derramo-te
tua pele derrete e escorre pelos meus dedos e as memórias mancham o chão da cozinha enquanto se escondem mais adentro do meu corpo
cada vez menos fiéis
os detalhes se perdendo entre a realidade e o sonho
não sei do teu riso
nem dos teus braços ao redor de mim
como se tudo não passasse de uma peça de teatro que assisti há muito tempo:
sem cenário
dois personagens
um monólogo.
o tempo se esgota incansavelmente
penso que não é possível se esgotar mais enquanto noto a sensação da tua presença cada vez mais frágil
como os copos que esqueço em cima da escrivaninha quando caem displicentes no chão do quarto
observo os estilhaços
(há copos demais nessa casa)
a primavera chegando ao fim, os pássaros cada vez mais silenciosos se aproximam da nova migração
despejo-te dentro do meu peito enrijecido
mas agora posso respirar e o ar toma espaço demais
nada além cabe aqui
a decisão implacável do destino corta as lembranças em pequenos pedaços e corro atrás delas por alguns instantes
a sensação de perda se consolida lentamente até que percebo o grande erro
o defeito intrínseco
a conclusão inevitável
perco-te e quando percebo
já é tarde demais para encontrá-lo.
