C,
Não sei nem como começar essa carta.
Já peço desculpas agora, como de costume, mas dessa vez porque me encontro em um estado emocional delicado esses dias e não era minha intenção respondê-lo agora. Isso e o fato de eu estar ligeiramente alcoolizada, o que prejudica um pouco a coerência, como você bem sabe.
Agradeço pela sua carta de fim de ano, de verdade. Espero que você consiga cumprir sua promessa de ano novo de ser o mais sincero possível. Mas confesso que estou disposta a te perdoar por qualquer deslize de insinceridade que ocorrer, contanto que não me doa muito, porque eu mesma não consigo te prometer ser completamente sincera.
Sim, o importante é que estamos aqui. E queria te agradecer, no fim das contas, por ter me respondido. A verdade é que eu sinto sua falta. Sinto falta das conversas, do jeito que você me faz rir. Sinto falta do teu cheiro, dos teus olhos, das tuas mãos.
A saudade é estranha pra mim. Sinto que minhas lembranças de você se dissipam cada vez mais. Já me parece impossível imaginar qualquer diálogo presencial. Não consigo imaginar nenhuma coisa que eu te diria se nos encontrássemos (um encontro intencional e não um esbarro aleatório num dia insuportavelmente quente porque alguma obrigação te trouxe até o lugar que eu, por um caso ou outro, estava). Mas a saudade existe, apesar de todas as minhas tentativas de enterrá-la. Então sim, é importante que estarmos aqui e por isso te agradeço. Agradeço pelo começo da tentativa de reatar um diálogo, mesmo que da maneira torta que encontramos. É bom saber que você de fato não sumiu e que continua aí, do seu jeitinho (que, de qualquer forma, eu sempre gostei) No fim das contas, acho que o processamento “amíude” é, de fato, a melhor forma de processar. Procuro te processar assim também. Um pouco de cada vez.
Eu sei que termos que nos despedir para sempre (se for inevitável) é uma possibilidade. Espero que nossa relação não chegue a um ponto em que isso seja necessário, mas te reservo esse direito, assim como você se reserva e eu também me reservo. Eu fui a pessoa que fica até o final da festa, mesmo quando todos já se foram, mas já não sou mais. Às vezes eu preciso sair a francesa. Mas espero que não cheguemos a este ponto. Se esse for o caso, contudo, será apenas mais uma coisa da vida, que acontece e que não podemos controlar ou nos ressentir. Então ficamos acordados assim: se uma despedida final tiver que ocorrer, não resistirei a ela e prometo tentar fazê-la da maneira mais apropriada possível.
Não sei bem o que dizer além disso. Te peço desculpas por qualquer desconforto que meus textos possam ter te trazido ou te tragam e espero que você entenda que eu preciso escrevê-los, independente de como você possa se sentir, porque esse costume já não é, há muito tempo, dependente da sua leitura. Escrevo porque eu sinto que preciso.
Eu realmente sinto muito sua falta. Não queria sentir. Queria que você fosse só mais uma pessoa que passou pela minha vida, mas não posso fingir. Não posso fingir que você não me toca, de alguma forma, com qualquer uma das suas interações. Gostaria muito de poder me sentir livre de ti, porque como você pode imaginar, esse fio que me liga a você vez ou outra me trás algum tipo de problema ou discussão desagradável. Mas não quero mentir sobre como me sinto e não vou. Pelo menos não depois da sua promessa de ano novo. E pra ser sincera, não sei bem se quero deixar de ser tocada por você.
Espero que isso não te assuste, porque não é essa a intenção, pelo contrário.
Em relação a pimenta biquinho e ao Porchat, preciso concordar que a superexposição não fez bem a nenhum dos dois. Eu não sou uma grande fã de coisas que ardem em excesso e por isso a pimenta biquinho me trás tanta satisfação. Mas não essas curtidas no vinagre. Gosto dela crua, fresca, sozinha. E com moderação porque se não for assim perde a graça. Igual o Porchat.
Apesar de não gostar de coisas que ardem em excesso eu tenho um lado um pouquinho masoquista. Por isso não consigo deixar de gostar de pimentas em geral, mesmo sabendo que elas me fazem espirrar e me deixam com a boca ardida. Tenho pra mim que as melhores coisas da vida compartilham um pouco dessa característica: ardem um pouco, de uma forma ou outra. Talvez você não concorde, mas não importa.
Ah, e, não sei se você sabe, mas eu tenho um pouco de mal gosto em geral. Aí calha de acontecer de eu gostar um pouco do Porchat. Mas só um pouco, juro.
Gostaria que pudéssemos nos encontrar eventualmente. Eu e você.
Sozinhos.
Gostaria de poder tomar uma cerveja, jogar conversa fora e rir. Não sei se isso um dia vai acontecer e não sei se esse é o melhor momento. Mas fica aí registrado meu desejo.
Aguardo tua resposta, seja lá qual for, seja sobre esta carta ou sobre a anterior ou sobre qualquer outra coisa.
Com carinho,
– B.
ps: por favor, nunca deixe de usar esse teu brinquinho. suits you well.

