você, eu e uma praia deserta
a areia fina sobrevoa nossos calcanhares embalada na brisa gelada do mar
talvez seja um sonho,
talvez meu decesso.
estamos a um palmo de distância,
os corpos cálidos lado a lado
mãos infinitamente próximas mas cuidadosamente distantes
não há vozes ou sons e mergulhada no teu silêncio quase não ouço a andorinha assobiando a distância
bem sabemos que ela não voltará a tempo para me reencontrar, meu bem
o céu insanamente azul,
imenso como a melancolia desabitada dentro de mim
tua presença silenciosa antes atroz agora é o bálsamo doce e frágil restante entre minha figura pálida e a fome sedutora do mar
lágrimas escorrem preguiçosas pelas minhas bochechas
e é possível sentir teu alívio por não ser responsável por elas
(mesmo que jamais tenha sido)
ainda posso assistir os seus se contorcendo em angústia
e neste último ato, neste seu último desgosto
viro-me para as ondas violentas
e com nossos nós todos desatados,
finalmente podes voltar para tuas rosas amarelas
suas retinas queimam com a minha figura abatida sendo engolida pelo oceano esverdeado diante de nós
você se ergue na velocidade de um raio
mas é tarde demais para isso, querido
enfim selaremos nossa derradeira despedida.

