on brûlera toutes les deux en enfer mon ange

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dizem por aí que não posso mais te ver, querido.
justo agora que a necessidade de nos encontrarmos é inadiável
justo quando a chegada do himeneu é iminente.

precisamos rasgar as nossas cartas:
eu as tuas e tu as minhas.

queimar nossas fotos
quebrar nossos pertences.

já não posso mais ler tuas palavras.
as últimas estão em cima da mesa há semanas
o pó se acumulando ao redor
uma mancha de café dando mais drama à cena.

deixe no fundo do rio, eles disseram. 
ou então as jogue daquele viaduto que passa em cima do vale do Anhangabaú.
o lugar das poetisas filhas da puta, das amantes e das vadias sujas.
o lugar dos poetas canalhas, dos cafajestes, dos homens infiéis.

nossos corpos mortos espatifados na calçada, tecido cerebral espirrando nos pedestres desgraçados.
intestinos arrebentados e expostos para dar de comida aos cães.

uma oportunidade perfeita, eles disseram.
única: um programa de demissão voluntária.

que petulância a minha imaginar que poderíamos conversar, beber, existir.
que ousadia a minha beijar a boca dele enquanto ainda escrevo para ti.
que ousadia a tua beijar a boca dela enquanto ainda escreve para mim.
como são tóxicas as nossas palavras. nossas cartas, nossos poemas.
terríveis, fatais.

a letra escarlate brilha nas nossas peles nuas, marcadas a ferro, para que assim seja definido o que realmente somos.
para eternizar nossos pecados.

ainda tenho muito carinho por ti, querido
sabes bem que fora ele nunca tive muito mais que isso. 

e agora,
inevitavelmente,
nem nossa saudade me pertence mais.

Nenhum time em campo

Prólogo

Começo já dizendo que não há necessidade de preocupação porque este texto não é uma daquelas crônicas médicas terríveis e sim somente mais um conto de qualidade questionável escrito por alguém também de qualidade questionável. Espero que isso não seja uma surpresa pra vocês, porque quem me conhece sabe: esse tipo de coisa não é do meu feitio. De qualquer maneira, reitero que tudo aqui é absolutamente ficcional, e portanto, não há nem como encaixar esse monte de palavras na categoria de crônica médica. No máximo, vocês podem chamar de fanfic e ficamos acertados assim. 

Capítulo 1

Uma senhora desesperada adentra o ambulatório sentada numa cadeira de rodas acompanhada de um bombeiro civil. Me apresento e pergunto o que a trouxe até alí. Ela começa a descrever inúmeros sintomas inespecíficos, enroscando nervosamente as mãos umas nas outras enquanto as gotas de suor se formam em sua testa. Nisso, concluo que ela é uma mulher muito ansiosa e, no mínimo, um pouco deprimida, sem nenhuma queixa ou doença específica aparente e de resolução imediata, apenas sofrendo com as maluquices que a falta de serotonina nos proporciona vez ou outra. 

Nessas horas a única “técnica” realmente funcional e conhecida por mim é jogar conversa fora até que a pessoa se acalme o suficiente para ir embora. Então, comecei com aquela conversa amena de elevador e logo estaríamos compartilhando histórias de vida.

Ela conta que fumou muitos anos e acabou por desenvolver enfisema pulmonar em decorrência desse hábito. Conta que ficou três meses na UTI no ano passado e desde então, ficou traumatizada e deixou de fazer muitas coisas prazerosas, desde de sair pra passear com o cachorro na rua até deixar de ir ao seu mercado favorito por conta do medo de ter um “troço” no meio da rua e ter que pedir ajuda a estranhos. 

Logo percebo que o papo depressão e ansiedade são doenças que podem ser tratadas e blá-blá-blá a qualidade de vida etcetera e tal setembro amarelo não ia levar ninguém a qualquer lugar. Fiquei apenas quieta, escutando com atenção suas histórias e concordando com a cabeça vez ou outra.

[atenção: a partir desse ponto passarei a chamá-la de Beatriz]

Conversa vai, conversa vem e eu encontro a brecha para fazer meu discurso “anti-suicida” (o mesmo que eu repito para mim mesma quando a ideia da minha própria aniquilação total começa a soar atraente).

Não sei no que a senhora acredita, dona Beatriz, mas independente de religião ou espiritualidade imagino que nunca ninguém tenha voltado dos mortos pra te dizer como é morrer, certo? Pelo menos comigo isso nunca aconteceu e pela falta de informações no que tange esse assunto eu tenho a seguinte filosofia de vida: a gente só tem um ticket nesse mundo. Só um. A gente pode andar uma vez no carrinho e pronto. Depois que acaba, não dá pra saber o que acontece. Sendo assim, eu prefiro não arriscar e viver o máximo possível e, pela nossa conversa, eu acho que a senhora não vive, viive mesmo. Concorda?

Concordo querida, mas eu tenho setenta e um anos, já não tem nada mais nada pra viver.

