sorry baby x

São Paulo, 15 de Outubro de 2019.

C,

Já peço desculpas por conta desta carta não ser a melhor resposta que poderíamos esperar.

Nem eu, nem você, nem ninguém, porque infelizmente não fui capaz de escrever nada até agora. De qualquer modo, tinha estabelecido a data de hoje como o limite máximo para ao menos te escrever um bilhete.

Então aqui estamos.

Como duas pessoas conversando num bar, apenas com a diferença da distância do tempo entre uma coisa e outra.

Seu telegrama urgente me fez imaginar pela primeira vez você fazendo um esforço para tentar me entender, como se você não estivesse acostumado a ser a pessoa mais confusa dentro de uma dupla, não estivesse acostumado a ter de decifrar poemas alheios procurando algum sinal de perigo, alguma pista escondida. Talvez tudo isso seja somente uma suposição absurda e, se for, peço desculpas por isso também. O importante é que gostei do seu poema e gostei de saber que minha presença foi sentida e bem quista, apesar de tudo.

Peço desculpas por evocar a necessidade de procurar pistas ou por criar urgências literárias, se assim foi. Talvez eu tenha ficado tempo demais escrevendo para ninguém e por isso tenho mais dificuldade em redigir qualquer coisa minimamente lógica.

Na maior parte das vezes também não entendo muito o que você escreve, mas sempre gostei da maioria das coisas. A história das coxas só serviu para que eu decidisse por definitivo não ficar obcecada em entender nada, afinal. No entanto, é um belo poema, com boas imagens, assim como sua série e seu epílogo.

Juro que ao lê-lo pude sentir meu coração batendo cada vez mais rápido, como se fosse o próprio personagem atendendo ao telefone, pude ouvir o som do mar, pude me imaginar como a pessoa do outro lado da linha, respirando rápido, com a boca semi-aberta próxima do microfone do celular tentando elaborar algo decente para dizer.

Nosso desencontro no cinema me causou um efeito bastante constrangedor e achei que seria mais saudável ter um tempo de isolamento. Um tempo a mais para pensar em tudo isso. Mas entre tudo e as urgências da vida, acabei por demorar para te responder. A ideia era fazê-lo somente quando me sentisse pronta. Isso tudo seria apena uma carta paralela, como quem diz “estou atrasada, mas a caminho”.

Tenho a impressão de que a cada três meses perambulando por esse nosocômio que frequento e nessa graduação infinita eu envelheço pelo menos uns dois anos, de modo que já tenho aproximadamente uns quarenta. A cada dia me endureço mais, me embrenho mais fundo dentro do meu corpo, criando infinitas micro-camadas, me refugiando dentro de cenários confortáveis e seguros, então tenho uma certa fé de que não vou mais cair em armadilhas alheias e nem tropeçar numa armação terrível criada por mim mesma.

E por isso preciso dizer:

eu não confio em você.

Sei que não estamos jogando, mas me sinto como num tabuleiro de xadrez, assistindo perplexa seus movimentos sem ter ideia de onde deixar meus peões. Tento sobrepor a minha perplexidade e lentamente realocá-los, mas, querido, e se você derrubar minha rainha?

// No começo tudo isso tinha o propósito te parabenizar pelo seu aniversário de trinta anos. Então, parabéns. O restante da carta apenas saiu.

// Pensei em te enviar um cartão, pelo correio mesmo, mas achei que talvez isso fosse um pouco demais.

[esse ano eu parei de fumar

é muito, mas é sincero].

Com amor,

Berenice.

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