir, mas não é com esse propósito que as disponho aqui. Não sei bem o que virou essa carta depois de tantas lidas, re-lidas, re-escritas, re-visões, mas saí de um rascunho inicial afogado em sentimentos confusos, voláteis, não confiáveis e paradoxais e assim como está agora, ao menos, discorro aqui sobre questionamentos existenciais, sobre auto-reflexão, até como uma lição de casa da terapia além de um exercício literário e de uma carta.

Por fim, confesso que me senti obrigada expor tudo isso aqui porque eu não faço uma puta ideia de que merda toda é isso aqui, Carlos. Nada além da obvia definição objetiva de que é uma carta é uma carta é uma carta. Afinal, cartas, poemas, lixo cibernético, álcool, zolpidem, listas de coletivo feminista… Que porra é tudo isso no fim das contas?

Espero que você não tenha se desesperado até agora e fugido o mais rápido possível da frente do computador e da pessoa confusa, indecisa e sem rumo que me tornei ou da sua interpretação posterior da imagem de mim mesma que criei dentro desse texto. Eu sei que minha verborragia e meus pensamentos a cento e noventa quilômetros por hora são por vezes esmagadores ou opressores, mas esta talvez seja o cerne da minha falta de caráter, como o cerne da sua pode ser sua incapacidade de dizer o que precisa ser dito.

Mas a intenção não é assustar, não é pressionar, não é obter nenhum tipo de resposta, ou ao menos, não mais. Não depois de diversas-não respostas suas, da medicina, da vida. Talvez você possa ver com graça essa característica, como gostam de fazer meus amigos apreciadores da minha personalidade fodida.

A coisa fica mais complicada a partir desse ponto, então talvez essa seja uma boa hora para você fazer uma pausa. Tomar um café, ir trabalhar, fumar um cigarro, acariciar o gato, entrar debaixo das cobertas da sua cama que provavelmente está aquecida pelo corpo adormecido da pessoa que divide esse espaço com você todos os dias. Se precisar, volte mais tarde.

Digo que fica mais complicado porque é a partir daqui que tento destrinchar de maneira lógica o que eu acho que sinto com tudo isso, sendo esse, por hora, o trabalho mais difícil que venho desempenhando em todas as áreas da minha vida.

Sei que sinto sua falta, imensamente. Mas não gostaria que você estivesse aqui.

Sei que me perguntei esses dias todos depois da sua primeira carta, se você também sente falta de mim.

Sei que há uma raiva cínica misturada com um tanto de humor, de pertinência no mínimo questionável, aprisionada no fundo das minhas vísceras, por você ter saltado do nosso carro, sem aviso, na próxima esquina. Mas bem sei também que essa raiva não deveria haver de ser.

Sei que esse último sentimento não é suficiente para que eu prossiga com a minha (nossa?) performance de esconde-esconde, apesar de me considerar amplamente qualificada para essa função, especialmente considerando minha capacidade infalível de não me comunicar com você, muito menos de maneiras inapropriadas em madrugadas aleatórias.

E essa última coisa aqui, eu não sei como quem sabe que o sol vai se por novamente no fim do dia. É mais como uma sensação que conversa com o que eu disse mais pra cima, mas com uma intensidade menor. Sensação essa incoercível, quase primitiva ou visceral, como preferir, de eu não terminei por aqui. E você, Carlos, terminou?

Essa sensação é acompanhada de uma vontade frágil, tímida, de começar de novo com você. Outra chance, do zero. Mas sem os mesmos erros dessa vez, pelo amor de deus. Sem a inocência tola (ou malícia irresponsável) de supor que não há sentimento onde claramente há sentimento. Sem decisões precipitadas, mal ou não plenamente planejadas. Mais importante ainda, sem as mentiras, sem as traições, sem a luxúria desmiolada, sem toques desnecessários, sem afagos perigosos. Sem jogos. Sem serpentes, feitiços ou cortinas de fumaça. Enfim, parece-me que há tempo demais restando em nossas vidas para que essas nossas ausências não ausentes permaneçam cutucando nossos pensamentos, supondo novamente com arrogância, que os seus pensamentos são cutucados de uma forma ou outra.

É, como eu disse, frágil, tímida, volátil e não é algo para agora. É algo a ser feito no tempo que deve ser feito, isso se for feito, talvez em meses, talvez em anos, talvez nunca. Não é uma expectativa, não é uma condição sine qua non. Muito pelo contrário, pode ser até que torne-se não querido no fim do que tiver que ter fim.

Por hora, talvez o que eu banque e deseje com menos fragilidade é que sejamos correspondentes. Dessa forma assim, simples, como está. Eu te mando cartas e você me manda cartas e vice versa. Cartas atravessadas pelo tempo que demoraríamos ou demoraremos para lê-las, pensar sobre elas, respondê-las. Quase como que um acordo de damas ou cavalheiros, mas não um contrato, uma sugestão, que pelo seu até logo, não me parece tão absurda. Mas isso só posso supor e bem, veremos.

