
[me and my girl, we got this relationship
i love her so bad, but she treats me like shit]
o som dos carros rasgando a vinte e três de maio e o gato imóvel me observando
olhos amarelos e midriáricos
os pingos de chuva escorrendo pelas janelas trancadas
estamos frente à porta e aguardo ansiosamente sua chegada
(mesmo sabendo que talvez você nunca venha)
[she spreads her lovin’ all over and when she gets home there is no left for me]
todos eles te odeiam, meu bem
só podem ver a malícia que recobria nossas peles
você intrincada no campo de flores amarelas,
acovardada atrás das cortinas
a simulação da sua existência me mantendo eterna coadjuvante nas correntes da nossa tragédia
os gritos ecoam alto batendo nessas minhas paredes:
voltar agora é se perder novamente
mas eles não compreendem meu amor por você, querida
minutos arrastam
a pia transborda
em algumas horas minhas costelas estarão submersas e o gato terá ido se abrigar num lugar seco
mantenho meus olhos fixos na porta da frente
não há como se esgueirar para dentro sem sobreaviso
a chuva esconde a gasolina e dissolve nossos venenos
sua faca desliza com delicadeza na minha pele agora dura e grossa
o nível da água sobe perigosamente e quanto maior sua demora maior é o medo de que você esteja me forçando para baixo
(assim eu posso me afogar, meu amor)
contudo permaneço estática em transe pela curiosidade violenta de tê-la ao meu lado mais uma vez
o calor do meu ódio dissipado quase por completo no gelo do líquido índigo que nos cerca
e se ainda me fizer sangrar por aqui, querida
não será por acaso.
