São Paulo, 9 de julho de 2019
Querido Carlos,
Hoje eu participei da ressuscitação de mais uma pessoa. A cada compressão eu implorava a qualquer entidade mágica de existência questionável pelo sucesso da ressuscitação.
(Tem pulso?
Sem pulso.
Continue as compressões)
O paciente voltou. Subiu pra cirurgia. Mas não era pra ser, não sei, e assim, por não ser pra ser, ele morreu.
Não sei se é a minha fragilidade emocional, se é a carga de estar nessa posição de alguma espécie de curandeiro ou reparador. Talvez a quebra do teu silêncio, talvez a saudade. Não sei o que é, mas desde a sua última carta sempre penso em você quando a morte nos visita na sala de cirurgia, na sala de emergência.
Sinto-me vazia. A morte vem de um jeito tão natural e tão caprichoso que mal consigo respirar após nossos encontros. E quando choro a morte desses desconhecidos, sinto sua falta. Sempre sinto sua falta.
A vida é tão estúpida. Você existiu pra mim, eu existi pra você, existimos. Te amei, te amo. Sinto sua falta terrivelmente. E a vida é assim tola porque um dia seremos nós na mesa gelada da sala de cirurgia. No chão da cozinha após um mal súbito. Seremos nós apodrecendo na terra de onde saímos.
Mortos.
Sua última memória de mim
Minha última memória de ti
Nosso desenlace apesar de não concebido, é final. E esse nosso atravessamento quando estivermos pálidos e abertos na mesa do IML não passará de mais uma história fora dos autos.
De preto, escondido em um canto, os cheiros das flores do cemitério, lágrimas silenciosas escorrendo pelas bochechas. Ou talvez nenhuma lágrima. Será essa a nossa última lembrança?
Me é quase inaceitável ter vivido uma vida em que existimos e não existimos mais. Uma vida na qual nos tocamos e não nos tocamos mais. Essa vida sadista que acaba com uma hemorragia interna numa sala cheia de médicos. Essa vida ordinária em que a última vez que fazemos algo nunca é a última vez pra nós porque não sabemos que será, enfim, a última vez.
Queria poder te contar, Carlos, de todas as vidas que vi acabar, ou de todas as pessoas mortas que vejo viverem apenas pelo nosso capricho de não deixá-las morrer.
Queria poder te abraçar e chorar meus mortos nos teus ombros mas queria não sentir sua falta. Bem sei, bem sabemos, não somos nada e não podemos ser.
Cansei demais, Carlos. Cansei de existir com a sua não existência, com a minha existência. Cansei dos médicos, da morte e dessa vida desafortunada.
Estou exausta, querido. Farta de tantas partidas e mortes. E temo, meu amor, nunca mais te ver, nunca mais te encontrar. Me aterroriza morrer sem me lembrar da última vez que nos vimos, sem me lembrar do teu toque caloroso, teu abraço abundante. Temo estar apodrecendo aos poucos, um pouquinho a mais a cada compressão na pele pálida manchada pelo livedo. O vazio se abrindo dentro de mim como um abismo.
Já estive mais triste, mas nunca estive tão cansada do que são essas nossas vidas.
Desculpe Carlos, mas hoje eu quero chorar os meus mortos nos teus ombros. Hoje eu não quero mais existir. Hoje eu cansei de viver. Esvazie-me.
Sinto sua falta.
Fatalmente, sinto sua falta.
Com pesar,
Berenice.