[esse discurso do one-ride-only é perfeito porque você pode pegar o exemplo mais banal de experiência de vida e floreá-lo o suficiente para que pareça interessante. Mais do que isso, experiências banais de vida são acessíveis para todas as idades]

Como eu mesma não tenho setenta e um anos e não vivi metade das coisas que a dona Beatriz viveu, perguntei algo bastante simples: a senhora já se apaixonou? Ela dá uma risada, joga a cabeça pra trás e me fala minha filha eu fui casada quarenta e sete anos com um homem vinte anos mais velho do que eu. Eu não amava ele, sabe? Não como homem. Eu via nele uma figura de pai, e como eu nunca tive isso, me apeguei a esse relacionamento e demorei mais de quarenta anos para largar ele. 

Bom então pronto, ainda falta a senhora se apaixonar. Outra risada. Sabe o que é, dona Beatriz? Eu tenho pra mim que se apaixonar é a melhor coisa da vida. Ah tá! E por acaso você, doutora, novinha assim, já se apaixonou? Sorrisinho cínico de narradora. Mais uma vez me vejo com o super trunfo dos eventos corriqueiros da vida na mão. e como boa narradora onisciente que sou, resolvi contar a ela a história (ou não história, como vocês preferirem) de Carlos e Berenice. Suscintamente, é claro, porque essa história é tão longa e cheia de meandros que chega a ser insuportável. Inclusive pra mim, que sou apenas a narradora. 

O truque funciona perfeitamente porque a dona Beatriz se empolga demais com a novela toda. No fim ela me pergunta se eles ficam juntos e eu respondo que não, que cada um seguiu seu caminho. Que estão bem, cada um do seu jeito, com seus maridos ou esposas, felizes muito bem obrigado. 

Esse trêm já passou, dona Beatriz. É tipo o cometa Halley, praticamente impossível de ver duas vezes em uma vida só. 

Ah não, isso eu não aceito. Pela sua história, querida, é óbvio que esses dois se amam e são só teimosos demais pra admitir. Risos nervosos. Digo que acho que não, digo aliás, como narradora onisciente, que tenho certeza de que Berenice e Carlos amam seus respectivos cônjuges e não um ao outro. Pelo menos não o suficiente pra que a história, lá trás, tenha terminado com um viveram juntos e felizes para sempre. 

Acontece que dona Beatriz é tão teimosa quanto diz serem os meus personagens e insiste fervorosamente na ideia de que o cometa vai mudar de rota e, não obstante, isso acontecerá ainda enquanto ela estiver viva.

Já não discuto mais porque não vejo nem maneira nem motivo de dissuadí-la da sua teoria, nosso bate papo já dura mais de horas e digamos que não estou sendo paga por ser contadora de histórias e sim pra exercer outras funções (médicas, no caso). Além disso as compras dela ainda estão no mercado, onde ela as abandonou quando começou a passar mal. 

Finalmente, depois desse statement emocionado, ela resolve ir embora, me agradece e ainda completa elogiando o tamanho descomunal do meu coração. Me dá um abraço e pede para que eu anote o telefone dela porque ela tem a mais absoluta convicção de que um dia eu telefonarei para dizer a ela: Carlos e Berenice terminaram juntos, enfim, exatamente como a senhora previu. 

Nos despedimos com bastante carinho e enquanto ela caminha feliz em direção a porta do ambulatório, deixando a cadeira de rodas para trás, a única coisa que eu não consigo deixar de pensar é puta merda Carlos, você tem uma torcida maior do que a do corinthians. 

Dedicatória
Dedico esse texto a dona ***** por ser a paciente mais legal que eu tive até hoje. Fico na expectativa de que ela consiga, antes de partir, viver a delícia de uma história de amor trágica, banal e irritante.

if only i could split my life in two

cada vez mais eu sinto a impossibilidade da nossa existência.

não que eu quisesse tê-lo agora, querido.

mas veja, não consigo deixar de imaginar

suas mãos tocando meu rosto pálido

a maciez da sua pele

cada centímetro do seu corpo

aquela pinta saltada que você tem entre a quarta e a quinta costela

seus olhos castanhos doces e eternos

suas mãos pequenas encaixadas perfeitamente nas minhas

(só nas minhas)

queria poder te dizer que meu amor é infinito

queria dizer que eu esperaria por você

(se não agora, quem sabe em outras vidas)

acreditar que há mais de uma

uma que eu possa ser só sua e você só meu. uma na qual não teríamos errado tanto, sem traições, cobras ou feitiços

é uma pena, meu amor, que eu seja tão cética

nunca antes a fé me fez tanta falta

[but if you think you can save me i’d dare you to try]

por favor não fuja mais dos meus olhos

C,

Não sei nem como começar essa carta.
Já peço desculpas agora, como de costume, mas dessa vez porque me encontro em um estado emocional delicado esses dias e não era minha intenção respondê-lo agora. Isso e o fato de eu estar ligeiramente alcoolizada, o que prejudica um pouco a coerência, como você bem sabe.

