São Paulo, 14 de setembro de 2017
Os pássaros na sua janela começam a cantar as duas e meia e em breve nos despediremos novamente.
Infinitas despedidas e re-despedidas.
Já fazem horas que estamos assim, você dormindo ao meu lado e eu acordada ao seu. Eu e os pássaros. Reconheço o passar das horas pelo alternar da luz, pela queda da temperatura, pela chegada deles sempre depois das duas.
Sabemos, contudo: nada bom acontece depois das duas.
Estão insones, desesperados. Percebem as horas escorrendo e se empoleiram nas árvores na esperança de parar o tempo, congelar aquela cena, tornar a madrugada infindável, fugir da saudade.
Eu sei que quando você for embora o tempo vai parar. As horas vão se arrastar, tropeçar umas nas outras e quando me der conta já teremos nos despedido há meses. Mas não me importo. Vou observar você caminhando pela rua, cada vez mais distante e me lembrar de todas as vezes nas quais assisti a esse nosso filme.
Não. Me perdoe. Meu filme.
Você vai me perguntar algo importante e eu vou te dizer que não sei e eventualmente não nos perguntaremos mais nada.
Nunca quero te ver partir. Poderia dizer que preciso que você fique, mas isso não é verdade. Por algum tempo eu sentia como se perdesse algo toda vez que você descia a rua em direção ao ponto de ônibus, mas isso não é verdade. Não há nada a ser perdido por aqui e quando finalmente você vai, já não faz sentido não querer sua ausência.
Cinematográfico.
Te ouço dizer coisas que parecem roteirizadas, programadas, ensaiadas. Nossos movimentos parecem sincronizados como se você fosse meu parceiro de dança há anos, mas mal nos conhecemos e eu nunca sei o que eu estou fazendo. Você age como se soubesse, e eu acredito. Mas tudo são mentiras: as que você conta para mim ou pra você mesmo, as que eu conto para você ou para mim mesma. Sei que há algumas verdades intrusas no meio da nossa encenação, mas não me incomodo.
E o espetáculo continua, ele é irresistível, os críticos estão em êxtase, mas é uma farsa e já não sei se quero assistir a próxima apresentação. Mas quero, eu sempre quero, quero tudo ou qualquer coisa, qualquer coisa ou nada. Indiferença e desejo paroxísticos. A resposta acaba sendo sim, vai sempre ser sim até não ser mais, me enroscando em algo que não pode ser, algo que não quero de verdade, me enrolando nesses abraços infinitamente longos ou absurdamente curtos.
Então nos despedimos novamente e dessa vez estamos sorrindo. A maré está baixa, já não importa mais se é breve ou brava. Não sei para onde você vai e você não faz ideia do meu itinerário, mas tudo bem.
Me perdoe, mas não sei como termina essa história.
Você se importa?
