Domingo, 26 de Julho de 2020

meu gozo.
o hálito quente saindo da tua boca semicerrada lambendo as minhas costas.
meu corpo estremece pensando nele do outro lado da linha,
a estática tocando no fundo dos meus ouvidos,
como se houvessem abandonado o telefone fora do gancho para que ele não tocasse mais

o prédio comercial daqui da frente
(esse com a fachada cheia de palmeiras)
me lembra algum tipo de Rio de Janeiro
mas é só a 23 de maio vazia
e o cheiro do vapor do café passado.
a gata em cima do móvel
e eu nua na tua frente.
você desliza a mão na minha pele macia e se demora na minha cintura
a estática continua:
a quarentena engole as pessoas, meu amor

uma musa é uma musa e um amigo é um amigo

talvez setembro tenha sido a última vez que te beijei.
não posso dizer que não sabia que ia ser a última vez porque todos os nossos beijos eram os últimos beijos.
lembro apenas da sua mão segurando meu rosto. a língua começando o beijo pelo lado. o gosto de macarrão. o quase-beijo roubado dentro do carro, na frente do metrô santa cecília, depois que assistimos the love witch e antes de você encontrar sua senhora.
não me lembro mais do gozo
não me lembro mais do teu sorriso
pois quem diria que na próxima vez que nos encontrássemos teríamos nossos lábios mascarados?
todos os seus beijos misturados em um só
e a única lembrança, meu bem
é o quanto me doeu.

hide and seek

São Paulo, 22 de outubro de 2019, 21h29

C,

Antes de mais nada, obrigada pelos desejos de aniversário. Espero que com o tempo possamos parar de nos esconder entre escombros e sombras e sejamos capazes de nos desvencilhar desses nossos enigmas e pistas falsas. 

As cartas nos permitem muitas coisas e na maior parte do tempo me sinto grata por você ter respondido aquela minha primeira correspondência.

Contudo, sinto falta de te olhar nos olhos, de ser visceralmente sincera, de ter seus gestos e olhares para apoiar minhas conclusões. Confesso que é muito mais confortável para mim me esconder nessas páginas e nesses versos porque detesto a vulnerabilidade vinda do contato face a face. É muito confortável me convencer de que preciso me manter apática, imparcial (e especialmente confusa) nas minhas cartas, como se elas e os escapes de sentimentalismo nos demais poemas ou contos de alguma forma me protegesse de mim mesma. Te protegesse de mim mesma.

Como você deve saber, a confiança que se pode criar a partir de gestos e olhares é muito mais concreta. Frente a frente tudo é mais compreensível, humano, real.

De qualquer modo, por ora, o que temos são as cartas.

Por ora, é isso que eu posso te oferecer.

É isso que posso me oferecer.

Então que nelas fiquemos.

Gostei de saber da sua intenção primária em me escrever na ocasião do meu aniversário. Apesar do seu tom incerto e reticente característico, tudo isso me fez lembrar que, mesmo depois de tudo, eu sinto sua falta. Me fez lembrar o quanto te considerei alguém especial para mim, o quanto algo inominável aqui dentro ainda acha que vale a pena te manter por aqui. Mesmo enquanto nos alternamos nesse jogo de quem se posiciona menos, de quem se protege mais.

Preciso assumir que não faço ideia do espaço vazio que ficou aqui dentro, porque todos os dias parece que tropeço em mais um cômodo desabitado desconhecido. Preciso assumir que eu quero (e talvez precise) confiar em você. Eu sei que talvez a vida não tenha sido tão gentil com a gente, mas penso que você também gostaria de confiar em si próprio e, por consequência, gostaria que eu confiasse em você. Se for assim, sei que isso toma tempo, mas não tenho pressa. 

Não quero me alongar muito, já que minha intenção com esse bilhete era apenas te agradecer enquanto aguardo sua próxima carta “não paralela” porque confesso que não entendi bem “de quem era a vez” depois dessas nossas datas comemorativas.

Enfim,

Te espero.

Com carinho,

– B.

 

une obsession

estou exausta, carlos
cansada das noites que sonho com você só para acordar mais tarde e verificar sua imaterialidade
sinto falta do ódio mais do que tudo
protegia-me das tuas aparições oníricas
impedia-me de levantar da cama para mijar no meio da madrugada e ouvir o canto desses pássaros malditos
inevitavelmente, por ora, ando pelas mesmas ruas, bebo nos mesmos bares e durmo na mesma cama e odeio a facilidade intrínseca de me encontrarem.

preciso partir novamente
dessa vez de maneira permanente
porque, honestamente, carlos

eu desisto.

“não tem nada mais forte do que as coisas que não aconteceram”

São Paulo, 4 de junho de 2019

{Carlos}

porra, Carlos, é difícil demais.

há infinitos jeitos de não nos encontrarmos, infinitos jeitos de não nos encontrar, infinitos jeitos de não te encontrar, não me encontrar.

infinitos jeitos, mas nada disso importa porque é difícil demais viver depois da nossa catástrofe, dos seus versos duros, da sua prosa provocante, dos seus golpes delicados. é difícil demais.

não consigo parar de pensar que de vez em quando a embriaguez me leva perto do abismo que é me tornar uma pessoa como você. eu não suporto o medo de me deparar um dia com meus próprios versos duros e minha prosa provocante.

mas já está, está feito porque apesar de todas as minhas tentativas de arrancar de mim essa contaminação eu já sou mais como você do que eu poderia imaginar.

você dizia que a nossa dança nos definia mais do que podíamos admitir. esse era o prelúdio do fim, antes mesmo de começar. você me avisou, eu sei.