Estamos próximos do fim dessa carta obscenamente longa e, aproveitando o ensejo e a oportunidade de fazer uma gracinha, te pergunto novamente: de quem eram as malditas coxas, Carlos?

Finalmente, deixo aqui registrado o que eu não banco. Não banco que você desapareça novamente sem aviso. Não banco a falta de dignidade em te ver partindo de qualquer relação comigo exclusivamente seguindo suas próprias regras e seus silêncios violentos. Se for para ser assim, prefiro que nem seja.

Eu preciso, Carlos, da oportunidade de chorar os meus mortos, quando houverem, à minha própria maneira. E de arremate, digo-lhe especialmente que não banco continuar fingindo sua morte dessa que vínhamos fazendo, pois como você bem sabe, mortos não escrevem cartas.

Até breve,

Berenice.

Atestado de óbito – carta número três

São Paulo, 9 de julho de 2019

Querido Carlos,

      Hoje eu participei da ressuscitação de mais uma pessoa. A cada compressão eu implorava a qualquer entidade mágica de existência questionável pelo sucesso da ressuscitação.

(Tem pulso?

Sem pulso.

Continue as compressões)

      O paciente voltou. Subiu pra cirurgia. Mas não era pra ser, não sei, e assim, por não ser pra ser, ele morreu.

      Não sei se é a minha fragilidade emocional, se é a carga de estar nessa posição de alguma espécie de curandeiro ou reparador. Talvez a quebra do teu silêncio, talvez a saudade. Não sei o que é, mas desde a sua última carta sempre penso em você quando a morte nos visita na sala de cirurgia, na sala de emergência.

      Sinto-me vazia. A morte vem de um jeito tão natural e tão caprichoso que mal consigo respirar após nossos encontros. E quando choro a morte desses desconhecidos, sinto sua falta. Sempre sinto sua falta.

      A vida é tão estúpida. Você existiu pra mim, eu existi pra você, existimos. Te amei, te amo. Sinto sua falta terrivelmente. E a vida é assim tola porque um dia seremos nós na mesa gelada da sala de cirurgia. No chão da cozinha após um mal súbito. Seremos nós apodrecendo na terra de onde saímos.

Mortos.

Sua última memória de mim

Minha última memória de ti

      Nosso desenlace apesar de não concebido, é final. E esse nosso atravessamento quando estivermos pálidos e abertos na mesa do IML não passará de mais uma história fora dos autos.

      De preto, escondido em um canto, os cheiros das flores do cemitério, lágrimas silenciosas escorrendo pelas bochechas. Ou talvez nenhuma lágrima. Será essa a nossa última lembrança?

      Me é quase inaceitável ter vivido uma vida em que existimos e não existimos mais. Uma vida na qual nos tocamos e não nos tocamos mais. Essa vida sadista que acaba com uma hemorragia interna numa sala cheia de médicos. Essa vida ordinária em que a última vez que fazemos algo nunca é a última vez pra nós porque não sabemos que será, enfim, a última vez.

      Queria poder te contar, Carlos, de todas as vidas que vi acabar, ou de todas as pessoas mortas que vejo viverem apenas pelo nosso capricho de não deixá-las morrer.

      Queria poder te abraçar e chorar meus mortos nos teus ombros mas queria não sentir sua falta. Bem sei, bem sabemos, não somos nada e não podemos ser.

      Cansei demais, Carlos. Cansei de existir com a sua não existência, com a minha existência. Cansei dos médicos, da morte e dessa vida desafortunada.

      Estou exausta, querido. Farta de tantas partidas e mortes. E temo, meu amor, nunca mais te ver, nunca mais te encontrar. Me aterroriza morrer sem me lembrar da última vez que nos vimos, sem me lembrar do teu toque caloroso, teu abraço abundante. Temo estar apodrecendo aos poucos, um pouquinho a mais a cada compressão na pele pálida manchada pelo livedo. O vazio se abrindo dentro de mim como um abismo.

      Já estive mais triste, mas nunca estive tão cansada do que são essas nossas vidas.

      Desculpe Carlos, mas hoje eu quero chorar os meus mortos nos teus ombros. Hoje eu não quero mais existir. Hoje eu cansei de viver. Esvazie-me.

Sinto sua falta.

Fatalmente,
sinto sua falta.

Com pesar,

Berenice.

Carta número dois

São Paulo, 20 de junho de 2019

Carlos,

      A vida é um negócio esquizofrênico as vezes, não é? Essa noite eu resolvi escrever um conto bobo que me surgiu na cabeça e por isso precisei roubar alguma de suas palavras, como de costume. Normalmente o mote da minha escrita é você e peço desculpas por isso, mas ao mesmo faço isso por três motivos. Primeiro porque você inevitavelmente foi quem me fez voltar a escrever, segundo porque me sinto um tanto quanto vingada quando te roubo algo tão simplório como as palavras da sua literatura e terceiro porque eu realmente gosto do que você escreve. Eu sei que você não gosta, e as vezes eu acho que isso faz parte da sua persona, ou pelo menos da sua persona pra mim. Mas é bom. Eu gosto. Sinto falta dos seus textos barrocos.

