São Paulo, 22 de outubro de 2019, 21h29
C,
Antes de mais nada, obrigada pelos desejos de aniversário. Espero que com o tempo possamos parar de nos esconder entre escombros e sombras e sejamos capazes de nos desvencilhar desses nossos enigmas e pistas falsas.
As cartas nos permitem muitas coisas e na maior parte do tempo me sinto grata por você ter respondido aquela minha primeira correspondência.
Contudo, sinto falta de te olhar nos olhos, de ser visceralmente sincera, de ter seus gestos e olhares para apoiar minhas conclusões. Confesso que é muito mais confortável para mim me esconder nessas páginas e nesses versos porque detesto a vulnerabilidade vinda do contato face a face. É muito confortável me convencer de que preciso me manter apática, imparcial (e especialmente confusa) nas minhas cartas, como se elas e os escapes de sentimentalismo nos demais poemas ou contos de alguma forma me protegesse de mim mesma. Te protegesse de mim mesma.
Como você deve saber, a confiança que se pode criar a partir de gestos e olhares é muito mais concreta. Frente a frente tudo é mais compreensível, humano, real.
De qualquer modo, por ora, o que temos são as cartas.
Por ora, é isso que eu posso te oferecer.
É isso que posso me oferecer.
Então que nelas fiquemos.
Gostei de saber da sua intenção primária em me escrever na ocasião do meu aniversário. Apesar do seu tom incerto e reticente característico, tudo isso me fez lembrar que, mesmo depois de tudo, eu sinto sua falta. Me fez lembrar o quanto te considerei alguém especial para mim, o quanto algo inominável aqui dentro ainda acha que vale a pena te manter por aqui. Mesmo enquanto nos alternamos nesse jogo de quem se posiciona menos, de quem se protege mais.
Preciso assumir que não faço ideia do espaço vazio que ficou aqui dentro, porque todos os dias parece que tropeço em mais um cômodo desabitado desconhecido. Preciso assumir que eu quero (e talvez precise) confiar em você. Eu sei que talvez a vida não tenha sido tão gentil com a gente, mas penso que você também gostaria de confiar em si próprio e, por consequência, gostaria que eu confiasse em você. Se for assim, sei que isso toma tempo, mas não tenho pressa.
Não quero me alongar muito, já que minha intenção com esse bilhete era apenas te agradecer enquanto aguardo sua próxima carta “não paralela” porque confesso que não entendi bem “de quem era a vez” depois dessas nossas datas comemorativas.
Enfim,
Te espero.
Com carinho,
– B.
