São Paulo, 15 de abril de 2018
Na semana seguinte, ela não apareceu. Já passado o meio dia, como de costume, acordou na própria cama de solteiro, cercada de seus próprios pertences e com o gato gordo ronronando tranquilamente na cadeira da escrivaninha.
Demorou alguns minutos para levantar, permanecendo deitada admirando o teto manchado. No fim, não era tão diferente dos outros sábados, porque ela sempre acordava sozinha, mesmo que na cama dele. Não sabia dizer se a diferença era a ausência da camiseta masculina cobrindo seus seios, da certeza de encontrá-lo na cozinha, das palavras ácidas trocadas entre eles ou do café passado especialmente para ela.
Decide sair do quarto. Corta seus legumes, da maneira que gosta, lentamente, enquanto sua música preferida toca – não a dele – e a cerveja gelada repousa ao lado do fogão. E as semanas passam, três sábados, quatro sábados, todos iguais, com o gato e o silêncio, sem armadilhas e cigarros, os jornais da semana se acumulando no aparador da sala, sem ninguém para lê-los.
É no quinto sábado, durante a preparação do almoço, que percebe o fim do café. Na esperança de encontrar um saco novo esquecido no fundo do armário, descobre um restinho de chá preto.
As lágrimas vem, enquanto corta as cebolas, se confundindo inicialmente com a irritação do tempero e sendo substituídos por soluços longos e doloridos. Desliga o fogo, tampa as panelas e senta-se no balcão da cozinha. Espera pacientemente que as lágrimas sequem e que o chá esfrie.
Pega o telefone. Com os dedos quentes, disca o número dele.
