São Paulo, 4 de junho de 2018
o sol entra duro pela janela e a madeira do chão range sob as patas do meu gato
ele procura no assoalho um rastro,
teu rastro
talvez
eu digo a ele que nada restou
nada
(!)
(deixe disso, gato)
(!)
nem ao menos seu cheiro nessa casa eu sinto mais
(graças a deus)
nem ao menos escrever consigo mais
(a menos que…)
só se soltam dos meus dedos despedidas, partidas, espinhos e serpentes mortas
e agora a casa está novamente de pé, novos retratos nas paredes, alguns pimentões vermelhos na geladeira e de vez em quando abraços durante uma partida de futebol
minha língua trava e enrola e para isso não tenho poemas nem contos ou cartas
me livrei do seu cigarro velho já tem uma semana e o hábito não parece me fazer falta mas ainda assim me custa acreditar que a inspiração persista
você
que desgraça
não poderia pedir por uma personagem pior
mas ai está
o sol duro entrando pela janela
o maço cheio
o gato arranhando o sofá
e palavras carregadas do que restou dos nós:
deus queira que sua queda seja como você merece