      A questão é que eu sabia que seu antigo blog não existia mais porque, por gostar do que você escreve, apesar de tudo, eu tentava acompanhar alguma coisa e eventualmente ele sumiu, como você. Mas hoje eu estava especialmente determinada a escrever meu conto e eu procurei o nome de um dos seus textos (mantenho guardado comigo pra saber que tudo que aconteceu não foi simplesmente um delírio) e encontrei seu blog com um novo endereço. Se me permite, te pergunto (mesmo esperando nenhuma resposta) por que dessa mudança?

      E imagina meu espanto quando encontrei sua resposta a minha carta, querido. Atordoada, tive que re-ler a minha carta, porque já não lembrava mais do que havia escrito. Meus hipnóticos psiquiátricos são eficientes em apagar as memórias enquanto dura sua meia vida. Ri com a tosquice do que disse e fui ler sua resposta.

      Resolvi responder porque talvez eu queira dizer algumas coisas já que esse canal de comunicação me pareceu aberto de alguma forma. Eu nem imaginava que você ainda me lia, que eu ainda existia dentro da sua cabeça. Não se preocupe, não vou gastar essa oportunidade com sentimentos infantis, com questões que nunca serão respondidas. Talvez quem está te escrevendo essa carta já não seja mais a pessoa que você conheceu.

      Como um todo, talvez essa carta seja um grande pedido de desculpas. Isso não mudou. Eu ainda sou a pessoa que perdoa demais, que pede desculpas demais. E é estranho te pedir desculpas porque as vezes me parece que você me machucou mais do que eu te machuquei. Mas peço mesmo assim, porque, racionalmente, eu sei que isso não é bem verdade. Ninguém magoou a outra pessoa a mais ou a menos. Nós atravessamos violentamente um ao outro, arrastando tudo no caminho, causando mácula. Mas isso é apenas a vida, ou pelo menos como eu penso que a vida deveria ser. As pessoas nos atravessam, como você diz (e eu concordo), da mesma maneira que o tempo faz. Não deveria haver culpa, ou pelo menos, não completamente.

      Depois de muitas sessões de análise eu e minha terapeuta chegamos em uma conclusão de que há um embate entre a minha interpretação pessoal do que ocorreu entre nós e o que o mundo externo pensa que aconteceu entre nós. Eu acreditei, por muito tempo, baseado na minha experiência, na minha intuição e na minha interpretação dos suas palavras, seus atos mas especialmente seus gestos e postura corporal, que éramos cúmplices.

      Resolvemos, talvez inconsequentemente, assaltar um banco. Pecaríamos juntos, e pecamos. Você dirigiria o carro para a fuga, assim como dirigiu o carro na ida. Mas quando eu saí do banco, com as sacolas cheias de dinheiro, você já não estava mais lá me esperando no carro. Portanto, você foi meu cúmplice e eu a sua. Talvez você não tenha sido o melhor cúmplice porque no fim você desapareceu. É coisa que mais me dói, mas é a vida.

      Mas o mundo externo insiste em me colocar numa posição de vítima, como se você apenas tivesse me usado, como se eu tivesse sido só mais uma das mulheres que você coloca de maneira leviana na sua vida. Diversos fatos fofocados comigo me fizeram começar a duvidar na nossa imagem de cúmplices. E agora, agora que eu finalmente te entendo, entendo também que essa imagem de vítima não é certa. Principalmente porque ela faz eu duvidar de mim mesma, das minhas percepções e da minha leitura do universo e isso é o primeiro passo em direção a loucura. E sua resposta, suas palavras, mesmo que atrasadas, me aquecem por dentro e me fazem acreditar no que eu acreditava antes. Me faz acreditar que houve algo e que eu fui importante pra você, que você me sentiu de alguma forma, não que isso importe agora de fato, na vida prática, ou mude qualquer coisa agora, mas importa pra que eu não enlouqueça. Existiu, não existe mais e tudo bem.

      Eu quero te pedir desculpas por todas as vezes que te descrevi como meu algoz. Que disse coisas infálaveis como que você é um canalha ou aleijado afetivamente. Não que isso seja mentira. Você é um canalha e é aleijado afetivamente, mas isso não é coisa que se fale, não é? Mesmo porque, eu também tenho meu lado canalha. Aleijada afetivamente ainda não sou e pretendo não ser, mas não é um defeito em si e mais uma consequência da vida e dos atravessamentos que vivemos. Então, com honestidade, me desculpe por ser maldosa e cruel com a persona que criei de você.

      Todas as pessoas na verdade não são elas mesmas, são as nossas interpretações e projeções sobre elas. Todos somos personas ou personagens para quem nos atravessa. Tudo que eu sei sobre você é uma personalidade com a qual tiro conclusões, baseadas apenas na minha experiência porque já há tempos que vejo tudo que tangue você como desconfiança, como você me pediu. Você é escorregadio e difícil e por vezes incompreensível, ou essa é a imagem que criei de você, mas espero que você tenha entendido a partir desse parágrafo que pouco importa quem somos de verdade para os outros.

