Niterói, 6 de julho de 2017
Terminei meu cigarro pensando em você. Pensando em como eu fumo e você não. Pensando na fumaça impregnada no meu corpo. Estranho como gruda em mim e não em você. Tomo três banhos seguidos, um de banheira e duas duchas. Meu cabelo ainda fede aquela fumaça indistinta que eu odeio tanto. Odeio, mas fumo. Não sei porque eu comecei isso tudo. O cigarro. Escrever sem personagens. O personagem é sempre você, mas nunca é você, porque eu não faço ideia de quem você seja. Repetições de palavras, de pronomes, de temas, voltando a esse escrever estúpido sem sentido, sem narrativa, como um desabafo aleatório criado a partir da minha náusea física e mental. O cigarro é pra terminar de destruir, quebrar o que foi por tantos anos, porque quando eu botei o meu primeiro cigarro na boca naquela bar esquisito em santa cecília eu juro que eu não sei quem eu sou. Ah, meu deus, que náusea, que náusea. Eu sei que não vou vomitar, que vai passar, sumir. Descer. A minha náusea sempre desce pro fundo do meu corpo. Quando ela vem, eu sempre temo vomitar tudo que eu já consumi na vida. Eu lembro de um história maluca de conto de fadas, um feitiço que fazia alguém malvado ao falar soltar sapos, serpentes e insetos enquanto alguém bonzinho quando falava soltava… borboletas? Poxa, borboletas são insetos também. Eu acho que as minhas histórias orbitam a sua volta porque você é a única pessoa que me viu parando de ser quem eu era e me tornando quem eu sou. Fui cem por cento sincera com você. Me despi pra você como nunca mais havia me despido pra ninguém. Ou talvez, não nunca mais, só nunca mesmo. Constantemente volto pra você, tentando entender quem eu sou agora. Mas a gente já se despediu, não vamos nos falar mais. Combinado tipicamente da eu do passado. Essa coisa de combinar, sabe? Eu e minhas regras. O estranho é que você que criou essa regra. Naquela tarde quente, quando você me ligou as dez e disse acho que devíamos não nos falar por uns dois meses… depois voltamos a nos falar de novo. Eu nem concordei nem discordei, nem sei mais o que eu disse também, mas já não queria falar com você, não queria já fazia semanas e falar depois de decidir que não queria mais foi desrealizante. Mas essa regra não fui eu que criei. Talvez eu não crie mais regras. Eu não sei mais quem eu sou e sinto que nunca soube quem você é. Nunca vou saber, porque não vamos nos falar mais. No fim você é só uma projeção minha e no fim é por isso que o tema sempre orbita a sua volta: Eu tô fingindo que isso é sobre você, sobre nós, mas no fundo é tudo sobre mim. Esse texto é uma cilada. Tudo isso foi, do começo ao fim. Primeiro você pensou que era sobre você, assim como eu pensei que era sobre mim, mas depois tudo fica nebuloso, tudo confuso, você não se encontra… Lê, re-lê e, indiscutivelmente não se encontra. É estranho ler uma carta achando que ela foi endereçada a você, quando na verdade nunca foi. Estranho perceber que enquanto conversávamos não conversávamos de fato. Será que estivemos na mesma conversa em algum momento? É uma cilada, tô te dizendo. Esse meu jeito displicente de escrever, como se conversasse com alguém. Não é sobre mim, não é sobre você, não é sobre nada. É ficção. Eu não fumo, você não fuma. Ou nós dois fumamos, mas o que importa? Eu não existo. Nem você. Acendo outro cigarro e me pergunto: “porra, quando vocês vão parar de achar que tudo que eu escrevo é auto-biográfico?”
