Epitáfio

São Paulo, 28 de agosto de 2017

      Essa noite sonhei contigo. Chovia muito e o vento batia nas janelas fazendo aquele barulho fantasmagórico que costumava me assustar quando eu era criança. Não sei bem onde estávamos, nem como fomos parar naquele lugar. Não era meu quarto, nem o seu, nem de ninguém conhecido. Sabe, talvez tenha sido mais pesadelo que sonho.

      Não sei porque estávamos juntos. Transtornada, confusa, eu te questionava por que você tá fazendo isso? mas você não respondia, você nunca reponde. Levava a mão em direção ao meu rosto, pegava meu queixo e me beijava. Me beijava de novo e de novo e de novo até o momento no qual você decidia partir. Eu te perguntava, que horas você volta? Às vinte, você dizia.
Acordo com vontade de te ver. Uma vontade moribunda, caquética, neoplásica, porque isso tudo não passa de uma doença infecciosa, dessas desagradáveis que nos deixam inertes, consumidos, incapazes. Ah, eu sinto muito a sua falta. Te guardo em uma caixa de chumbo, sabe? Enterrei o mais profundo possível, tentando desesperadamente fugir da sua radiotividade, mas de noite quando fecho os olhos ainda consigo ver o brilho do césio-137 no chão, debaixo das tábuas de madeira, debaixo dos infinitos palmos de terra. E sinto a sua falta. Ainda consigo sentir o gosto do seu veneno na minha boca, o cheiro da morte no ar, a morte que vem mas não vem de verdade, nunca vem. Eu continuo viva, andando por ai, em um labirinto de amantes aleatórios que uso displicente na tentativa de saciar meu desejos fúteis.

      Posso dormir mais algumas horas. Amanhã é domingo, ninguém acordou ainda nessa casa, justo hoje que não consigo dormir mais, aterrorizada pela ideia de fechar meus olhos e encontrar seu rosto adorável cheio de sardas.

      Adormeço novamente e dessa vez é um daqueles sonhos em que preciso fazer algo e não consigo. Já te contei sobre um desses, lembra? Eu precisava andar rápido e não conseguia e não tínhamos tempo, não podiam com o meu passo lento, arrastado. Precisavam que eu fosse mais rápido. Você me disse que esse sonho tinha a ver com eu ter medo de não ter tempo, de eu querer que as coisas fossem rápidas. E ainda há tempo,você disse.

      Mas agora o tempo acabou, você percebe? Acabou. Não há mais nenhum segundo, nenhum minuto. O fim já veio e já foi, o último suspiro já veio e já foi. Estamos todos mortos no chão, cercados de cobras, feridas e sangue. Ninguém sobreviveu nessa catástrofe. Mas sinto a sua falta. A chuva ainda cai, a mesma tempestade do primeiro sonho e eu me rastejo pra longe de você, quero me manter o mais distante possível. Só que esse é um dos sonhos nos quais eu não consigo, como já disse. Então quanto mais eu me aperto contra o chão e finco mais minhas unhas no assoalho, na tentativa desesperada de criar impulso para me lançar longe disso tudo, menos força eu tenho. E sinto a sua falta.

      Deito na cama de alguém, em cima do peito de um missionário, de um psicótico, ouço ele falar por horas sobre algo que não me interessa e penso que finalmente acabou, finalmente foi embora. Finalmente.

      Mas não é verdade. Não acabou. Esse é o castigo. Essa é a morte que vem e em verdade não vem, que nunca vem. Esse é o preço. Continuar aqui sozinha, persistir contra minha própria vontade nesse caos particular. Me sentir absolutamente viva enquanto completamente morta.

Abro os olhos mais uma vez e suspiro.
Ah, eu sinto muito.
Eu sinto muito.

Deixe um comentário