      Você não deve pedir desculpas por nada anterior a nossa despedida esquizofrênica. E, tendo você pedido desculpas pelos seus silêncios, fico agradecida. Imensamente. Mas queria dizer que os entendo, querido. Entendo porque foi esse silêncio que me permitiu existir depois da nossa catástrofe.

      Sabe Carlos, eu amo você. Eu nunca disse isso com essas palavras e não acho que tenha sido preciso porque isso não mudará nem mudaria nada. Mas eu te amo, ou amo a criatura-você que eu criei na minha cabeça. Eu achava que isso nunca ia acabar, que isso nunca ia desaparecer. E de fato, nunca irá. Eu te amo e não consigo parar. Entretanto, os seus silêncios me fizeram passar por isso. Fico feliz em te dizer que eu choro. Agora que te entendo, choro. Choro com a performance correta de chorar. E eu amo, não só você, mas outras pessoas. E amo de maneiras diferentes e por conta dos seus silêncios eu fui capaz de me entregar para alguém tão intimamente como me entreguei pra você. É assustador porque eu tenho medo, muito medo, do que me reserva.

      Quanto mais eu subo mais dolorida será a queda mas os seus silêncios me permitem ser otimista. Me permitem entender, como eu li em um dos seus poemas, que perder-se agora é perder tudo que está adiante. Então, obrigada por eles. E obrigada pelas desculpas, porque o silêncio dói demais, mesmo sendo imprescindível.

      Te entendo, querido. Mesmo assim, você continua sendo a pior (e a melhor) coisa que me aconteceu. Mas eu choro, escrevo, amo e não existe uma troca macabra. Existe uma chaga macabra talvez, porque eu acho que nunca vou esquecer você e nunca vou deixar de te amar. Mas isso faz parte da vida. Eu penso, de maneira hedonista e perigosa, que vale a pena se destruir por algo que você quer muito se você sabe que você pode voltar. E eu posso. Eu voltei.

      Queria te agradecer pela parte que você me diz que as vezes ouve uma música que faz você se lembrar de mim e esmurra o volante. Me pergunto quais seriam elas, mas não sei se isso tem resposta. Peço desculpas porque nesse embate vítima x cúmplice muitas vezes meu lado irracional e doente me convenceu que não havia nenhum sentimento seu comigo. Que era unilateral. Mas não pode ser, não é? Não faz sentido. E peço desculpas por ter te desumanizado, te tornado um monstro. Me desculpe pelas minhas palavras ácidas, duras e cortantes nos meus textos. Eu verdadeiramente não sabia que você os leria um dia.

      Diferente de você, meus textos não são véus sobre o que eu realmente quero dizer. É aquele sentimento tempestuoso do momento que sai da minha boca ou dos meus dedos, sentimentos que as vezes desaparecem segundos depois. Gosto de tentar torná-los literatura porque assim eu vou estar transformando algo impalpável em algo que existe aqui, concretamente, no mundo real. E eu prometo, que se um dia tudo isso de alguma forma virar um livro, te darei os devidos créditos e os devidos pseudônimos, se assim você desejar. Me desculpe, mas essa carta vai acabar não sendo só uma carta, mas um artifício literário, um exercício, por assim dizer, porque eu me viciei em escrever coisas e começo a gostar da ideia de que eu posso escrever. Me desculpe pela arrogância desse pensamento, mas me permito de vez em quando uma arrogância saudável, pra me ajudar a lidar com tudo.

      Eu sinto sua falta. Não como amante, mas como cúmplice de algo só nosso. Sinto falta das nossas conversas, dos seus textos. Mas entendo, compreendo, que é necessário o tempo e o silêncio para que algumas coisas se resolvam, se dissipem.

      Não sei bem como terminar essa carta. Eu acho que assim que eu terminar de escrever vou me arrepender de todas as palavras. É estranho não estar no silêncio falando com um interlocutor inexistente. Tenho a impressão de que tudo que eu escrevi será tosco, bobo, uma grande merda.

      Não sei bem como usar essa oportunidade que você me deu. De ser ouvida, de te ouvir. É engraçado que a maior parte das coisas que eu quero dizer sejam desculpas, você não acha? Talvez eu termine dizendo que continuarei escrevendo sobre você ou sobre o personagem que criei de você, mas gostaria que você não levasse para o pessoal. Não é você, não sou eu, não é verdadeiramente ninguém. As vezes, são sentimentos reais, mas eles são efêmeros demais, apesar de cíclicos por vezes. Nem tudo que eu escrevo é autobiográfico, apesar de tudo ser autobiográfico.

      Enfim, também queria te pedir desculpas pelas mensagens que te mandei, caso você as tenha visto. Às vezes eu me aproximo demais da melancolia e da reminiscência quando eu tenho meu estado mental alterado, então me perdoe por todos esses despropósitos. Me desculpe por todas as vezes que te forcei a falar, que te forcei a preencher os meus vazios.

