you’re hard to reach. you’re cold to touch

There’s things I wanna say to you, but I’ll just let you live

Querido Carlos,

Já começarei dizendo que talvez essa seja mais uma das minhas longuíssimas cartas, então, sente-se e leia na velocidade que puder.

Me custa muito te escrever esta em especial porque o que mais temo nessa nossa arelação é que você desapareça novamente, fuja, acovarde-se, esconda-se ou qualquer coisa parecida com o que você costuma fazer. Não quero parecer desesperada ou ansiosa e muito menos me comportar como me comportei há 2 anos atrás. E talvez justamente por isso eu tenha escrito coisas pouco esclarecedoras, por isso talvez a cortina de fumaça continue entre nós. Tenho medo de exceder os meus limites e, consequentemente, os teus.

Talvez eu tenha sido mal interpretada ou não tenha me explicado da melhor forma. Minha intenção nunca foi que você dissipasse qualquer fantasmagoria sua. Aliás, não faço a mínima ideia de qual tenha sido minha intenção original dado que nunca imaginei que você responderia aquela minha primeira carta. Há tempos eu já havia aceitado tua ausência, aceitado que eu não era lida, ou vista e nem ao menos imaginada.

Como te disse antes, tentei destrinchar minhas intenções em diversas (e quase insuportáveis) sessões de terapia (mesmo quando eu absolutamente não queria que este fosse o assunto).

Felizmente, há pouco tempo, consegui voltar a fazer terapia com a minha antiga terapeuta (aquela na travessa da Caiubí) e na minha última sessão ela me disse que não importava o motivo das minhas cartas. Disse algo como “você quis escrever, escreveu, e é isso”.

Confesso que essa abordagem me trouxe um grande alívio porque tentar entender o motivo de não querer tua ausência completa era uma tarefa extenuante, irritante e sem propósito.

Em resumo, gosto de escrever as cartas e gosto de receber as tuas e isso me parece suficiente para continuar com isso tudo.

Acho que a grande questão que se deu após sua resposta, pra mim, é a seguinte: você realmente está por ai, à espreita, assim como eu, então por que não sair de trás das cortinas e continuar esse nosso espetáculo cauteloso?

Então me desculpe se fiz com que você se esforçasse para remover lençóis quando claramente há momentos em que eu mesma (tento jogar ou) jogo mais lençóis em cima disso tudo.

Não sei o que estamos fazendo aqui. Não sei o que eu estou fazendo aqui (e isso é o que mais me interessa) e muito menos entendo o que você está fazendo por aqui depois de tanto esconder-se (a parte que lhe cabe), mas não quero saber, não quero que me diga ou que tente descobrir porque não acho que saber de qualquer coisa nesse sentido irá me fazer diferença.

Sei que às vezes, em especial quando me encontro terrivelmente triste e inevitavelmente sozinha, penso em você. Imagino você me envolvendo em teus braços e, ouso dizer, às vezes imagino teus lábios nos meus. Custa-me muito dizer tudo isso, dado o absurdo desses pensamentos.

Por outro lado, há vezes nas quais tenho delírios de heteroagressão nos quais te dou um tapa na cara ou jogo algo em sua direção. Eu perco o prumo, grito e você finalmente grita de volta. Nesse cenário lúdico nos esgoelamos com todas as coisas presas nas nossas gargantas (se é que há alguma aí dentro, porque às vezes não sei nem ao menos se há algo aqui dentro).

Mas na grande maioria das vezes, contudo, não penso em nada disso. Penso na minha conta bancária, em onde vou morar ano que vem, nos meus remédios, na minha exaustão inexplicável, nas lágrimas imotivadas que escorrem silenciosamente pelo meu rosto após horas e horas de plantão.

No fim das contas, não sei o que estou fazendo, mas não me importo.

Não sei o que você está fazendo e também não me importo.

