andromeda

AVISO: a obra a seguir é puramente ficcional e não reflete a opinião deste veículo de comunicação.

(cherry, tell me some things i don’t want to know and i can’t see a light at the end for us anymore)

quinze para as quatro.
um ronco persistente e grosseiro do gerador e o ranger de dentes de quem dorme no beliche ao lado é a nossa trilha sonora desta madrugada.

posso escutar o sussurro dos números escarlate do despertador analógico: dez para as quatro, cinco para as quatro. já rolo na cama há pelo menos uma hora mas este quarto é abafado demais, pesado demais, público demais e a insônia me mantém com os olhos abertos olhando fixamente para cima.

os minutos parecem derreter no calor do quarto e esperar o passar das horas é quase como ir sendo arrebatada aos poucos.

amanhã a noite entrarei em casa pela primeira vez em dias. a porta do quarto da frente estará aberta, como de costume, porque na minha ausência não há ninguém aqui com o hábito de fechá-la.

fechar o cheiro que você deixou.

hoje há apenas o cheiro dos armários velhos.
hoje o quarto está tão cheio de coisas espalhadas e amontoadas em completa desordem que é quase impossível recuperar a memória de que alguém um dia viveu por aqui.

você partiu e infinitas coisas precisaram tomar seu lugar.

contudo, se eu parar por alguns segundos diante do espelho, fechar os olhos e me concentrar o suficiente consigo evocar o seu cheiro escondido atrás do mofo dos armários. é possível, em uma terceira ou quarta inspiração, sentir cheiro de gente. cheiro de pele. um cheiro quente e seco como o verão. quente e seco como o sol. o teu cheiro de sol. como se você estivesse estado aqui.

alguns minutos atrás, algumas horas atrás.

só o cheiro de cigarro não está aqui.

nem o cigarro e nem você.

são nessas noites terríveis que sinto meu coração queimando numa saudade venenosa. saudade de alguém que nem ao menos sei quem é.

nessas noites sinto a culpa subindo pelo meu tronco, arrepiando os pelos dos meus braços, embrulhando meu estômago. a mesma culpa que senti da última vez que nos vimos, quando cheguei na casa dele com o rosto inchado, a camiseta manchada com as lágrimas grossas e teimosas que haviam caído do meu rosto. a mesma culpa que sinto toda vez que vejo ele lutando contra o ressentimento por eu insistir nesse nosso contato. ele já não me pergunta mais porque sabe que eu não posso responder, nunca posso, porque no fundo não sei o motivo da minha insistência nesse jogo.

não consigo parar e não consigo continuar.

esse jogo com você.
esse jogo de testar os limites do amor dele por mim com a minha sinceridade brutal sobre nós.

não consigo decidir se eu deveria continuar dizendo tudo a ele ou se passo a não dizer mais nada.

a cada carta, a cada poema, a pergunta martela na minha cabeça. a cada contato, a cada centímetro mais próximo de você eu sinto um fio me puxando para trás, sinto o medo de perdê-lo (ele, não você) subindo e descendo pelo meu esôfago, a hesitação em me aproximar mais e me perder sozinha em mais um labirinto seu.

(e você, o que diz a ela?)

quanto mais próxima de você, mesmo que ainda tão longe, sinto meu próprio ressentimento brotando nos meus poros, a inveja que sinto dela me sufocando dia após dia, como uma corda cada vez mais apertada em volta do meu pescoço.

uma corda preta e amarela, amarela e preta.

estou tão exausta disso tudo, querido.

tão exausta.

[cherry, i hate that it’s true but you make me blue]

– b.

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