      Eu gostaria que você me respondesse, sabe? Não me magoaria se isso não acontecer porque respeito seus silêncios. Mas seria agradável. Faria com que eu me sentisse civilizada. Não sou ninguém para te pedir qualquer coisa então não farei disso um pedido. Mas sinto que esse canal de comunicação é seguro, está longe do pecado da imprudência, mas não sei. Não importa no fim o que vai acontecer a partir disso. Nada importa no fim, além do que virá realmente, seja sobre eu e você (o que dificilmente será, pois o tempo já nos corroeu o suficiente para não ser), seja sobre qualquer coisa.

      No fundo, tentando atropelar todo meu rancor, mágoa e afetos negativos, eu espero que você esteja feliz. Eu espero que você volte a escrever um dia. Eu espero que não haja maldição.

Não é o arrebatamento e não estamos no apocalipse.

Com carinho,

Berenice.

PS: antes que eu me esqueça: de quem eram as coxas?

Reintegração de posse

São Paulo, 1 de julho de 2019

      Carlos andava pelos corredores do mercado em busca da prateleira de azeite. Não havia muito porque comprar azeite no fim da tarde de uma terça feira, mas estava inquieto em sua casa vazia e então saiu para fumar um cigarro. Um cigarro virou dois e quando percebeu já estava andando pela rua em direção ao mercado.

      Avista a prateleira. Uma mulher loira está parada bem na frente dela, observando os vidros de azeite. Ele espera para que ela saia da frente da prateleira, mas ela se demora demais. Carlos caminha devagar em direção a loira e para a uma distância adequadamente próxima: “Não leve o mais barato, se é isso que você tá pensando” A moça se vira com o susto. Seu nome é Berenice e já sabemos alguma história dela, mas você talvez não se lembre.

      O homem é Carlos, seu ex alguma coisa. Digo alguma coisa pois teriam tido um caso quatro anos atrás, enquanto ela estava infeliz e noiva de um outro homem. Carlos teria um relacionamento de longa data, há mais de seis anos ao menos, com uma outra mulher, praticamente pelo mesmo tempo que Berenice estava com o ex-noivo. O caso não havia como acabar bem, vocês podem imaginar e, por isso mesmo, acabou mal. Berenice desfez seu noivado e fez-se personagem de uma história de partidas e desencontros. Carlos continuou com sua namorada e ele e Berenice pouco se encontraram depois desse acontecimento.

      Carlos constata com um misto de horror, culpa e curiosidade que se trata de Berenice. Seu coração acelera um pouco dentro do peito e suas mãos ficam ligeiramente molhadas.“Você mudou seu cabelo” Berenice ri: você ficou mais careca. Ele ri também, desconfortável. Diz também que perdeu o jeito de menina. Berenice fecha o rosto numa expressão séria e diz que, de fato, já não é mais uma menina há tempos. Ficam parados, na frente da prateleira de azeites, se olhando por alguns minutos dolorosamente silenciosos. Carlos volta a falar, perguntando o que ela faz no supermercado. Ela diz que estava voltando do trabalho na Lapa, parou lá para comprar um vinho e que se percebeu de repente na frente da prateleira de azeite, admirando-os.

      Carlos lhe pergunta se a namorada de seu amigo Eduardo, com quem Berenice mora, ainda compra o azeite mais barato. Ela responde que por pouco ele perdeu esse timing, pois ela havia acabado de se mudar para um novo apartamento, ou pelo menos, se mudaria oficialmente na manhã seguinte. Então não, sem azeites baratos por hora. Diz também que provavelmente o problema era pessoal com ele, porque desde que ela havia se mudado para lá Aurélia nunca mais comprou azeites baratos. Ele ri, ela ri.

      Ela não pergunta a ele o motivo de sua vinda ao supermercado, apenas o observa com o coração batendo rapidamente dentro do peito. Antes que Carlos possa perceber, estará convidando-a para tomar alguma coisa, talvez uma cerveja, ali perto. Berenice sabe que o correto seria recusar, mas não consegue deixar de se indagar o que se daria deste convite ou até mesmo porque o destino havia os colocado neste encontro vulgar.

      Aceita. Eles vão ao caixa, ele de mãos vazias e ela com um espumante caro nas mãos. Ela paga e guarda a bebida em sua bolsa preta. Em poucos minutos estarão sentados em algum bar na região, incapazes de não conversar demais como era de costume. Ele acende um cigarro e pergunta a ela se ela gostaria de um. Ela observa o cigarro em sua mão, demoradamente. Balança a cabeça como quem diz não. A conversa prossegue, a cerveja continua chegando, ele continua acendendo mais cigarros e mesmo assim o maço parece não ter fim. Dentro de algumas horas estarão levemente bêbados, ou bêbados o suficiente para acessar o passado mútuo, sempre e apenas, acessado nesses momentos de embriaguez.

      Ela pergunta se ele ainda está com Beatriz. Ele diz que sim, que mora com ela, na mesma casinha com o pequeno quintal ali perto. Ele pergunta se ela ainda é solteira. Ela dá os ombros. Alguns minutos no silêncio, olhos nos olhos, mãos próximas demais uma da outra. Ele delicadamente toca na mão dela e ela sente o calor conhecido das mãos dele.

“Eu te entendo agora, Carlos”.

