Lucky Strike Vermelho

São Paulo, 13 de julho de 2017

      Caminhávamos em silêncio. Você jogou o fim do seu cigarro ainda acesso no chão, a fumaça criando espirais no ar, subindo, subindo até o interior do meu cérebro, incitando meu ódio por você. Hoje quando nos cumprimentamos senti pela primeira vez o cheiro do cigarro nas suas roupas. Engraçado como minha tristeza se torna raiva e minha raiva se torna tristeza muito rapidamente. É fácil te odiar (ou devia ser). Sua cara de idiota, sua barba por fazer, seu Lucky Strike vermelho para completar o clichê que você é, que eu sou, que fomos.

      Passamos em frente a um desses caras malucos, desses que vagam eternamente pelas ruas quebrando silêncios desagradáveis entre não-amantes. “Muitos passam, mas poucos sobreviverão”, ouvi ele gritar. Quão pertinente.
      Dei uma risada engasgada, rouca e antes que eu pudesse evitar, senti as lágrimas descendo pelo meu rosto. Tentei limpá-las sem que você percebesse, num gesto automático desenvolvido especialmente para você, porque eu sei o quanto te incomoda me ver chorar.
      Você acendeu o seu segundo cigarro seguido, o cheiro enjoativo me atingindo como um soco, e na tristeza súbita, não me contive:

– Você me quebrou.

      Esperei sua resposta, mas ela não veio.

– Ou eu me quebrei, ou os dois…

      Senti sua mão no meu ombro, me interrompendo, num gesto delicado e desconectado das palavras que viriam a seguir.

– Isso não é coisa que se diga.

– Eu sei que não.

      Pensei nas mentiras que contamos para nós mesmos, repetidas vezes, como um mantra, todos os dias, até se tornarem reais. Pensei nos meus rascunhos de memórias repletos das groselhas que você me contou, das palavras doces que ouvi de você. Pensei em como bloqueio essas lembranças, porque sei que elas já não têm nenhum propósito a não ser incomodar. Preciso esquecê-las, enterrá-las, para que eu possa seguir em frente com os planos que tinha antes disso tudo.

– Eu sei que não, — repeti, incapaz de parar o mar de lágrimas e palavras desprendendo de mim — peço desculpas.

– Imagina como é difícil ouvir que você é a causa do sofrimento de alguém.

– É, imagina… Talvez seja o caso de ocultar o sujeito da ação, então?

– Não, não é isso. Só não diga nada, não fale a respeito dos seus sentimentos. Não há nada que eu possa fazer, então cale-se. Chega disso, acaba com isso, pelo amor de Deus, porque eu não suporto mais essas despedidas e re-despedidas.

– Tudo bem, eu vou. Somos adultos aqui, sabemos que esse jogo de culpa não leva a lugar nenhum. Sabemos que não vamos a lugar nenhum. Mas peço desculpas, porque olhando na minha cara você sabe, eles sabem, todo mundo sabe. Infelizmente algumas pessoas são… transparentes.

      Você não me respondeu. Não me olhou nos olhos. Olhava para baixo, para o chão, ou para algum lugar perdido dentro de você mesmo, inalcançável por mim. Limpei minhas lágrimas, inutilmente, porque várias outras insistiam em vir. Então, continuei:

– O silêncio é a melhor forma de lidar com isso, eu sei, eu sei. Sorrir em silêncio, um sorriso convincente. Dentes brancos que gritam “estou bem, estamos bem, está tudo bem”. É o único jeito de coexistirmos civilizadamente. Fingir que nada aconteceu, fingir que foi tudo um sonho. Eu consigo, sei que consigo… Só que hoje eu não consegui. Foi demais. Alguma coisa foi demais.E então, você estourou. Finalmente, pensei comigo mesma.

– Para com essa palhaçada. Para com esse choro ridículo. O que inferno você quer que eu faça? Eu não posso fazer nada. Não sei o que você quer de mim. Que porra que você quer de mim?

      Olhei nos seus olhos, na altura dos meus, nossos poucos centímetros de diferença de altura parecendo um abismo de distância. De novo eu nessa posição, de estar sofrendo por você, de não conseguir seguir em frente. Eu achei que tivesse superado, que tinha ido embora, mas volta toda vez, como ondas de um mar cruel e insaciável. Quando a maré recua, sou sugada para dentro, penso por um segundo que conseguirei nadar, sobreviver, mas logo a onda retorna, violenta, me cuspindo para fora, me fazendo engolir a água salgada, me afogando no monte de decisões imbecis que tomei depois de você, me afogando na lembrança dos pedaços do meu corpo indo embora do meu porto seguro e indo em direção ao mar. Quando vi, já tinha ido inteira e não havia para onde voltar. Não que eu quisesse voltar, pudesse voltar, mas mesmo assim. O sal arde nas minhas narinas, me lembrando o quanto essa saudade do porto seguro é estúpida. Talvez tenha sido isso. Esses dias essa saudade bateu e meu cérebro confunde os sentimentos, me jogando de volta para você.

– Eu tô testando sua paciência, eu sei. Não é proposital. Toda noite eu tento assassinar essa parte insuportável de mim, que não deixa estar, essa parte que continua. Tento sufocar com o travesseiro, envenenar com cianureto, jogar do terceiro andar do prédio… Mas ela volta, ela sempre volta, quando eu menos espero, quando eu acho que já morreu. Vai passar, vai passar, eles dizem. E vai mesmo, eu sei que vai. Em algum momento eu vou poder olhar para você e não sentir mais nada.

– E enquanto isso, o que? Você quer que eu me sinta um lixo? Que eu chore como você, sinta como você? Eu não posso fazer isso. Se eu te disser que me sinto como você eu vou estar mentindo e você sabe muito bem disso.

      Seu rosto era inexpressivo durante todo vômito de palavras que se seguia. O olhar vazio, que eu não sei decifrar. Talvez não saiba decifrar porque não há nada ali. Todas as vezes que houve, eu entendi. Então é sábio supor que quando não te entendo é porque não há nada para entender. Não há nenhum sentimento. Olhos negros e buracos vazios.

– Às vezes eu quero sim que você sofra. Queria ser capaz de te fazer sofrer. Queria ser capaz de fazer você sentir saudades… Sentir alguma coisa, qualquer coisa. Mas é ilusão, eu não sou capaz, ninguém é. Essa é uma egomania que eu não sei de onde vem. Ou queria ser capaz de voltar no tempo, de reviver o que já foi. Mas, de novo, isso não é possível. Então quero não sentir mais, não me importar mais. Quero que você volte a ser o estranho que você era, mas sem o peso das memórias de quando você não foi. Eu engulo um inibidor seletivo de hipocampo todos os dias pela manhã. E você, o que você engole de manhã?
      Nossa caminhada chega ao fim. Estamos na frente do ponto de ônibus e você ainda tem que seguir andando mais alguns minutos. Você põe sua mão cálida no meu rosto e eu coloco a minha mão fria no seu. Cômico como nossas mãos são a perfeita antítese do seu coração gelado e do meu peito quente.

– Me desculpe — você sussurra, num tom de voz doce. Agora vejo dentro do buraco negro que você chama de olhos algo como pena, dó, talvez culpa, mas nenhum desses sentimentos me satisfaz.

      Eu balanço minha cabeça.

– Estou indo embora agora. Você já foi, só me resta eu, então estou indo. 
      Nos despedimos sem nos abraçar. ­

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