
Prólogo
Começo já dizendo que não há necessidade de preocupação porque este texto não é uma daquelas crônicas médicas terríveis e sim somente mais um conto de qualidade questionável escrito por alguém também de qualidade questionável. Espero que isso não seja uma surpresa pra vocês, porque quem me conhece sabe: esse tipo de coisa não é do meu feitio. De qualquer maneira, reitero que tudo aqui é absolutamente ficcional, e portanto, não há nem como encaixar esse monte de palavras na categoria de crônica médica. No máximo, vocês podem chamar de fanfic e ficamos acertados assim.
Capítulo 1
Uma senhora desesperada adentra o ambulatório sentada numa cadeira de rodas acompanhada de um bombeiro civil. Me apresento e pergunto o que a trouxe até alí. Ela começa a descrever inúmeros sintomas inespecíficos, enroscando nervosamente as mãos umas nas outras enquanto as gotas de suor se formam em sua testa. Nisso, concluo que ela é uma mulher muito ansiosa e, no mínimo, um pouco deprimida, sem nenhuma queixa ou doença específica aparente e de resolução imediata, apenas sofrendo com as maluquices que a falta de serotonina nos proporciona vez ou outra.
Nessas horas a única “técnica” realmente funcional e conhecida por mim é jogar conversa fora até que a pessoa se acalme o suficiente para ir embora. Então, comecei com aquela conversa amena de elevador e logo estaríamos compartilhando histórias de vida.
Ela conta que fumou muitos anos e acabou por desenvolver enfisema pulmonar em decorrência desse hábito. Conta que ficou três meses na UTI no ano passado e desde então, ficou traumatizada e deixou de fazer muitas coisas prazerosas, desde de sair pra passear com o cachorro na rua até deixar de ir ao seu mercado favorito por conta do medo de ter um “troço” no meio da rua e ter que pedir ajuda a estranhos.
Logo percebo que o papo depressão e ansiedade são doenças que podem ser tratadas e blá-blá-blá a qualidade de vida etcetera e tal setembro amarelo não ia levar ninguém a qualquer lugar. Fiquei apenas quieta, escutando com atenção suas histórias e concordando com a cabeça vez ou outra.
[atenção: a partir desse ponto passarei a chamá-la de Beatriz]
Conversa vai, conversa vem e eu encontro a brecha para fazer meu discurso “anti-suicida” (o mesmo que eu repito para mim mesma quando a ideia da minha própria aniquilação total começa a soar atraente).
Não sei no que a senhora acredita, dona Beatriz, mas independente de religião ou espiritualidade imagino que nunca ninguém tenha voltado dos mortos pra te dizer como é morrer, certo? Pelo menos comigo isso nunca aconteceu e pela falta de informações no que tange esse assunto eu tenho a seguinte filosofia de vida: a gente só tem um ticket nesse mundo. Só um. A gente pode andar uma vez no carrinho e pronto. Depois que acaba, não dá pra saber o que acontece. Sendo assim, eu prefiro não arriscar e viver o máximo possível e, pela nossa conversa, eu acho que a senhora não vive, viive mesmo. Concorda?
Concordo querida, mas eu tenho setenta e um anos, já não tem nada mais nada pra viver.
[esse discurso do one-ride-only é perfeito porque você pode pegar o exemplo mais banal de experiência de vida e floreá-lo o suficiente para que pareça interessante. Mais do que isso, experiências banais de vida são acessíveis para todas as idades]
Como eu mesma não tenho setenta e um anos e não vivi metade das coisas que a dona Beatriz viveu, perguntei algo bastante simples: a senhora já se apaixonou? Ela dá uma risada, joga a cabeça pra trás e me fala minha filha eu fui casada quarenta e sete anos com um homem vinte anos mais velho do que eu. Eu não amava ele, sabe? Não como homem. Eu via nele uma figura de pai, e como eu nunca tive isso, me apeguei a esse relacionamento e demorei mais de quarenta anos para largar ele.
Bom então pronto, ainda falta a senhora se apaixonar. Outra risada. Sabe o que é, dona Beatriz? Eu tenho pra mim que se apaixonar é a melhor coisa da vida. Ah tá! E por acaso você, doutora, novinha assim, já se apaixonou? Sorrisinho cínico de narradora. Mais uma vez me vejo com o super trunfo dos eventos corriqueiros da vida na mão. e como boa narradora onisciente que sou, resolvi contar a ela a história (ou não história, como vocês preferirem) de Carlos e Berenice. Suscintamente, é claro, porque essa história é tão longa e cheia de meandros que chega a ser insuportável. Inclusive pra mim, que sou apenas a narradora.
O truque funciona perfeitamente porque a dona Beatriz se empolga demais com a novela toda. No fim ela me pergunta se eles ficam juntos e eu respondo que não, que cada um seguiu seu caminho. Que estão bem, cada um do seu jeito, com seus maridos ou esposas, felizes muito bem obrigado.
Esse trêm já passou, dona Beatriz. É tipo o cometa Halley, praticamente impossível de ver duas vezes em uma vida só.
Ah não, isso eu não aceito. Pela sua história, querida, é óbvio que esses dois se amam e são só teimosos demais pra admitir. Risos nervosos. Digo que acho que não, digo aliás, como narradora onisciente, que tenho certeza de que Berenice e Carlos amam seus respectivos cônjuges e não um ao outro. Pelo menos não o suficiente pra que a história, lá trás, tenha terminado com um viveram juntos e felizes para sempre.
Acontece que dona Beatriz é tão teimosa quanto diz serem os meus personagens e insiste fervorosamente na ideia de que o cometa vai mudar de rota e, não obstante, isso acontecerá ainda enquanto ela estiver viva.
Já não discuto mais porque não vejo nem maneira nem motivo de dissuadí-la da sua teoria, nosso bate papo já dura mais de horas e digamos que não estou sendo paga por ser contadora de histórias e sim pra exercer outras funções (médicas, no caso). Além disso as compras dela ainda estão no mercado, onde ela as abandonou quando começou a passar mal.
Finalmente, depois desse statement emocionado, ela resolve ir embora, me agradece e ainda completa elogiando o tamanho descomunal do meu coração. Me dá um abraço e pede para que eu anote o telefone dela porque ela tem a mais absoluta convicção de que um dia eu telefonarei para dizer a ela: Carlos e Berenice terminaram juntos, enfim, exatamente como a senhora previu.
Nos despedimos com bastante carinho e enquanto ela caminha feliz em direção a porta do ambulatório, deixando a cadeira de rodas para trás, a única coisa que eu não consigo deixar de pensar é puta merda Carlos, você tem uma torcida maior do que a do corinthians.
Dedicatória
Dedico esse texto a dona ***** por ser a paciente mais legal que eu tive até hoje. Fico na expectativa de que ela consiga, antes de partir, viver a delícia de uma história de amor trágica, banal e irritante.