“E por que agora?”

      Ela ergue os ombros como quem diz que não importa, ou que não sabe. Ele pousa seus olhos no chão, em uma carcaça de barata na entrada do bar, respira fundo e balança a cabeça

“Me desculpe”

“Não há mais culpa entre nós, Carlos”

      Ele se aproxima mais de Berenice, passa a mão delicadamente no seu rosto, em seu queixo. Ela sorri tristemente enquanto ele ri com uma risada rouca, cínica, triste mas não completamente triste. Beija a testa dela, como costumava fazer. Ela repousa a cabeça em seu peito e sente o cheiro de arruda e cigarros, inalando-o lentamente, pausadamente. “Tenho medo de você se afogar em mim” ele diz. Ainda sem tirar a cabeça de seu peito ela diz que não há nada para temer, porque amanhã tudo isso será mentira. Ele ergue sua cabeça, segurando pela lateral do rosto e olha para sua boca como se pudesse engolir todo seu desespero**. Acariciando levemente seu queixo a beija docemente, com a língua começando pela lateral da boca, como deve ser.

      Em meia hora o bar terá fechado. Eles caminharão lentamente e embriagados até a casa vazia de Carlos. Ele irá colocar um copo de whisky para ele e um para ela. A gata preta recém adotada fica durante todo o tempo no colo de Berenice, ronronando satisfeita. O whisky se vai mais rápido do que eles poderiam prever. A gata desce do colo de Berenice porque logo ela e Carlos estarão nus, beijando-se em agonia, angústia, aflição e lascívia. Ela em cima dele, cavalgando lentamente. Mãos quentes, coxas violentas, juntos no limite do insuportável, num incêndio moribundo. Noite adentro, se consomem como numa performance masoquista, ouvindo os pássaros cantarem impiedosamente marcando o fim desse desenlace amargo e definitivo.

      Pela manhã Berenice acordará mais cedo que Carlos. Deixará um bilhete de despedida em cima do travesseiro. A gata irá segui-la pela casa, enquanto ela recolhe suas roupas, se veste, bebe um copo de água e esquece sua calcinha escondida no vão do sofá. Abre a porta e a gata continua ronronando em seus pés.

      Ela pára e observa a casa. Observa os retratos de Carlos e Beatriz, observa o lar deles maculado pelo pecado de dois amantes irremediavelmente quebrados, imprudentes e equivocados. Ela pensa em todas as partidas, pensa em todos os rastros deixados por ele nas entranhas do seu corpo. Pensa na andorinha de porcelana solitária pendurada na parede de seu quarto, em seu novo apartamento.

      Com delicadeza, pega a gata, a põe em seu colo como uma criança faria e sai da casa, fechando silenciosamente a porta atrás de si. Em algumas horas, Carlos acordará e lerá o bilhete de despedida. “Nos vemos no inferno, querido”. Notará o sumiço da gata dentro de uma hora, mais ou menos, e ao perceber, soltará um riso amargo, mas satisfeito e acende um cigarro.

      Queima lentamente o bilhete e assiste o fogo consumir essa história que finalmente chega ao seu destino absoluto.

*Disque 192

**Traguei saturno

there is this feeling — carta número um

São Paulo, 18 de abril de 2019

{preâmbulo: essa carta é terrivelmente ruim}

Prezado Carlos,

      Antes de começarmos de fato esta carta (eu de escrevê-la e você de lê-la) eu queria, com honestidade, pedir desculpas por mais um desses meus disparates literários. Não que isso vá fazer alguma diferença, porque você provavelmente já não os lê há muito, muito tempo. Mas de qualquer forma, fica ai o pedido de desculpas.

      Além disso, te peço desculpas pelo fato de que, mais uma vez, cá estou eu, com meu nível de consciência alterado pelos meus remédios hipnóticos escrevendo uma carta. Talvez as desculpas sejam não só para você, que está sendo ativamente vítima dessa carta em específico, mas para todos os meus leitores (se é que tenho leitores) que já leram meus textos inspirados pela depressão do sistema nervoso central.

      De qualquer forma, desculpas a parte, te escrevo porque estou com um probleminha e acredito que talvez você possa me ajudar porque de certa forma esse problema começou com você. Daí, acabei pensando, o que custa tentar descobrir se há algo que você possa me dizer a respeito do problema? Ou talvez, o que custa escrever sobre o problema e talvez encontrar uma solução na transformação do problema em palavras?

      Por favor não se sinta pressionado a me consolar ou não leia essa carta com esses seus olhos castanhos melancólicos como que dizem “oh, coitada, mais uma vez lá está ela, querendo coisas de mim”. Não, não, dessa vez é diferente. Isso é puramente um experimento psicanalítico, ou psicológico ou um exercício literário, ou qualquer coisa que não envolva sua cara melancólica.

      A questão é: você chora?

      Eu sei que você sofre.

      Mas eu realmente não sei se você chora. Digo, lágrimas reais, escorrendo pelo seu rosto sardento. Já te vi com essa cara de melancolia que sugava toda a felicidade da minha alma, e é praticamente só essa cara que eu lembro de ver você fazendo ao olhar pra mim, especialmente depois do sexo.

