Eu te escrevo e você não me lê — um flashback

São Paulo, 8 de setembro de 2018

      não é época de frio, mas deve-se começar como no último outono: você pensa em mim como penso em você?

      me disseram que esse som é do bem-te-vi, esse pássaro desgraçado atraído pelo mofo do seu armário que corrói as entranhas de todo mundo nessa casa. com você meu gozo dói e as mentiras derretem o papel conforme você recita seus versos como um sussurro no fundo da minha cabeça. os meus gemidos, o silêncio da sua culpa sufocado pela violência das minhas coxas, meus gritos de angústia madrugada adentro, os gemidos da tua mulher deitada na vossa cama, seus braços entrelaçados nos dela enquanto meu peito se enche de pedaços podres seus perfurando minhas entranhas nas noites que sufocam a esperança de você ter sido engolido pelo tempo. a impossibilidade do toque causador da sua morte trazem a notícia: você não pensa em mim como penso em você porque a garganta cheia de ódio como uma navalha pronta pra abrir seu peito e devorar seu coração é só dentro do meu ventre.

      a garota dentro de mim queria suas mãos suavemente repousando nos meus seios e a fêmea faminta ainda quer sua carne e

dilacerar,

despedaçar,

incendiar.

assim como está, não morreremos juntos, já que juntos nunca estivemos.

morrerá sozinho como uma raposa faminta quando já não sobrarem mais galinhas

frágeis

estúpidas

todas estarão mortas ou avisadas

e para sua redenção o punhal deverá ser da tua senhora.

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