São Paulo, 9 de maio de 2017
Tem um buraco no meio do meu peito e no meu esôfago tem um novelo. Fui deitar, já quase uma hora da manhã, a náusea me atormentando desde às oito.
O novelo tem raiz nos meus intestinos. Do esôfago ele sobe até a minha boca e sai toda vez que eu te vejo. Aí uma parte do novelo vai enrolando devagarinho em volta do meu pescoço, rastejando até o meu ombro, descendo pelos meus braços numa espiral infinita e falsamente inocente que eu vou vendo aumentar e não faço nada a respeito.
Quando você senta do meu lado ele já está na ponta do meu dedo, sorrateiramente se espalha pelo meu tronco, enrolando, enrolando.
De repente estamos rindo, conversando distraidamente. Sem querer meu cotovelo encosta no seu e lá eu deixo. Mas a essa altura o novelo já se enrolou pelo meu corpo todo e é tarde demais, estou completamente paralisada.
O buraco vai aumentando cada vez que eu tento me mexer e não consigo. Ele se alimenta da minha vontade de passar a mão no seu cabelo, mergulhar no seu abraço, vontade de deslizar meus dedos nos seus.
Dança comigo? Eu quero perguntar, mas a planta-bicho prendeu a minha língua e eu não pergunto. Resolvo ficar só olhando pra você mesmo, mas o buraco já tá tão grande que olhar pra você me sufoca.
Passam várias horas dessa minha dança mental, do quero mas não consigo, do quero mas não posso, do desejo perdendo pro medo, da incerteza sobre o que você tá pensando. Você se levanta e diz que precisa ir embora. Quero te pedir pra ficar mais um pouco, mas me engasgo e não peço. Penso que no dia seguinte tudo isso já não vai estar mais aqui, mas quando eu acordo está tudo apodrecido.
O podre vira náusea e ela vai subindo e descendo dentro de mim, uma flor de vísceras ocas derrubando pétala por pétala, numa brincadeira insuportável e idiota de bem-me-quer-mal-me-quer, espinhos de perguntas que me faço quando você vai embora.
– Tem alguma coisa aqui?
– Não tem nada aqui não, sua boba — a flor responde — Você não significa nada não. Aquele negócio que aconteceu não tem nada a ver com você, aquela sensação que você sentiu só você que sentiu, a escolha da música é mera coincidência. Você tá dançando sozinha a noite inteira, inebriada pela expectativa do nada ser alguma coisa, de você ser alguma coisa, mas você não é nada pra ele não.
O dia inteiro com o buraco no peito e o novelo no esôfago. Sabe, ele desenrola todo depois que você vai embora. É sugado de volta pra dentro da minha garganta e sentá lá, me sufocando.
Não sei mais se eu quero chorar ou vomitar esse vazio absurdo que essa relação imaginária e irrecíproca criou dentro de mim.
Deitei na cama uma da manhã. Às quatro acordei e vomitei você.
