fragmentos de terça a noite

derramo-te

tua pele derrete e escorre pelos meus dedos e as memórias mancham o chão da cozinha enquanto se escondem mais adentro do meu corpo

cada vez menos fiéis

os detalhes se perdendo entre a realidade e o sonho

não sei do teu riso

nem dos teus braços ao redor de mim

como se tudo não passasse de uma peça de teatro que assisti há muito tempo:

sem cenário

dois personagens

um monólogo.

o tempo se esgota incansavelmente

penso que não é possível se esgotar mais enquanto noto a sensação da tua presença cada vez mais frágil

como os copos que esqueço em cima da escrivaninha quando caem displicentes no chão do quarto

observo os estilhaços

(há copos demais nessa casa)

a primavera chegando ao fim, os pássaros cada vez mais silenciosos se aproximam da nova migração

despejo-te dentro do meu peito enrijecido

mas agora posso respirar e o ar toma espaço demais

nada além cabe aqui

a decisão implacável do destino corta as lembranças em pequenos pedaços e corro atrás delas por alguns instantes

a sensação de perda se consolida lentamente até que percebo o grande erro

o defeito intrínseco

a conclusão inevitável

perco-te e quando percebo

já é tarde demais para encontrá-lo.

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