São Paulo, 18 de abril de 2019
{preâmbulo: essa carta é terrivelmente ruim}
Prezado Carlos,
Antes de começarmos de fato esta carta (eu de escrevê-la e você de lê-la) eu queria, com honestidade, pedir desculpas por mais um desses meus disparates literários. Não que isso vá fazer alguma diferença, porque você provavelmente já não os lê há muito, muito tempo. Mas de qualquer forma, fica ai o pedido de desculpas.
Além disso, te peço desculpas pelo fato de que, mais uma vez, cá estou eu, com meu nível de consciência alterado pelos meus remédios hipnóticos escrevendo uma carta. Talvez as desculpas sejam não só para você, que está sendo ativamente vítima dessa carta em específico, mas para todos os meus leitores (se é que tenho leitores) que já leram meus textos inspirados pela depressão do sistema nervoso central.
De qualquer forma, desculpas a parte, te escrevo porque estou com um probleminha e acredito que talvez você possa me ajudar porque de certa forma esse problema começou com você. Daí, acabei pensando, o que custa tentar descobrir se há algo que você possa me dizer a respeito do problema? Ou talvez, o que custa escrever sobre o problema e talvez encontrar uma solução na transformação do problema em palavras?
Por favor não se sinta pressionado a me consolar ou não leia essa carta com esses seus olhos castanhos melancólicos como que dizem “oh, coitada, mais uma vez lá está ela, querendo coisas de mim”. Não, não, dessa vez é diferente. Isso é puramente um experimento psicanalítico, ou psicológico ou um exercício literário, ou qualquer coisa que não envolva sua cara melancólica.
A questão é: você chora?
Eu sei que você sofre.
Mas eu realmente não sei se você chora. Digo, lágrimas reais, escorrendo pelo seu rosto sardento. Já te vi com essa cara de melancolia que sugava toda a felicidade da minha alma, e é praticamente só essa cara que eu lembro de ver você fazendo ao olhar pra mim, especialmente depois do sexo.
(A culpa é um troço poderoso, não é mesmo?)
Mas não, não isso. Eu to falando do “real deal”, chorar mesmo. Aquele choro que parece um vulcão de lágrimas te limpando por dentro. Você chora?
Por que sabe, eu chorava. Nossa, como eu chorava. Inclusive, eu chorei tanto por você que dava pra pegar aquela música da Clarice Falcão “O que eu bebi” e trocar “bebi” por “chorei” em todas as estrofes e só ai daria pra dizer o quanto eu chorei por você.
Enfim… Eventualmente eu parei de chorar por você porque parecia que meus olhos já tinham se resignado com o fato de que eu e você nunca haveríamos de ser e, nossa, graças a deus, né?
Sem ofensas, mas você é um puta de um canalha aleijado afetivamente e eu sou uma mulher completamente doida que, como diriam os portugueses, nem ao menos saiu completamente dos cueiros. Que bem essa união estúpida e luxuriosa traria? De qualquer modo, o que importa é que essas lágrimas secaram. E agora estamos todos bem, muito bem, bem distantes e bem.
Mas que surpresa eu não tive quando eu percebi que não foram só aquelas lágrimas que secaram?
Eu ainda choro de desespero. Eu ainda choro de raiva. Eu ainda choro quando alguém incita minhas questões psicológicas básicas. Sim, essas lágrimas ainda existem.
Mas não choro mais de tristeza. Aquela boa e velha melancolia, devoradora de órgãos, que abre vazios imensos dentro da gente… Sabe? Essa dor. Essa dor eu não consigo mais sentir. As lágrimas que saem dessa dor, aliviando essa dor, costurando todos os órgãos abatidos, clareando as idéias, elevando meus afetos pra planos de consciência… Essas lágrimas… Não.
Eu sinto um nada. Um nada que eu carinhosamente nomeei como nada presta. O nome é bem auto-explicativo, sabe? Uma sensação de que apenas nada, nada presta. Nada é nada. Nenhum sentimento é algum sentimento.
E é horrível. Avassalador. São alguns períodos de extrema maluquice nos quais eu não consigo sentir nada e ao mesmo tempo eu me sinto absolutamente horrível. E o pior de tudo é que eu sei que se eu chorasse. Se eu chorasse… Estaria feito. Estaria terminado. Eu poderia terminar o ciclo de afetos e mastigar minha tristeza, ruminá-la e engoli-la e finalmente dar um fim a ela, ou dar a ela um lugar nos neurônios do meu hipocampo… Mas não, não consigo chorar e não consigo dar fim a essa merda de tristeza e ela fica lá, encapsulada, em algum lugar dentro do meu estômago e eu não consigo tocá-la o suficiente para entendê-la e elevar pra planos mais altos da minha consciência. Lá ela fica. Me corroendo aos poucos, sem que eu ao menos saiba o que é essa tristeza. O que é que faz com que eu me sinta tão vazia? O que é que faz com que eu me sinta tão morta?
As vezes, só as vezes, eu sinto como se você tivesse me matado. Que eu esteja me transformando um pouco nessa minha leitura sua de que você é um aleijado afetivo. Tipo uma maldição, sabe? Nos enroscamos e algum pedaço de você grudou na minha alma e… Ah, sei lá.
Você é o ponto de partida do problema, vê? Nada do resto importa. Não me importa absolutamente nem um pouco quaisquer dúvidas que tenham ficado. Qualquer rancor, nada. É claro que esse resto está ai, está aqui dentro de mim, mas coloquemos de lado, tá bem? Esquece isso tudo, essa história toda e… Foca no meu problema.
Essa carta já tem muito mais palavras do que eu gostaria de trocar com você pelo resto da minha vida então, vou ao que interessa:
Você chora? E se você chora, por favor, você pode me ensinar a chorar de novo? Se você não chora… Bem, daí talvez eu preciso que você me ensine uma outra forma de lidar com tudo isso que não envolva chorar.
Parece demais. É demais, na verdade. Toda essa carta, esse contato, essas palavras todas sendo que entre nós não deveria haver mais nada além de silêncio e ignorância mútua da existência alheia. É demais, eu sei. Mas, sabe, depois de tudo houve entre nós, tudo aquilo que há alguns parágrafos eu pedi para que você deixasse de lado? Veja.
Cá entre nós… Você me deve uma, você não acha?
Tell me how to cry again,
Atenciosamente,
Berenice.