Agradeço pela sua carta de fim de ano, de verdade. Espero que você consiga cumprir sua promessa de ano novo de ser o mais sincero possível. Mas confesso que estou disposta a te perdoar por qualquer deslize de insinceridade que ocorrer, contanto que não me doa muito, porque eu mesma não consigo te prometer ser completamente sincera.

Sim, o importante é que estamos aqui. E queria te agradecer, no fim das contas, por ter me respondido. A verdade é que eu sinto sua falta. Sinto falta das conversas, do jeito que você me faz rir. Sinto falta do teu cheiro, dos teus olhos, das tuas mãos.

A saudade é estranha pra mim. Sinto que minhas lembranças de você se dissipam cada vez mais. Já me parece impossível imaginar qualquer diálogo presencial. Não consigo imaginar nenhuma coisa que eu te diria se nos encontrássemos (um encontro intencional e não um esbarro aleatório num dia insuportavelmente quente porque alguma obrigação te trouxe até o lugar que eu, por um caso ou outro, estava). Mas a saudade existe, apesar de todas as minhas tentativas de enterrá-la. Então sim, é importante que estarmos aqui e por isso te agradeço. Agradeço pelo começo da tentativa de reatar um diálogo, mesmo que da maneira torta que encontramos. É bom saber que você de fato não sumiu e que continua aí, do seu jeitinho (que, de qualquer forma, eu sempre gostei) No fim das contas, acho que o processamento “amíude” é, de fato, a melhor forma de processar. Procuro te processar assim também. Um pouco de cada vez.

Eu sei que termos que nos despedir para sempre (se for inevitável) é uma possibilidade. Espero que nossa relação não chegue a um ponto em que isso seja necessário, mas te reservo esse direito, assim como você se reserva e eu também me reservo. Eu fui a pessoa que fica até o final da festa, mesmo quando todos já se foram, mas já não sou mais. Às vezes eu preciso sair a francesa. Mas espero que não cheguemos a este ponto. Se esse for o caso, contudo, será apenas mais uma coisa da vida, que acontece e que não podemos controlar ou nos ressentir. Então ficamos acordados assim: se uma despedida final tiver que ocorrer, não resistirei a ela e prometo tentar fazê-la da maneira mais apropriada possível.

Não sei bem o que dizer além disso. Te peço desculpas por qualquer desconforto que meus textos possam ter te trazido ou te tragam e espero que você entenda que eu preciso escrevê-los, independente de como você possa se sentir, porque esse costume já não é, há muito tempo, dependente da sua leitura. Escrevo porque eu sinto que preciso.

Eu realmente sinto muito sua falta. Não queria sentir. Queria que você fosse só mais uma pessoa que passou pela minha vida, mas não posso fingir. Não posso fingir que você não me toca, de alguma forma, com qualquer uma das suas interações. Gostaria muito de poder me sentir livre de ti, porque como você pode imaginar, esse fio que me liga a você vez ou outra me trás algum tipo de problema ou discussão desagradável. Mas não quero mentir sobre como me sinto e não vou. Pelo menos não depois da sua promessa de ano novo. E pra ser sincera, não sei bem se quero deixar de ser tocada por você.

Espero que isso não te assuste, porque não é essa a intenção, pelo contrário.

Em relação a pimenta biquinho e ao Porchat, preciso concordar que a superexposição não fez bem a nenhum dos dois. Eu não sou uma grande fã de coisas que ardem em excesso e por isso a pimenta biquinho me trás tanta satisfação. Mas não essas curtidas no vinagre. Gosto dela crua, fresca, sozinha. E com moderação porque se não for assim perde a graça. Igual o Porchat.

Apesar de não gostar de coisas que ardem em excesso eu tenho um lado um pouquinho masoquista. Por isso não consigo deixar de gostar de pimentas em geral, mesmo sabendo que elas me fazem espirrar e me deixam com a boca ardida. Tenho pra mim que as melhores coisas da vida compartilham um pouco dessa característica: ardem um pouco, de uma forma ou outra. Talvez você não concorde, mas não importa.

Ah, e, não sei se você sabe, mas eu tenho um pouco de mal gosto em geral. Aí calha de acontecer de eu gostar um pouco do Porchat. Mas só um pouco, juro.

Gostaria que pudéssemos nos encontrar eventualmente. Eu e você.

Sozinhos.

Gostaria de poder tomar uma cerveja, jogar conversa fora e rir. Não sei se isso um dia vai acontecer e não sei se esse é o melhor momento. Mas fica aí registrado meu desejo.

Aguardo tua resposta, seja lá qual for, seja sobre esta carta ou sobre a anterior ou sobre qualquer outra coisa.

Com carinho,

– B.

ps: por favor, nunca deixe de usar esse teu brinquinho. suits you well.