São Paulo, 31 de julho de 2017
boa noite senhores passageiros bem vindo a bordo do vôo umsetequatro com destino a próxima fase do luto estamos a duzentosevintecincomil pés e nessa deliciosa noite de inverno ouvimos
portas fechadas
minha risada ecoando pelas paredes da sala, do quarto
o medo se dissolvendo no silêncio doce do canto direito do corredor
uma aeromoça bem apessoada se dirige ao passageiro do assento vinteesete coloca o dedo na cara dele grita um sussurro silencioso
achei que seria penoso me deitar sob as rochas nas quais você fodeu
minha cabeça
meu corpo
minha alma
minha vida
mas para qualquer um que perguntasse
era como se você não existisse
e dentro de mim
era como se você não existisse
entretanto existiu
não existe mais
desfecho feito
aceito
ruminado
vomitado
re-engolido
finalmente aceito
de novo
a comissária de bordo já terminou de confrontar o tal passageiro vinteesete você me pergunta te respondo não sei do que você está falando que comissária que passageiro eu que te pergunto
que me resta?
me resta a continuidade do meu plano
assim como te resta a continuidade do teu
maré breve na tua vida
maré brava na minha vida
uma metáfora carinhosamente roubada de outro texto que não se encaixa o suficiente
gosto da ideia da metáfora esdrúxula do avião do mar do vômito porque assim fica bem catatônico existencial verborrágico clichê
é meu jeitinho
esse drama por vezes real e insuportavelmente doloroso
por vezes cínico e ficcional com o único objetivo de
criar qualquer coisa
poema
dor
conto
vingança
romance
thriller
assunto
alivio
ferida
chaga
chega
boa noite.
