Esquema de pirâmide

São Paulo, 14 de agosto de 2017

      Cheguei em casa morrendo de vontade de acender um cigarro, pensando no gudang guardado na minha caixa de madeira. Mas é claro que não ia poder fumar, nunca posso, não em casa pelo menos.

      Então me sentei na frente do computador e resolvi escrever um conto, uma releitura de algo que li há tempos. Achei que iria me fazer bem, como um treinamento: escrever do ponto de vista de alguém que não conheço, um ser mitológico criado pelas minhas loucuras, inseguranças, expectativas. Colocar essa criatura no papel, dar alguma forma a ela, fingir ter acesso aos seus sentimentos e pensamentos. Isso já me deu algum tipo de paz cínica no passado e achei que esse seria o melhor jeito de terminar a semana.

      Aliás, que semana.

      Não sei se rio, se choro… Na verdade já ri, já chorei, já fumei alguns cigarros, já tentei transformar em conto, poema, mas nada foi pra frente. A verdade é que comecei a semana pensando em um alguém reminiscente e termino a semana do mesmo jeito.

      O curioso é: depois de ter escrito a tal releitura não me senti melhor não. Me senti incompleta, anestesiada, artificial. O meu conto ficou sem fim, assim como o original, porque não sei como terminá-lo. Então aceitei passivamente o não-final horroroso, salvei nos meus rascunhos (sinto que preciso de algum tipo de autorização para dar algum fim a ele e infelizmente — ou felizmente — o autor original encontra-se, de uma forma ou de outra, indisponível para mim) e fui pegar o gudang dentro da caixa.

      O cheiro de cravo me atingiu instantaneamente e a vontade de fumar se transformou em uma náusea muito intensa. Logo desisto do plano de fumar antes da aula na segunda feira, aliás, desisti de fumar qualquer coisa, porque o cheiro de repente é tão horrível que não entendo esse hábito, não entendo essa loucura, não vejo sentido em absolutamente nada disso. Nada faz sentido, puta que pariu, como é possível nada mais fazer sentido nenhum? Mas é isso, né. Esse conto, essa releitura, você, ele, nós, ela, o cigarro, a semana, o esquema de pirâmide evangélico, o vênus em escorpião… Tudo isso me deixa muito nauseada.

      Me enjoa o medo de parar de escrever quando tudo isso acabar, quando a indiferença finalmente se mudar para o quarto de cima. Paradoxalmente me enjoa a demora pra chegada da indiferença. Me enjoa pensar que o momento mais em paz da semana foi com uma pessoa absurda, e, acima de tudo, alguém que eu já descartei. Me enjoa ver o relógio do celular piscando uma hora da manhã e saber que a segunda feira vai ser insuportável porque eu prometi pra mim mesma que dormiria cedo e cá estou, insone. Me enjoa o meu excesso de orações subordinadas. Tudo isso me enjoa.

      A náusea é a única coisa que me resta. É a sensação que acompanha toda essa história, todo o contexto, todos os efeitos colaterais, toda dose de resgate.
Me desculpe, porque outra vez escrevo um texto sem fim, outra história sem história, sem personagem, sem nada. Outra baboseira ficcional, ou não ficcional, auto biográfica ou não auto biográfica, o que importa?

      No fundo só depende de quem lê.

      No fundo a intenção por trás da narrativa não interessa.

      Pego meu celular e mando uma mensagem: amanhã te conto se fumei o gudang ou não.

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