Eu te escrevo e você não me lê — um flashback

São Paulo, 8 de setembro de 2018

      não é época de frio, mas deve-se começar como no último outono: você pensa em mim como penso em você?

      me disseram que esse som é do bem-te-vi, esse pássaro desgraçado atraído pelo mofo do seu armário que corrói as entranhas de todo mundo nessa casa. com você meu gozo dói e as mentiras derretem o papel conforme você recita seus versos como um sussurro no fundo da minha cabeça. os meus gemidos, o silêncio da sua culpa sufocado pela violência das minhas coxas, meus gritos de angústia madrugada adentro, os gemidos da tua mulher deitada na vossa cama, seus braços entrelaçados nos dela enquanto meu peito se enche de pedaços podres seus perfurando minhas entranhas nas noites que sufocam a esperança de você ter sido engolido pelo tempo. a impossibilidade do toque causador da sua morte trazem a notícia: você não pensa em mim como penso em você porque a garganta cheia de ódio como uma navalha pronta pra abrir seu peito e devorar seu coração é só dentro do meu ventre.

      a garota dentro de mim queria suas mãos suavemente repousando nos meus seios e a fêmea faminta ainda quer sua carne e

dilacerar,

despedaçar,

incendiar.

assim como está, não morreremos juntos, já que juntos nunca estivemos.

morrerá sozinho como uma raposa faminta quando já não sobrarem mais galinhas

frágeis

estúpidas

todas estarão mortas ou avisadas

e para sua redenção o punhal deverá ser da tua senhora.

Samba da treze de maio

São Paulo, 15 de agosto de 2018

      O samba da treze toca ao fundo enquanto eu e ele estamos sentados na mesa do bar, em uma proximidade excessiva demais para qualquer telespectador mais amargurado.

      Aquele amigo dele do outro dia de repente aparece, eles trocam algumas palavras (talvez mais que algumas) enquanto eu dou cinco ou seis bocejos. É dificílimo encontrar esses amigos, esses que te conhecem. É sempre aquele mesmo diálogo: me perguntam se nos conhecemos, de onde, se somos amigos. Eu sorrio, esse meu sorriso jururu que você bem conhece. A bile sobe pela minha garganta, começo a elaborar a mesma mentira de sempre e logo vem o flashback do nosso último encontro, meus lábios quentes no seu pescoço, minhas lágrimas escorrendo timidamente e as palavras que nunca te disse: “Eu te amo, mas você parte meu coração”.

      O sorriso jururu continua enquanto respondo seu amigo com a violenta sinceridade da mentira de que sim, nós nos conhecemos, but i barely know you.

Pimentão Vermelho

São Paulo, 4 de junho de 2018

o sol entra duro pela janela e a madeira do chão range sob as patas do meu gato

ele procura no assoalho um rastro,

teu rastro

talvez

eu digo a ele que nada restou

nada

(!)

(deixe disso, gato)

(!)

nem ao menos seu cheiro nessa casa eu sinto mais

(graças a deus)

nem ao menos escrever consigo mais

(a menos que…)

só se soltam dos meus dedos despedidas, partidas, espinhos e serpentes mortas

e agora a casa está novamente de pé, novos retratos nas paredes, alguns pimentões vermelhos na geladeira e de vez em quando abraços durante uma partida de futebol

minha língua trava e enrola e para isso não tenho poemas nem contos ou cartas

me livrei do seu cigarro velho já tem uma semana e o hábito não parece me fazer falta mas ainda assim me custa acreditar que a inspiração persista

você

que desgraça

não poderia pedir por uma personagem pior

mas ai está

o sol duro entrando pela janela

o maço cheio

o gato arranhando o sofá

e palavras carregadas do que restou dos nós:

deus queira que sua queda seja como você merece

Exercício de Telepatia

São Paulo, 15 de abril de 2018

      Na semana seguinte, ela não apareceu. Já passado o meio dia, como de costume, acordou na própria cama de solteiro, cercada de seus próprios pertences e com o gato gordo ronronando tranquilamente na cadeira da escrivaninha.

      Demorou alguns minutos para levantar, permanecendo deitada admirando o teto manchado. No fim, não era tão diferente dos outros sábados, porque ela sempre acordava sozinha, mesmo que na cama dele. Não sabia dizer se a diferença era a ausência da camiseta masculina cobrindo seus seios, da certeza de encontrá-lo na cozinha, das palavras ácidas trocadas entre eles ou do café passado especialmente para ela.

