
quero um poema nosso
uma carta
um pedaço das almas num papel
talvez não haja mais nada a ser escrito
nada íntimo;
nada nosso.
minha sinceridade rasgando tudo entrelaçada na saudade de quando havia tempo e algo a dizer;
meu coração cheio afogando teus livros e quando ela atendeu teu telefonema a beira mar a areia desta praia deserta, antes já tão fina, agora pertenceria ao meu próprio litoral
mas a água é tão azul e o tinteiro está tão cheio
e mesmo não havendo penas o suficiente para escrever
tudo que é teu ainda tem espaço aqui
e neste ponto preciso dizer
tudo bem, querido
somos apenas personagens fumando um cigarro velho
aprendi a temer o medo que há em ti e meu silêncio diante dele é parte de acomodar o que há
não posso derreter hesitações
não quero dissolver teu amor
não posso apagar minha vida
mas não queremos nada disso,
não é mesmo?
queremos serenidade na escolha das palavras
queremos o aquietar de sentimentos
a eternidade de algo indolor
contudo, pareço me deparar irremediavelmente com essa amarração divina e áspera,
com o farfalhar da tua voz,
a reminiscência do cheiro do teu beijo e do frio circunscrito em nossas mãos.
estamos eternamente amarrados em tálamos paralelos
e ainda assim, habitando os cantos do assoalho empenado das nossas entranhas, insetos sussuram suvamente:
conte-nos dos teus suspiros teimosos
escreva-nos sobre todos os sonhos que corroem teus planos
convença-me da tua presença aqui enquanto queimo minha pele fingindo não conhecer ninguém além de ti
enfim, displicente como num exercício literário infame, não te direi nada, meu amor
apenas peço que deixe o sal tocar tuas sardas:
não há nada mais tentador do que a brisa do mar.
