you burn me

São Paulo, 30 de janeiro de 2019

essas noites solitárias, após tomar o meu calmante, sei que vou fumar um cigarro ou outro, com a cabeça preenchida por lembranças desagradáveis e falsas saudades de ti.

i can’t unlove you.

não é como se ainda te amasse, mas há um eco repulsivo. em noites solitárias. em noites de calmante.

nessas noites eu bebo goles curtos e amargos de remorso, de rancor, de saudade agridoce.

já a tempos extirpei de dentro de mim a sua forma humana, os conteúdos da sua alma, o ardor do seu toque.

agora aguardo por outro homem pela manhã, não por você. aquele que me salvou de mim mesma. agora posso ligar para ele e dizer: querido, te amo e não posso parar.

resta essa escrita truncada, ébria, colocada, depressiva, fugaz. podemos nos sentar no divã e analisar todos os fatos, não fatos, sentimentos e não sentimentos e não chegaremos a lugar nenhum.

não cheguei.

você chegou?

afetos

{voice-over: um dos três tipos de função mental, que se dividem em afeto, cognição e volição}

afetos

não consigo discernir porque os outros se foram e você não.

mas amo outro homem agora, como se minha alma dependesse disso.

Flashback

São Paulo, 2 de março de 2018

      Carlos foi embora há três meses mas seu cheiro permanece no quarto da frente mumuficado engasgado impregnado. Victor me sugeriu passar álcool gel clorexidina removedor. Deixa o quarto asséptico ele disse eu dou risada trago mais uma vez o cigarro e penso no cheiro do virginiano que eu custei a gostar mas gosto e as lágrimas não vem está tudo seco a garganta desesperada por alívio e já nem é mais culpa da amidalite que me matou semana passada.

      Não quero que ninguém leia isso.

      Eu quero que você saia daqui, igual escreveu a poetisa que se suicidou enfiando a cabeça dentro do forno enquanto as filhas dormiam dopadas de xarope no quarto ao lado. Tudo se resume ao quarto ao lado abre a porta fecha a porta será que se eu abrir a janela o cheiro vai embora?

      A terapeuta nova anda remexendo no baú do ano passado e me dá agonia lembrar pensar falar as vezes o silêncio enterra tão bem o cheiro, será que eu aguento desenterrar tudo?

      Alguém fumou um cigarro de tabaco orgânico na varanda e deixou a bituca displicentemente no cinzeiro enferrujado eu tenho uns cinquenta relatórios pra corrigir um jantar desagradável na noite de sexta-feira interferindo nos meus planos de trepar a noite toda enquanto faço um rehab do ar me contorcendo na terra dos outros.

{Unrelated: tenho medo de vacilar com ele porque eu sei que vai demorar uns noventa anos pra me perdoar e me aflige tudo isso porque não temos todo esse tempo, ninguém tem}

      Esse texto já virou um fluxo de consciência esquisito não sei se vale a pena continuar porque tudo que eu queria era dormir e os relatórios estão me chamando, tem louça pra lavar e parece que essa semana tudo deu pra não fazer sentido. Pensa só: a carta de Berenice saiu no jornal da faculdade com meses de atraso e sem o post scriptum importantíssimo escrito na esperança de ser computado pela cabecinha avoada do meu ex-amante. Perdeu um pouco a graça.

      Já faz tanto tempo, nem faz mais sentido e me envergonha relembrar. O orgulho é um sentimento muito imbecil como você mesmo disse mas a terapeuta pediu uma copia da carta e me estranha alguém querer ler minhas coisas com propósito diagnóstico, você não acha?

      Eu quero que você termine de ir embora.

      Venha buscar o livro que você deixou em cima do aparador, venha, e aproveite a oportunidade pra fazer uma feitiçaria que destrua as lembranças reprimidas. Confesso que pensei de trocar o Lucky Strike pelo Camel Azul é mais barato etc e tal mas preferem me beijar sentindo o gosto do mentolado e com isso não posso fazer nada além de concordar.

      Espero que seus pássaros estejam bem. Os daqui já desistiram de cantar.

amanhã tudo isso pode ser mentira

São Paulo, 18 de dezembro de 2017

eu não consigo escrever um poema sobre você porque minha pele não rasga quando você me toca (ainda)

eu não queimo quando você me abraça e seu cheiro não me atazana a cabeça, não quebra não doí não fere

também não transcendentaliza e não incendeia mas nada disso importa quando a madeira já apodreceu desde a última catástrofe

devagar devagar devagar lento delicado eu não posso ter pernas violentas contigo porque seu relógio biológico é invertido mas não tem problema porque você parece que veio pra botar limite no furacão que eu virei

mesmo assim eu te atinjo a duzentos quilômetros por hora enquanto a luz da mamba brilha nos nossos olhos dilatados e te digo coisas impensáveis imprudentes esperando o silêncio dilacerante mas sua boca abre e eu vejo as palavras saindo sobrevoando me atingindo no meio do peito como os afagos que você me faz quando dormimos juntos

já te avisei mil vezes que eu sou dessas mergulhadoras profissionais
me entrego completamente pra todo mundo que me toca
então
hoje sou totalmente sua e amanhã serei totalmente dela
enquanto ainda tô tentando resgatar pedaços meus perdidos pelos caminhos desconexos de perdizes

se você aguentar a violência do meu barulho eu sou tua hoje sim e na próxima sexta

meu cheiro vai ficar no teu colchão
meu cheiro vai voltar toda vez que você ver alguém fumando um lucky mentolado porque meus cabelos grudam em todos os cantos

eu gosto de deixar um rastro profundo daqueles que riscam o assoalho novo e não saem nunca mais

eu sou louca, sabia?

dai você diz que é tarde demais pra fugir da minha insanidade, do meu clichê literário e eu sorrio porque não suporto fugitivos

a intensidade cresce exponencialmente enquanto você continuar tocando minha música favorita não diga que eu não avisei eu sou incansável

desliga num estalar de dedos