memento

          A história começa com a luz da lua entrando pela janela e, por isso, esse texto poderia ser mais um conto bobo qualquer. Talvez seja.
          De qualquer modo, a luz da lua entra pela janela e ilumina a cama de ninguém, refletindo tudo na parede branca do quarto de ninguém, onde nossos corpos repousam. Antes disso estávamos na varanda, em uma situação tão absurda que só poderia ser uma cena fictícia de um conto mal escrito como este.
          Você me pressiona contra a porta de vidro que separa a varanda do escritório. Eu vestia minha única lingerie bonita: uma vermelho-bordô, com rendinhas discretas e impressões suaves de pequenas flores. Hoje a calcinha já não é mais vermelha, nem bordô e sim roxa, porque acabei por lavá-la junto com uma calça jeans muito azul.
         Não há como descrever adequadamente os beijos, os movimentos de mãos, as nossas peles roçando ou meu corpo enlouquecido pedindo por mais, mas sei que cada centímetro dele ardia como se o apocalipse finalmente tivesse chegado, com as labaredas de fogo caindo do céu e lambendo nossas peles. 
          Você mais cedo estaria vestido com algum tipo de robe cinza, fino, desses que a gente se pergunta se é suficiente para não sentir frio a noite. Mas agora você estava como eu, praticamente nu, com uma cueca branca de algodão, dessas simples, em formato de sunga, como crianças usariam. Em algum momento algo nos fez sair da sacada. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca lembraria. 
          Como em todo bom clichê ficcional houveram beijos durante todo trajeto da varanda para sala e finalmente para o quarto. Achei que entraríamos no seu, mas acabamos entrando no da frente. Talvez tenha sido sua sugestão, mas eu nunca me lembraria.
          Sou assaltada por pequenos momentos dissociativos, nos quais meu corpo já não era meu e minha mente viajava para sua mensagem dizendo o que tinha comido no almoço porque esse era o gosto que eu sentia no fim do seu beijo. Se meu beijo tinha gosto de qualquer coisa, mesmo que de almoço, definitivamente nunca saberemos.
          Sou conduzida nessa nossa dança fantástica, como se você me ensinasse o que eu deveria fazer. Deixo-me ser conduzida apesar de saber alguns passos básicos porque algo me diz que essa será como uma nova primeira vez. Movimentos rápidos, quentes, surreais. Movimentos cuidadosos, como se fingissem ser apaixonados. Você em cima de mim, você balançando para frente e para trás. Meu cérebro dissocia mais uma vez: quanto tempo teremos até isso tudo acabar?
         Em algum momento recente aquele meu sutiã deixou de me servir. Provavelmente meus seios decidiram que após os vinte dois era o momento correto para crescer e enfim me deixar com um corpo menos infantil. Tento não pensar em todas as marcas, estrias e imperfeições impregnadas na minha pele e sigo com nossa dança.
           A sua sombra se projeta na parede, onde agora estão penduradas minhas fotos polaroide e nessa altura já não penso em mais nada além dos nossos corpos enrolados. Nos repetiríamos inúmeras vezes. Não havia mais nenhum lugar para ir sem ser você.
          Às vezes meu quarto é iluminado pela luz da lua da mesma forma que foi naquele dia, mas já não há sombras sendo projetadas nas paredes. Nessas horas penso que eu poderia ter me proclamado virgem antes de você. Nessas horas me lembro de quantas vezes trocamos perguntas estúpidas, quanto tempo perdemos tentando entender o que sentíamos. Todo tempo que desperdicei pensando se você a amava. No tempo que você pode ter desperdiçado para desmentir minha afirmação de que sim, eu amava meu antigo namorado. Nessas horas penso porque tentamos esconder o que sempre soubemos: que deixá-la nunca foi uma opção, que quem eu amava era você, que nada disso poderia ter terminado de outra maneira.
          Algumas horas atrás estávamos nos beijando pela primeira vez, embaixo daquela árvore pretensiosamente idiota, naquela escadaria estupidamente cafona, em uma rua qualquer de pinheiros. O som do seu coração martelando no seu peito cento e vinte batimentos por minuto, cento e dez batimentos por minuto sendo a única coisa que parecia real naquela noite. Suas mãos pequenas. A jaqueta do seu avô. Sua professora de francês nos interceptando na frente da sorveteria. Posso estar enganada, mas te imagino desconfortável naquele encontro. Não lembro se fomos apresentadas, mas como seríamos, eu e ela?
          Mas agora já é tarde e estamos deitados na cama, onde você me devora tão sutilmente que nem me lembro mais quando fui engolida. Você acha que eu te devorei? Não me lembro dos seus olhos, mas sei que você me olhava fixamente. Lembro de insistir em repetições, não porque faltasse alguma coisa, mas porque era como se eu desesperadamente já soubesse que aquela seria a última vez.
          Agora já não estamos mais no passado, estamos aqui, mais de dois anos depois e imagine a minha surpresa quando pari esse conto no exato momento que um outro homem me fodia exatamente da maneira que eu gosto, enquanto observo perplexa seu rosto sério. Talvez ele saiba que eu estou condenada a estar com ele eternamente. Talvez ele saiba que não há escapatória, que meu corpo não pode te pertencer mesmo que quiséssemos porque ele sabe que agora é a ele que eu pertenço.
         Ele insiste nos movimentos até que eu termine e posso ver nos olhos dele, como se me perguntassem silenciosamente: it’s god, isn’t it? E então eu termino, em êxtase absoluto, com a buceta ardendo, com o corpo derretendo, gaspeando desesperadamente por ar, com lágrimas nos olhos, com meu coração prestes a explodir, com o buraco dentro de mim crescendo exponencialmente até o limite do insuportável até que eu diga que sim, que sim! E então ele sorri docemente e deita ao meu lado. Sim, é Ele, é Ele.
         Esse conto termina de coroar e sair das minhas entranhas assim como nosso gozo agora escorre pelas minhas pernas.
       Adormeceremos.
        Ou ao menos, ele adormecerá.
        Eu permanecerei aqui,
        acordada,
        perplexa,
        apaixonada.
       Meu corpo treme levemente, as ondas de prazer indo e vindo, percorrendo todas as minhas terminações nervosas, o vento entrando pela janela dele, sem lua ou sombras.
         E ainda assim, meu amor, ainda assim, não posso esquecer dos teus dedos dentro de mim. E ainda hoje, meu amor, ainda agora, não consigo esquecer que onde está a andorinha que você me deu um dia esteve projetada a sombra do seu corpo escorregadio e proibido.

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