exercício de despedida

Segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

a luz vermelha eu tenho até hoje.
não é uma luminária alemã e minha casa está longe de ser tão memorável quanto a sua, mas isso nela é seu.
a música que te mostrei fez o aplicativo sugerir hope sandoval and the warm inventions porque você ficou ouvindo minha playlist depois que nos despedimos. os comprimidos de ritonavir e as minhas bulas gigantes no meio da rua, seu cigarro de bolinhas é parecido com o meu mas não consigo imaginar o que se passava na sua cabeça enquanto na companhia de alguém tão imensamente perdida quanto eu.

roubei de você algumas coisas
a memória dos seus gatos e pequenas plantas, minha bicicleta ocasionalmente rodando, a pizza que nunca dividimos e as lâmpadas coloridas.
células da sua pele, meu código genético tocando o seu
algo íntimo
algo só nosso
descobrir-me e encontrar você.

é irônico que você seja a única pessoa para quem eu escreveria isso e talvez a suposição da existência de algo para além de nós, um lugar de comunicação, me traria algum conforto numa tentativa de alcançar você depois da sua partida, mas não há nada a fazer além de lembrar.

apesar de não haver ninguém do outro lado dessa linha queria poder te prometer guardar tudo aqui para sempre e dizer adeus.

você está morta há setenta e oito dias mas eu só soube hoje, m.
é tarde demais demais.
sempre é quando se trata disso
como nada nunca será.