(A culpa é um troço poderoso, não é mesmo?)
      Mas não, não isso. Eu to falando do “real deal”, chorar mesmo. Aquele choro que parece um vulcão de lágrimas te limpando por dentro. Você chora?

      Por que sabe, eu chorava. Nossa, como eu chorava. Inclusive, eu chorei tanto por você que dava pra pegar aquela música da Clarice Falcão “O que eu bebi” e trocar “bebi” por “chorei” em todas as estrofes e só ai daria pra dizer o quanto eu chorei por você.

      Enfim… Eventualmente eu parei de chorar por você porque parecia que meus olhos já tinham se resignado com o fato de que eu e você nunca haveríamos de ser e, nossa, graças a deus, né?

      Sem ofensas, mas você é um puta de um canalha aleijado afetivamente e eu sou uma mulher completamente doida que, como diriam os portugueses, nem ao menos saiu completamente dos cueiros. Que bem essa união estúpida e luxuriosa traria? De qualquer modo, o que importa é que essas lágrimas secaram. E agora estamos todos bem, muito bem, bem distantes e bem.

      Mas que surpresa eu não tive quando eu percebi que não foram só aquelas lágrimas que secaram?

      Eu ainda choro de desespero. Eu ainda choro de raiva. Eu ainda choro quando alguém incita minhas questões psicológicas básicas. Sim, essas lágrimas ainda existem.

      Mas não choro mais de tristeza. Aquela boa e velha melancolia, devoradora de órgãos, que abre vazios imensos dentro da gente… Sabe? Essa dor. Essa dor eu não consigo mais sentir. As lágrimas que saem dessa dor, aliviando essa dor, costurando todos os órgãos abatidos, clareando as idéias, elevando meus afetos pra planos de consciência… Essas lágrimas… Não.

      Eu sinto um nada. Um nada que eu carinhosamente nomeei como nada presta. O nome é bem auto-explicativo, sabe? Uma sensação de que apenas nada, nada presta. Nada é nada. Nenhum sentimento é algum sentimento.

      E é horrível. Avassalador. São alguns períodos de extrema maluquice nos quais eu não consigo sentir nada e ao mesmo tempo eu me sinto absolutamente horrível. E o pior de tudo é que eu sei que se eu chorasse. Se eu chorasse… Estaria feito. Estaria terminado. Eu poderia terminar o ciclo de afetos e mastigar minha tristeza, ruminá-la e engoli-la e finalmente dar um fim a ela, ou dar a ela um lugar nos neurônios do meu hipocampo… Mas não, não consigo chorar e não consigo dar fim a essa merda de tristeza e ela fica lá, encapsulada, em algum lugar dentro do meu estômago e eu não consigo tocá-la o suficiente para entendê-la e elevar pra planos mais altos da minha consciência. Lá ela fica. Me corroendo aos poucos, sem que eu ao menos saiba o que é essa tristeza. O que é que faz com que eu me sinta tão vazia? O que é que faz com que eu me sinta tão morta?

      As vezes, só as vezes, eu sinto como se você tivesse me matado. Que eu esteja me transformando um pouco nessa minha leitura sua de que você é um aleijado afetivo. Tipo uma maldição, sabe? Nos enroscamos e algum pedaço de você grudou na minha alma e… Ah, sei lá.

      Você é o ponto de partida do problema, vê? Nada do resto importa. Não me importa absolutamente nem um pouco quaisquer dúvidas que tenham ficado. Qualquer rancor, nada. É claro que esse resto está ai, está aqui dentro de mim, mas coloquemos de lado, tá bem? Esquece isso tudo, essa história toda e… Foca no meu problema.

      Essa carta já tem muito mais palavras do que eu gostaria de trocar com você pelo resto da minha vida então, vou ao que interessa:

      Você chora? E se você chora, por favor, você pode me ensinar a chorar de novo? Se você não chora… Bem, daí talvez eu preciso que você me ensine uma outra forma de lidar com tudo isso que não envolva chorar.

      Parece demais. É demais, na verdade. Toda essa carta, esse contato, essas palavras todas sendo que entre nós não deveria haver mais nada além de silêncio e ignorância mútua da existência alheia. É demais, eu sei. Mas, sabe, depois de tudo houve entre nós, tudo aquilo que há alguns parágrafos eu pedi para que você deixasse de lado? Veja.

      Cá entre nós… Você me deve uma, você não acha?

      Tell me how to cry again,

Atenciosamente,

Berenice.

Guarda Compartilhada

São Paulo, 24 de outubro de 2017

Querido Carlos,

      Te envio essa carta por conta de um probleminha doméstico com o qual venho tendo que lidar ultimamente e acredito ser do seu interesse.