Não quero te causar culpa, dó, ou qualquer um desses sentimentos. Aliás, uma das coisas que mais me faz ter vontade de gritar contigo é imaginar a culpa no teu rosto.

Gostaria que você, de uma vez por todas, me colocasse no mesmo lugar que você se coloca, seja ele qual for. Não sou um anjo abençoado e você não é um demônio. Não sou perfeita e inclusive falho muitas vezes da mesma forma que você falha, então já podemos acabar com esse teatrinho, não concorda? Acho que nos conhecemos melhor do que essa farsa toda.

Não sei porquê, como já disse antes, mas não sinto que acabei com você. Se me permite, não sinto que acabei com nós. Infelizmente não sei qual fim espero.

Nunca li Hemingway e a única parte da bíblia que li foi o Genesis. Odeio a grande maioria dos poetas bêbados, apesar de achar que minhas melhores “produções” nasceram de muito álcool ou uma mistura de álcool e clonazepam. Em relação a revisões, as odeio, pois tendo a ser honesta nas primeiras versões e estupidamente ausente nas revisões.

Gosto mais das tuas cartas mais íntimas pois me sinto seguramente perto de ti. Como as estivéssemos verdadeiramente conversando. Consigo sentir um afeto saudável, consigo imaginar um futuro no qual riremos de qualquer dano causado. Sempre gostei de conversar com você no geral.

Gostaria de acreditar que um dia eu poderia inclusive ir ao teu casamento, perguntar dos teus filhos… Sem rancor, sem lágrimas, sem objetos atirados.

Mas no fundo não acredito em nada disso e ultimamente, entre crises de ansiedade e momentos de dissociação, não acredito em absolutamente nada, nem na própria existência física do meu corpo, de maneira que não me importa o que eu quero ou deixo de querer (e o mesmo se aplica a você) porque você nunca vai me dar o que eu quero e eu nunca vou te dar o que você quer. As relações humanas e, especialmente a amizade, não são pautadas nesse tipo de troca surreal.

Mas sabe, Carlos, não consigo te deixar ir. Não consigo me deixar ir. Passei por um breve momento de paz, antes de você se mudar, e logo depois fui assaltada por tanta raiva e tantas reconstruções inverídicas do que ocorreu entre nós que nem ao menos consigo me lembrar como éramos verdadeiramente.

Quando você resolveu voltar, mesmo desse seu jeito torto, decidi que essa seria minha chance de te conhecer novamente. Da maneira correta, assim como já havia dito.

Temo demais mais uma partida, pois já passei e repassei pelos estágios de luto um milhão de vezes sem ser capaz de arrancar de dentro de mim essa sensação de que há algo como um fio me ligando a você. Por isso a cortina de fumaça. Por isso os lençóis, os poemas confusos, as músicas, tudo.

Dessa vez não consigo me abrir para você como antes. Preciso de algum tipo de retorno teu antes de começar a me expor novamente, percebe? É assim, pelo menos na minha opinião, que uma amizade deve ser. Você me dá um pouco, eu te dou mais um pouco e assim seguimos.

Sobre o fio me conectando a você, uma amiga escreveu uma carta a uma certa pessoa e te peço licença para transcrever um pedaço aqui:

“Você sente uma contração no peito, tão delicada como um espectro, quando respira fundo antes de dormir? Um fio entre os ossos, perfeitamente sincronizado com o maquinário do espírito? (…) Um pesar antiquíssimo, como duas almas que se reconhecem e não lembram os nomes? Quando a proximidade é impossível e inexorável? Porque, às vezes, em noites comuns, eu sinto um magnetismo difuso, um chamado misterioso e, quando há lua no céu, vejo o formar de uma teia, amarrada às minhas costelas e escapando pela janela aberta. Para a madrugada. Para você”.

Talvez essa tenha sido uma das melhores descrições que encontrei sobre o que sinto. Não sei se você se sente assim e, honestamente, talvez seja melhor não saber, apesar do teor interrogativo do trecho, porque talvez nem ao mesmo você saiba. E se, por acaso, você estiver fazendo tudo isso movido por culpa, por favor, me avise e colocaremos um fim a tudo.

