São Paulo, 4 de novembro de 2017
E no seu quarto vermelho, te observando dormir, eu percebo o quanto estranha é essa sensação de dormir na casa de semi-desconhecidos.
Seus olhos não fecham completamente enquanto você dorme e parada assim, sob a luz vermelha da sua lanterna alemã, é quase como se você estivesse morta. Mas eu sinto seu coração batendo na minha não apoiada no seu tórax, sinto seu peito subir e descer, ouço seu ronco e a ideia mórbida logo desaparece.
Amanhã meu despertador vai tocar as sete horas e eu estarei saindo pela porta rápido demais. Riremos dos gatos que ficaram pulando na cama enquanto transávamos, você me dá adeus e promete não sumir entre beijos desajustados pelo fato de eu ter escovado os dentes e você não.
Não nos conhecemos de verdade e é praticamente impossível escrever um conto sobre alguém cujo sobrenome eu esqueci. Acho curioso que seu nome seja o mesmo da minha amiga que mora a duas quadras da sua casa. Acho curioso você morar em uma encruzilhada na Santa Cecília.
Finalmente me levanto da cama, te acordo sem querer e digo que vou fumar um cigarro. Você continua na cama, sonolenta. Eu não consigo dormir.
Parada na frente da sua janela, percebo que aqui não há barulho de pássaros de madrugada. Você me diz ah, o centro tem poucas árvores para os pássaros. E apesar da árvore gigantesca na frente do seu prédio, aqui os pássaros não cantam.
