
faz uns dias tatuei um peixe na barriga pensando em você
(pensando na barriga também)
um peixe laranja.
a agulha na minha pele e o orvalho de sangue brotando ponto a ponto embaixo da tinta quase neon.
era pra doer, mas não sinto nada.
(se é perdão que você quer, meu bem, eu te perdoo)
os peixes do aquário observaram avidamente nossos corpos enrolados no sofá. me lembro de pensar neles como nossos cúmplices e os detestei menos por disporem de mais tempo com você do que eu poderia em uma vida inteira
mas não há nada laranja no teu aquário.
os sorrisos e as cervejas compartilhadas com nossos amigos na minha ausência
a reticencia de semanas
todos os silêncios derradeiros e encontros impossíveis
por toda vida que você vive sem mim
ardi
agora não há mais nada a escrever
nada que não possa realmente ser dito, não é?
não são mais necessárias cartas ou poemas
nossos livros estão fechados e nunca mandaremos para nenhuma editora.
costumava me imaginar escrevendo um grande romance,
publicaria a antologia da minha paixão;
dissecando todos os planos dos corpos abandonados à beira da estrada;
todos os segundos efêmeros
agora me encontro rindo da fantasia delirante que acomete os jovens apaixonados
ardemos;
~~~~~~~~~~~~~~~~ apagamos.
mas não se esqueça, querido, de me perdoar também