      Decide sair do quarto. Corta seus legumes, da maneira que gosta, lentamente, enquanto sua música preferida toca – não a dele – e a cerveja gelada repousa ao lado do fogão. E as semanas passam, três sábados, quatro sábados, todos iguais, com o gato e o silêncio, sem armadilhas e cigarros, os jornais da semana se acumulando no aparador da sala, sem ninguém para lê-los.

      É no quinto sábado, durante a preparação do almoço, que percebe o fim do café. Na esperança de encontrar um saco novo esquecido no fundo do armário, descobre um restinho de chá preto.

      As lágrimas vem, enquanto corta as cebolas, se confundindo inicialmente com a irritação do tempero e sendo substituídos por soluços longos e doloridos. Desliga o fogo, tampa as panelas e senta-se no balcão da cozinha. Espera pacientemente que as lágrimas sequem e que o chá esfrie.

      Pega o telefone. Com os dedos quentes, disca o número dele.

divagações sobre a eleição de governadores em 2018

São Paulo, 20 de março de 2018

ela é uma gracinha

gosta de poesia

sensível

você diz que não tinham assunto e eu me pergunto como não, como não?

você nem suas dúvidas me pertencem mais, graças a deus, mas não consigo deixar de imaginar como esse seu romance não deu certo

desculpe a intromissão, mas acho que talvez tenham terminado por causa do suplicy

Flashback

São Paulo, 2 de março de 2018

      Carlos foi embora há três meses mas seu cheiro permanece no quarto da frente mumuficado engasgado impregnado. Victor me sugeriu passar álcool gel clorexidina removedor. Deixa o quarto asséptico ele disse eu dou risada trago mais uma vez o cigarro e penso no cheiro do virginiano que eu custei a gostar mas gosto e as lágrimas não vem está tudo seco a garganta desesperada por alívio e já nem é mais culpa da amidalite que me matou semana passada.

      Não quero que ninguém leia isso.

      Eu quero que você saia daqui, igual escreveu a poetisa que se suicidou enfiando a cabeça dentro do forno enquanto as filhas dormiam dopadas de xarope no quarto ao lado. Tudo se resume ao quarto ao lado abre a porta fecha a porta será que se eu abrir a janela o cheiro vai embora?

      A terapeuta nova anda remexendo no baú do ano passado e me dá agonia lembrar pensar falar as vezes o silêncio enterra tão bem o cheiro, será que eu aguento desenterrar tudo?

      Alguém fumou um cigarro de tabaco orgânico na varanda e deixou a bituca displicentemente no cinzeiro enferrujado eu tenho uns cinquenta relatórios pra corrigir um jantar desagradável na noite de sexta-feira interferindo nos meus planos de trepar a noite toda enquanto faço um rehab do ar me contorcendo na terra dos outros.

{Unrelated: tenho medo de vacilar com ele porque eu sei que vai demorar uns noventa anos pra me perdoar e me aflige tudo isso porque não temos todo esse tempo, ninguém tem}

      Esse texto já virou um fluxo de consciência esquisito não sei se vale a pena continuar porque tudo que eu queria era dormir e os relatórios estão me chamando, tem louça pra lavar e parece que essa semana tudo deu pra não fazer sentido. Pensa só: a carta de Berenice saiu no jornal da faculdade com meses de atraso e sem o post scriptum importantíssimo escrito na esperança de ser computado pela cabecinha avoada do meu ex-amante. Perdeu um pouco a graça.

      Já faz tanto tempo, nem faz mais sentido e me envergonha relembrar. O orgulho é um sentimento muito imbecil como você mesmo disse mas a terapeuta pediu uma copia da carta e me estranha alguém querer ler minhas coisas com propósito diagnóstico, você não acha?

      Eu quero que você termine de ir embora.

      Venha buscar o livro que você deixou em cima do aparador, venha, e aproveite a oportunidade pra fazer uma feitiçaria que destrua as lembranças reprimidas. Confesso que pensei de trocar o Lucky Strike pelo Camel Azul é mais barato etc e tal mas preferem me beijar sentindo o gosto do mentolado e com isso não posso fazer nada além de concordar.

      Espero que seus pássaros estejam bem. Os daqui já desistiram de cantar.