
nunca mais entrei no teu quarto.
ele nem existia mais, a porta havia dissolvido entre as paredes.
mas entraríamos,
ali,
naquela noite fria de agosto.
gelada, úmida.
desagradável.
começamos as cervejas na parte de fora do bar, mas logo o vento arredio apareceu e com ele as gotas grandes e pesadas começaram a descer dos céus. então você me convidou para o seu apartamento. era perto, duas quadras. tínhamos grandes guarda-chuvas, já era tarde e você tinha bebido demais pra me levar até minha casa.
o álcool se enlaça nos neurônios de modo a fazer essa parecer uma boa ideia.
mas não se engane: essa não é mais uma daquelas histórias sórdidas sobre como transaríamos
apressados, bêbados,
quente e proibido
não, não.
é uma história de como talvez você não quisesse me deixar ir sozinha com um homem desconhecido num aplicativo qualquer de carona. e nem sugerir dirigir comigo enquanto bêbado porque isso seria, no mínimo canalhice, depois de eu ter te contado de onde surgiu meu gosto por lanternas alemãs, daí, as cervejas continuaram e eu acabaria por dormir no seu sofá.
na manhã seguinte acordaria no teu quarto, sozinha, com o cheiro de café passado enchendo o ar ao meu redor.
o apartamento estaria vazio, você teria saído para trabalhar, deixado o café em cima da mesa da cozinha e a porta da sala destrancada.
na madrugada, depois de eu adormecer na sua sala, você me levou até a cama no seu quarto e deitou ao meu lado de forma que nossos corpos nunca se encostariam se assim desejássemos. o álcool de fato fazia um grande esforço pra desligar meu cérebro e você tornou tudo fácil demais, seguro demais, pra que eu só dormisse numa cama confortável e não num sofá velho cheio de pelos de gato. também não esperava que você dormisse em qualquer outro lugar além do seu próprio quarto porque é só dormir, afinal.
deixar-se estar inconsciente ao lado de alguém.
alguns minutos de silêncio e estou prestes a me entregar a inconsciência. nossos corpos relaxam e eu estou com os lábios próximos da sua orelha esquerda. você de barriga para cima e eu de barriga para baixo: como eu sempre durmo, com uma das mãos embaixo do travesseiro e a outra colada junto ao meu corpo. você tinha trazido a manta que estava no sofá e usado para me cobrir.
era frio e eu podia sentir meu corpo mais quente que o seu. uma culpa passageira encontra meu peito ébrio, resmungo algo incompreensível e jogo desajeitada um pedaço da manta em cima da sua barriga. você ri. puxa para si e quando retorna a posição de dormir percebo estarmos envoltos em um abraço puramente fraternal e inocente. o sono é muito, todo meu eu ainda consciente só quer adormecer e você é quente, confortável e seguro demais. nada importa, de verdade, querido, me perdoe, mas eu apenas não me importo com como tudo isso vai soar. então meu corpo começa a desligar-se de baixo para cima,, os olhos fechando enquanto o zumbido do início do sono invade meus ouvidos.
“como foi?” você vomita a pergunta, displicente, como quem busca algo para assistir em um streaming qualquer.
“como foi o que?”
“como foi quando você se apaixonou por mim?
solto um muxoxo preguiçoso, “não sei, pô. nomeei o sentimento em retrospecto”
você ri.
rimos.
mais alguns minutos de silêncio e o riso torna-se um sorriso mole no meu rosto, derretendo enquanto os músculos ao redor da boca adormecem.
“e como foi… quando acabou?”
a pergunta ecoa na minha cabeça semiconsciente enquanto meu cérebro despreparado tenta inventar algo. digo inventar porque essa é a pergunta de ouro, meu bem, aquela que escondemos no cofre do armário velho no canto do quarto. aquela que não se pergunta, nem a si mesmo. apesar de ter criado, ao longo dos anos, inúmeras teorias e elaborado infinitos neologismos sentimentais para explicar o que restava, nem respostas místicas e transcendentais me vinham em mente em momento algum e muito menos naquele, enquanto bêbados, eu vestindo os sapatos que meu marido me dera molhando o colhão que você divide com sua esposa.
uma armadilha.
não houve tempo.
sem abrir os olhos, meus lábios se movem entorpecidos
“não acabou”.
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*baseado na obra de um autor que não posso identificar (acho. se puder e você estiver lendo, avisa ai)*
