Apartamento 71

São Paulo, 8 de junho de 2017

      Ficamos o caminho inteiro dentro do carro em completo silêncio. Esses silêncios incômodos, carregados de palavras não ditas, pensamentos que se acumulam mas que não se formam completamente e então não dizemos nada.

“Você gostou do jantar?”

      Ele responde que sim, que é sempre bom encontrar Roberto e Joana. Eu sorrio. É verdade, é sempre agradável jantar com eles. Sempre animados, aquele casal que faz mil planos, já tem viagem marcada pra daqui há meses… Talvez se casem ano que vem.

      Ele sorri de volta, um pouco melancólico. O elevador finalmente chega no nosso andar.

      Logo que entro já caminho até a geladeira para pegar o resto do vinho que deixamos aberto na quinta feira. Virou um hábito esquisito. Toda vez que a gente sai e volta nesse silêncio constrangedor eu bebo uma taça de vinho. Sento na poltrona, ligo qualquer coisa na televisão e bebo. Ele sempre vai pro quarto dormir. Nunca foi um animal noturno.

      Mas hoje não. Hoje ele para no meio da sala, olha pra mim e pergunta se eu não quero abrir uma garrafa nova, para bebermos juntos.

      Digo que tudo bem e pergunto qual ele prefere. Qualquer um, escolhe você. Ah não, você sabe que eu odeio escolher vinho. Ele revira os olhos e decide: aquele que minha mãe me deu de presente.

      Abrimos o vinho, bebemos sentados na poltrona, as mãos dele no meu colo. Arrisco olhar para ele. Ele me olha de volta, fazendo aquela cara triste, como se procurasse pedaços perdidos dentro de mim. Então eu dou a deixa.

“O que você tá pensando?”

“Nada”

“Você tá com aquela cara de que quer dizer alguma coisa mas não sabe como”

“Por que você sempre acha que eu não tô te dizendo alguma coisa?”

“Por causa dessa cara que você faz.”

      Ele suspira, cansado. Peço mais uma vez que ele diga o que está pensando. Ele tira a mão do meu colo e passa no meu cabelo.

“As vezes eu sinto que você não está aqui. Que uma parte de você foi embora. Não sei exatamente quando, mas foi.”

      Eu não respondo. As vezes é como se algo tivesse morrido dentro de mim algum tempo atrás, algo que ele tenta desesperadamente trazer de volta. Algo que, quando foi, levou um pedaço dele também.

      Ele suspira de novo.

“Me desculpa. Ver Roberto e Joana sempre me deixa assim. Eles tem esse jeito de destino que me incomoda”

      Eu dou uma risada e percebo que o relógio marca 2h. Me levanto da poltrona e peço que ele me siga até o quarto. Digo que nada de bom sai de conversas depois das duas da manhã. Ele sorri com a referência, porque só ele entenderia, e me acompanha.

      Na porta do quarto nos abraçamos. Ele sussurra um eu te amo no meu ouvido. sussurro de volta. Roubo um beijo dele e peço que mesmo quando eu for, que ele não me deixe ir. Mesmo quando eu for, fica. Sim, eu fico. Eu sempre fico. É, eu sei. Você fica porque você quer ficar e eu também. Você sempre fica e eu também.

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