Culpa não é algo que me serve para absolutamente nada.

Em relação ao restante da sua carta: Na medida do possível sou feliz. Sou amada, cuidada, sou única, num amor certeiro e confiável. Amo como nunca mais achei que seria capaz de isso me trás uma felicidade indescritível.

Não deveria desejar nada de você, mas algo desejo. Talvez alguns pratos estilhaçados em sua direção, talvez outras coisas impensáveis, inapropriadas para serem ditas e que não nos convém no momento, talvez uma simples amizade.

Senti essa noite, viajando por uma estrada escura e interminável, que talvez essa fosse a hora de ser completamente honesta.

Eu amo você. Acho que nunca deixarei de amar. Mas o amor devora a si mesmo e não quero que se preocupe com essas afirmações. Não me refiro aqui a um amor romântico e sim algo como um apreço, um calor no coração.

Puro, doce, imaculado.

Mais uma vez, talvez isso seja mais um monólogo psicanalítico/literário do que uma carta em si. Mas saiba que tudo aqui é terrivelmente sincero.

Eu sei que o que eu penso de você não te serve de nada para desconstruir essa tua culpa cristã, não serve para provar para você quão agradável são suas palavras, quão agradável é a sua presença. Imagino que tampouco sirva para te fazer se sentir melhor. E, acima de tudo, minhas opiniões, cartas, atos desesperados ou decisões idiotas nunca foram e nunca servirão para te mudar de qualquer maneira. E nem quero que sejam porque, por algum motivo sombrio ou por alguma intervenção divina, amo-te assim como és.

Gosto das sombras, talvez como seu escritor japonês tenha tentado dizer. Talvez só seja possível te apreciar em sombras ou pouca iluminação. Nunca fui muito chegada em luzes assépticas, de qualquer maneira. Tenho maior apreço pelos animais noturnos, por assim dizer.

Por favor, não interprete essa carta como qualquer tentativa de reatar quaisquer ações impudicas. Por favor, não desapareça e me desculpe pelos meus constantes pedidos para que você não faça isso.

Novamente, não sinto que terminei seja lá o que eu precise terminar.

Preciso de coragem para te encontrar novamente, ouvir sua voz mais algumas vezes, refazer minhas memoriais do teu rosto, do teu cheiro. Preciso olhar para você e ser capaz de concluir algo como “você não imagina quão difícil foi poder te olhar nos olhos sem quebrar em um milhão de pedaços”.

Por enquanto, preciso de tempo. Talvez você também precise. Estou te dando aqui um voto de confiança, de que você não vai me interpretar errado, não vai fugir, não vai ficar mais frio e distante do que você costuma ser. E assim, te prometo tentar manter o mínimo de lençóis sobre tudo isso sem sobrecarrega-lo com excesso de sentimentos ou ideias sem cabimento. Concorda?

Minha viagem está sendo bastante agradável, apesar da quantidade excessiva de parentes aqui comigo (haha). Sua carta me encontrou bem sim.

Aliás, fiquei bastante intrigada com seu comentário sobre as alcaparras e a pimenta biquinho. Você gosta delas? Eu particularmente gosto de alcaparras em algumas coisas mas não tanto quanto eu gosto de pimenta biquinho.

Espero que você consiga escrever sua ficção, pois sei que ela será boa, apesar da tua quase insuportável mania de se diminuir. Estou tentando uma faz algum tempo também, mas acho que sou ruim com organizações temporais, capítulos, parágrafos, enfim.

Espero que esteja bem,

Dê um chero nos seus gatos por mim.

Se não nos falarmos até lá, te desejo um feliz natal e ano novo e espero que em dois mil e vinte possamos estar mais próximos.

Como sempre, aguardo teu retorno.

Com amor,

Berenice.