one morning this sadness will fossilize and I will forget how to cry

a chuva é grossa e leva um pedaço da minha maquiagem junto com ela, mas não se preocupe, caro leitor: essa não é mais uma daquelas cenas nas quais a protagonista chora embaixo das gotas potentes e geladas de uma chuva de verão.
bocas que não se encostam e batons intactos, nunca houve um pacto mas o silêncio se esconde entre as risadas e todos (ou quase todos) sabem: a ironia pode ser imperdível, mas qualquer sofrimento é proibido, meu bem.

há uma criatura amarga e sem nome dentro dos nossos estômagos
um vazio de sentidos e palavras, uma serpente pronta para se enrolar em nossos esôfagos
há tempos ela dorme serena ao som do ruído branco que preenche nossas mentes entorpecidas
o chiado engole tudo e finalmente (finalmente!) não nos escutamos.

os ladrilhos portugueses na rua brilham nos meus olhos enquanto uma andorinha paira nos teus;
o veneno ainda existe e corre nas nossas veias mas tudo que poderia ser dito se foi, exaustivamente consumido pelo fogo como cortinas de poliéster num incêndio;
as cartas antigas estão enfiadas em gavetas lotadas, envelhecidas pelo tempo, suas letras desbotam e desaparecem com o passar dos anos;
contos, peças e poemas foram rasgados e triturados; eram inúteis como o roteiro de um filme que nunca teve segunda parte.

a nós resta aposentar a escrita, diminuir o cigarro e mantermos os lábios esticados em sorrisos fixos: agora temos tudo e nunca fomos tão felizes.

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