São Paulo, 24 de outubro de 2017
Querido Carlos,
Te envio essa carta por conta de um probleminha doméstico com o qual venho tendo que lidar ultimamente e acredito ser do seu interesse.
Você se lembra daquele dia? Estávamos juntos no seu bar favorito e encontramos um filhote de gato abandonado. Bêbados, descuidados, resolvemos adotá-lo juntos: ele fica uma semana na casa de cada um, você disse, uma guarda compartilhada. Eu fiquei a primeira semana com o gato e, bem…
Acontece o seguinte: já fazem semanas que não nos vemos e o gato aqui. Aliás, quando de fato nos encontramos, nunca falamos sobre ele. Confesso ter vontade de discutir essa questão quando te vejo, as vezes até entro em um certo desespero de madrugada, ou quando fico bêbada demais e é preciso muita força de vontade pra não te ligar e dizer mas e o gato, Carlos? E o gato? Que diabo faço com o gato? No fim das contas não inicio a conversa sobre ele porque todas as vezes nas quais tentei introduzir o assunto acabei sufocada pelo seu silêncio. E tudo bem, tudo bem, sei do seu apreço pelo silêncio e o respeito, então nada de conversas sobre o gato.
Por isso a carta. Cartas são boas porque você pode lê-las, abandoná-las no criado mudo, pensar em uma resposta e até não respondê-las, porque sabe como é, nem se mandam mais cartas nos dias de hoje, quem sabe não foi extraviada?
De qualquer modo, passo pouco tempo em casa, não é sempre que lembro do gato, mas seria absurdo dizer ah, não, nunca penso no gato, que gato?Afinal de contas, eu cuido dele. Enquanto sozinha, as vezes embriagada, as vezes quando durmo na cama de outra pessoa, de fato penso no gato. Aliás, como não pensar no gato se ele está sempre ali, parado, me olhando, andando pela casa? Chego do trabalho, cansada, deito na cama sem nem escovar os dentes e puf, o gato pula em cima de mim ronronando, me tirando o sono completamente.
E, bom, você sabe como são os gatos, especialmente este. Calado, esquivo, aqueles olhinhos amendoados e hipnotizantes só me esperando fazer algo, esperando eu me deslocar para acaricia-lo, só para depois fugir graciosamente do toque das minhas mãos. E eu aqui, esperando por ele também, esperando pelo toque suave das patinhas em cima das minhas costas quando ele decide subitamente dormir comigo numa noite fresca de primavera.
Não consigo me decidir, de maneira alguma, (apesar de talvez já estar decidida em cuidar dele desde o primeiro momento no qual o avistei) se devo continuar a alimentá-lo ou se devo mandá-lo as favas de uma vez por todas.
Quando compartilho esse meu dilema com algumas pessoas, ouço as dizer que se você realmente fosse afeiçoado ao gato, se você realmente visse uma vantagem em manter o gato vivo, saudável e feliz, você buscaria o gato de vez em quando. Talvez não semana sim, semana não, como no nosso combinado ébrio e imprudente, mas só de vez em quando. Mas você não vem, então provavelmente é porque não quer de forma alguma vir. É isso que dizem e eu custo em acreditar porque realmente me afeiçoei ao gato. E eu digo ah, mas vejam, ele cria passarinhos em casa e talvez não seja sensato mesmo levar o gato para lá. São lindos os seus pássaros, você cuida muito bem deles e imagine a tragédia se o gato acabasse transformando algum em jantar. Você nunca se perdoaria, não é?
Então prefiro acreditar que sua hesitação intermitente com o gato não seja pelo fato de não querer mais o gato de forma alguma, não seja pelo desespero em se livrar o mais rápido possível dele, seja apenas porque… Bom, claro, eu entendo, talvez já seja mais do que tarde para livrar-se dele, enfim.
Mas sabe como é, que desperdício! Livrar-se dele agora é como… desistir, talvez? E você sabe dessa minha dificuldade egóica de desistir, eu sempre acredito na alcançabilidade das coisas, por mais ingratas as tentativas, por mais sem esperanças, é difícil demais, penoso demais, apenas abandonar uma tarefa, um objetivo, um… um gato!
Não é sempre que se encontra um gato como esses, você sabe. Um gato não simplesmente encontrado, mas que encontramos. Ainda mais eu! Sempre estranhei gatos, nunca me achei capaz de gostar desse tipo de bicho.
Entretanto, talvez seja tempo, talvez seja tarde, talvez seja imprescindível que eu abandone o gato mesmo não querendo em absoluto.
Já me alonguei demais, peço desculpas pela carta, pelo incômodo e, enfim, pelo gato. Termino quase com uma súplica: por favor, não me obrigue a me livrar dele. Entendo a racionalidade em fazer isso, mas acredito na possibilidade de abrir mão da racionalidade eventualmente porque nunca se sabe, não é? Gatos são comportados, não dão tanto trabalho. Comida, água e pequenos agrados são o suficiente para deixá-los vivos e felizes por longos anos, sem de fato incomodar ninguém. Posso cuidar dele enquanto isso, enquanto você não achar prudente exercitar a guarda compartilhada e, se não for demais, passe de vez em quando aqui em casa para acariciá-lo, ele não vai te ferir e, sabe, ele sente sua falta.
Com amor,
Berenice.
PS: Planejei abandoná-lo naquela encruzilhada perto da casa da sua tia, no feriado de finados, na esperança de que alguém o encontre e cuide bem dele. Caso você ache desnecessário essa minha atitude desesperada, por favor entre em contato.
