último ato

São Paulo, 12 de novembro de 2017

enquanto a cortina de fumaça desce anunciando o fim do espetáculo
percebo perplexa ser o animal que volta toda primavera
então o silêncio me derruba
e como numa tragédia barroca
me debato no chão perdendo minhas penas escuras
porque voltar agora foi quebrar-se novamente
e quando o verão chegar será tarde demais

me asfixio no seu cheiro de sol
esperando o apocalipse
me rasga me fere me mata
o seu cheiro de sol
me quebra me destrói estilhaça
a sua ausência

os espectadores todos já se foram
ao passo que me mantenho aqui
presa na minha própria jaula de palavras
ditas, não ditas, metralhadas
nos meus anseios sufocantes
nas grades do teu silêncio
enroscada nos espinhos dos teus duros versos

implacável
você fecha a porta atrás de si
pois não há
não existe
nenhum cenário no qual você me entrega qualquer um dos meus desejos
e agora percebo

talvez eu não possa
não consiga
ficar aqui enquanto a procissão se aproxima
o himeneu dando o último golpe
por isso é necessário terminar de dilacerar o pássaro índigo
fixo na parede ou estilhaçado na sua direção
tanto faz

porque é inútil e pesado demais pra você
a minha paixão
e é pesado demais pra mim
a sua inclemência

agora está tarde
não há mais tempo e talvez nunca tenha havido
o relógio bate a hora da morte
mas não se aflija
no meu funeral
você é convidado de honra.

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