      Você se lembra daquele dia? Estávamos juntos no seu bar favorito e encontramos um filhote de gato abandonado. Bêbados, descuidados, resolvemos adotá-lo juntos: ele fica uma semana na casa de cada um, você disse, uma guarda compartilhada. Eu fiquei a primeira semana com o gato e, bem…

      Acontece o seguinte: já fazem semanas que não nos vemos e o gato aqui. Aliás, quando de fato nos encontramos, nunca falamos sobre ele. Confesso ter vontade de discutir essa questão quando te vejo, as vezes até entro em um certo desespero de madrugada, ou quando fico bêbada demais e é preciso muita força de vontade pra não te ligar e dizer mas e o gato, Carlos? E o gato? Que diabo faço com o gato? No fim das contas não inicio a conversa sobre ele porque todas as vezes nas quais tentei introduzir o assunto acabei sufocada pelo seu silêncio. E tudo bem, tudo bem, sei do seu apreço pelo silêncio e o respeito, então nada de conversas sobre o gato.

      Por isso a carta. Cartas são boas porque você pode lê-las, abandoná-las no criado mudo, pensar em uma resposta e até não respondê-las, porque sabe como é, nem se mandam mais cartas nos dias de hoje, quem sabe não foi extraviada?

      De qualquer modo, passo pouco tempo em casa, não é sempre que lembro do gato, mas seria absurdo dizer ah, não, nunca penso no gato, que gato?Afinal de contas, eu cuido dele. Enquanto sozinha, as vezes embriagada, as vezes quando durmo na cama de outra pessoa, de fato penso no gato. Aliás, como não pensar no gato se ele está sempre ali, parado, me olhando, andando pela casa? Chego do trabalho, cansada, deito na cama sem nem escovar os dentes e puf, o gato pula em cima de mim ronronando, me tirando o sono completamente.

      E, bom, você sabe como são os gatos, especialmente este. Calado, esquivo, aqueles olhinhos amendoados e hipnotizantes só me esperando fazer algo, esperando eu me deslocar para acaricia-lo, só para depois fugir graciosamente do toque das minhas mãos. E eu aqui, esperando por ele também, esperando pelo toque suave das patinhas em cima das minhas costas quando ele decide subitamente dormir comigo numa noite fresca de primavera.

      Não consigo me decidir, de maneira alguma, (apesar de talvez já estar decidida em cuidar dele desde o primeiro momento no qual o avistei) se devo continuar a alimentá-lo ou se devo mandá-lo as favas de uma vez por todas.

      Quando compartilho esse meu dilema com algumas pessoas, ouço as dizer que se você realmente fosse afeiçoado ao gato, se você realmente visse uma vantagem em manter o gato vivo, saudável e feliz, você buscaria o gato de vez em quando. Talvez não semana sim, semana não, como no nosso combinado ébrio e imprudente, mas só de vez em quando. Mas você não vem, então provavelmente é porque não quer de forma alguma vir. É isso que dizem e eu custo em acreditar porque realmente me afeiçoei ao gato. E eu digo ah, mas vejam, ele cria passarinhos em casa e talvez não seja sensato mesmo levar o gato para lá. São lindos os seus pássaros, você cuida muito bem deles e imagine a tragédia se o gato acabasse transformando algum em jantar. Você nunca se perdoaria, não é?

      Então prefiro acreditar que sua hesitação intermitente com o gato não seja pelo fato de não querer mais o gato de forma alguma, não seja pelo desespero em se livrar o mais rápido possível dele, seja apenas porque… Bom, claro, eu entendo, talvez já seja mais do que tarde para livrar-se dele, enfim.

      Mas sabe como é, que desperdício! Livrar-se dele agora é como… desistir, talvez? E você sabe dessa minha dificuldade egóica de desistir, eu sempre acredito na alcançabilidade das coisas, por mais ingratas as tentativas, por mais sem esperanças, é difícil demais, penoso demais, apenas abandonar uma tarefa, um objetivo, um… um gato!

      Não é sempre que se encontra um gato como esses, você sabe. Um gato não simplesmente encontrado, mas que encontramos. Ainda mais eu! Sempre estranhei gatos, nunca me achei capaz de gostar desse tipo de bicho.

      Entretanto, talvez seja tempo, talvez seja tarde, talvez seja imprescindível que eu abandone o gato mesmo não querendo em absoluto.

      Já me alonguei demais, peço desculpas pela carta, pelo incômodo e, enfim, pelo gato. Termino quase com uma súplica: por favor, não me obrigue a me livrar dele. Entendo a racionalidade em fazer isso, mas acredito na possibilidade de abrir mão da racionalidade eventualmente porque nunca se sabe, não é? Gatos são comportados, não dão tanto trabalho. Comida, água e pequenos agrados são o suficiente para deixá-los vivos e felizes por longos anos, sem de fato incomodar ninguém. Posso cuidar dele enquanto isso, enquanto você não achar prudente exercitar a guarda compartilhada e, se não for demais, passe de vez em quando aqui em casa para acariciá-lo, ele não vai te ferir e, sabe, ele sente sua falta.

Com amor,

Berenice.

PS: Planejei abandoná-lo naquela encruzilhada perto da casa da sua tia, no feriado de finados, na esperança de que alguém o encontre e cuide bem dele. Caso você ache desnecessário essa minha atitude desesperada, por favor entre em contato.