exercício literário de infâmia número um

quero um poema nosso
uma carta
um pedaço das almas num papel

talvez não haja mais nada a ser escrito
nada íntimo;
nada nosso.
minha sinceridade rasgando tudo entrelaçada na saudade de quando havia tempo e algo a dizer;
meu coração cheio afogando teus livros e quando ela atendeu teu telefonema a beira mar a areia desta praia deserta, antes já tão fina, agora pertenceria ao meu próprio litoral

mas a água é tão azul e o tinteiro está tão cheio
e mesmo não havendo penas o suficiente para escrever
tudo que é teu ainda tem espaço aqui

e neste ponto preciso dizer
tudo bem, querido
somos apenas personagens fumando um cigarro velho
aprendi a temer o medo que há em ti e meu silêncio diante dele é parte de acomodar o que há
não posso derreter hesitações
não quero dissolver teu amor
não posso apagar minha vida
mas não queremos nada disso,
não é mesmo?

queremos serenidade na escolha das palavras
queremos o aquietar de sentimentos
a eternidade de algo indolor
contudo, pareço me deparar irremediavelmente com essa amarração divina e áspera,
com o farfalhar da tua voz,
a reminiscência do cheiro do teu beijo e do frio circunscrito em nossas mãos.

estamos eternamente amarrados em tálamos paralelos
e ainda assim, habitando os cantos do assoalho empenado das nossas entranhas, insetos sussuram suvamente:

conte-nos dos teus suspiros teimosos
escreva-nos sobre todos os sonhos que corroem teus planos
convença-me da tua presença aqui enquanto queimo minha pele fingindo não conhecer ninguém além de ti


enfim, displicente como num exercício literário infame, não te direi nada, meu amor
apenas peço que deixe o sal tocar tuas sardas:

não há nada mais tentador do que a brisa do mar.


berlin 77

adormeça nesse canto sem demônios
abra um espaço nesta gaveta
(now i have happy yellow pills)

it’s ok, baby
now i know you know i wouldn’t do anything wrong
i have to much to lose now,
don’t you?

lamentavelmente há algo triste demais permeando tudo ao alcance dos nossos dedos e você não acompanha a inquietude das minhas pernas
today i cried a little for you

NS acende mais um cigarro e me pede para que eu leia um dos meus poemas
e outro, e outro, e outro

atravessamos tudo.

um oco tão imenso;
e nem cabe mais angústia.

a poeira queimou as paredes, meu bem
e você não faz idéia do vazio que ficou aqui dentro.

wanna buy you roses ‘cause the words are dead

25 de Novembro de 2020























tragadas longuíssimas.
risadas esporádicas.
perto demais
distante, distante.
o êxtase cadente, morredouro
trocamos por uma lágrima aterrorizada

esta que é minha e nunca tua

vendem-se espaços vazios.
uma cidade morta com prédios decadentes
todos na espera de serem ocupados.
cavernas, até.
grutas úmidas espalhadas no meu interior
gota a gota outrora as lágrimas molharam as pedras
pequenos corpos de água espalharam-se timidamente destinados a secar com a aridez dos meus olhos cansados

pequenas rosas repousam no espelho d’água
e mudas elas chamam teu nome.