São Paulo, 25 de agosto de 2017
Faziam três meses que não a via.
A última vez tinha sido naquela galeria do centro que ela detesta. Observamos aqueles quadros sonsos por horas, concluímos que esse tipo de arte não era capaz de nos tocar, dividimos um cigarro e partimos cada um para um lado da cidade. Não soube precisar quando a veria novamente e nem sei dizer se queria vê-la de verdade. Mas como nada é simples nessa história, te digo que ela mora com meu melhor amigo, na rua do gasômetro, e toda vez que eu o visitava tinha de me preparar para a possibilidade de encontrar com ela.
A ideia de cruzar meus olhos com os dela, de observar as curvas dos músculos do pescoço subindo até seu queixo, de ouvir aquela voz arrastada e rouca…
Me doía o coração, sabe? Ah, como doía.
As semanas foram passando e nossos possíveis encontros se tornaram desencontros. Não a vi mais, em nenhuma de minhas visitas ao meu amigo, em nenhum mercado, farmácia, ponto de ônibus ou qualquer coisa parecida. Era como se ela nunca tivesse existido, como se nunca tivessemos nos conhecido. Eu não fazia perguntas sobre ela, não procurava sinais dela em lugar nenhum. Dentro de mim eu sabia que o melhor era de fato me convencer da inexistência absoluta e irrefutável daquela mulher. Então eu não perguntava, não pensava, não lembrava.
Ela também não me procurou. Imagino que tenha sido um alívio não precisar conversar mais comigo, responder minhas mensagens de bom dia e boa noite , a única comunicação mantida entre nós depois do dia da galeria. Isso se considerarmos esse envio unilateral como uma conversa. Na verdade, está mais para um monólogo educado de cumprimentos.
Um dia desses acordei transtornado de um sonho e resolvi confrontá-la. Disse a ela que não suportava isso, as ausências, os joguinhos, fingir que não me importava, fingir que não gostaria da presença dela em minha casa todos os finais de semana, fingir que não queria construir uma vidinha com ela, enfim. E disse que se antes não sabia o que queria agora eu sabia o que precisava e a questão era: ela me fazia mal. Me corroía por dentro, me envenenava lentamente, me sufocava, sugava, consumia… Então de nada me servia querer estar com ela se ela não me queria e, ainda ou pior, de nada me servia esse desejo se ele me matava aos poucos.
Ela nunca me respondeu.
É difícil, né? As despedidas. Nos despedimos tantas vezes, eu e ela. Em cartas, telefonemas, mensagens, encontros. Nos despedimos inúmeras vezes. Ou, melhor dizendo, eu me despedi inúmeras vezes. Deitado em minha cama, ou na cama de alguém, seja sozinho, seja acompanhado, fechava meus olhos e conseguia imaginar perfeitamente seus cabelos negros muito bem cortados empoleirados em sua cabeça.
Me despedi quando percebi que nunca seríamos nada. Me despedi quando meu amor se tornou ódio. Me despedi quando o ódio virou saudade. Me despedi quando cansei de sentir saudades sozinho. Me despedi quando percebi que precisava deixá-la partir de dentro de mim, porque da minha vida ela já havia partido faz tempo.
É duro quando você é o último que resta. É duro partir. É duro desistir. É tudo muito difícil, penoso, pesado. Sem sentido, confuso. É irritante até, se perceber se despedindo novamente.
Percebo, entretanto, mais uma vez.
Seus olhos nunca estarão nos meus.
Sua pele nunca mais encostará na minha.
Sua mão gelada nunca mais vai se esquentar em mim.
Gostaria de dizer até logo, mas não seria apropriado.
Então, adeus.
