São Paulo, 2 de março de 2018
Carlos foi embora há três meses mas seu cheiro permanece no quarto da frente mumuficado engasgado impregnado. Victor me sugeriu passar álcool gel clorexidina removedor. Deixa o quarto asséptico ele disse eu dou risada trago mais uma vez o cigarro e penso no cheiro do virginiano que eu custei a gostar mas gosto e as lágrimas não vem está tudo seco a garganta desesperada por alívio e já nem é mais culpa da amidalite que me matou semana passada.
Não quero que ninguém leia isso.
Eu quero que você saia daqui, igual escreveu a poetisa que se suicidou enfiando a cabeça dentro do forno enquanto as filhas dormiam dopadas de xarope no quarto ao lado. Tudo se resume ao quarto ao lado abre a porta fecha a porta será que se eu abrir a janela o cheiro vai embora?
A terapeuta nova anda remexendo no baú do ano passado e me dá agonia lembrar pensar falar as vezes o silêncio enterra tão bem o cheiro, será que eu aguento desenterrar tudo?
Alguém fumou um cigarro de tabaco orgânico na varanda e deixou a bituca displicentemente no cinzeiro enferrujado eu tenho uns cinquenta relatórios pra corrigir um jantar desagradável na noite de sexta-feira interferindo nos meus planos de trepar a noite toda enquanto faço um rehab do ar me contorcendo na terra dos outros.
{Unrelated: tenho medo de vacilar com ele porque eu sei que vai demorar uns noventa anos pra me perdoar e me aflige tudo isso porque não temos todo esse tempo, ninguém tem}
Esse texto já virou um fluxo de consciência esquisito não sei se vale a pena continuar porque tudo que eu queria era dormir e os relatórios estão me chamando, tem louça pra lavar e parece que essa semana tudo deu pra não fazer sentido. Pensa só: a carta de Berenice saiu no jornal da faculdade com meses de atraso e sem o post scriptum importantíssimo escrito na esperança de ser computado pela cabecinha avoada do meu ex-amante. Perdeu um pouco a graça.
Já faz tanto tempo, nem faz mais sentido e me envergonha relembrar. O orgulho é um sentimento muito imbecil como você mesmo disse mas a terapeuta pediu uma copia da carta e me estranha alguém querer ler minhas coisas com propósito diagnóstico, você não acha?
Eu quero que você termine de ir embora.
Venha buscar o livro que você deixou em cima do aparador, venha, e aproveite a oportunidade pra fazer uma feitiçaria que destrua as lembranças reprimidas. Confesso que pensei de trocar o Lucky Strike pelo Camel Azul é mais barato etc e tal mas preferem me beijar sentindo o gosto do mentolado e com isso não posso fazer nada além de concordar.
Espero que seus pássaros estejam bem. Os daqui já desistiram de cantar.