mas agora percebo que nessa sua constatação tudo já estava previsto. nossos corpos mortos na beira da estrada não era apenas um delírio embebido na sua culpa, era um plano. e morremos. ao menos, morri. levanto do meu túmulo todos os dias, caminho pela terra ora como cadáver, ora como uma boneca de porcelana que se quebrou e se colou vezes demais.

ando pela terra deixando meu rastro, que pensava ser outro tipo de rastro, mas receio que seja destruição, como você.

nossa antiga dança me define mais do que eu posso admitir.

cada dia que passa me aproximo cada vez mais das histórias de cobras e feitiços. danço perigosamente com algumas pessoas só porque eu posso, assim como você. às vezes beijo as caprichosamente, inconsequentemente. elas dizem que não há porque a preocupação, elas não vão se magoar. elas já estão quebradas e não podem se quebrar mais.

mas nós dois sabemos que isso é mentira, não é, Carlos?

[…]

{Amadeu}

“eu e você e uma cidade vazia. talvez seja feriado, talvez seja o arrebatamento”

chego na festa e desvio meus olhos para que eu não te infecte com os meus desejos inapropriados. você me vê, ri, rimos e me abraça desajeitado. em algumas horas estaremos bêbados, dizendo impropriedades um para o outro. você flerta, eu flerto, depois você me pergunta se flertamos mas digo que não. você se satisfaz com essa resposta porque é terrível demais me ler como a bruxa que eu poderia ser. mas não consigo parar, não consigo não pegar outro cigarro. mas sabemos como termina essa história, ou eu sei. e, verdadeiramente não quero morrer mais uma vez na beira da estrada, sozinha, escalpelada. um abismo com nossos ossos descompondo-se ao fundo. ou talvez só os meus, porque eu sou só inocente demais, burra demais, auto-destrutiva demais e talvez você seja imune ao meu feitiço. mesmo assim, você continua a sorrir e se embrenhar nos meus espinhos afiados, nas minhas palavras levianas. eu e você juntos no limite do imperdoável, eu e você juntos em um fumacê venenoso. e então a conversa continua, o maço se vai, e a saideira nunca chega.

{Carlos}

achei que haviam colocado fim no furacão que virei depois de você Carlos, e porra, que medo que eu tenho de continuar desequilibrada.

teus passos estão logo antes dos meus e os meus seguem os teus como se o demônio estivesse rindo de mim secretamente, arquitetando cada segundo da minha derrocada, enquanto eu ainda penso na sua canalhice pelo menos uma vez por semana.

minha voz está trancada dentro desse corpo que você bem conhece e eu as vezes preciso roubar seus versos duros para arrancar de mim a angústia. por isso eu não peço desculpas. você tomou de mim, muito mais do que eu poderia dar e a vingança é tanto uma ilusão quanto nós fomos. tudo que me resta são as lembranças esvaecendo a cada segundo, no meu cérebro que inevitavelmente se encaminha para o alheamento total.

te odeio tanto. ódio do seu rosto doce, dos seus olhos quentes, da sua conversa perigosa, da sua pele escorregadia. mas eu não sou escorregadia. pedaços de mim grudam em todas os lugares, meus cabelos ficam enrolados nas entranhas do assoalho, da cama, da mesa de bar.

tenho ódio do seu veneno agridoce, da lavanda e da arruda na sua pele. mas meu veneno não foi elaborado com tanto esmero quanto o seu. o que eu elimino é na verdade um remédio de sabor amargo que já não se presta a humanidade como deveria. benigno, tratável.

é perigoso que eu seja tentada a seguir teus passos.

não posso.

{Amadeu}

“se perder agora é perder tudo que está adiante”

vá embora. por favor, vá embora. eu não posso me tornar meu próprio algoz. eu não posso me destruir. eu preciso ser feliz, preciso saber que meu carrasco não me destruiu para sempre, não me moldou para ser uma imitação fajuta dele. saber que isso não é uma profecia.

você diz que somos amigos, mas temo por você e por mim porque não consigo dizer se não há laivos de mentira no timbre da sua voz. somente são circunstâncias da vida que nos unem e a eletricidade existe porque o demônio gosta da luxúria. mas não é isso exatamente que você quer, é?

meu corpo marcado pelas estrias e manchas, meu corpo desajustado socialmente, minhas coxas violentas, minha buceta quente e proibida, minha boca de esculápio desvairada. não é isso que você quer.

repita comigo: não seremos o arrebatamento. e este não é o apocalipse.

you burn me

São Paulo, 30 de janeiro de 2019

essas noites solitárias, após tomar o meu calmante, sei que vou fumar um cigarro ou outro, com a cabeça preenchida por lembranças desagradáveis e falsas saudades de ti.

i can’t unlove you.

não é como se ainda te amasse, mas há um eco repulsivo. em noites solitárias. em noites de calmante.

nessas noites eu bebo goles curtos e amargos de remorso, de rancor, de saudade agridoce.

já a tempos extirpei de dentro de mim a sua forma humana, os conteúdos da sua alma, o ardor do seu toque.

agora aguardo por outro homem pela manhã, não por você. aquele que me salvou de mim mesma. agora posso ligar para ele e dizer: querido, te amo e não posso parar.

resta essa escrita truncada, ébria, colocada, depressiva, fugaz. podemos nos sentar no divã e analisar todos os fatos, não fatos, sentimentos e não sentimentos e não chegaremos a lugar nenhum.

não cheguei.

você chegou?

afetos

{voice-over: um dos três tipos de função mental, que se dividem em afeto, cognição e volição}

afetos

não consigo discernir porque os outros se foram e você não.

mas amo outro homem agora, como se minha alma dependesse disso.