
dizem por aí que não posso mais te ver, querido.
justo agora que a necessidade de nos encontrarmos é inadiável
justo quando a chegada do himeneu é iminente.
precisamos rasgar as nossas cartas:
eu as tuas e tu as minhas.
queimar nossas fotos
quebrar nossos pertences.
já não posso mais ler tuas palavras.
as últimas estão em cima da mesa há semanas
o pó se acumulando ao redor
uma mancha de café dando mais drama à cena.
deixe no fundo do rio, eles disseram.
ou então as jogue daquele viaduto que passa em cima do vale do Anhangabaú.
o lugar das poetisas filhas da puta, das amantes e das vadias sujas.
o lugar dos poetas canalhas, dos cafajestes, dos homens infiéis.
nossos corpos mortos espatifados na calçada, tecido cerebral espirrando nos pedestres desgraçados.
intestinos arrebentados e expostos para dar de comida aos cães.
uma oportunidade perfeita, eles disseram.
única: um programa de demissão voluntária.
que petulância a minha imaginar que poderíamos conversar, beber, existir.
que ousadia a minha beijar a boca dele enquanto ainda escrevo para ti.
que ousadia a tua beijar a boca dela enquanto ainda escreve para mim.
como são tóxicas as nossas palavras. nossas cartas, nossos poemas.
terríveis, fatais.
a letra escarlate brilha nas nossas peles nuas, marcadas a ferro, para que assim seja definido o que realmente somos.
para eternizar nossos pecados.
ainda tenho muito carinho por ti, querido
sabes bem que fora ele nunca tive muito mais que isso.
e agora,
inevitavelmente,
nem nossa saudade me pertence mais.
